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29 abril 2011

Em se plantando, tudo dá

Flores em um canteiro de Madri

Comecei as férias visitando uma exposição muito bonita sobre a arte na mecânica do movimento. Lá, vi lindíssimas caixas de música, grandes e pequenas, novas e antigas. Comecei a semana querendo uma sublime, feita de marchetaria, com acabamento impecável e som divino, de preferência com minha sinfonia preferida, mesmo que com menos notas, mas suficientes para tornar a melodia reconhecível.

Então, descobri que meu querer custa caríssimo, ainda que valha cada centavo. Presente perfeito de casamento para o príncipe que se casa amanhã (e não é que príncipes existem?!). Fiquei sabendo também que teria de buscá-lo – o querer, não o príncipe – em outro continente, porque, de tão valioso, ainda não chegou a terras tupiniquins, nem aos vizinhos das terras tupiniquins, menos ainda aos descobridores destes solo, ó pátria amada, Brasil.

Guardei o querer como sonho revestido de intenção, como um bombom delicioso, embrulhado em papel bonito, para ser demoradamente degustado mais tarde, e continuei a semana aproveitando o tempo, a liberdade, o descanso, o corpo espalhado em desfrute de um cotidiano sem pressão, sem imposições, sem trânsito, com companhias escolhidas a dedo, em dias comandados por mim, nos quais o relógio permanece calado com um esparadrapo enorme limitando-lhe os movimentos.

Saí pela cidade para aproveitá-la como turista, não como trabalhadora; como cidadã, não como um número que compõe uma população esgotada. E deslumbrei-me com o que há muito tempo não via, com algo de que sentia imensa falta.

Hoje fui ao meu lugar predileto da cidade. O objetivo era apresentá-lo ao meu maravilhoso tio, à minha mãe e a um hóspede português extremamente sensível que tem tornado meus dias juvenis muito interessantes: o Sr. Ernesto, de 79 anos recém-completos, um senhor de infância sofrida, pobre, que aprendeu a fazer o caldo para a mãe aos cinco anos de idade, para que ela tivesse o que comer quando voltasse da lida, um menino que ia para a plantação de arroz aos seis, lidando com a terra, com o sofrimento, com os infinitos tapas que o mundo lhe dava a cada impossibilidade constatada. Um homem que aprendeu a ler sozinho e que chorou ao ganhar ontem um livro de presente de aniversário.

O Sr. Ernesto se deslumbra com a cultura como uma criança que aprende a juntar blocos coloridos. Para ele, não é tarde para aprender, sorver, admirar. Hoje, ao assistirmos ao filme sobre a origem da língua portuguesa no museu que inspira minha profissão, olhei para o semblante dele ao meu lado, levemente iluminado pela claridade da projeção, e contive uma lágrima feliz. Um português descobrindo o Brasil! Finalmente pude retribuir a Portugal o que Portugal me proporcionou: minha origem, minha língua, minha família, a melhor comida do mundo, meus olhos claros, meu poeta preferido, meu país. Cada descoberta que ele fazia era um sorriso que eu sentia por dentro, ao som da minha caixinha de música dos sonhos. Essa deveria ser a definição de intercâmbio.

E no meio de tanta cultura, nós nos divertimos. Não nos importamos de almoçar numa espelunca; de nos molharmos na chuva inoportuna, de vislumbramos a espera na estação de trem mais bonita daqui, de atravessarmos a rua para descobrir mais, porque ansiar nunca faz mal.

E conhecemos quadros, fotografias, pessoas. Apresentei-lhe Tarsila e Portinari, e ele gentilmente mostrou-me Paula Rego, conterrânea talentosa da qual eu nunca ouvira falar. Quando oferecemos o que sabemos, recebemos em troca o que ignoramos.

Até que, a certa altura da tarde molhada, o entusiasmo virou música, e ele e meu tio começaram a cantar Amália Rodrigues no saguão da Pinacoteca. Não importavam os outros, os olhares, a estranheza que a felicidade causa na gente que não a compreende. As palavras, a melodia, tudo o que o momento evocava era Pachelbel tocando bem alto no mundo inteiro partindo de mim.

Eles foram cantando pelas escadas, sob um guarda-chuva preto de bolinhas brancas, arrancando risos dos guardas, da chuva, da moça da bilheteria, das fotografias que dormiam nos panfletos da exposição. E continuaram rindo, alegres, tocando a concertina e dançando o sol e dó até chegarmos à catraca da estação de metrô, onde divertiram outros desconhecidos, apresentando-lhes o bom humor como cartão de visita.

Terminei o dia com uma plenitude que há muito não sentia. O Sr. Ernesto chorou de rir, disse diversas vezes que a viagem já estava paga só por momentos como aqueles. Meu tio transbordava satisfação como há muito não fazia. Voltou para casa sorrindo. Minha mãe teve a oportunidade de constatar – e espero que o tenha feito – que ser feliz é simples, basta substituir cada reclamação por um pouco de humor, dando passagem ao inusitado, reconhecendo que a ignorância existe justamente para dar espaço ao aprendizado. Ter consciência dela é a porta de entrada para usufruir a vida e saber cada vez mais que sabemos tão pouco.

Os grandes compositores de sinfonias certamente deviam se inspirar em sensações como essas, porque Pachelbel é uma trilha sonora perfeita para momentos assim, quando nos sentimos inteiros, completos, plenos, satisfeitos. É a felicidade, da qual eu sentia falta.

Posso ter começado a semana querendo uma obra de arte finíssima e cara, mas terminei o dia de hoje certa não só de ter recebido além do meu querer, mas também de que o Sr. Ernesto merece a caixa de músicas dos meus sonhos muito mais do que eu, com as três partes do Canon, para ouvir com o coração, como agradecimento por me ensinar a viver como se deve: plantando, por onde passarmos, algum ensinamento que recebemos, sem esperar nada em troca, mas acolhendo humildemente o até então desconhecido que nos for porventura ofertado, sem egoísmo, cientes de que as sementes que deixamos podem transformar a paisagem onde germinarem.

18 setembro 2009

Diga o que tem a dizer

O olhar inquisidor de Netuno, esculpido por Bartolomeo Ammanatti - Florença - Itália


“It’s better to say too much
Than never to say what you need to say again
even if your hands are shaking
and your faith is broken
even if the eyes are closing
do it with a heart wide open
Say what you need to say”


Um dos mestres da fotografia do século passado, o francês Henri Cartier-Bresson, ficou mundialmente famoso também por seu conceito de “momento decisivo”. Para ele, uma boa foto tem o momento certo de ser tirada. Mais que isso é outra imagem. Menos que isso, outra outra. As sucessões, os milésimos de segundo, tudo encerra uma unidade e uma originalidade tamanhas que só a memória é capaz de fotografar se o momento decisivo for perdido. Mas, com o tempo, ironicamente, também ela se perde.

Quantos momentos decisivos são negligenciados pela certeza ignorante de que amanhã existe, de que o hoje se repete, de que haverá outra oportunidade... Um depois cômodo que vai embaçando o cotidiano e deixando tudo entediantemente igual, na sombra do que poderia ter sido.

Os olhos deixaram de enxergar os momentos decisivos por causa de corações anestesiados demais por estarem há muito tempo espremidos em caixas de fósforos. As palavras deixaram de ser pronunciadas nos momentos decisivos por causa de medos terríveis demais por estarem constantemente assombrados por incertezas, desaprovações imaginárias, receios injustificados, besteiras do tipo.

Estamos perdendo os momentos decisivos de dizermos o que temos de dizer, de tornar explícito o que sentimos, de não nos importarmos com o rubor das bochechas, com o tremer das mãos, com a palpitação do peito, a efervescência dos nervos, o pavor do óbvio.

Sem perceber, acorrentamo-nos a listas de desejos que só se realizarão em um futuro que nunca chega. Acostumamo-nos a nos contentar apenas com o que pode vir a ser, de tão frustrados que estamos com nossa própria incapacidade de recriação. Escolhemos a covardia, onde estacionamos nossas vontades.

Temos de ressuscitar os momentos decisivos de Cartier-Bresson, importando-nos com o agora antes de virar depois e de tornar-se o próximo. Hoje, temos de dizer o que é preciso dizer, agir costurando a integridade, a ética e a atitude para vestir sinceridade todos os dias, porque ela combina inclusive com guarda-chuva.

É verdade que nem todo mundo está preparado para ouvir o que temos a dizer, ver explicitamente o que só por dentro sentimos, entender nossas diáfanas motivações, nossas ondas, flutuações, como nos dissolvemos em nós mesmos.

Porém, se todos começarmos a reinventar os momentos decisivos, tornando marcantes os comuns, importantes os banais, significativos os tediosos, além de fotografias muito mais bonitas resgataremos o presente, o amor, o respeito, a paz. Resgataremos nós mesmos.



Para celebrar o ano da França no Brasil, o SESC Pinheiros, em São Paulo, realiza a mostra Henri Cartier Bresson: o fotógrafo, de 17/09 a 20/12/2009, com entrada franca. Organizada por Eder Chiodetto, a mostra é composta por 133 fotografias pertencentes ao acervo da Agência Magnum, fundada por Cartier-Bresson em 1947, da qual fez parte o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado. Em 45 anos de carreira, Cartier-Bresson criou um estilo único e tornou-se pai do fotojornalismo contemporâneo.