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20 julho 2014

Have you ever seen the rain?

Na casa ao lado, uma festa. Música boa desta vez, daquelas que sopram vontade de dançar com o vento. Algumas risadas. Taças tilintando. Fotos. O prazer. Ainda que momentâneo. I wanna know, have you ever seen the rain? Coming down on a sunny day? Em momentos assim, não há dúvidas umedecendo a alma nem mágoas que precisem ser afogadas.

Outro vizinho franze a testa à janela, quando se aproxima dela para averiguar a origem da alegria. Yesterday, and days before, sun is cold and rain is hard, I know, been that way for all my time. Mais do que o barulho, ela incomoda, sobretudo se manifestada por outrem da mesma espécie.

Era uma festa de casamento simples -- a festa, porque casamento nunca é simples. Nem no começo, nem no meio, nem no fim. E sempre tem fim, ainda que tenha sido infinito. When it’s over, so they say, it will rain a sunny day, I know, shining down like water.

O vestido daquela noiva farfalhava, acompanhando seu coração. O noivo cantava alto junto aos amigos and forever, on it goes, through the circle, fast and slow, I know, it can’t stop, I wonder, externando empolgação. Aqueles olhos tinham brilho. Ou podia ser o luar.

A vizinhança penetra, amargando a solidão dos sábados à noite, trovoava descompasso. O eco que a música fazia naquela rua tão oca retinha-lhe o sonho. Trancada em si mesma, só ouvia o incômodo, que desaguava em uma chuva de impropérios: ah, vá, tem graça celebrar uma união! Se eu fosse eles, morava junto antes. Eles se conheceram pela internet, não vai dar certo. Por enquanto é só na alegria, quero ver é na tristeza. Ô precipitação. Someone told me long ago there’s a calm before the storm, I know, it’s been coming for some time.

Tudo porque naquela casa era a felicidade que chovia. O importante, ali, naquela noite, era o amor que dançava.

Psiquê reanimada pelo beijo do Amor, escultura de Antonio Canova/Museu do Louvre.


12 junho 2013

Um pouco de muito amor

A mulher de avental assistia à novela acariciando o pano de prato jogado no ombro, sem se incomodar com o ronco do marido vindo do quarto ali perto. O amor da televisão anestesiava-lhe os sentidos.

No apartamento vizinho, o rapaz de bermuda larga tomava coragem com um gole de água para se declarar à moça que sorria tímido quando para ela ele olhava.

Mas o que escapava dos lábios da moça do sorriso tímido era a saudade de um amor que não volta. Sua irmã, esperançosa, ainda ia. Caminhava para encontrar o homem grisalho do paletó cinza-chumbo, sério demais para a gravata contemporânea, que não combinava com o comportamento antiquado. Enquanto a aguardava, ele olhava para o relógio, sempre tão inconveniente.

Na casa dele, a esposa que gostava de salto alto escolhia no catálogo a próxima viagem de aniversário de casamento. O amor sempre viaja melhor com a tolerância.

A filha adolescente com brincos de tecido vermelho falava derretido ao telefone com o namorado, um moço que todos os dias ficava na fila do pão, esperando crocância, e que todos os dias pagava com dinheiro trocado para a mulher do caixa, entretida com as manchetes da revista de fofocas.

O ator mudou de namorada de novo. A modelo teve um filho com outro cara. A esposa do jogador de futebol ainda chora de desilusão. O neto do ministro casou-se no exterior. O cantor da voz veludosa anunciou o divórcio.

O dono da banca de jornal que veste casaco jeans informa as horas ao rapaz de boné. Sempre elas. As horas. E as moças. O rapaz olha na lista do celular e digita com habilidade um recado genérico: “oi, linda, vamos sair hoje?”. Em cinco horas, dá para sair com duas. Com sorte, três. A matemática do amor tende sempre a multiplicar.

E há aquela mulher que canta afinado sempre caindo na cantada errada. E o taxista aprisionado à viuvez de uma fotografia, cuja filha agora se distrai escolhendo as lembrancinhas do casamento. E o moço triste dos tênis novos, que passa meia hora conversando com o túmulo do grande amor da vida dele, onde deixa as flores preferidas dela. O amor tarda a morrer. E às vezes não renasce.

A enfermeira do batom cor-de-rosa, que cuidou do amor da vida do moço triste, entre um turno e outro cuida de dois, sem nunca auscultar por qual deles seu coração bate mais. A indecisão dela sempre se lembra de uma das amigas, que dança com o vento uma música espanhola do iPod enquanto o jantar para um esquenta no micro-ondas. Porque o homem charmoso que dançava com ela mudou-se para Brasília com um ritmo mais loiro.

Há as moças solitárias em carros próprios que desviam dos homens solitários em carros tão próprios quanto. E o rapaz da camisa xadrez, que pensa não valer a pena dizer ao amigo que o amor que tem por ele é maior que a amizade que pensa que eles têm. E o senhor do bigode curvado que jura pra si nunca mais amar ninguém, já de olho na vizinha sacudida, para quem o amor é simples.

Há também o homem do futuro, para quem um dia tudo acontece. Um dia que nunca chega, como o amor arrebatador da novela a que a mulher de avental assiste, acariciando o pano de prato.

Uns esperam. Outros vivem.
Uns experimentam. Outros traem.
Todos se machucam.
E amam.

Vertumne e Pomone, escultura de 1905, atualmente no Museu Rodin, em Paris, feita por Camille Claudel, uma talentosa francesa que se envolveu com Rodin. Mas para ele, Camille era uma aventura. Acabou preferindo a namorada a ela. O rompimento deles colaborou para Camille enlouquecer, até ser internada em uma instituição psiquiátrica, onde morreu aos 79 anos de idade.
Uma história de amor triste e real. 

11 dezembro 2011

Casal

Um casal, em Madri

Faria tudo de novo. Amaria intensamente, como se amanhã não houvesse. Choraria todas as dúvidas de sempre e perderia noites maldormidas pela ansiedade incomodando debaixo do colchão. Mas olharia mais nos olhos – eles sempre falam mais alto do que qualquer enxurrada linguística.

Mesmo sabendo do fim, faria tudo de novo. Riria os momentos divertidos juntos, dedicaria os melhores pensamentos, torceria para dar certo, ainda que caminhasse para dar errado. Sempre mergulhava assim nas coisas; era a forma de enfrentar o medo de não ter oportunidades suficientes para viver tudo. Coragem demais é medo do avesso. Cautela demais é coragem contida.

Teria as mesmas brigas: são elas que frequentemente desnudam sentimentos encortinados, comentários não ditos, sinceridades refreadas pelo receio de magoar. Amor é tanto receio! De magoar, de desiludir, de decepcionar, de mostrar os defeitos, a natureza, o instinto. Sempre achava que, num relacionamento amoroso, os envolvidos despendiam mais energia tentando contornar os receios do que se dedicando mais objetivamente ao outro. Como tinha de ser. Mas nunca era.

Faria as mesmas viagens, as mesmas descobertas. Tiraria as mesmas fotos, as mesmas conclusões, talvez mais panorâmicas para evitar tanto equívoco. Daria os mesmos créditos exacerbados ao deslumbre. Mas abriria mão de todos os minutos que não havia reservado ao relacionamento. Poderia ser mais. Poderia ser ainda melhor. Mesmo sentindo a dor do fim, queria ter ido mais fundo. Teria valido a pena. (Fique tranquilo: nesses tempos modernos, ninguém mais morre de amor. Apenas sobrevive. E é isso que dói.)

Embora tivesse aberto o coração, tê-lo-ia escancarado até as portas baterem violentas na parede, com aquela ventania toda que vasculhava os poros. E continuaria absorvendo cada recusa como tragédia e cada consentimento como prêmio. Manteria as mãos dadas com o intenso. Era assim.

Faria tudo de novo. Amaria intensamente, como se amanhã não houvesse. Porque o amanhã que conhecia era difícil demais de aceitar. Não daria o braço a torcer à conformação. Isso não combina com amor, desses de verdade. Não sufocaria os sentimentos assim, como quem apaga uma chama com a saliva.

Ainda tinha muito o que dizer.



"Desate o nó que te prendeu
A uma pessoa que nunca te mereceu"
Ando só - Engenheiros do Hawaii

03 setembro 2010

Intervalo

"Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte nos separe."


Cansamos os dois.

Um do outro.

Seu jeito infinito de pensar no sem-fim emudeceu minha concisão. Minha forma apressada de antecipação amarrou sua liberdade de passear em probabilidades. E ficamos ambos aprisionados no frio que habita o estômago e na aridez que seca as palavras. Falamos apenas silêncio, tão imenso ele, que abraça um milhão de interpretações. Perdemo-nos ainda mais.

Um do outro.

De você, ficam sentimentos que o coração quer guardar, mas que a razão estrangula, como se ficasse infecunda e raivosa de repente. De mim, ficam a impaciência, a precipitação, o presságio de um futuro que desconheço. Ambos fomos acuados pelo medo. De amar. Um, mais; outro, demais. Ficamos ausentes na própria existência.

Um do outro.

Descansamos os dois.

Cabo da Roca, Portugal

Para Desirée, pela penúltima frase, que semeou o texto.

16 setembro 2008

O amor nos tempos verbais

Aparecida do Norte - SP


“Pensava nele sem querer, e quanto mais pensava nele, mais raiva lhe dava,
e quanto mais raiva lhe dava, mais pensava nele,
até que a coisa ficou tão insuportável que lhe afogou a razão.”

Gabriel García Márquez, O amor nos tempos do cólera.
29. ed. Rio de Janeiro: Record, 2007, p. 351.


Nós, que nos amávamos tanto, deixamo-nos acabar como a garoa de ontem, que caiu de repente, invisível. Porque não nos enxergamos mais. Porque transcrevemos o amor demais em cartas hoje encalacradas em alguma gaveta por aí. Porque desgastamos o tapete da sala com passos de ansiedade, de espera, de desconfiança. Sobraram os fiapos.

Se nos amávamos tanto, deveríamos buscar a origem disso em vez de esforçarmo-nos pelo fim, inspirados pelo cinema que adorávamos freqüentar juntos, onde todo começo é medíocre, onde todo final é grandioso.

Agora, sentindo o frio que voltou sem aviso, o vazio que cresceu sem sentido, o arrepio que percorre a espinha, assombra-me a certeza de amarmos tanto, devora-me a ousadia de teimarmos tanto, devassa-me o orgulho de corrermos tanto, desesperados, para lados idiotamente opostos, permitindo que a mágoa nos habite desse jeito covarde e pífio, como se fracos fôssemos.

Porque nós, que nos amávamos tanto, escurecemos sem mais, tornando tudo noite, breu, seu, meu. Nossos egos inflados ultrapassaram os contornos um do outro, e invadimo-nos numa guerra de subjuntivos. Quando as hipóteses tomam conta, deixamos de ser reais.

Nós, meu amor, justo nós, que nos amávamos tanto, perdemos um ao outro junto com a razão, num labirinto próprio, tão vasto e sinuoso, que nos fez desabar de raiva em recorrente ressurreição, num chão empapado de mesmice.

Pensando nisso — e eu não paro de pensar —, amanhã, futuro do presente, vou comprar outro tapete para direcionarmos nossos passos à mesma direção, porque temos de amar no indicativo e escolher os mesmos verbos. Portanto, sejamos cúmplices, não mais imperativos.

Afinal, nós nos amamos tanto... Isso tem de bastar.

17 julho 2008

Até que a morte nos separe

Detalhe do chão da Praça da Língua, no Museu da Língua Portuguesa, SP


Todos os dias eles saem para andar. É bonito ver o amor que ele tem por ela, pegando-a pela mão e acompanhando-a na caminhada. É triste ver a falta de amor que ela tem por si mesma, deixando-se levar sem vontade, colocando um pé à frente do outro em passos de obrigação.

Não é só o tênis dela que não combina com a disposição dele; o ritmo de um destoa do do outro: ele quer ir, ela daria tudo para ficar; ele vê esperança, ela quer voltar para a cama; ele levanta os braços buscando exercício, ela boceja enfado; ele bendiz o novo dia; ela amaldiçoa o médico que deu aquela ordem besta, porque ele não precisa e quer, ela não quer e precisa.

Não dá para saber qual a doença que ela tem, o que ela pensa, por que a falta de ânimo. Não dá para saber o quanto ele quer que ela se cure, o que ele sente, a origem da persistência em levá-la adiante. Dá para ver de onde vem a paciência dele e a condescendência dela, e imaginar que ele a carregaria no colo se isso não a prejudicasse e que ela morreria por ele, se isso não o entristecesse.

Tem dias em que o sol atrapalha; ela não usa óculos escuros. Tem dias em que o frio incomoda, ele tem de emprestar-lhe a jaqueta. Tem dias em que o vento despenteia, quando ele carinhosamente ajeita uma mecha atrás da orelha dela. E tem dias em que chove, e ele a guarda sob o guarda-chuva que carrega.

Ora andam de um lado da rua, ora andam do outro. Vezes há em que não voltam, mudam o trajeto. Outras, não chegam à metade; a teimosia dela os faz voltar para o começo. Ele sempre bem-disposto; ela já debilitada.

Raramente conversam, pois a ela parece penoso andar e falar; ele prefere não ser inconveniente proferindo otimismos que ela não enxerga. É a claridade da manhã... ou a falta dos tais óculos escuros.

Ela anda lentamente olhando para baixo, acompanhando a palidez da pele. Ele olha para frente, sorrindo moreno e puxando-a delicadamente.

As mãos continuam dadas. E é isso o que importa para eles.

22 junho 2008

Fome


O corpo esticado sobre a cama forrada de lençóis lisos, as mãos enlaçadas atrás da nuca, evidenciando os bíceps, mostravam que era todo curvas, em temperatura ideal para o tato.

Permanecia com as pálpebras ligeiramente cerradas, feito milharal em época de colheita, embora não deixasse os pensamentos serem ceifados por observação alheia. Escondia ali um par de castanhas.

Sorria com o canto dos lábios finos, numa educação contida demais para um momento sem ponteiros. Ofereceu um pouco de chá branco, tal qual o lençol. Tinha gosto de maçã. Um pouco verde, talvez. Irrelevante. A embriaguez era mesmo de vinho.

Apesar da miopia, proferia palavras nítidas, que emendava num português quase perfeito envolto num timbre de pêssego. O humor era doce; o toque, sussurrado como quem acaricia uma onda sem molhar as mãos; o desejo, exalado por poros contemplativos, fincados na degustação do agora.

E não importavam os olhos que o admirassem, fossem anis, de quiuí ou de chocolate. E não importava o perfume, se de amêndoa, adocicado ou cítrico. Quer fosse um aperitivo, uma entrada, uma sobremesa ou um banquete, pedia era para ser devorado. Só assim sentir-se-ia satisfeito.

Nascera para a tentação, porque abria qualquer apetite.

04 março 2008

Doença crônica

Paripueira - Maceió, AL


O gosto de vinho ainda permanecia na boca pasma. O resto de amor continuava ofegante, apertando o peito. O gosto e o resto misturavam-se em sentimentos confusos, e a confusão tornava o gosto ainda mais ácido, e o resto, mais enorme.

Ele queria ter dito o que pensava naquele instante de analfabetismo, mas tudo o que conseguiu dizer foi silêncio. Ela queria ter sido tomada por certa compreensão gigantesca, mas tudo o que conseguiu compreender foi bobagem.

Embora trocassem olhares de pena recíproca, tinham mesmo era desejo de abismo. Em horas assim, sabiam que só a escuridão tem um abraço reconfortante, capaz de apagar todos aqueles cacos de indiferença que cortavam os passos. Passos que poderiam ter ficado para tentar reconciliação, mas que preferiram ir embora enroscados em solidão.

O gosto, o resto, os cacos, os passos. E tudo o mais pingava, numa homeopatia besta.

Amanhã estariam curados.


08 dezembro 2007

Linguagem

Para Marcelo, pela sugestão do tema e pelo desafio que ele é.

Salvador - Bahia

"O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.

O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.

O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar."


Carlos Drummond de Andrade, "O mundo é grande".


O mundo é grande. O mar é grande. O amor é grande. E tudo cabe no breve espaço de beijar.

No breve espaço de beijar cabe o universo. Um universo de sensações, um universo de expectativas, um universo de desejo que vai e vem, que percorre o corpo várias vezes, provocando ondas de calor como se todos os segundos fossem verão.

Mas, mesmo sendo universo, no breve espaço de beijar só cabem dois: dois pares de lábios, dois pares de olhos fechados, duas línguas, dois corações, duas pessoas, dois jeitos, duas improvisações.

No breve espaço de beijar cabe mesmo o mar. Um mar de água na boca. Vontade de mais, de sempre, de grude, de amasso, de sexo.

No breve espaço de beijar cabe muita volúpia, muito movimento, toque e tesão. Cabe uma aquarela completa que dança no pensamento vazio enquanto o corpo se enche de... mundo.

No breve espaço de beijar cabe troca. De saliva, de textura, de sentimento, de um mar de silêncio, apesar da trilha sonora que toca na imaginação, porque um beijo pára tudo ao redor só para ser apoteose, mesmo quando considerado mera alegoria.

No breve espaço de beijar cabe o que a gente ainda não sabe. Não sabe se é amor, se é paixão, química, tentação ou só impulso. Cabe o indefinível, porque beijar é mais importante do que qualquer tentativa de dicionarização.

No breve espaço de beijar cabe estréia. O primeiro, o segundo, o terceiro, o milésimo. Todos premières cheias de glamour, porque as variáveis são muitas e as combinações, inúmeras: variam as bocas, os lábios, os amantes, os dias, os cenários, os motivos — um beijo nunca é igual ao outro.

O breve espaço de beijar é tão enorme que nele também cabe paradoxo: brevidade e permanência, elegância e desalinho, calma e voracidade, fome e satisfação. Congela a memória mas faz ferver o sangue. Em um beijo cabe um mundo de contrariedades, de opostos que se atraem, de algo em comum.

O beijo é intenção declarada, ponte para o outro, uma invasão consentida mesmo quando roubado, apetite incontido, jeito ousado de mostrar com a boca o que os olhos querem e não alcançam. É sei lá, deixa para lá, o lá de dentro e o lá de fora num diálogo mudo que diz tudo aqui e agora.

Beijar desequilibra, faz perder o rumo, a cabeça, a razão, mas não a oportunidade. É mesmo um espaço infinito ainda que acabe rápido, deixando a respiração ofegante e o corpo todo falante, já que a boca está ocupada demais para pronunciar sílaba. Um beijo é língua comum embora deixe a gente sem palavras. Beijo é linguagem. Desvia todos os sentidos para o paladar. É gosto que não se discute ao sabor de cada par.

Por isso que o beijo contém o mar, o céu e o que mais for possível imaginar. Porque qualquer beijo é um gigante mostrando horizontes inteiros para a gente desvendar.

O mundo é grande. O mar é grande. O amor é grande. E tudo, absolutamente tudo, cabe no breve espaço de beijar.

24 novembro 2007

Correspondências


Corresponder, no mundo de hoje, é, sem dúvida, uma arte, pois, segundo algumas acepções do Houaiss, significa "estabelecer ligação com (alguém) por meio de carta", "apresentar relação mútua", "responder de maneira semelhante", "retribuir".

É uma arte, primeiro porque poucos hoje em dia estão aptos a escrever cartas como se deve, com bom português e redação cuja leitura dá vontade de devorar. Segundo, porque essa era pós-industrial se mostra cada vez mais despersonalizada e individualista, e individualismo não combina com retribuição.

Assim, nada corresponde às expectativas. A mesa que arranjam para você no restaurante nunca é a que você escolheria, o amor da sua vida geralmente ou não sabe que é o amor da sua vida ou, o que é pior, mesmo sabendo, não corresponde. A empresa para a qual você trabalha não valoriza você, por vezes te explora e, novamente o que é pior, finge que você não existe e que não precisa de você. O pãozinho da padaria não vem torradinho o suficiente ou vem branco demais. A marca que você procura no supermercado não tem. Param de fabricar sua bolacha predileta, o batom que você encomendou por catálogo vem numa cor diferente, a conta do celular aumenta de um jeito que te pega de surpresa, as fotos que mandou revelar não vêm no papel fosco que você pediu, a empregada esquece de limpar o beiral da janela, essas coisas. Corresponder é mesmo difícil.

Houve uma época em que eu me correspondia muito com as pessoas, na primeira acepção. Escrevia cartas gigantescas com essa minha linguagem peculiar, sem rascunho, de modo mais personalizado que eu. Como diz a reportagem da revista, escrever cartas aos outros, para mim, "tem poderes especiais", porque uma carta "pode ser mais íntima e tocante que uma conversa. Pode ser mais pessoal que uma ligação. É um presente".

Embora, quando presenteamos alguém, não exijamos retribuição, no caso de qualquer tipo de correspondência ela é necessária, porque corresponder não é verbo unilateral. Então, fui parando de escrever cartas mediante a escassez das respostas. A concorrência com mensagens eletrônicas e linguagem esburacada foi desleal. Assim, hoje, só escrevo uma carta em ocasiões muito especiais. E, se puder, não uso o correio, porque ele estraga meu lacre de cera, outro indício de que nasci na época errada.

Assim começou, não só para mim, mas para todo mundo (e todo o mundo)*, a era da descorrespondência, nome que dei ao que chamam de era pós-industrial, que, como disse aí em cima, é tão despersonalizada que nem nome próprio tem. E, pela terceira vez, o pior: começou a contaminação mundial com a idéia de que ninguém precisa de ninguém, de que as pessoas têm de parar de ser tão exigentes e querer reciprocidade, aprendendo de uma vez por todas a lidar com as frustrações — isso faz parte da vida, meu filho. Cá para nós, só faz porque as pessoas se acostumam.

Esse sentimento global de descorrespondência assola de um jeito avassalador. Gera carência, tristeza, um punhado de infelicidade e muita coisa sem resposta (perdoe-me o jogo de palavras). Então, quando um iluminado qualquer decide mandar uma carta bonita e bem escrita, sincera e especial, o destinatário, em vez de ficar feliz, se assusta. Quando um outro iluminado resolve dizer o que vai no coração, sincera e especialmente, o interlocutor, em vez de sentir-se lisonjeado, fica com medo. Quando um terceiro iluminado resolve enfrentar tudo de peito aberto, com comportamento sincero e especial, o mundo, em vez de acolhê-lo, o repele. Quando o quarto iluminado decide dedicar-se de corpo e alma a um trabalho bem feito, a empresa, em vez de recompensá-lo, o explora. E tudo fica ao contrário de um jeito confuso.

De minha parte, ainda tenho papéis de carta e caligrafia legível porque acredito na correspondência em todas as acepções. Entretanto, qualquer que seja ela, se não for uma relação mútua, se não trouxer respostas de maneira semelhante, se não indicar retribuição, um dia acaba. Como tudo. Ter consciência disso é a resposta que falta.



* todo mundo = todas as pessoas (aqui, "todo" é pronome indefinido); todo o mundo = o mundo inteiro (aqui, "todo" é adjetivo). Como adjetivo, é sempre seguido de artigo definido; por isso tem semântica diferente da outra classe gramatical, o pronome. Usar um pelo outro, além de demonstrar falta de domínio gramatical, leva o leitor a ler gato por lebre. Como é erro muito comum por aí, achei por bem corresponder às expectativas e esclarecer a diferença.


11 agosto 2007

Pelos seus belos olhos



O casal está jantando numa noite normal. Pouco tempo de namoro, mas um silêncio que compete com a eternidade. Olhavam-se de vez em quando, mas os olhares não combinavam. As intenções eram diferentes, eles não percebiam.

De repente, palavras dela:

Você não vai falar nada? — artifício feminino para demonstrar iniciativa.
Falar o quê? — instinto masculino defensivo.
Ah, qualquer coisa. Você tá muito calado, eu tô achando esquisito demais...
É que eu tô pensando...
Em quê? — curiosidade feminina inoportuna.
Então, justamente, eu não sei... — ingenuidade masculina que o universo feminino é incapaz de ler.
Como assim? — curiosidade feminina insistentemente inoportuna.
É, eu não sei... Eu não sei em que pensar, o que querer, o que fazer... — ingenuidade masculina não-cognitiva para o cérebro feminino.
Em relação a que exatamente? — inconveniência verbalizada.
Bem... er... a tudo.

Ela pára de mastigar e olha para ele de um jeito incrédulo. Engole o pedaço de pizza para balbuciar:

Tudo? Inclusive nós? — necessidade feminina de confirmação de uma mensagem previamente compreendida.
É por isso que eu estava quieto. Você é que puxou o assunto... — justificativa masculina objetivamente insuficiente.
Lógico! Silêncio não combina com pizza nem com namoro! — indignação invadindo a razão.
Eu não sei o que eu quero... Se quero continuar no emprego que eu tenho ou tentar algo diferente, se quero viajar pelo mundo ou fincar raiz em algum lugar, se quero pintar meu quarto de azul ou deixar como está, se quero continuar namorando ou ficar sozinho, eu não sei, eu não sei! Isso está me consumindo! — sinceridade masculina com grandes chances de ser mal interpretada pela percepção feminina.

Ela desiste de comer. Aquilo era de tirar o apetite.

Sinceramente, eu nunca vi alguém não saber o que quer! Todo mundo sempre quer algo. Pode ser o mais aparentemente impossível, sei lá, escalar o Everest, visitar a Lua, transar com a Madonna, acordar com uma moto nova na garagem, enfim, qualquer coisa, porque o mundo está consumista demais... É natural querer tudo! Nunca vi ninguém querer nada! — razão totalmente tomada pela indignação.
Tá vendo agora: eu. Não é por mal, sabe, eu tô sendo bem franco com você... Eu acho que essa coisa de não saber o que eu quero é da minha natureza... — justificativa masculina objetiva e irritantemente insuficiente.
Por quê? Você nasceu assim, por acaso? — ironia feminina cruel que quer dizer "tente outra explicação, por favor".
Não, não... Eu quis dizer que eu fui ficando assim ao longo do tempo... Eu acho... — justificativa masculina indecifrável para o universo feminino.
Ai, graças aos céus ainda tem salvação! Olha aí! Você disse "eu quis dizer". Tá vendo? No fundo, no fundo você quer alguma coisa... — sutileza feminina indecifrável para o universo masculino.
Hã? Eu não sei o que você tá tentando dizer com isso, mas eu tô aqui com um problema aparentemente sem solução... — tentativa masculina de trazer o universo feminino para a realidade.
Vamos tentar racionalizar essa situação. Você disse que não sabe se quer continuar namorando ou se quer ficar sozinho. Isso a gente precisa decidir, porque, não querendo pressionar, sabe, mas me diz respeito... — mania feminina de pôr os pingos nos is quando tudo é hiato.
Claro, é verdade — mania masculina de ser sucinto ao demonstrar sentimento.

Ele descansa o garfo no prato e olha para ela. Ela respira fundo e diz:

Você gosta de mim? — resquício da Inquisição.
Gosto. Você é legal, a gente se dá bem, eu admiro seu jeito, te acho bonita, rola química e...
Pode ir parando por aí... — resquício da ditadura.
Ué, por quê? — lentidão masculina em acompanhar a complexidade do universo feminino.
Porque, quando a gente quer alguma coisa, o olhar brilha. Eu vi agorinha nos seus olhos. Você falando assim de mim e seu olhar opaco de dar dó! — ingenuidade feminina em tentar explicar o que não é cognitivo para o cérebro masculino.
É impressão sua, não é nada pessoal, é um momento de indecisão meu, entende, não tem nada a ver com olhar... — justificativa masculina óbvia para o universo masculino mas ainda insuficiente para o feminino.
Ah, tem sim, senhor! Vai por mim: olhar opaco acaba com tudo, você nem precisa abrir a boca. Eu notei, o pior é que eu notei! Você não está mais a fim de mim, está? — leve indício de democracia pelo benefício da dúvida.
Eu tô! Quer dizer, não sei se eu tô. Não, não, eu tô sim! — sinceridade masculina entendida como cinismo pelo universo feminino.
Olha aí! Aconteceu de novo! Quando você disse "eu tô", seu olhar não brilhou! Nem uma faisquinha, nada! — típica atitude feminina de interpretar as profundezas que o universo masculino não alcança.
Pára de drama! Todo esse auê porque eu não sei o que eu quero?! Daqui a pouco isso passa... — tentativa masculina de trazer o universo feminino novamente para a superfície.
Não! Os olhares conversam, sabia? E mulher saca tudo pelo olhar. Ela só não entende se não quiser. — tentativa feminina de explicar as profundezas ao universo masculino.

Ela se levanta, pega a bolsa, dá um beijo no rosto dele com uma compreensão de fim-de-mundo, um gosto assim, de pizza com nunca mais, e diz, de um jeito característico feminino de deixar tudo enervantemente subentendido:

Não saber o que quer é o de menos, qualquer mulher compreende. O problema é não olhar brilhante... — jeito feminino teimoso de dizer "venha atrás de mim assim que eu sair e me olhe com vontade".

Ela vai embora. Ele fica olhando para o prato — jeito masculino de tentar entender o que não faz sentido e deixar as oportunidades passarem.

O casal estava jantando numa noite normal. Pouco tempo de namoro, mas um silêncio que competia com a eternidade. Os olhares não combinaram. As intenções foram diferentes. E ninguém percebeu.



A imagem que ilustra este post é um papel de parede que você encontra aqui.


15 julho 2007

Absurdo

Eu deveria ser fútil e um tantinho burra, daquelas que falam besteiras sem perceber, para quem referência é tão-somente uma carta elogiosa assinada por um ex-patrão qualquer, em cima do qual já deram — ou para quem já deram, tanto faz.

E deveria ser menos dedicada às pessoas. Falta-me um tiquinho de egoísmo. E roupas mais ousadas, decotes mais profundos para evidenciar seios siliconados que eu não pretendo ter. Eu deveria me enquadrar, sabe? Aquela coisa de padrão: uma etiqueta imaginária de ÓBVIO bem legível pregada na testa. Trabalho nenhum para entender.

Não poderia mais sacar piadas de primeira ou ser espirituosa, porque contexto teria de ser apenas sinônimo de legenda curta, do contrário eu não conseguiria ler, pera lá! Deveria me contentar com qualquer tá e monossílabos do gênero em vez de buscar explicações, deixando todas as incógnitas restritas aos livros de Matemática. Nada de pensamentos complexos.

Ser mais consumista e pensar só em moda, sapatos e batons. Ser menos bem-sucedida, talvez com um pé no limite do cheque especial, carregando dívidas homéricas provenientes de juros acumulados em trezentos cartões de crédito abarrotados de gastos dispensáveis que, elementar, algum idiota se achando indispensável pagaria para mim com sorriso nos lábios e sussurros de "gostosa".

Eu não deveria ter cursado (e aproveitado) uma boa faculdade nem aprendido outra língua. Errei feio. E deveria parar de usar um vocabulário erudito conjugando verbos certo. Anômalos deveriam ser meus neurônios a ponto de assassinar o português com doses generosas de ignorância pura no agora sim e no daqui a pouco também.

O ideal seria me despir sem pudores e com mais freqüência para qualquer homem que balbuciasse clichês camuflados em sorrisos interesseiros. Junto com a roupa, eu também teria de deixar meu senso crítico. Essa coisa de questionar, analisar, ter opinião própria... chatices assim não estão com nada. Isso, falar mais gírias permeadas de uns palavrões também me faria bem.

É, eu deveria mesmo passar mais tempo em salóes de beleza, em cima de um salto quinze de ponta bem fina, que me faria andar feito uma galinha limitada que não pode afastar as patas mais que dez centímetros para não perder o equilíbrio. Mascar chiclete de boca aberta e usar bolsa minúscula de marca carérrima permeada de cristais Swarovski dentro da qual só coubesse um rímel, tudo de que preciso.

Deveria abolir de meus comportamentos conhecimentos políticos e noções de cidadania, para quem ecologia seria apenas a ciência que estuda o eco, o que, sem dúvida, provocaria umas risadinhas masculinas certamente acompanhadas de desejo.

Seria proibido saber que país fica onde, quantos continentes tem o mundo, o que é Meridiano de Greenwich e qualquer verso do Hino Nacional. Cantá-lo inteiro, então, nem pensar! Muito menos saber o significado de "plácidas", "retumbante", "penhor" e afins... caso para internação. De preferência em um spa.

E essa coisa de se virar nas emergências também deveria acabar. A solução seria ter na agenda do celular cor-de-rosa com adesivo de menina superpoderosa uma lista de telefones masculinos com quem já tivesse transado, para quem ligar com voz de desamparada e entonação infantil pedindo uma ajuda inocente no meio da rua do outro lado da cidade.

Eu teria de aprender a fazer cara de interrogação quando fosse a algum lugar cultural, perguntando mais durante as sessões de cinema o que está acontecendo no filme. Interpretá-los está definitivamente fora de cogitação.

Seria necessário doar meus livros para, no lugar, colocar vários CDs de axé e pagode, revistas femininas com conselhos picantes sobre posições sexuais ou testes de múltipla escolha cientificamente comprovados para avaliar minha auto-estima, se sei cuidar dos meus namorados, se uso o perfume certo ou se sou capaz de segurar um cara na cama.

Eu deveria ter nascido de-vez-em-quando no lugar de ter nascido constância, mulher para ficar em vez de mulher para amar. Tinha de saber tratar os homens como objetos em vez de cogitar considerar o que sentem. Nunca pedir por favor por educação, mas só quando fosse preciso fazer manha. Ser uma daquelas namoradas bem grudentinhas, que ligam quinhentas e cinqüenta vezes por dia sem assunto, só para trocar respiração, e que andam rebolando e sabem empinar a bunda como ninguém.

Teria de parar de ler manual de apetrechos eletrônicos para, com a mesma voz desamparada e infantil das situações de emergência, pedir para o namorado da vez — que, diga-se de passagem, eu teria de aprender a chifrar — se sentisse poderoso e inteligente ao decifrar os três botões de power, menu e reset.

Deveria falar hormônios e comer com os olhos, jogando meus longos cabelos para lá e para cá feito comercial de xampu em vez de tentar evidenciar sentimentos sinceros e questionar minha solidão todo santo dia. Jogar mais e transparecer menos, exceto nas blusas, porque o vulgar nunca foi tão valorizado, nós sabemos.

Quem sabe assim eu não constatasse que beiro mesmo o absurdo.





07 julho 2007

E alguém se apaixona hoje em dia? (diálogo entre textos)

I


"— Você já se apaixonou de verdade?
— Sim, já.
E você contou pra ele?
Ele nunca soube.
E por que você nunca contou?
Há coisas que não precisam ser ditas."

Em busca da felicidade. República Theca/Alemanha (2005).
Direção:
Bohdan Slama.


Ele não a via, e ela sabia. Ele nunca soube. Talvez nem o nome dela soubesse. Mas dele ela sabia cada contorno; sempre tivera boa memória. A dele é que era dispersa. Tudo nele era muito nebuloso. E ela nunca gostara de sol. Sempre silenciosa, preferia a intensidade da paixão à claridade de qualquer verão. Disso ele também não sabia. Ela nunca lhe disse.



II

"Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será."


"Não se mate",
de Carlos Drummond de Andrade.
In: Brejo das almas. São Paulo: Círculo do Livro, 1996, p. 111
.


Hoje ela olhou para ele com aquele jeito de interesse sorrindo de canto. Ele, feliz, andou suave em reciprocidade a manhã toda. Até vê-la olhando do mesmo jeito interessado e sorridente para o melhor amigo dele. Amanhã não olharia mais para ela nem imaginaria mais os beijos que dariam. Depois, ninguém mais soube dele.



III


"Amores que puderam ter sido e não foram"


Gabriel García Márquez.
In: Memórias de minhas putas tristes.
Rio de Janeiro: Record, 2005.


Enquanto ela dançava alegremente remexendo as saias com as pontas dos dedos, era observada por eles. Para cima e para baixo iam as saias e os olhos dela. Ela era mesmo cheia de amores que podiam ter sido e não foram. Só para ser admirada, nunca amada. Talvez por isso sua coreografia fosse tão boa. Dançava conforme a música.



IV

"Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem, depus minha vida em ti.
Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar, quando caí."


"Epigrama n.º 8", de Cecília Meireles. In: Viagem vaga música.

3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, p. 86.

Aparecia de vez em quando, vasculhando as gavetas com o olhar inquieto. Tinha esquecido algo, sempre esquecia. E por isso voltava. Não por ele. Liberdade demais presa num corpo bem-feito, isso ele entendia. Até o dia em que ela voou. O que esquecer ali, não havia. E, mesmo no chão, isso ele entendia.


30 junho 2007

Volúpia


À vista ou a prazo, comercial ou doméstico, balas coloridas ou somente as vermelhas, impresso ou digital, mp3 ou wma, com ou sem juros, pré ou pós-pago, novo ou reciclado, colorido ou preto-e-branco, no sol ou à sombra, cara ou coroa, original ou pirata, arrumado ou fora do lugar, nacional ou importado, ele ou ela, aquele ou aquela, vai logo ou espera aí, convite ou decepção, com ou sem gelo, garfo ou colher, prato raso ou prato fundo, massa fina ou massa grossa, com ou sem colarinho, limão ou laranjada, integral ou desnatado, casca branca ou queimadinha, chá gelado ou bem quentinho, açúcar ou adoçante, eu ou nós, dança ou reflexão, tempestade ou céu aberto, escarcéu ou mudez, drama ou comédia, maquiagem ou transparência, curto ou comprido, convívio ou saudade, cremoso ou cintilante, neutro ou com perfume, amanhã ou depois, cotidiano ou absurdo, uniforme ou desigual, par ou ímpar, alma ou matéria, verdade ou ficção, particular ou coleção, cano curto ou cano longo, movimento ou introspecção, ar ou chão, realidade ou imaginação, ponte ou abismo, já ou mais tarde, razão ou coração, hesitação ou entrega, no meu apartamento ou no seu, branco ou tinto, com ou sem couvert, tradição ou novidade, lábios ou silêncio, renda ou algodão, no escuro ou no claro, com gosto de morango ou sem sabor, convencional ou inusitado, aqui ou mais pra lá, língua ou quadril, dentro ou fora, rápido ou impulsivo, espasmo ou gemido, falta de ar ou palpitação, reto ou atalho, tudo ou nada, agora ou nunca, dois.


24 maio 2007

Eu, eu mesma e os homens



Minha prima convidou-me a comentar sobre um "manual da mulher bem-resolvida", composto por alguns parcos fundamentos que pretensiosamente tentam resumir esse complexo mundo dos relacionamentos entre homens e mulheres. Escolhi algumas das "regras" para comentar aqui com base única e exclusivamente na minha interpretação pessoal; não é uma verdade absoluta e, como tal, é passível de críticas. Não é bem o tipo de texto que gosto de escrever (até porque a redação dessas "regras" desmoralizaria qualquer tentativa de construir um texto literário), mas minha consideração me impede de declinar um convite da Glau.




Eu não acredito em manual, porque qualquer tipo de manual é feito para coisas produzidas em série, que precisam ser entendidas e corretamente usadas. Homens, para mim, não são iguais, do contrário teriam número de série — e, do jeito que o mundo anda, é o que vai acabar acontecendo com todo ser humano —, não são coisas, embora precisem ser entendidos, e, apesar de quase sempre merecerem, não têm de ser usados.

A regra número um desse manual diz que, "se ele se interessou, ele liga!". Tem cara que não liga. Pra nada. E, sinceramente, de que adianta ligar para cumprir um protocolo tido como de praxe? É algo preestabelecido pela sociedade o cara ter de ligar se estiver interessado? Se o motivo da ligação for esse, não, obrigada. Ele tem de ligar porque quer (desesperadamente?) falar comigo, porque se sente bem conversando comigo, porque sente falta de conversar comigo, porque se preocupa e quer saber se eu estou bem, porque quer me ver. Ligar puramente para dar sinal de que está interessado, cumprindo esse papel ridículo de "eu sei que preciso ligar porque é isso que ela quer que eu faça", mesmo sem estar com vontade ou coragem ou estado de espírito pra isso, é sinal de covardia. E não tem nada mais patético do que homem covarde. Então, é preferível o cara levar um século para ligar, mas demonstrar sinceridade e espontaneidade na ligação, do que ligar imediatamente, mas receoso, cauteloso, no melhor estilo "vou ligar porque é isso que ela espera de mim". Ser bem-resolvida, para mim, é nunca esperar, para não quebrar a cara depois, o que, invariavelmente, sempre acaba acontecendo.

O segundo passo aconselha o seguinte: "Passou uma semana sem ouvir notícias dele? Esquece, parte para outra! Ligar para saber se tá tudo bem nem pensar!". Nem pensar em seguir um conselho absurdo desses, isso sim! São atitudes como essa que minam a comunicação, a sinceridade, a intensidade dos sentimentos, a demonstração de sensibilidade. As pessoas começam a se enganar, porque fazem o que lhes é dito em vez daquilo que sentem vontade de fazer. Isso é falta de integridade e é exatamente o oposto de ser bem-resolvido. Estar com vontade de fazer algo e não fazê-lo porque todo mundo diz que não, porque o livro de auto-ajuda diz que não, porque a mãe e a irmã da amiga dizem que não, porque o teste do mês da revista feminina famosa diz que não é falta de personalidade, é medo de levar um fora ou de pagar mico ou de passar por ridícula convertido em desculpa. Uma mulher bem-resolvida tem certeza do que quer e, se preciso for, ela conquista, ela tenta, persevera, demonstra o que sente. As várias formas de fazê-lo é que variam, condizendo com a personalidade de cada fêmea. E, se ela tiver uma boa auto-estima, que isso é a chave para a maturidade emocional, então ela vai perceber quando o cara de fato não estiver a fim dela (porque a maioria deles não tem coragem de dizer na cara da gente, com todas as letras, que não quer nada. Puro comodismo ou medo de ser interpretado como mau caráter, de assumir o que pensa e dar a cara para bater convertido na desculpa esgarçada "eu não vou magoá-la". Ou, o que é pior, forma besta de manter a garota na agenda para poder entrar em contato num momento de carência profunda). Uma mulher bem-resolvida vai parar, naturalmente, de se fazer notar. E vai viver a vida dela do jeito que ela souber, ainda que triste e melancólica por não ter sido correspondida. Nada que doses homeopáticas de amor-próprio não curem.

O terceiro conselho imperdível: "Vocês saíram e ele não ligou mais. Foi porque você cedeu? Ou foi porque você não cedeu? Na verdade, pouco importa. Se o que ele estava a fim era de sexo e rolou, ótimo! Sexo é que nem pizza: bom-até-quando-é-ruim". Como levar a sério um manual que traz "que nem" e reduz o ato sexual à culinária fast-food?! Questões lingüísticas à parte, bem se vê que a pessoa que redigiu isso ainda não saiu do primeiro passo, o que indica que é mal resolvida e que, portanto, não tem cacife para dar conselho nenhum sobre o assunto, porque ainda está encanada com o fato de o cara ter ou não ligado. (Filha de Deus, pare de pagar a conta telefônica que seus problemas acabam. Aí, sim, você poderá mergulhar nessa crise do ninguém me liga e morrer se perguntando se ele não ligou porque não tinha linha ou se foi assassinado pelo homem da companhia telefônica ou se houve uma enchente na casa dele que levou o aparelho telefônico embora e o deixou ilhado sem qualquer tipo de comunicação.) Uma mulher bem-resolvida vai para cama com um cara independentemente de ser a primeira, a segunda ou a vigésima vez que sai com o ser. Se ela sabe o que quer, se o cara é confiável, se ela for segura e se sentir à vontade com ele, ela cede (que verbo mais infeliz!) quando bem entender, e é porque ela quer, não porque ele insistiu. A mulher é a guardiã do sexo, a decisão é sempre dela. Pode ser o deus grego que for, se ela for bem-resolvida, não vai se arrepender de atitudes que tomou. Vai enfrentá-las e aprender com os erros. Ou se vangloriar pelos acertos.

"Mas se você não cedeu, ele provavelmente não te procurou mais porque achou que ia dar muito trabalho. Ou seja, pare de se atormentar porque transou ou não! Duas lições: dar uma de difícil depois de uma certa idade já era! Ridículo é fazer tipinho! E, além do mais, você vai se arrepender de ter cedido e de não ter cedido." Esse negócio de "dar uma de difícil" é coisa de mulher que está acostumada a fazer joguinhos o tempo todo e se esconde em si mesma porque não é capaz de se entender. Tudo para ela é indireto, camuflado, como se fosse preciso se comportar em código o tempo todo. Ela até encontra homens que se sentem "desafiados" em "decifrá-la" (argh!), mas são uns fulanos que têm pouco a oferecer e se contentam com pouco. São homens cuja auto-estima já era faz tempo. Os que interpretam um "não" de uma mulher bem-resolvida como um "comportamento típico de quem está dando uma de difícil" não estao preparados para ficar com uma mulher assim. São imaturos, incompreensivos e insensíveis, além de extremamente egoístas e pretensiosos, por acharem que ela está se dando o trabalho de fazer esse teatro idiota para se valorizar. A mulher bem-resolvida se impõe naturalmente, ela não precisa de subterfúgios. Por isso ela assusta, como eles gostam de enfatizar, porque eles não sabem lidar com transparência, o que simplifica tudo. Ela não "faz tipo", não se baseia na idade para tomar ou não determinadas decisões e não se comporta de modo a querer testar o cara para ver se ele de fato quer ou não algo com ela. Mulher que age assim espera que o homem a valorize porque ela própria não o faz.

Em relação à traição, o conselho é taxativo: "Não continue com um cara que te chifrou se você não agüentar a onda de ser traída de novo. E olho vivo se ele já foi infiel com outras. A gente sempre acha que com a gente vai ser diferente... Esqueça! Nunca é!". Isso é o que eu chamo de falta de esperança no ser humano. Eu luto diariamente contra generalizações, porque entendo as pessoas como únicas e trato-as de modo personalizado porque é assim que as enxergo. Massificar os relacionamentos e seguir cartilha num assunto tão delicado como esse da traição é ser ou ingênuo ou maria-vai-com-as-outras. A mulher bem-resolvida está aberta para tentar entender os acontecimentos, compreender o parceiro e analisar as situações com parcimônia. Vai aceitar ou não ter sido traída dependendo da própria auto-estima e do amor que tiver pelo parceiro. Cada um sabe de si e só se engana se quiser. Até isso é opcional. Se ela tiver consciência de que merece sinceridade e respeito, vai se fazer respeitar e vai respeitar também. Se souber que o parceiro já foi infiel com outras, cabe a ela tentar entender os valores que o parceiro tem, se mudaram ou não, porque as pessoas podem, sim, mudar. Mas elas sempre dão indícios de que mudaram por meio de atitudes; só palavras não bastam.

Para terminar a sessão cascata, o manual de meia-tigela fecha com chave de ouro, no mais batido lugar-comum: "E atenção! A 'fila anda'! Pior do que nunca achar o homem certo é viver pra sempre com o homem errado". Essa coisa de fila é conversa para boi dormir. As mulheres falam isso para tentar se defender do "efeito falta de homem no mercado". Não existe fila coisa nenhuma, pelo menos não para a maioria delas. Elas é que mudam de fila e vão para a fila de outros homens, pegam senha e tudo, esperando chegar a vez. É machista dizer isso, sim, eu sei, mas é o que acontece. Homem certo e homem errado são valores relativos. O que é o certo para uma pode ser o errado para outra e vice-versa, do contrário todos os "errados" estariam sozinhos. Não existe isso, porque as pessoas nunca estão totalmente prontas. Os relacionamentos as lapidam, as amadurecem e as ensinam a tornarem-se o certo para a pessoa com quem estão, sem perder sua individualidade.

Para mim, é assim que tem de ser. E, para esse aprendizado, infelizmente ainda não existe manual.


07 maio 2007

Um caso de amor

Chega, pra mim tà tudo acabado. Nada vai me fazer mudar de idéia.

Sete anos, você tem noção?! Foram sete anos de cumplicidade, de companheirismo de que eu estou, sim, abrindo mão. Cansei simplesmente, apesar de sentir assim uma pontada de pena, uma tristezinha assim... apertadinha, sabe?

Eu sei, isso magoa. Mas tem hora que não dá mais. Você está careca de saber o que eu penso (ai, ai, e põe careca nisso...), eu nunca te enganei. Nunca disse que seria eterno. Ainda mais hoje em dia, quando tudo é assim tão, tão... substituível. Tem tanto vovô por aá que troca a "caranga velha de guerra" por duas ou três "máquinas" mais jovens... Por que eu não posso trocar você por outro e recomeçar do zero? Vida nova, sabe? Por que sou mulher? Pois eu posso, sim! E, convenhamos, você não é lá assim aquela "potência" pra me deixar empolgada a ponto de me fazer repensar nossa relação. AliÁs, diga-se de passagem que "potÊncia" não é a palavra mais adequada, né?, porque várias foram as vezes em que fiquei a ver navios na primeira tentativa. Na segunda você entendia a gravidade da situação e até que dava sinal de vida, mas tinha de se esforçar de um jeito que, sinceramente, tem de ter fé, viu? Pensando bem, é, eu me satisfazia com pouco.

Apesar disso, você nunca me deixou na mão, não vou negar. Sempre me levou pra tudo que foi lado, eu nem precisava pedir. Um verdadeiro cavalheiro, você sabe. Foi subserviente, resignado. Nunca se rebelou, fez greve, saiu por aí dando piti com aquelas fumacinhas de histórias em quadrinho, nervoso e sendento por vingança. Nunca foi esquentadinho, ao contrário! Uma calma irritante, uma frieza interior incapaz de esquentar sequer meus pés nos dias frios. Isso eu sempre relevei, porque não se pode ter tudo, não é verdade?

Mas tudo bem. Não quero parecer mal-agradecida, até por isso é que decidi te chamar pra conversar e falar tudo, assim, abertamente. Você foi competente, considerando-se todo o nosso histórico. Você me abrigou de uma série de intempéries, inclusive emocionais. Aturou, sem se envergonhar, a minha voz estridente cantando feito um candidato desafinado de programa de auditório, ouviu atentamente as minhas lamúrias, até presenciou momentos históricos de falta de educação... tudo impassível, numa compreensão que, eu sei, vai ser difícil de achar em outro. Você agüentou o tranco, eu admito. Nunca sumiu, porque essa coisa de sumir deixa qualquer mulher fula da vida. A gente conta com o ser e, quando vai ver, cadê? Puft, meu bem, puft! Você, não. Pelo menos isso, hein?! Da nossa cumplicidade, meu querido, eu vou sentir saudade.


Então, por que não dá mais, você me pergunta... Os relacionamentos precisam se modernizar, meu bem. Você parou no tempo. Eu sou uma mulher moderna, que precisa de uma certa estabilidade, você me entende? Não dá pra ficar balanceando tudo assim, toda hora, como quem não tem mais o que fazer! E outra: você está me levando à falência. Hoje dia, queridinho, o dinheiro fala, sim, mais alto. Não dá pra ficar te bancando assim. Você vive duro! Tenho de me desdobrar em mil, tirar forças sabe Deus de onde pra conseguir sair do lugar. Eu sou uma lady, mereço conforto, bajulação, comodidade. Não sou eu que tenho de pagar por isso! Sua obrigação, como parte atuante neste relacionamento, é prover o mínimo de conforto à sua família. Mas, que nada!

E tem mais: todos os livros de auto-ajuda do mundo — eu disse do mundo! — afirmam categoricamente que existe, sim, a tal crise dos sete anos. Foi isso. Deu o estalo, entende? Eu acordei um dia, olhei para você daquele jeito de manhã e me desencantei. Você ronca de um modo que não dá pra suportar! E no começo não era assim, você lembra? Agora?! Jesus me salve! A gente não pode encostar, dar um tranquinho um pouquinho mais agressivo pra deixar as coisas mais emocionantes, sabe?, que você já se desmancha que é de dar dó. Acabado, pra dizer o mínimo. Até a cor você perdeu, anda meio pálido pelos cantos. Anda é modo de dizer, né, porque rápido você nunca foi. Agilidade não é mesmo sua característica principal. Você é prático e tal, quebra um galho. Mas que mulher sou eu que se contenta com um quebra-galhos? Olha pra mim, criatura! Tenha piedade, não?!

Entende agora, meu amigo — ai, quando a gente chama de amigo é porque não tem mais jeito mesmo, né? Olha, pensa pelo lado positivo: se eu dissesse "fofo", seria pior... —, o motivo de eu estar te trocando por outro? O outro apareceu, é mais bonito inclusive. E eu não sou cega! Um bonitão me dando mole? Dependendo da idade, querido, a gente não pode ficar pensando muito, não! E, sabe o que foi decisivo pra mim? Diferentemente de você, ele não tem problemas com álcool. Vai ser muito melhor pra mim, compreende? Não vai haver desgaste na relação. E ele vai me proporcionar o que você não consegue, é melhor nem entrar em detalhes, não quero te magoar ainda mais...

Pra variar você não fala nada, não? Sempre quieto, resiliente. Você não se sente usado, não?! Bom, já que você não se manifesta, agora vem o pior: eu vou te depenar. Tô sendo honesta, tô falando porque detesto falsidade. O pouco que você ainda tem com você, seus parcos pertences, já era, meu bem. Eu vou ficar com t-u-d-o, tudo, ou melhor, com o que restou, que chamar de tudo é superlativo.

Sete anos de fidelidade, de cumplicidade. Você me conhece bem, foi quem mais andou comigo nesse tempo todo, então nem vem dizer que eu te enganei e tal e coisa. Como sempre, estou sendo supersincera e abrindo meu coração pra você. Eu te agradeço por tudo, pela paciência inclusive, porque eu sei que me agüentar não é fácil (apesar de eu ser leve! Isso facilitou sua vida, hein? Fala sério!). Ã, desculpe a brincadeira, isso não é hora de ter ataque de bom humor, mas, você sabe, esse meu lado sarcástico incontido é fogo!

Não fique triste, alguém vai te encontrar e te achar o máximo, como eu te achei um dia. Você pode fazer alguém feliz mesmo, er... er..., com as suas limitações. É difícil, eu sei, ouvir isso não é pra qualquer um, mas eu tô sendo legal em te alertar e sei que você é forte e vai superar. As pessoas têm de começar por algum lugar, né? Relacionamento é isso, fofo, ops, amigo. Na boa, você me entende?

É que realmente estava mais do que na hora de eu trocar de carro.



Para o meu Pálio verde, de quem vou sentir saudades agradecidas por 81 mil quilômetros sem sequer furar o pneu ou ter de chamar o seguro.


10 abril 2007

Ninguém

Salvador, BA


A Juliana anda bem sem você. Sem as palavras que você não diz, os indícios que você não dá, as gentilezas que você se recusa a fazer.

A Marina anda bem sem você. Sem o nome dela na sua agenda telefônica, sem os e-mails que você não escreve, as letras que você não contorna.

A Rita anda bem sem você. Sem a angústia que você causa, sem as flores vermelhas recendendo remorso, as jóias brilhantes carregadas de arrependimento.

A Paula anda bem sem você. Sem os perdidos que você dá, a falta de atitude que não o faz sair do lugar, a acomodação infantil que redemoinha tudo.

A Camila anda bem sem você. Sem o que você só sabe ser, as pedras que você insiste em trazer, as explicações entaladas em algum lugar sem saída.

A Simone anda bem sem você. Sem as expectativas que você espalha por aí, sem a falta de nome para as coisas que você nunca sabe definir, falta de memória cheia de nós.

Nós é o que você não sabe ser.

O mundo anda bem sem você.


21 março 2007

Água na boca — os melhores beijos que eu não dei

Um dos visitantes até então silenciosos deste blog, o Ian, convidou-me (o certo seria desafiou-me) a escrever sobre o tema. Quem não me conhece o suficiente pode ser levado a crer que as oportunidades de beijos tórridos, carinhosos, intensos, sinceros, impetuosos et cetera e tal inundam a minha vida. Mas as coisas geralmente não são o que parecem.

Foram tantos os beijos que eu não dei, as vontades sufocadas, paralisias covardes ou tímidas, minhas ou dos outros, congelando momentos enquanto oportunidades escorregavam... muitos que poderiam ter sido e não foram, quer por eu ser seletiva, por não ter uma horta em que costuma chover muito ou por ser dispensada ou ignorada antes de acontecerem naturalmente. O fato é que — vejam só o desperdício — coleciono mais beijos que não dei do que beijos que dei. Mas tenho plena consciência de que mereço realizá-los todos, porque viver também é isso.

Ainda não experimentei, por exemplo, um beijo aflito, daqueles que causam uma montanha-russa dentro da gente, com direito a nó na garganta e lágrima contida por uma despedida inevitável, um fora previsível ou algum tipo de incompreensão imóvel.

Não dei beijo aquático ou litorâneo, com o mar inteiro ali, à disposição, olhando barulhento um beijo longo e intenso numa arrebentação de desejos, maré de impetuosidade banhada por ondas intermitentes de calor, lábios se encostando ávidos, num ir-e-vir provocante de corpos totalmente fora de seus centros.

E, até agora, não sei o que é um beijo roubado, desses de repente, inesperados e imprevistos... pelos dois — o que beija e o beijado. Escuso, arriscado, ousado, que começa com um — rápido como teste de reflexo — e se desdobra em vários — empolgados como confirmação, sempre com aquele gosto de “por que demorou tanto pra tomar essa atitude?!”, paladar preso ao pensamento, porque simplesmente não dá tempo de falar...

Nunca fui beijada no tradicional três-dois-um-feliz-ano-novo, em que os casais bem-resolvidos ou bêbados do mundo inteiro celebram empolgação e trocam olhares cúmplices, independentemente da minha predisposição em tornar-me cúmplice... não só não contava com o fato de não encontrar quem me aceitasse assim, como também pela minha incompetência em ficar bêbada.

Desejo experimentar, também, um daqueles beijos de cinema, menos na posição dos amantes e mais no contexto em que acontecem. Não fui beijada depois de uma declaração de amor, porque até hoje ninguém teve coragem de se declarar. Tudo muito avulso, descartável, reciclado, medroso, como se um beijo assim fosse um pedido oficial de casamento trancafiando comportamentos.

Tenho certeza de que nunca fui beijada por alguém que me amasse de verdade, que sentisse minha falta ou mesmo um tiquinho de saudade. E se tem coisa que eu abomino é ser tratada como contabilidade.

Quanta água na boca, volúpia deixando as idéias arrepiadas e ensurdecendo a razão. E como é melancólico lembrar o que poderia ter sido e não foi, tentar contentar-se com a vontade não realizada ou esforçar-se em compreender frustrações.

É por essas e outras que, desta vez, o post vai ficar sem foto. Eu simplesmente não consigo ilustrar ausência.


08 janeiro 2007

Balada de um coração desconcertado

Para ela, todo homem era um canalha. Todos mentiam, dissimulavam, escondiam-se. Ora no medo, ora na covardia.

Para ela, todo homem era menos homem do que podia ser: não olhavam no olho dizendo com o olhar o que de fato o olho via. Passavam outra mensagem para enganar o cérebro. Deles e dela.

Para ela, todo homem tinha verdadeira paúra de ser verdadeiro. Não se sentiam à vontade nus. Que fossem tímidos, vá lá, mas assim, tão irritantemente inverídicos? Difícil de acreditar que fosse natural. Eles eram naturalmente assim, digamos, esquisitos. E, para ela, a esquisitice não parava aí: eles tinham códigos próprios, em sua maioria indecifráveis, capazes de concorrer em grau de dificuldade com quaisquer hieróglifos. Isso para não falar da caligrafia. Eram mesmo ilegíveis.

Para ela, todo homem lavava o rosto de manhã com uma porção generosa de complicação, ainda que com cheiro de hortelã. Mas eles também eram tão absurdamente objetivos que o paradoxo virava um nó gigante e para sempre indesatável, de enforcar qualquer tentativa de compreensão.

Para ela, todo homem enganava, traía, se aproveitava — das situações e dela. Corriam da fidelidade como se todos os dias fosse São Silvestre. Nisso, ela admitia, eles eram bem rápidos, assim como no raciocínio e na arte do sumiço.

Para ela, todo homem não valia nem um dos números do telefone dela, que, infelizmente, não tinha zero. Tinham incertezas flutuantes a deriva, desejos múltiplos e simultâneos por todas as mulheres do mundo, paixão por jipe na garagem, dicionário próprio, descontrole emocional impetuoso ou controle insensível e frio das próprias emoções. Todos uns malabaristas desequilibrados e mulherengos, com alergia a compromisso ou ao simples conceito de exclusividade.


Para ela, todo homem era isso: genética embutida num DNA distorcido e infeliz, numa química mal explicada que podia explodir a qualquer momento, sem manual de instruções. Sempre querendo impressionar com uma espontaneidade premeditada, mas incrivelmente perfumados num fanatismo esportivo de dar nos nervos.

Para ela, todo homem era generalização, conteúdo pouco original diluído em massa, estatisticamente comprovado como sendo de valor questionável, que não merece aplicação ou investimento. Tinha cansado de ver casos e mais casos da espécie que, mais dia, menos dia, apresentavam os sintomas. Mas quem caía doente era sempre ela. Por isso tinha desistido de antídoto. O caso era mesmo crônico.

Para ela, todo homem era uma decepção em potencial quando não um doido neurótico. Uns passivamente calados, morando no mundo aéreo e distante das idéias; outros tagarelas insistentes soltando insensatez a torto e a direito. Era tão mais fácil falarem a verdade, abrirem o jogo, os olhos, o coração; dizerem sinceramente o que sentiam, com todas as letras, sílabas, palavras, gestos, beijos e abraços. Para ela, os homens não sabiam abraçar senão o próprio egoísmo e não se esforçavam para entendê-la com o mesmo afinco com que tentavam tirar a aliança do dedo enquanto escondiam a mão no bolso.

Para ela, todo homem era um joão-vai-com-os-outros, disparando intimidades hiperbólicas em rodas bêbadas de amigos sóbrios demais para saber que ela existia.

Mas, um dia, sua teoria foi traída pela prática, e ela ouviu um olhar sincero vindo em sua direção. E viu palavras tão descomedidamente reais atingindo suas inquietações, que tremeu. De medo ou de covardia, embaraçada em seu próprio vocabulário. E sentiu-se complicar, dizendo com o olhar coisas diferentes do que a boca dizia com gosto de hortelã. Travou sua espontaneidade, engoliu a caligrafia em monossílabos ressecados de timidez, soltou disparates e refreou a sinceridade numa paralisia incrédula. Não podia mesmo ir falando tudo assim, aquele monte de sentimentos em dia de feira, porque isso passa outra mensagem para o cérebro deles, o dela sabia.

Daquele dia em diante, para ela, todo homem era apaixonantemente desafiador. Então, ela se desequilibrou de seu malabarismo defensivo e deixou-se cair. Inebriada, caiu numa particularidade, dessas de neutralizar impressões. Ficou tão desconcertada com aquela exceção que nunca mais teve conserto. E, mesmo suspirando dúvidas, respirou uma certeza absoluta: ele podia ser homem, mas, para ela, ele era único.


09 outubro 2006

Última chamada

Você deixa interrogações caírem dos bolsos
quando segue para a estação ziguezagueando sumiço.

Eu vou atrás para recolher a sombra
enquanto junto as dúvidas
remendando
conformação.

Você pára.
Eu continuo.

Você pega o trem.
Eu parto.

Em dois