Mostrando postagens com marcador amizade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador amizade. Mostrar todas as postagens

09 abril 2008

Anjos

Ilha da Crôa - AL


Para um Querubim

Espíritos independentes não estão acostumados a receber ajuda. Às vezes porque foram habituados a ser assim; às vezes porque estão sempre ilhados em suas próprias convicções, ou, ainda, porque se cansaram de se decepcionar com as pessoas. Esperar dos outros nem sempre é um costume sadio.

Mas há comportamentos que desarmam. Eles vêm envoltos em tanta espontaneidade que o ineditismo espanta, cala as desconfianças, apazigua a resistência. (Você está vendo? Há estrelas no céu!)

E essas tímidas aberturas que a vida proporciona ensinam que poder contar com alguém é ter o travesseiro preferido sempre à mão, envolvendo-se naquela sensação morna de aconchego para respirar quieto um monte de tranqüilidade. É sentir-se em casa mesmo estando no Chile, no Amazonas ou perdido em alguma rua estranha de cidades grandes demais. É uma noite de sono profundo sem interrupções em um lençol limpinho e todo branco.

São promessas que sempre serão cumpridas, gritos que nunca serão dados, escolhas que não precisarão ser feitas. (Alívio.) É ficar à vontade para errar quantas vezes forem necessárias, sem culpa ou temor de repreensão, porque saber que há alguém com quem contar é ver um guarda-chuva em cada abraço, é sentir sossego com cheiro de camomila, santo remédio para tirar qualquer frio na barriga.

Confiar é terceirizar a razão, adoção sem perguntas. (Olhe para as estrelas. Elas estão lá ainda que não as veja.) É mesmo debruçar-se no desconhecido, deixando-se desequilibrar se preciso for, com um espírito aventureiro esparramado no que a gente não tem, mas que sabe que está lá, sempre, como chão firme sob os pés. (Não precisa mais olhar para baixo.)

Pessoas assim, sempre de braços abertos para amortecer passos em falso, que envolvem feito cobertor sem que seja preciso dizer que se está com frio, são alguens com quem contar. E pode ser tudo em silêncio, porque elas lêem a alma. São incondicionais, não têm relógio ou compromisso inadiável, melindres ou complexos, apenas uma compreensão almofadada disfarçada em um olhar que tudo diz.

E, para ter com quem contar, tudo o que é preciso fazer é olhar para cima (as estrelas existem) e parar de pensar sozinho.

25 janeiro 2007

Entrada franca

Para Eduardo Lima,
que tem olhos lindos
quando estão abertos...


Primeiro abra os olhos e tenha coragem, porque você não vai encontrar tudo como deixou.

Levante a cabeça e saia do lugar. As coisas mudaram, isso é fato. Encare-o sem perguntas, porque elas atrapalham demais.

Mas, cuidado! Não tropece nos próprios passos na ânsia de ver novidades. Acordar leva tempo.

Tome um copo d’água enquanto tenta encaixar as peças, mas, por favor, pare de bocejar. Você já dormiu tempo demais.

E todos aqueles jornais que se empilham lá fora? E as xícaras sujas de café de ontem transbordando na cozinha? E todo esse silêncio que desperdiça minutos? Os ossos doem, eu sei. Mas é preciso engolir esse amargo da boca e parar de ruminar desgosto.

E apagar lembranças, e curar ressacas, e tomar atitudes, e ir para algum canto, para deixar a luz entrar.

Você precisa se mexer! Parar de tratar a vida como pão fatiado, que acontece em capítulos e precisa ter final feliz. Geralmente não tem, aceite.

O cansaço é inevitável, nunca imbatível. Mas você desiste, porque a fraqueza acarpeta sua sala sem permissão. Olhe pra você, assim, tão miserável por tentativas fracassadas de suicidar desilusões. Em vez disso você as alimenta como animais de estimação. Covarde.

Não investigue sua casa tentando achar motivos. A culpa não é dela; é sua, que se machuca toda hora com essa descrença podre que aprendeu em algum lugar escuro não sei com quem.

Você ficou sozinho tempo demais com todas as mentiras, o descaso, o azar, a perda. E se afundou nessa torpeza nauseante por não saber nadar. Não foi capaz de pedir socorro...

Ninguém te salvou, eu sei, porque você mesmo matou a esperança e se trancou aí, nesse rancor bruto e irritantemente maciço, sem deixar ninguém entrar.

Não adianta, não há pra onde fugir. Uma hora você vai ter de enfrentar tudo isso mesmo, querendo ou não. E a hora é agora, porque parece que você acordou.

Diga-me que você abriu os olhos, vamos, diga-me que você finalmente abriu esses olhos...

Porque aí vai faltar pouco pra abrir essa maldita porta.



06 janeiro 2007

A romã e a Rute

Todos os anos, no Dia de Reis, eu como romã e separo três carocinhos, um para cada rei mago. Peço a eles que nunca me deixem sem algum dinheiro na carteira, centavos que sejam. Não sei se é a superstição ou o quê, mas tem dado certo.


O problema sempre é o mesmo: achar a romã. Este ano, no entanto, nem deu tempo de a expectativa virar problema, porque a romã veio quase voando parar na minha mão. Há quem diga que é providência divina. Mas foi a Rute, o que dá no mesmo.

A Rute trabalha na mesma empresa que eu, mas em outro prédio. É esforçada, bondosa, espontânea, sorridente, prestativa e poética, porque faz aniversário no Dia dos Namorados. “Vou te dar a romã mais bonita que tiver no meu jardim”, ela disse, quando perguntei a ela se ela sabia quem poderia me arrumar uma romã.

Por eu não estar acostumada a essas preferências, esse tipo de frase me emociona. E, para ser mais Rute do que já é, a Rute me encontrou no refeitório, na hora do nosso almoço, e me deu um pacotinho azul com fita verde. Era uma romã redondinha de presente.

A Rute diz que eu faço muito por ela ensinando análise sintática e tirando todas as dúvidas de português que ela tem. É, eu a ajudo a redigir as cartas, a revisar releases, explico gramática, descomplico as regras e a incentivo porque eu sei o quanto de Rute ela tem: uma bondade imensurável que não cabe nem em Itu; um olhar de compaixão que abraça todo mundo; uma vontade instintiva de abrandar qualquer aflição, solucionar impasses e desfazer nós; um esforço agigantado pela determinação de progredir; uma forma muito particular de acolher o próximo conhecendo-o ou não, sem qualquer tipo de preconceito, palavra que Rute não conhece. Na sua ingenuidade angelical, a Rute não poderia ter um nome mais de acordo, porque, mesmo baixinha, ela é enorme.

Então, quando olhei para aquela romã ontem enquanto eu caminhava de volta para o prédio onde trabalho, decidi que ela não poderia ficar só comigo, porque isso não combina com ser Rute. A romã vai ser dividida em quantos pedaços der, para que todo mundo possa fazer seu pedido para o rei mago preferido. E todo mundo vai ter no mínimo uns centavinhos na carteira o ano inteiro, porque a Rute merece que a bondade se espalhe, que a felicidade floresça, que a boa vontade dê frutos assim tão redondinhos.

Ela diz que o pouco que ela faz para mim não é suficiente para me agradecer pelo muito que eu faço por ela. A Rute é que não sabe que tem um tudo bem genuíno e desmesurado dentro de si. E que pode qualquer coisa, a hora que quiser.

É por isso que eu acho que todo mundo precisa ter uma Rute na vida. Porque aprender a ser Rute é um dos desafios da humanidade.


29 novembro 2006

Até logo!


Para Angélica, com carinho de ontem, hoje e amanhã


Eu e Angélica estudamos juntas até a oitava série. Até festa de aniversário surpresa ela fez para mim um ano, com direito a venda nos olhos e tudo. Depois, cada uma seguiu a vida, numa dessas rotas cheias de bifurcações e não tão bem sinalizadas que fazem as pessoas se perderem umas das outras. Mas o destino nunca me deixa na mão. Certo dia, eu e Angélica nos encontramos casualmente em um vagão do metrô. Descobrimos que ambas tínhamos escolhido o mesmo curso de graduação; o mundo das letras é mesmo seletivo. Nessa época, Angélica trabalhava numa companhia aérea e estava estudando francês.

Tínhamos a mesma idade, a mesma infância, a mesma formação. Tínhamos passado em comum, um segundo lugar num festival de música da escola, muitas brincadeiras escondidas no quarto dela, onde brincávamos em tardes esticadas pela vontade de não crescer, que acabavam com bolo feito pela mãe dela; mimo doce para preparar o paladar para o às vezes amargo futuro.

“Vamos nos encontrar para tomar um café?”, ela me escreveu dia desses.

Não tomamos aquele café.

O destino, no entanto, sempre tão condescendente comigo, providenciou outro encontro casual. No dia do primeiro turno da eleição, quando trabalhei como mesária e fui almoçar no shopping, Angélica me viu comendo em pé e, gentilmente, como sempre, foi até mim para me chamar para almoçar na mesa onde ela estava com a família. Fazia anos que não nos víamos, embora nos falássemos via tecnologias disponíveis.

Por que não tomamos aquele café? Não foi por falta de tempo, porque isso não é desculpa. Não foi por má vontade, porque Angélica e eu seríamos incapazes disso. Não foi desencontro. Eu não sei o que foi. E esse não saber é que angustia, embrulhando todas essas maravilhosas lembranças em papel feio sem laço de fita, como coisa sem importância amontoada em qualquer gaveta.

É o velho e bom depois, um dia, vamos combinar, indefinição. É a velha e traiçoeira confiança no amanhã, no virar a folha do calendário como dois e dois são quatro, com o respaldo da tola juventude. É a velha e falsa imortalidade que vai juntando cafés aqui e ali, numa coleção infindável de até logos imbecis e estéreis, que nunca vão chegar.

Foi a última vez que vi Angélica. Hoje, ironicamente por meio das mesmas tecnologias disponíveis que tornaram possível restabelecermos nossa comunicação, eu soube que ela morreu. (Ainda se morre de meningite no século 21.) Fiquei sem chão, momentaneamente sem infância, sem mundo de letras, sem palavras, chorosa por dentro e por fora, mais até que essa chuvarada toda que embolora as idéias. Eu transbordei foi de saudade ao começar a embalar nossas lembranças em papéis maravilhosos, com fitas coloridas. (Nunca fui boa em despedidas.) Irrompi em lágrimas escandalosas de decepção comigo mesma por não entender o porquê de não termos tomado aquele bendito café.

Talvez porque simplesmente não haja razão para tudo. Nós é que somos nada.


28 agosto 2006

Axé, meu rei!

Para Pablo e Helen, que me mostraram a Bahia com o coração mineiro.


“Queria ter nascido baiana, nesta terra privilegiada e colorida, onde rir é mais natural que o coco que dá nas árvores”, eu pensava, enquanto visitava um dos pontos turísticos mais famosos de Salvador, onde Jesus vira Nosso Senhor do Bonfim, da boa morte, do bom final.

Marta queria ter voltado para Porto Alegre. Pensava nisso, sentada num dos bancos da Igreja, quando olhou para mim. “Você é gaúcha?”, ela perguntou, olhos brilhantes pela familiaridade com a brancura da minha pele num lugar onde isso não é tão comum. “Não, sou paulista.” “Pois faça três desejos nesta Igreja e depois reze ali, na Nossa Senhora da Boa Morte, que é pra ela te dá a graça de morrer sem sofrimento.” Rezei. Deveria ter rezado ainda mais, pedindo perdão por tudo o que foi feito com os escravos naquele pedaço de chão. Aquilo sim foi sofrimento... pude constatar depois por tudo o que visitei na primeira capital do Brasil.

O mesmo Nosso Senhor do Bonfim, para mostrar que a escravidão é relativa, colocou seu Odilson bem na minha frente, vendendo coco a um real. “Preciso reclamá com o fabricante desse carrinho, porque ele não gela o coco. Tenho que acordá mais cedo pra tirá os coco da geladera e pô aqui. Sabe, eu vô te dizê uma coisa: o povo aqui é pobre porque a televisão ilude muito, num sabe?”. (Pois eu não sei? Sempre achei que aquela escadaria do Bonfim fosse uma enormidade de grande e era aquilo?! Que decepção!) Seu Odilson falava escancarado ainda que sem a maior parte dos dentes na boca. Vestia roupa esfarrapada, mas estava coberto de razão. Ali, na frente da meia dúzia de degraus da Igreja do Bonfim, ele lavava era a alma, ao contrário de mim, que tomei banho de MPB na praia de Itapuã e na Baixa do Sapateiro.

Todo mundo ali sorri até quando reclama da vida. Eles se revestem de uma conformidade consoladora que espalha uma energia estranha no vento. A gente sente o aroma da vida, a fé derrubando tudo, porque lá as fronteiras entre as religiões não existem. Importa o que carregamos dentro da gente... “Vá com Deus”, eles dizem. “A senhora fique com ele”, respondi.

“Fitinha do Bonfim, presente da Bahia”, achegou-se um ambulante. “Não, obrigada... Ô moço, você sabe todos os orixás de cor?”, eu e minhas perguntas esquisitas! “São deiz. Te faço uma lista, qué?” Eu até queria, mas ele ia cobrar, aquela coisa da falta de emprego e da televisão que ilude todo mundo. (Confesso que não entendo de orixás e preciso de uma tabela de conversão para saber quem é quem, mais ou menos como aquela de equivalência entre os deuses gregos e romanos. Nomes diferentes para a mesma divindade; mais uma prova de que o substantivo próprio pouco importa.)

Eu estava com amigos: Leo, que viajou comigo, e Pablo e Helen, um casal mineiro que nos recebeu de coração aberto. “Queria ter nascido mineira, pra ser assim tão legal”, eu pensei num certo momento. Eles falam manso, mas numa mansidão diferente da baiana. Pablo já mistura os sotaques. Daqui a quinze dias, mudam-se para a Espanha, onde Helen vai fazer doutorado em Nutrição. Serão quatro anos longe do Brasil, de Minas, da Bahia...

“O importante é você conversá cum gente importante, purque assim você fica importante também”, disse seu Edvon, 71 anos, que nasceu com outro nome mas mesmo assim tornou-se artista. Deixou uma promissora carreira em Milão porque, ao contrário de Helen, tem medo de avião. Anda com seu portfólio debaixo do braço, fazendo graça para quem olha pra ele. Helen olhava a cidade lá de cima, talvez pensando na Espanha, talvez pensando na vida, no que vai deixar, no que vai ser... “Tá tão lonelí essa minina!”, seu Edvon tentou falar inglês. Lonely estamos nós em São Paulo, eu quase respondi. “E você, aí, tão grisonê, hein?”, virou-se pro Leo. Perspicaz daquele jeito, foi fácil notar nossa cara de interrogação. “Num estudô franceis, não, minina?”, perguntou pra mim. Eu bem que queria, até tentei, mas nunca cheguei nessa parte do grisonner.

Um homem de 71 anos tirando um sarro daqueles de nós quatro! Pudera! Tirou até foto com a Vanusa numa época aí de óculos enormes. Era bonitão o homem. “O senhor acha que a vida melhorou?”, arrisquei a pergunta. “Mais é claro! Antigamente as minina ficavam viúva e tinham que ficá com roupa preta pra sempre. Agora, não. Ninguém mais fala nada. Casa de novo e tá tudo certo!”. Esse ria com todos os dentes da boca, que o ajudavam a imitar madame falando ao telefone, mestre-de-cerimônias apresentando o prêmio que ele ganhou pelo melhor desenho. “Vô te contá um fenômeno: pois compre um cântaro na Grécia quando você for pra lá pra pudê chorá todas as lágrimas de arrependimento por não tê comprado uma gravura minha. Depois que eu morrê vou virar um Van Gogui, um Matisse...” e ria. Definitivamente, “cântaro” e “fenômeno” não são palavras que passeiam na boca do povo, pelo menos não na daqueles com poucos dentes nela.

Quando, já tendo chegado em São Paulo, encostei minha cabeça no travesseiro, rezei de novo, mesmo não estando mais no Bonfim. Agradeci tudo, o fim de semana, o fim do tipo mais cruel de escravidão, o relativo progresso da humanidade, o coco do seu Odilson, o talento do seu Edivon, a saudade da dona Marta, o Sol que substituiu a chuva, meus ombros vermelhos por causa da mudança de tempo, a boa vontade mineira em terra baiana, a amizade do Leo, meu trabalho que paga uma extravagância como uma viagem dessas...

Mas o mais importante de tudo eu deixei para quando a gente se emociona mais: agradeci veementemente meu privilégio em ter nascido... brasileira.



P.S.: "Axé" significa, segundo o Houaiss, "a força sagrada de cada orixá, que se revigora, no candomblé, com as oferendas dos fiéis e os sacrifícios rituais"; como interjeição é "saudação votiva de felicidade", "expressão equivalente a 'assim seja' ou 'tomara'", "expressão de concordância, aprovação; está bem".

Legenda da imagem: Vista da orla de Salvador da parte de cima do Elevador Lacerda.


02 julho 2006

Quebrando os paradigmas

Para Neto (enchanté!), virtualmente uma amizade real

Ela entrou no avião sentindo um friozinho na barriga. Embora já tivesse viajado sozinha, aquela era a sua primeira viagem internacional e, para piorar, para o outro lado do oceano. Não tinha medo de o avião cair no meio do Atlântico, pois sabia nadar e pretensiosamente achava que sobreviveria à queda. Tinha medo era da vastidão do mundo, do desconhecido e de como aquilo tudo poderia influenciar sua vida, abalar sua segurança e modificar seus parâmetros, pois nunca mais se é o mesmo quando conhecemos alguém ou alguma coisa.

O frio na barriga ia demorar para passar, ela sabia. E, logo, logo, a ele seria adicionada aquela sensação incômoda no ouvido provocada pela mudança de altitude. Como, não raro, as alterações físicas são um indício de alterações emocionais que estão por vir, era natural preparar-se para ser surpreendida. O novo sempre assusta no princípio.

Começou a procurar por seu assento. Havia solicitado, na agência, que a pusessem à janela, mas, no
check-in, viu que a tinham colocado em um daqueles quatro assentos centrais. Em meio àquela balbúrdia de gente conversando, malas sendo acondicionadas aqui e ali, pacientemente ela foi pedindo licença para tentar chegar logo a seu destino. Curioso isso... Como podia procurar por algo que nem ela ainda conhecia?

Mas, como ser ímpar tem lá suas vantagens, foi fácil encontrar um único assento desocupado no meio. Ajeitou a bagagem de mão no compartimento próprio para isso e já estava pegando o cobertor deixado em seu assento para colocá-lo junto à bagagem quando o rapaz já sentado ao seu lado a interrompeu com um calmo e sorridente “é meu”. Ele lia, interessado, um guia sobre Roma. “Vai para a Itália”, ela obviamente deduziu.

Sentou-se observando tudo. O assento até que não era ruim: de lá dava para ver muito bem a televisão, e o banheiro, que ela nem chegaria a usar, era próximo.

Talvez por terem de passar as 9 horas seguintes lado a lado, o rapaz virou-se para ela e, numa acolhedora demonstração de simpatia, perguntou algo como “está indo pra onde?”. Ela timidamente respondeu: “Pra Portugal. Você, pelo visto, vai pra Roma, né?”.

Pensando bem, aquele assento ali, no meio, dava de dez no da janela. O frio na barriga foi passando. O medo do desconhecido converteu-se em conforto. Sem que eles percebessem, as coisas já começavam a mudar de uma maneira inusitada: até então, nunca haviam conhecido alguém a bordo de um avião.

Embora tivessem destinos diferentes, haviam se encontrado no meio do caminho.