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14 abril 2007

Mais

Eu queria ser apaixonante, para que algumas pessoas se apaixonassem por mim. E queria ser um pouquinho mais gorda, ter um nariz levemente mais delicado e um tantinho de coragem para tatuar alguma parte de mim. Queria falar francês e ser mais política, sabendo degustar com classe tudo o que é imposto por qualquer tipo de máfia. E, se eu soubesse tocar violão, deixaria meus dias mais musicais, sem meu (irritante) assobio pra lá e pra cá.

Queria ser mais aventureira, pra não me importar tanto com barro sujando minhas meias ou risco de vida dependurado em alpinismo; não sentir tanto enjôo quando subo serras ou passo em frente a ambulantes vendendo comida em qualquer calçada.

Eu queria fazer uma expedição à Antártida, mesmo preferindo verão a inverno e sendo a criatura mais friorenta do hemisfério Sul.

Queria não precisar ver o incrível para ter uma sensação cômoda de agora-eu-acredito-que-existe. Isso facilitaria deveras a minha vida.

E queria ter uma casa minha com quintal grande para abrigar um ou dois cachorros grandes, porque adoro casa grande e cachorros grandes. Teria sido bom se eu tivesse mudado de casa pelo menos uma vez, pois as mudanças deixam a gente menos conservadora.

Queria ter um ateliê onde pudesse esparramar minha arte sem ter de me preocupar em juntar tudo depois para guardar num lugar milimetricamente calculado feito quebra-cabeças de cinco mil peças. Aliás, seria igualmente bom ter paciência para montar quebra-cabeças de cinco mil peças.

E, pensando bem, seria maravilhoso precisar mais dos outros sem achar que incomodo, ter alguém para me abraçar nos shows a que vou, pra quem ligar a qualquer hora pra me acudir em qualquer lugar e me ajudar a resolver qualquer problema ou a carregar as compras do supermercado ou os quinhentos livros que vivem dentro do meu carro, despindo-me dessa coragem besta e militar de resolver tudo sozinha devido a anos de treinamento intensivo em sobrevivência na selva.

Queria poder ter um disque-bolo de chocolate, pra onde ligar da rua ou do trabalho pra poder pedir um pedaço descompromissado de pão-de-ló... sem ter de pagar por ele.

Agora, o ideal mesmo seria se as crianças governassem o mundo. Aí eu iria querer a volta das balas de coco, com papel esfiapado e tudo, nas festas de aniversário e em todos os restaurantes por quilo, que, obviamente, serviriam petit-gâteau de graça.

Falando em comida, queria conseguir comer uma maçã inteira — e com casca — e beber pelo menos um litro de água por dia, como recomenda todo mundo, além de correr cinco quilômetros sem sucumbir à caminhada e pensar em água o tempo todo. Paradoxal. Mas não abro mão de ser paradoxal, porque conter os opostos enriquece muito a gente.

E se eu tivesse uma agência dos Correios do lado da minha casa, eu seria a escrevedora mais feliz do planeta, porque e-mail algum substitui uma carta bem escrita à mão. O papel pouco importa.

Importaria se, em vez de fechadas nervosas no trânsito, as pessoas abrissem sorrisos gentis; se a Academia Brasileira de Letras decidisse de uma vez por todas o que tem hífen e o que não tem, se todos recebessem doses generosas de romantismo quando fossem tomar vacina e se houvesse trilha sonora automática para cada momento da vida, como nos filmes.

Eu queria ser mais voluntária e menos proletária, mais benevolente e menos irada, mais na moda e menos neutra. Queria ter um xale bem lindo feito o daquelas cantoras portuguesas de fado. Já imaginou, também, se eu soubesse maquiar meus olhos como a Anne Hathaway em O diabo veste Prada, naquela cena em que ela janta com um bonitão em um restaurante francês? (o bonitão e o restaurante francês, por estarem no contexto, não têm como serem excluídos desta lista de desejos...)

Queria que minha memória não fosse tão boa, o que torna tudo inesquecível — e há coisas que é sempre melhor não lembrar.

Também queria dominar todas as fórmulas do Excel, e saber pintar com tinta, e andar de salto em rua de paralelepípedo sem perder a pose, e achar delicioso qualquer coisa feita com abóbora, e saber subir no telhado para ver céu estrelado, e ter um motorista pelo menos uma vez por semana à minha disposição, e café na cama uma vez por ano talvez, e não querer matar o locutor de rádio quando ele faz o obséquio de me acordar pela manhã com aquela voz suave feito travesseiro macio.

Mas se eu fosse tudo isso ao mesmo tempo, não seria quem sou; se tivesse tudo o que quero, não teria mais querer. E quando a gente fica sem querer nada, morre para o mundo e renasce fútil.

É preferível uma lista renovável e extensa de desejos realizáveis ou utópicos à futilidade de contentarmo-nos com o que somos e temos. Querer move tudo.



As fotos dos grafites de Donato foram gentilmente cedidas pelo Ricardo Montero, fotógrafo amador da arte de fotografar, mas profissional no jeito de olhar.


27 dezembro 2006

O caso das prateleiras


Esperança está pensando no que deve encostar e o que deve deixar à mão. Quer deixar de lado o excesso de peso, de preguiça, de seriedade, de procrastinação ou de vontade, dando lugar à ânsia de satisfazer ideais de ano-novo. Faz lista, promessa, anotação, simpatia, reza, mantra e meditação. Faz faxina na índole, varre da mente as idéias negativas, tira o pó dos velhos desejos e respira fundo, como se o primeiro de ano fosse algum tipo miraculoso de tira-manchas.

Se não bastasse a pressão que essa época pré-ano-novo geralmente causa nas pessoas, tal elucubração de Esperança fora motivada pela Dúvida, a irmã caçula e fiel, quase sempre estraga-prazeres: “O que você vai colocar nas prateleiras que ganhou, Esperança?”. Três prateleiras vazias no quarto, ultimamente tão bagunçado de aindas espalhados por todos os cantos, caixas amassadas amontoando quaisquer-dias, muitos pedaços de daqui-a-poucos pendurados em cabides desordenados.

Diante da Dúvida, Esperança resolveu colocar a ordem antes do progresso daquela bagunça toda. Mas olhava para as prateleiras e, com o indicador esticado sobre os lábios, pensava sem parar: “o que é que vou colocar aqui?”. Eram tantas as coisas das quais queria se desfazer. E outras tantas deveriam ficar organizadas, para que pudesse alcançá-las sempre, sabendo exatamente onde era o lugar delas. Puxa vida, eram apenas três prateleiras para aquela vastidão de vai-chegar, espera-aís, futuros e serás que Esperança decidiu ser democrática. Para não magoar seus pertences — porque há muito de sentimentos nas coisas que guardamos —, ela achou por bem usar as prateleiras para coisas novas, porque o ano seria novo, e tudo, então, deveria sê-lo também.

Sentou-se em sua cama fofa coberta por uma colcha de retalhos, que isso combinava com ela, e ficou matutando que novas deveria adquirir para colocar ali. Boas-novas, só podia ser. E o resto seria organizado ali mesmo, no chão, nas caixas, nos armários e cabides espalhados onde a Esperança dormia. O que não servisse ela poderia até passar para a Dúvida, que se encarregaria de dar um fim, se assim conseguisse.

Começou colocando amores. Achou melhor mais de um, porque há muitos tipos e são todos tão coloridos que ficariam bonitos ali, na prateleira mais alta. Para tanto, resolveu jogar fora os muitos ele-não-dá-continuidade-ao-relacionamento-mas-é-legal, sins-ele-vai-me-ligar e afins. Esse tipo de artigo não combinava mais com ela. Era uma Esperança renovada e queria amor de verdade, desses de tirar o fôlego, disparar o coração e trazer todos os oceanos do mundo aos olhos emocionados. Os suspiros tristonhos com pitadas de decepção que ficassem com a Dúvida. Esperança queria em sua prateleira algo mais concreto, que ela soubesse estar de fato ali quando ela precisasse, em que pudesse tocar.

Depois, escolheu saúde e disposição, que deixou lado a lado, em pé, amparadas por pesos de mármore em forma de estrela, que isso ficava lindo e impedia que saíssem dali. Também arrumou diversão, que não sabia por que cargas d’água escorregava da prateleira toda santa hora. Descobriu que ficava melhor na do meio, pois exigia um certo equilíbrio. Trocou os velhos minha-promoção-vai-chegar por trabalho-bem-feito-e-prazeroso. Jogou fora um monte de quero-ir, colocando no lugar uma dose generosa de viagens inesquecíveis. Desfez-se dos sorrisos amarelos e colocou na prateleira de baixo muita gargalhada sincera, com abraços de verdade e olhares profundos, daqueles que tudo dizem sem soltar palavra.

Mas ainda havia espaço. Esperança, então, resolveu deixá-lo lá, para muitos o-que-vieres. Desses há diversos modelos: novas amizades, aprendizado, experiência, desconhecido. Quando chegassem, precisariam de um lugarzinho.

Nem a Dúvida poderia achar defeito naquela arrumação porque, pela primeira vez na vida, Esperança tinha sentido determinação. Teria, finalmente, um ano novíssimo em folha, brilhando de limpo, cheiroso e diferente, livre das insistências tolas que em nada dão.

Estava resolvido. Era, agora, uma Esperança otimista, respirando limpo para um tempo novo, ali, ao alcance da mão e dos olhos, mais palpável, mais possível, menos ideal.

Pensando bem, aquelas prateleiras não tinham sido feitas sob medida, mas combinavam perfeitamente com Esperança. E isso bastava para um ano feliz.




P.S.: esta idéia na janela tem uma origem curiosa. Fui ao cinema ontem assistir a O amor não tira férias, filme água-com-açúcar que mostra duas protagonistas se livrando de valores que não lhes fazem bem, superando medos e realizando esperanças. Curiosamente, a expressão “colocar algo na prateleira”, que também existe em inglês (to put something on the shelf), no sentido figurado significa “livrar-se de algo pouco importante”, “deixar de lado o que não se quer mais”. Ganhei no Natal três prateleiras novas para o meu quarto e até agora penso no que colocar nelas, já postas na parede, num lugar em evidência. Por último, estamos prestes a entrar em um novo ano. Juntei tudo e deu nisso. Como sou subversiva, inverti a semântica da expressão, porque, nas minhas prateleiras em evidência, só cabe o que é importante e precisa estar ao alcance da mão.



21 novembro 2006

Lunática sonhadora

Desde pequena eu sonho muito. Dos sonhos dormindo sempre me lembro acordada. Já os que tenho acordada acabam adormecidos na memória mesmo. Uns, mais insistentes, vingam e viram objetivos; outros são arquivados na seção do sono eterno e ponto final.

Dia desses sonhei com a Lua. Talvez Freud explique, não sei. Mas, antes de adentrarmos no sonho propriamente dito, querido leitor, preciso explicar que, também desde pequena, eu tenho uma certa rixa com a Lua (minha infância foi mesmo fascinante!): quando eu andava de carro e olhava para o céu, achava uma tremenda petulância desse satélite me seguir até em casa, naquela observação irritante. Com a caravan dourada que tinha, meu pai podia entrar em qualquer viela escondida dessa cidade enorme que não adiantava: a Lua lá, gloriosa, sempre me olhando. Não tinha sequer espírito esportivo para brincar de esconde-esconde. Bancava mesmo a mãe da rua, dona da bola, cheia ou minguante, tanto faz.

Cresci com essa mania de perseguição, que hoje amenizou-se, é verdade, porque para alguma coisa aquelas aulas chatas de Geografia tinham de servir. Mas, sobretudo em noites quando a Lua está grande no céu, volta em mim aquela sensação de infância: a Lua me olhando, soberana, como se fosse a única capaz de me enxergar por dentro, ainda que eu não tenha o que esconder.

Pois meu sonho foi, modéstia à parte, criativo pra chuchu. Primeiro, a Lua desmoronava sobre a Terra, e o céu, visto daqui, desaparecia. Ao olharmos para cima, tudo era solo lunar. Foi ficando frio e escuro. Tudo bem, eu sei que a Lua é muitas vezes menor que a Terra e tal, piriri, pororó, mas uso a licença poética até em sonhos. No meu, ela era maior e caía, assim, no planeta inteiro, sem aviso prévio mesmo.

Com humor de fim-de-mundo, as pessoas saíam de suas casas olhando para o céu-Lua, meio apavoradas, meio intrigadas. Saí também, mas, curiosamente, em vez de pânico por finalmente pensar que a Lua me descobriu e veio me buscar de vez — como o homem do saco que as mães sempre utilizam como ameaça em horas de impaciente desespero —, eu fiquei extasiada porque, diferentemente de todo mundo, eu via beleza.

Nesse momento, a Lua choveu. Ela chovia pedaços, que pareciam espuma de colchão. E aí veio uma tempestade de Lua. Todo mundo saiu correndo, feito fogos de artifício, só eu fiquei debaixo daquela Lua se desintegrando. Quando a chuva parou, as pessoas, ainda curiosas, tentavam pegar os pedaços lunares do chão, mas queimavam as mãos e logo os soltavam, de tão gelados.

Por motivos que a razão desconhece, até por estar ausente num momento como esse, eu continuei exceção e saí catando todos aqueles pedaços de Lua de espuma de colchão. Quando já estava com os braços lotados, como quem carrega lenha, caminhei até uma jardineira e os plantei, meio que esperando uma resposta. Se a Lua tinha despencado na Terra era porque queria entrar nela, pensei.

Acordada, eu não planto nem bananeira, quem dirá flor. Mas no sonho eu plantava Lua, que deu botão e fez crescer bem rápido um sonho de planta, linda e cintilantemente branca, com perfume de gardênia que se espalhava por aí. Mas a flor, que não existe na Terra, só durava um dia, para o meu desconsolo.

Acordei com essa sensação de e agora e fiquei um tempão pensando naquilo tudo. Será que é porque eu leio muito livro infantil, onde até avião bota ovo? Ou porque tenho tanto os pés no chão que fazer um intercâmbio com a Lua seria uma espécie de mestrado para aprender o diferente? Talvez seja influência do Pequeno Príncipe. Bom, pode ser também a minha criatividade ultimamente pouco utilizada transbordando no sono.

Que seja. O negócio, meus caros, é sonhar, em todos os sentidos, sem procurar lógica, motivo ou explicação. Porque, no mundo da lua, onde os sonhos acontecem, essas coisas definitivamente não importam.



Observação interessante: a foto da Lua sobre a qual fiz arte foi tirada pelo meu amigo Leo, aquele que foi para a Bahia comigo e que cisma em me levar para conhecer as nuvens, desta vez em uma viagem de balão. Para minha sorte, ele é psicólogo.