Eu queria ser apaixonante, para que algumas pessoas se apaixonassem por mim. E queria ser um pouquinho mais gorda, ter um nariz levemente mais delicado e um tantinho de coragem para tatuar alguma parte de mim. Queria falar francês e ser mais política, sabendo degustar com classe tudo o que é imposto por qualquer tipo de máfia. E, se eu soubesse tocar violão, deixaria meus dias mais musicais, sem meu (irritante) assobio pra lá e pra cá.Queria ser mais aventureira, pra não me importar tanto com barro sujando minhas meias ou risco de vida dependurado em alpinismo; não sentir tanto enjôo quando subo serras ou passo em frente a ambulantes vendendo comida em qualquer calçada.
Eu queria fazer uma expedição à Antártida, mesmo preferindo verão a inverno e sendo a criatura mais friorenta do hemisfério Sul.
Queria não precisar ver o incrível para ter uma sensação cômoda de agora-eu-acredito-que-existe. Isso facilitaria deveras a minha vida.
E queria ter uma casa minha com quintal grande para abrigar um ou dois cachorros grandes, porque adoro casa grande e cachorros grandes. Teria sido bom se eu tivesse mudado de casa pelo menos uma vez, pois as mudanças deixam a gente menos conservadora.
Queria ter um ateliê onde pudesse esparramar minha arte sem ter de me preocupar em juntar tudo depois para guardar num lugar milimetricamente calculado feito quebra-cabeças de cinco mil peças. Aliás, seria igualmente bom ter paciência para montar quebra-cabeças de cinco mil peças.
E, pensando bem, seria maravilhoso precisar mais dos outros sem achar que incomodo, ter alguém para me abraçar nos shows a que vou, pra quem ligar a qualquer hora pra me acudir em qualquer lugar e me ajudar a resolver qualquer problema ou a carregar as compras do supermercado ou os quinhentos livros que vivem dentro do meu carro, despindo-me dessa coragem besta e militar de resolver tudo sozinha devido a anos de treinamento intensivo em sobrevivência na selva.
Queria poder ter um disque-bolo de chocolate, pra onde ligar da rua ou do trabalho pra poder pedir um pedaço descompromissado de pão-de-ló... sem ter de pagar por ele.
Agora, o ideal mesmo seria se as crianças governassem o mundo. Aí eu iria querer a volta das balas de coco, com papel esfiapado e tudo, nas festas de aniversário e em todos os restaurantes por quilo, que, obviamente, serviriam petit-gâteau de graça.
Falando em comida, queria conseguir comer uma maçã inteira — e com casca — e beber pelo menos um litro de água por dia, como recomenda todo mundo, além de correr cinco quilômetros sem sucumbir à caminhada e pensar em água o tempo todo. Paradoxal. Mas não abro mão de ser paradoxal, porque conter os opostos enriquece muito a gente.
E se eu tivesse uma agência dos Correios do lado da minha casa, eu seria a escrevedora mais feliz do planeta, porque e-mail algum substitui uma carta bem escrita à mão. O papel pouco importa.
Importaria se, em vez de fechadas nervosas no trânsito, as pessoas abrissem sorrisos gentis; se a Academia Brasileira de Letras decidisse de uma vez por todas o que tem hífen e o que não tem, se todos recebessem doses generosas de romantismo quando fossem tomar vacina e se houvesse trilha sonora automática para cada momento da vida, como nos filmes.
Eu queria ser mais voluntária e menos proletária, mais benevolente e menos irada, mais na moda e menos neutra. Queria ter um xale bem lindo feito o daquelas cantoras portuguesas de fado. Já imaginou, também, se eu soubesse maquiar meus olhos como a Anne Hathaway em O diabo veste Prada, naquela cena em que ela janta com um bonitão em um restaurante francês? (o bonitão e o restaurante francês, por estarem no contexto, não têm como serem excluídos desta lista de desejos...)Queria que minha memória não fosse tão boa, o que torna tudo inesquecível — e há coisas que é sempre melhor não lembrar.
Também queria dominar todas as fórmulas do Excel, e saber pintar com tinta, e andar de salto em rua de paralelepípedo sem perder a pose, e achar delicioso qualquer coisa feita com abóbora, e saber subir no telhado para ver céu estrelado, e ter um motorista pelo menos uma vez por semana à minha disposição, e café na cama uma vez por ano talvez, e não querer matar o locutor de rádio quando ele faz o obséquio de me acordar pela manhã com aquela voz suave feito travesseiro macio.
Mas se eu fosse tudo isso ao mesmo tempo, não seria quem sou; se tivesse tudo o que quero, não teria mais querer. E quando a gente fica sem querer nada, morre para o mundo e renasce fútil.
É preferível uma lista renovável e extensa de desejos realizáveis ou utópicos à futilidade de contentarmo-nos com o que somos e temos. Querer move tudo.
As fotos dos grafites de Donato foram gentilmente cedidas pelo Ricardo Montero, fotógrafo amador da arte de fotografar, mas profissional no jeito de olhar.

