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02 janeiro 2013

De olhos bem abertos

Eu, ano passado

Em noites de insônia, o que não nos deixa dormir são pensamentos. Natural tê-los mais intensos – e confusos – no início de um calendário. São mudanças pulsando, ávidas por realização, que nem sempre queremos. Teimosia também tira o sono.

Então, no meio da madrugada, o que resta são retrospectivas. Onde erramos. Onde acertamos. Há consciência do erro ou do acerto? E se o erro virou acerto? Ou vice-versa? Tudo é de fato relativo. A quê, mesmo?

Pensamos em banho de sal grosso no dia seguinte, para limpar resquícios. Mas é com eles que aprendemos se de olhos abertos estivermos. A tal da insônia de novo. Mudamos o foco – ou a falta dele – para algo mais prático, para tabular organização: um bloco sempre à mão, de preferência com pauta, porque é muita pretensão querer escrever certo por linhas tortas. Até o bloco, a pauta, a organização e as ideias dormirem em sono profundo em algum canto remoto do porta-luvas, da bolsa, da gaveta, do criado-mudo ou de um espaço inútil qualquer. Pelo menos alguma coisa dorme nesse ambiente insone.

E nos lembramos dos desejos adormecidos até então. Não contentes, e talvez pela falta do que fazer no silêncio, os ressuscitamos. Tem graça acordar recordações inconcretas. Olhamos ao redor: os livros que não lemos por falta de tempo, de vontade ou por sono demais. Aliás, se pudéssemos mandar nesse último, não haveria insônia nem livros não lidos, apenas olhos vermelhos em outras horas. De choro, é provável. É quando nos comprometemos a não chorar mais tanto. Mas cada lágrima lembrada puxa outra ainda mais chorosa e, em vez de dormir, lacrimejamos devagar, prometendo nunca mais sucumbir. A firmeza da resolução, entretanto, sinaliza incômodo: uma insensibilidade que não nos pertence. A luz começa a faiscar, resultado da intermitência entre olhos cansados e consciência de nossa capacidade de amar, cada vez maior, como o algarismo que denomina o ano novo. Uma capacidade que nos alarga por dentro mas que, quase sempre, espreme nossa alma bem apertadinho. É nesse momento que revisitamos os relacionamentos, buscando conclusões inconclusas, alguma consolação, uma saudade, explicação mergulhada em uma xícara de chá. Coisas assim nunca dormem.

Arriscamos olhar para o relógio, na esperança de que o tempo não tenha passado demais, para podermos descansar quando a insônia desistir. Mas é o tempo que desiste de nós, sempre atrasados, correndo atrás do impalpável.

É melhor não pensar nisso. Fechemos os olhos para recomeçar. Hoje é outro dia.

31 dezembro 2009

Renovação

Última página do meu álbum da Itália

Que saudade de escrever aqui. O último dia do ano é mesmo um dia estranho, todo saudoso, como se carregasse em suas horas todos os minutos do ano que passou, tudo o que vivemos e não volta, todos os sorrisos que demos, a intensidade do que sentimos. Mas também é um dia que carrega o futuro: o ano que está por vir. É o momento oportuno para idealizarmos nossos desejos, estabelecermos metas e reunirmos forças para cumpri-las – muita gente faz listas de metas de ano-novo e não se compromete consigo mesma para cumpri-la. Isso é grave.

2009 foi um ano de muito trabalho para mim – 90% dele consequência da entrada em vigor do Acordo Ortográfico. Curiosamente, uma das minhas metas de ano-novo era trabalhar menos. 1 x 0 para o tempo. Mas, sendo a minha especialidade a língua portuguesa, não tinha como eu ficar olhando a banda passar. Por conta disso, o que eu não vi passar foi o ano, que hoje termina com uma sensação de São Silvestre dentro de mim, uma pressa danada de tentar dar conta de tudo num tempo curto demais para tanta intenção.

Mas outras metas foram cumpridas. Metas menos egoístas que demandaram de mim uma renovação comportamental: conviver mais com as pessoas. Este ano, batizei meu segundo afilhado; ganhei três sobrinhas lindas – uma de cada irmão –; fui (finalmente!) ao show da Laura Pausini, minha cantora favorita; conheci pessoas legais; revi amigos incríveis (ainda faltaram alguns...); completei 10 anos na mesma empresa; estive em Brasília, no Rio de Janeiro, em Itapetininga, em Florianópolis e em Belo Horizonte, para conhecer outros horizontes e novos amigos; mudei a operadora de celular graças à portabilidade, para falar mais com mais pessoas; fiz biscoitos para os outros; fiz bastante artesanato de presente para amigos; escrevi para uma revista; amei e fui amada do jeito que as pessoas sabem amar. E elas sabem amar de jeitos estranhos e introspectivos às vezes...

Em 2009, cuidei mais da minha vida, apesar de trabalhar tanto: cortei minhas madeixas onduladas; mudei o grau dos óculos (para mais!); consegui montar meu álbum da Itália; senti uma saudade danada da Itália; aprendi a usar carimbos e a tirar melhores fotos; comecei a assistir a todos os filmes da Audrey Hepburn; mudei uns paradigmas; ganhei um livro em francês como incentivo para estudar francês; terminei de ler O amor nos tempos do cólera; engordei (finalmente!); comprei a lingerie dos meus sonhos e fui obrigada, pelas minhas metas, a ausentar-me um pouquinho do mundo virtual para viver mais o real. Escolhas são assim.

É verdade que um ano não cabe em dois parágrafos – mas, com um pouco de dedicação, pode caber na memória, em um álbum de fotos, em cartas, cartões, depoimentos em comunidades virtuais, e-mails sinceros, torpedos expressivos, enfim, em todas as formas de comunicação.

Sabe, eu acredito verdadeiramente na comunicação e faço o que posso para neutralizar mal-entendidos, incentivar sinceridades, deixar claro o que penso, ajudar as pessoas a serem mais íntegras, coordenando pensamento, sentimento e ação. O mundo PRECISA disso: de teoria andando de mãos dadas com a realização; de intenções sendo postas em prática, de palavras ditas, de menos interpretação e nenhum blá-blá-blá. O mundo precisa ser mais simples e objetivo, como uma canção de ninar.

E é como uma canção de ninar que o ano termina, porque hoje é dia de saudade e de novas metas, a tal da renovação de que tanto falam. Mas ela só se concretiza a partir de atitudes, de um novo comportamento, de uma nova forma de pensar, de se comunicar, de fazer acontecer. A renovação só se realiza mediante o comprometimento. Infelizmente, as pessoas não se comprometem mais hoje em dia, nem consigo mesmas nem com os outros. Elas transferem, repelem, evitam, ignoram, deixam para lá, para depois, pra alguém resolver. Isso não é deixar de ter trabalho. Isso é ser medíocre.

O ano será novo. Nós temos de ser também. Íntegros, comprometidos e esforçados.

Sem medo.


Uma das minhas metas de 2010 é escrever mais neste blog. Obrigada a quem me lê, a quem comenta, a quem me manda e-mails, a quem me acompanha sem me conhecer. Feliz ano-novo!

18 setembro 2009

Diga o que tem a dizer

O olhar inquisidor de Netuno, esculpido por Bartolomeo Ammanatti - Florença - Itália


“It’s better to say too much
Than never to say what you need to say again
even if your hands are shaking
and your faith is broken
even if the eyes are closing
do it with a heart wide open
Say what you need to say”


Um dos mestres da fotografia do século passado, o francês Henri Cartier-Bresson, ficou mundialmente famoso também por seu conceito de “momento decisivo”. Para ele, uma boa foto tem o momento certo de ser tirada. Mais que isso é outra imagem. Menos que isso, outra outra. As sucessões, os milésimos de segundo, tudo encerra uma unidade e uma originalidade tamanhas que só a memória é capaz de fotografar se o momento decisivo for perdido. Mas, com o tempo, ironicamente, também ela se perde.

Quantos momentos decisivos são negligenciados pela certeza ignorante de que amanhã existe, de que o hoje se repete, de que haverá outra oportunidade... Um depois cômodo que vai embaçando o cotidiano e deixando tudo entediantemente igual, na sombra do que poderia ter sido.

Os olhos deixaram de enxergar os momentos decisivos por causa de corações anestesiados demais por estarem há muito tempo espremidos em caixas de fósforos. As palavras deixaram de ser pronunciadas nos momentos decisivos por causa de medos terríveis demais por estarem constantemente assombrados por incertezas, desaprovações imaginárias, receios injustificados, besteiras do tipo.

Estamos perdendo os momentos decisivos de dizermos o que temos de dizer, de tornar explícito o que sentimos, de não nos importarmos com o rubor das bochechas, com o tremer das mãos, com a palpitação do peito, a efervescência dos nervos, o pavor do óbvio.

Sem perceber, acorrentamo-nos a listas de desejos que só se realizarão em um futuro que nunca chega. Acostumamo-nos a nos contentar apenas com o que pode vir a ser, de tão frustrados que estamos com nossa própria incapacidade de recriação. Escolhemos a covardia, onde estacionamos nossas vontades.

Temos de ressuscitar os momentos decisivos de Cartier-Bresson, importando-nos com o agora antes de virar depois e de tornar-se o próximo. Hoje, temos de dizer o que é preciso dizer, agir costurando a integridade, a ética e a atitude para vestir sinceridade todos os dias, porque ela combina inclusive com guarda-chuva.

É verdade que nem todo mundo está preparado para ouvir o que temos a dizer, ver explicitamente o que só por dentro sentimos, entender nossas diáfanas motivações, nossas ondas, flutuações, como nos dissolvemos em nós mesmos.

Porém, se todos começarmos a reinventar os momentos decisivos, tornando marcantes os comuns, importantes os banais, significativos os tediosos, além de fotografias muito mais bonitas resgataremos o presente, o amor, o respeito, a paz. Resgataremos nós mesmos.



Para celebrar o ano da França no Brasil, o SESC Pinheiros, em São Paulo, realiza a mostra Henri Cartier Bresson: o fotógrafo, de 17/09 a 20/12/2009, com entrada franca. Organizada por Eder Chiodetto, a mostra é composta por 133 fotografias pertencentes ao acervo da Agência Magnum, fundada por Cartier-Bresson em 1947, da qual fez parte o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado. Em 45 anos de carreira, Cartier-Bresson criou um estilo único e tornou-se pai do fotojornalismo contemporâneo.

31 dezembro 2008

Tudo bem

Dispensa legenda, mas é o céu sobre a minha cabeça em 31/12/2008


Tudo bem, isto é tudo o que tenho a dizer. É porque fiquei mais sucinta em 2008.

Viajei muito de avião, mas viajei mais na minha introspecção, com pensamentos que não couberam todos aqui porque espalharam-se por aí. Foi o vento.

Fui promovida, culpada, amada, recriminada, bem remunerada, explorada, atropelada por um ano de antônimos que passaram rápido demais, pois nunca me senti tanto liquidificador.

Mas ficou tudo na memória; minha mente é uma caixa-registradora nada, nada seletiva.

A seleção foi parar no caráter, porque fiquei mais exigente: não escrevo qualquer coisa, não fotografo qualquer cenário, não desperdiço mais com qualquer um palavras escolhidas a dedo. Há certas coisas que aprendi a parar de escolher e a simplesmente ignorar. É mais sábio.

Este ano aprendi a ser simples, conscientizando-me de que é impossível abraçar o mundo, fazer tudo ao mesmo tempo, dar atenção personalizada a todo e qualquer ser humano. Há aqueles que não merecem e ponto.

Mudei de ares, de óculos, de carteira, de perfume, de posto de gasolina. Fiz arte, doei, reciclei muito, principalmente comportamentos. Parei de esperar — finalmente.

Parei também de me preocupar com o que os outros pensam. Eles nunca serão eu pensando, natural gerarem expectativas diferentes e se decepcionarem com elas. Problema deles.

Foi o último ano do trema, o ano em que fiquei a última irmã em casa, a última vez de um monte de crenças que não moram mais em mim, o último ano par antes de várias ações que vão mudar meu dia-a-dia. É o vento de novo.

Foi um ano de muito trabalho, que termina com céu cor-de-rosa, como se um gigante pedaço de algodão-doce de morango brincasse de nuvem, dizendo “vai ficar tudo bem”.

Independentemente do calendário, passei a acreditar, em paz, que sim, sempre fica tudo bem.

Feliz ano-novo.


Obs.: a partir do próximo texto, este blog seguirá as novas normas da ortografia (pelo menos as não polêmicas), embora a autora ache-as inócuas. Ela é contra o Acordo Ortográfico, mas uma cidadã que segue a lei.

23 maio 2008

O tempo todo

Para ouvir enquanto lê o texto:


Silent Lucidity - Queensrÿche

Era um barulho fora, mas um silêncio dentro. O entra-e-sai do metrô e o tagarelar tipográfico das pessoas espalhando os acontecimentos do dia ensurdeceram-me quando li uma das mensagens que passavam naquelas televisõezinhas que agora há em alguns vagões: “Conserve seu planeta. Ainda dá tempo”.

Ficou um eco no meu pensamento, reverberando idéias que começaram a passar pela mente mais rápido que as estações da linha vermelha. Ainda dá tempo. É isso que pensa alguém quando corre apressado para pegar um ônibus ou aqueles que decidem ser pais depois dos 40. Isso é o que move quem resolve aprender a ler depois de anos de analfabetismo, quem vai para o aeroporto mesmo sem passagem marcada, quem desce as escadas rolantes ainda que tenha ouvido o aviso sonoro de portas fechando. Porque sempre é tempo de abri-las.

Ainda dá tempo de esquecer a falta de reciprocidade de uma paixão; a última chuva que encharcou os nervos, deixando úmido muito mais que a barra das calças; a palavra ríspida de quem nunca foi apresentado à gentileza ou redondos nãos que carimbaram tentativas. Simplesmente porque ainda dá tempo de tentar, de aprender outro idioma, de conhecer outro país ou pegar uma condução simples que leve àquela esquina à qual a gente nunca foi por falta de curiosidade ou... de tempo. Ainda dá tempo de fazer falta a alguém, de demorar-se na cozinha preparando alguma coisa com farinha, de tirar das caixas o que está guardado por motivos que já emboloraram com o passar... do tempo.

Dá tempo de mudar de casa, de idéia, de vida, de planos, de curso, de abordagem, de conversa, de padaria, de lado. Dá tempo de dizer que ama, que sente muito, que errou, que se desculpa, que vai pensar, que sente falta, que tem vergonha, que vai mudar.

E tudo isso porque, apesar do barulho do lado de fora, a sensação acontece lá dentro, bem no escuro de profundezas que nem todos sabem onde ficam, lugar em que tudo é silêncio. Uns chamam isso de esperança. Eu, de lucidez.

27 janeiro 2008

Roda-gigante

Museu da Língua Portuguesa - SP
Exposição sobre Guimarães Rosa

A gente pensa na vida como uma sucessão de dias representados por números ou substantivos comuns que vão de domingo a segunda. Mas deveríamos pensar nela como uma sucessão de histórias anônimas que acontecem ao mesmo tempo.

Enquanto alguém está morrendo sozinho na cama de um hospital, há outro pequeno alguém que acabou de descobrir que as coisas têm nome e está aprendendo a pronunciá-los. Enquanto um homem está maquinando maneiras e mais maneiras de conquistar a mulher dos sonhos dele, há uma mulher chorando no escuro. E enquanto uma pessoa supera uma limitação imposta por uma deficiência qualquer, existe outra, sadia, que se acha imprestável.

Tem um menino que não sabe jogar bola, mas que quer ser pintor. Uma moça que dança lindamente e está juntando dinheiro para custear um sonho. Um idoso sentado na praça, esperando o vôo de borboletas, enquanto uma senhora faz bolinhos de chuva para a vizinhança. Padarias levantando as portas quando tem gente voltando da balada. Luzes se apagando enquanto velas são acesas. Novos negócios abrindo quando tudo o que alguém quer é se fechar.

Há gente correndo no parque e outras paradas no tempo. E tem ainda aqueles que estão experimentando vinho pela primeira vez, ou voando de avião, ou pegando um buquê numa festa animada de casamento. Há quem esteja rindo à toa enquanto outros tratam os dentes.

Enquanto você lê este texto, tem gente atravessando a rua sem olhar, olhando para a frente esperando um ônibus chegar, olhando para trás para resgatar sensações perdidas na memória, olhando para cima na esperança de ser içado de repente só para alcançar mais rápido algum tipo de imaginação.

Tem alguém adotando um cachorro perdido, sendo bicado por um papagaio invocado, fazendo carinho em um gato folgado, prometendo a si mesmo nunca mais ter um bicho de estimação.

Tem mais alguém recolhendo o lixo de pessoas que continuam jogando tudo no chão ao mesmo tempo que outros distribuem folhetos a favor de um planeta mais limpo. Mais sites pipocando na internet, idéias criativas tomando forma em agências de publicidade, copos sendo enchidos, expectativas, esvaziadas. Alguns escolhendo filmes em prateleiras de locadoras perto de casa enquanto outros decidem o que fazer para o jantar em homenagem a um amigo que vem de longe.

Tem gente perdida quando outras acabaram de se encontrar. Pessoas que acabaram de ser desenganadas quando outras sabem que vão sarar. Crianças aprendendo a contar até dez e adultos impacientes que não se lembram mais disso quando ficam nervosos. Alguém andando de metrô sem saber para onde ir quando outro alguém pergunta à vendedora da livraria em qual prateleira está o guia de viagem que ele procura, pois sabe exatamente para onde vai.

Quantos pensativos estão assistindo a algo nos cinemas enquanto outros tantos indecisos ainda pensam em qual doce comprar? Quanta gente gritando insultos guardados há tempos nos pulmões enquanto um monte de sorrisos se abrem pelos cantos? Quantas pessoas se cruzando ao atravessar a rua com histórias em comum silenciadas pelo pensamento?

Existem tortas de maçã quentinhas saindo do forno e gente aprendendo a comer com garfo e faca. Tem mesmo gente lendo histórias em voz alta enquanto alguém numa terapia está aprendendo a escutar.

Quantos olhares estão sendo impressos em laboratórios fotográficos enquanto câmeras digitais de última geração são colocadas em vitrines? Quantas coca-colas são vendidas enquanto um monte de gente daria tudo por um copo d'água? Quanta gente que acaba de descobrir américas ao mesmo tempo que outras têm um Grand Canyon para ultrapassar?

Para lá e para cá, aqui e acolá, tudo agora, numa simultaneidade metalingüística que nem espremendo cabe na nossa compreensão: incontáveis histórias anônimas acontecendo ao mesmo tempo formam o que a gente leva a vida inteira para entender.

29 dezembro 2007

Tudo de novo


Tem gente que vai dizer que entra ano e sai ano e tudo continua igual. Tem gente que vai alegar que está tudo na mesma porque o tempo é sempre isso que aí está, o calendário é que muda. E tem gente que justifica a desesperança afirmando que nada como um dia após o outro.

Como você gastou o tempo neste ano que chega ao fim? Saindo para trabalhar todos os dias, tentando ficar indiferente ao trânsito, à má educação das pessoas e à intolerância que escolheu este mundo para morar? Ou enfrentando filas, enrolando pensamentos em salas de espera, colecionando nãos, agora não dá, mais tardes e daqui a poucos? Será que seus dias foram todos iguais, feito as páginas padronizadas impressas nas agendas distribuídas como brindes nessa época?

É melhor acreditar que você soube usar bem o seu ano que agora acaba. Que você conheceu novas pessoas, ousou um pouco, engoliu o não e foi atrás de um sim, chorou de tanto rir, viu beleza no que é singelo, olhou para o céu de um jeito demorado, tomou chuva, viu uma criança nascer ou comemorar o primeiro aniversário, viajou para lugares tímidos e encantadores, aprendeu a tirar fotos direito, fez algum curso proveitoso, olhou profundamente para alguém e recebeu um sorriso em troca, vibrou com novidades, assistiu a um filme inesquecível, mudou de idéia, enterrou lembranças desnecessárias, amou de verdade mesmo sem ter sido correspondido, comeu pão quentinho estalando de gostoso, descobriu outros blogs legais, arriscou uns passos de dança, redescobriu uma música da adolescência, parou de se preocupar em impressionar, elegeu mais um ou dois intérpretes favoritos, amou de verdade e foi realmente amado em uma doce retribuição, fez caridade para aliviar a dor de alguém, voltou atrás em decisões precipitadas, soube pedir desculpas, conseguiu perdoar, aprendeu a se maquiar sem manchar tudo e a se barbear sem se cortar... aprendeu a não se machucar mesmo aproveitando a vida intensamente.

É melhor acreditar nisso tudo para lembrar com saudade do ano que passa e se esforçar para ter momentos assim no ano que vem. É preferível lembrar do que deu certo para repetir a fórmula amanhã. Por que não entender que é possível ser feliz agora? É tão fácil! A felicidade está também nas coisas simples, o olhar é que se desvia para o inalcançãvel, porque é complicado demais admitir que é suficiente o que se tem.

Não é para não querer mais nada. Ano novo combina com lista de desejos. É para conscientizar-se de que aproveitar os momentos ao máximo, no simples, mesmo em preto-e-branco ou ao contrário, um pouquinho diferente do imaginado, pode ser divertido também. Se acabou o sorvete de chocolate, por que não se contentar em dar outro sabor à vontade? Ano novo combina com experimentar o novo. Se o domingo não amanheceu ensolarado, qual o problema em ver a chuva cair com aquele barulhinho de embalar qualquer preguiça? Ano novo combina com adaptação. Se não recebeu flores o ano todo de ninguém, por que não ir a uma floricultura bem colorida e comprar umas bem lindas para enfeitar a casa? Ano novo combina com criatividade. Se foi engolido pelo tempo e não conseguiu ver todas as pessoas de quem gosta, por que não inverter as prioridades para acalmar o coração? Ano novo combina com mudança. Deixe neste que termina o mau humor, os ressentimentos e a reincidência de equívocos.

Se entra ano e sai ano e você continua igual, é porque não está vivendo direito. Quando a gente vive direito sempre aprende alguma coisa, muda um pouquinho, aprimora o gosto, revê conceitos, fica mais tolerante às diferenças, encontra graça no azul e no amarelo, mesmo morrendo de vontade de viver vermelho ou verde, faz novas amizades, expande mais o coração, respira fundo e conta até mil se preciso for, lapidando a civilidade, sorrindo mais e revestindo-se de boa vontade para olhar sempre para cima e ver que o céu é mesmo lindo, e que ele vai continuar lá no ano que se inicia. Basta aprender a apreciá-lo.


Feliz ano-novo a você que me lê e não me conhece, a você que me conhece e que me lê, a você que caiu aqui por acaso, a você que se esforça para melhorar.

12 novembro 2007

Complexo de hoje

O gentil e talentoso Doda convidou-me para:
1 - pegar um livro próximo;
2 - abrir na página 161;
3 - procurar a 5.ª frase completa;
4 - postar essa frase em meu blog.

Aproveitei e escrevi sobre ela...



"Simplicidade e simplificação são características do pensamento racional."
5.ª frase completa da página 161 de O ócio criativo,
de Domenico de Masi



Todo mundo acorda de manhã pensando que a vida poderia ser mais simples. Pede um café simples na padaria, torce para que a prova da primeira aula seja simples, que sejam tomadas decisões simples ao longo do dia, que o chefe simplifique as coisas para poupar mais raciocínio, que o namorado ou a esposa entendam a simplicidade intensa que vai no coração dos cônjuges ou que tudo simplesmente caia do céu.

Entretanto, a gente complica um bocado. Faz tempestade em copo d'água, se apaixona pela pessoa errada, atravessa a rua fora da faixa, fura fila, esquece de pagar conta, leva multa, perde a hora e o guarda-chuva, esquece as chaves, polui o ar e a água só para poder reclamar depois de que não dá para respirar ou nadar, se mete em briga e ainda quer sair sem se machucar, fica adivinhando pensamentos que não são nossos e reagindo a eles como se fossem. A gente sofre apertado como se o mundo fosse uma caixa de fósforos.

Muito difícil tudo isso, tamanha confusão que vai na gente, redemoinho estranho de coisas contrárias que não se bicam por nada no mundo, mesmo com torcida. De um lado, uma vida simples, clean, que leva a gente à rua todos os dias usando roupa branca e levinha recendendo a sabonete bem cheiroso. De outro, sentimentos e comportamentos inconsistentes duelando num tabuleiro de xadrez enorme feito elefante, que a gente carrega com costas que não tem — é daí que vem o peso.

É disso que resulta a frustração: o querer é uma coisa; o fazer é outra. Querem ensinar coesão e coerência em aulas de redação, mas a maioria teima em escrever tudo errado; lutam pelos direitos humanos, mas o noticiário só traz desumanidade; pregam a alimentação saudável, mas não param de inventar guloseimas industrializadas que dão água na boca; criam cada vez mais entretenimento para ser desfrutado em um tempo que ninguém tem, quando é necessário trabalhar cada vez mais; desenvolvem cremes anti-rugas miraculosos para combater linhas de expressão que ganhamos nos cansando todos os dias do sempre.

E, se a gente parar para amar a pessoa certa, para atravessar na faixa, não poluir e esperar a vez chegar, perde mais um pouco daquele mesmo tempo que a gente não tem. Se tiver boa memória para pagar as contas em dia, lembrar onde deixou o guarda-chuva e as chaves, colocar o relógio para despertar e procurar a paz, entra num tédio sem tamanho e vira um daqueles quadradinhos em branco do calendário, que, curiosamente, serve para marcar o tempo que todo mundo quer ter um dia.

Simples assim.


Taking roots, de autoria de Christopher Ferris, é o nome do papel de parede que ilustra este post. Você pode encontrar este e outros deste fotógrafo aqui.

21 outubro 2007

Vontade de verdade

Hoje me deu vontade de pôr tudo no lugar, os pingos nos is, tudo em pratos limpos — e novos. Vontade de verdade, de sol, de ar bem puro passeando pelos pulmões de um jeito bem despreocupado.

Hoje é dia de pregar botão, de alinhavar tudo o que está solto, pôr para lavar o encardido, tirar o edredom da cama, porque é quase verão, e a preguiça teima em enrolá-lo ao pé da cama todos os dias — isso sufoca.

Hoje é para jogar fora aquele monte de coisa que recebo pelo correio e que me informa o que eu já sei. Tirar o pó, limpar o teclado, mudar de idéia. Está na hora de arquivar a tonelada de documento que se empilha há dias em cima de mim — isso oprime. Trocar a cor da tinta, escrever com outra caneta, colocar para reciclar algumas embalagens que, sei lá, eu cismei de guardar por algum motivo que já fugiu de mim.

É porque hoje acordei de outra cor, com uma disposição daquelas de lavar carro, mas vou lavar mesmo é meus pecados, minhas lamúrias e toda sorte — aqui seria melhor escrever "azar" — de quinquilharias emocionais que andam atopetando de cólera todos os meus armários.

É dia de devolver para a estante os livros que não estou lendo, mudar a folha do calendário, porque o mês novo já entrou faz um tempo e eu nem percebi. A vontade é mesmo tirar da frente o que confunde minha visão, aquele monte de formas que olham para mim toda hora pregadas no quadro de avisos. Já avisaram o que tinham para avisar. Está na hora de saírem de lá.

Agora é a hora de parar de implicar, parar de amontoar as roupas em cima daqui e de lá, esperando a hora de arrumar. É hora de parar de esperar. Sacudir a moleza e mandá-la passear. De preferência, lá para a Capadócia, que é onde a gente pode ser bem mole até ver o tempo parar.

Hora de acabar com os restos de xampu, com o nunca que a gente enfia nas gavetas achando que um dia vai usar. Hora de doar, pôr para circular, desfazer-se tirando todos os nós, andar descalço, vestir roupa leve, esfoliar o cérebro para deixar só essência.

Hoje, minha gente, é dia de ver orquídeas, de andar florido, de encher a casa de lírios, de sentir perfume bom, cheiro de bolo quente, pão doce ou bom humor.

É dia de simples, de dançar, de rodopiar até ficar tonto no meio de tanta coisa para fazer. Dia de deixar o que é chato para lá. Porque a vontade de verdade é de paz.



Para quem é de São Paulo e está a fim de ver orquídeas, o Orquidário Morumby é uma boa pedida. A exposição "Festival da Primavera" vai até dia 28/10/2007, e, para entrar, basta levar um quilo de alimento não perecível. Você vê beleza e ajuda o próximo. Ótima maneira de ficar em paz.

Os lírios da paz que ilustram o post são um pedacinho do meu quintal que escaneei, usando como fundo um presente lindo que ganhei da Cleu Sampaio, junto com uma bolsa linda que ela fez para mim, porque ela transforma a arte que vai dentro dela em objetos personalizados que combinam com a alma. Passa lá para ver...



28 fevereiro 2007

Trinta dias contados


O último dia do mês geralmente é o último dia de tudo.

Em um mês, a gente muda de casa, de rumo, de estado civil, de emprego, de país ou de plano, inclusive espiritual. A gente passa dessa pra melhor ou se enrosca de um jeito na vida que acaba pior do que o mês anterior.

A gente termina de pagar conta em prestações, abre novo crediário, torna-se mensalista, recebe mesada, juros de poupança, salário defasado e mais contas para pagar. A gente faz balanço, malabarismo, milagre, contabilidade, previsão. Espera o mês seguinte pra ver como vai ser.

Em um mês a gente se vira, vira a página, a mesa, a folha do calendário, o jogo. A gente termina ou começa uma dieta, fecha a boca, tira férias, a barriga da miséria, engole sapo e fica digerindo situações mal explicadas até o mês seguinte. A gente dá um tempo, se aperta, se aflige, se emociona, se encanta e se decepciona. Experimenta todas as épocas do ano para decidir qual a de que mais gostamos.

A gente pega chuva, gripe, pega mal, cura ferida e paga o plano de saúde torcendo para não ter de usá-lo.

A gente termina um projeto, um curso, um relacionamento, uma aposta. A gente pode até nascer de novo, morrer, ser desenganado, preso, solto, corrompido, absolvido, deportado, assaltado ou levado a tomar atitudes extremas. Deste mês não passa.

Em um mês a gente vê, com um pouco de sorte, um feriado, vê quatro luas, uma menstruação, quatro ou cinco semanas, duas ou três baladas, um escândalo, uma polêmica, um punhado de aniversários, trezentas medidas provisórias, uma inflação mais alta, muita violência, nenhuma mudança política num governo que é um zero à esquerda.

A gente leva adiante, leva calote, susto, soco no estômago, leva a mal, vai levando... levanta. Completa uma gravidez, um contrato, a idade, um raciocínio, um ciclo, um sonho, um período de experiência. Ou deixa para completar tudo isso daqui a um mês.

A gente fala quinhentas vezes "no mês que vem", pergunta outras mil em que dia do mês estamos, quantos meses faltam para a Páscoa, o Natal, as férias, o Carnaval. Pergunta, pergunta, se pergunta trinta, trinta e uma ou vinte e oito vezes a mesma coisa.

Mas em um mês a gente também pode achar respostas, graça, fazer uma descoberta, entrar para uma terapia, receber alta, herança, parar de tomar tanto tombo, tanto remédio e tomar mais sorvete, providência, atitude, ar.

Tomara.


05 novembro 2006

A hora do aperto

Por alguns dias tive o tempo a meus pés, algo só possível quando se tem férias ou quando ocorre algum evento geralmente de natureza catastrófica que nos obrigue a ficar trancafiados em algum lugar sem nada para fazer, num exercício entediante e aflitivo de perder tempo.

Curiosamente, hoje entrou o horário de verão, quando os relógios tiveram de ser adiantados em uma hora. Mas minha sensação de tempo perdido é gigantescamente maior que isso, sobretudo agora, a menos de uma semana de retomar aquele ritmo alucinante de luta contra os ponteiros mais ágeis que eu.

Eu só tenho 31 anos, embora às vezes me sinta com 40. 9 anos perdidos. Mas também há dias em que me sinto mais nova, no auge dos 20, devido a um daqueles banhos imaginários em alguma lendária fonte da juventude. 11 anos perdidos. Os mais racionais dirão, como naquela metáfora do copo mais cheio ou mais vazio quando a água nele está exatamente na metade, que 31 são 31, nem mais um nem menos um. Mas eu estou perdendo tempo, e isso é um fato que nem a Matemática explica.

Estou perdendo os sonhos que não consigo realizar por motivos que independem de mim. Estou perdendo as viagens que poderia fazer não fosse a obrigação de comparecer diariamente ao trabalho (o mesmo trabalho que paradoxalmente pagá-las-ia). Estou perdendo horas fantásticas ao lado de amigos mais fantásticos ainda que só consigo ver nas férias. Estou perdendo céus coloridos que as janelas do escritório não me deixam ver e estrelas sempre cobertas quer pela poluição, quer pela minha falta de tempo para contemplá-las.

E, nessa perda de tempo, não sou mais capaz de visualizar as palavras de amor que ainda quero ouvir, os olhares cúmplices teóricos que nunca tiveram tempo de serem praticados, as tortas de morango que não tive tempo de aprender a fazer, os solos de violão que a falta de tempo trancou no armário, os filhos que não tive, as orações que não fiz, os momentos de liberdade covardemente sufocados por estar sempre atrasada, numa luta insana contra o que sempre passa mais rápido do que eu, as pessoas que não conheci por nunca ter chegado a hora, as conversas que poderiam acontecer não fosse eu ter de fazer mil coisas ao mesmo tempo, os beijos que não recebi de alguens que não tiveram tempo a me dedicar ou que têm predileção ao depois, o que deixei de fazer enquanto esperava o trânsito andar, o dentista me atender, o médico chegar, a fila acabar...

Não adianta: quanto mais o calendário anda, mais tempo eu perco. (O ideal seria não dormir, como agora, mas numa insônia voluntária e compensadora, multiplicadora de horas extras, diferente desta, motivada pela sensação de impotência diante de horas contadas.) Eu trocaria, de olhos fechados, muitas das minhas horas solitárias por poucos minutos de companhia sincera e espontânea.

Pode ser a cidade em que vivo a maior culpada por essa sensação de relógio acelerado. Pode ser minha ansiedade ou minha expectativa pelo diferente, que teima em acontecer sempre igual na minha vida, ou, ainda, a constatação infeliz de que tudo está mudando exceto eu. Essas coisas atropelam tudo sem piedade, fazendo das vinte e quatro horas um piscar de olhos.

Então, hoje, quando adiantei o relógio em uma hora, não doeu. Foram apenas cócegas nesse imenso desperdício.


27 outubro 2006

O tempo a meus pés

Foi uma segunda-feira dos ventos. Uma ventania desvairada de descabelar qualquer mentira cabeluda, despenteando até os mais carecas.

Com férias assim, ventando contentes, o que fazer com tanto tempo livre, arrepiado de frio? Dizem que, quando venta muito, é porque morreu um padre. Pois devem ter assassinado o clero inteiro naquela segunda-feira dos ventos.

Apelei então para a mais solidária das companhias, dessas que trazem eras dentro delas, com 45.578 histórias diferentes se entrelaçando em tranças intertextuais. E li, em voz alta, 327 páginas deliciosas, entonando emoções para minha irmã mais velha, de férias comigo na praia da ventania.

A Kelly é preguiçosa para ler. Por coincidência do destino, foi ter uma irmã movida a leitura. Passamos a segunda-feira dos ventos lendo Luna Clara&Apolo Onze, eu engolindo as palavras em sílabas docinhas, ela vidrada, querendo sempre que a história continuasse e que o vento parasse.

Por outra coincidência do destino, o livro começa justamente falando do vento, de tarde, de gelatina, esquilos, gerânios, pensamentos, vaga-lumes, chuva, novidade, inusitado, tempo, procura, desencontros, aventura, tudo vindo de lá de onde o vento vinha, lugar em que o tempo tira férias.

Conhecemos personagens incríveis que dialogavam mundos numa linguagem que, se não era onda, tinha aprendido a embalar sonhos com o mar: justo ele, ali, tão pertinho.

Fazia tempo que eu não devorava um livro inteiro assim, sem entrada nem antepasto, feito pudim de leite que escorrega pela garganta caramelada. Tive vontade de ter um cavalo só para chamá-lo de Equinócio, ou dois cachorros bem grandes com o nome do par que dá título ao livro. (Outra coincidência do destino: já tive um dog alemão lindo de morrer chamado Apolo, e meu irmão tem uma cadelinha labrador com o nome de Luna.)

Queria visitar Desatino do Sul e Desatino do Norte, me demorando em conversas com Seu Erudito ou invadindo a festa sem-fim que Dona Madrugada e Seu Apolo Dez, junto com as sete maravilhas do mundo, promovem há exatos treze anos, dezoito meses e quinze dias.

Percebi que tenho desejos de desejo e que, como Doravante, não desistiria de meus ideais ainda que com uma nuvem carregada de chuva bem em cima da minha cabeça, chovendo azar.

Até aquele momento, não sabia o que toda essa ventania da segunda-feira estava querendo trazer para mim: vontade de usar chapéu xadrez, de ler revista velha; tomar café-da-manhã demorado ouvindo o barulho do mar; andar feito cata-vento, só parando para ver o pôr-do-sol; encher o boné de conchas de todos os tamanhos e cores; colecionar caramujos; escalar pedras; comer bolo de chocolate com sorvete; visitar amigos distribuindo abraços; ver um monte de beija-flores dançando ao redor de orquídeas; olhar sonolentamente para o céu estrelado, só visível fora da poluição urbana, e pensar em todo mundo para quem a gente quer que as coisas dêem certo; tomar café recém-passado, em coador de pano, pela madrinha, acompanhado de biscoitos de goiabada; e me entregar preguiçosa ao Vale da Perdição, onde as palavras me seqüestram, encarcerando-me junto com um papagaio intelectual chamado Pilhério... Coisas simples que podemos fazer no dia-a-dia, mas que só dá para fazer tudo junto nas férias.

Que vente muito assim na minha vida, sempre e em todo lugar, para me fazer ler mais 2.876.457.382 livros em voz alta, para propagar aos quatro ventos tudo o que Luna Clara e Apolo Onze me ensinaram num pedacinho tímido do litoral paulista de um 23 de outubro ventoso, vendavando literatura e espalhando férias, num sopro contínuo de descanso inesquecível, que todos nós merecemos...


04 agosto 2006

Atraso de vida


Lá na rua onde fica a empresa pra qual trabalho há uma árvore muito bonita. Todas as vezes que, na hora do almoço, passo a pé por ela, olho para cima. Nas últimas vezes ela estava carregadinha de flores cor-de-rosa. Acho que aquilo é um ipê, mas, como só vejo a beleza, não atento para as especificações técnicas, como nome científico, família etc. Sei que, nessas últimas vezes, eu olhava para a árvore e recorrentemente pensava "preciso fotografar isso exatamente nesse ângulo". Mas eu nunca trago minha câmera para o trabalho, então, minha relação com a árvore ficou assim, platônica, sem se concretizar em imagem alguma.

Hoje, ao passar novamente por ela, vi que só havia umas duas ou três flores. Puxa, que frustrante! Eu perdi mesmo a oportunidade de fotografá-la quando estava carregada! Tudo bem, eu espero isso acontecer de novo. Pelo menos agora ela já está brotando; alguns galhos têm folhas verdinhas e novas, ainda assustadas com esse frio todo que tem feito por aqui, é verdade, mas firmes e fortes recompondo o cenário abalado pelo tempo.

Aí, pensei: "tem outra árvore no meu caminho diário na mesma situação. Só que é amarela". Tudo bem que essa ia me dar uma certa mão-de-obra, porque sempre passo por ela de manhã, indo para o trabalho de carro, e teria de parar o trânsito para poder tirar um retrato. Nessa cidade insensível, nem preciso dizer que seria xingada, vaiada, multada ou até agredida por tentar registrar o belo. Isso, nesta selva, ninguém entenderia. E, se eu insistisse em tentar explicar, acabaria sendo levada para um hospício, que é o lugar onde, segundo a definição mais comum, são colocados os loucos. Literária e curiosamente, entretanto, os loucos ou são poetas ou são santos, os únicos com capacidade de fazer o que ninguém faz quer por ignorância ou por covardia.

Mas hoje, quando passei por essa árvore (e, para variar, atrasada), nem observei se ela estava ainda em condições de ser fotografada ou não. Ironicamente, aquela rua é contramão; só vou poder saber isso amanhã.

Isso me fez pensar em como a gente deixa tudo para depois pretensiosamente crentes de que teremos o depois, em como estamos sempre atrasados em relação aos nossos desejos. Esquecemo-nos de que às vezes as ruas podem ser contramão ou de que o tempo é invariavelmente implacável.