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03 novembro 2014

Enterro

“Viver é sempre dizer aos outros que eles são importantes. Que nós os amamos, porque um dia eles se vão 
e ficaremos com a impressão de que não os amamos o suficiente”
Chico Xavier


Quando ela chega a mudez toma conta. Fica tudo atônito, suspenso. Muito embaçado, confuso e triste. É só nessa hora que ela é mais forte que o amor, por ser capaz de reunir de verdade, em carne e osso, principalmente osso, as pessoas. 

Quando ela chega, é a essência que fica. De quem foi e de quem ainda está. Porque a sensação de última vez opera os milagres que o amor passa a vida tentando fazer.

Quando ser deixa de ser, o que permanece se torna mais importante do que tudo o que já foi. Emergem arrependimentos com os quais será preciso conviver, quando poderiam ter sido extintos no viver. Com viver é isso: carregar e pesar, relevar e guardar, esquecer e lembrar, constantemente lembrar, de um momento covarde, uma reação descabida, um silêncio coberto de pensamentos não ditos que poderiam ter feito toda a diferença.

Mulher vendendo lenços em um cemitério de Istambul (2013).
Há gente que passa a existência toda em um eterno velório, apenas admirando a essência alheia, remoendo remorsos, entristecendo-se com a falta de movimento, mas sem se levantar da cadeira. Sem se levantar.

Há também quem mate outros antes de eles morrerem de fato, quer por uma procrastinada chance à paciência, quer por fraqueza preguiçosa e lenta de dedicar-se. É melhor assistir à TV. Ou comer um chocolate para enganar o amargor. Enfrentar dói. O travesseiro é mais macio.

Uma vida inteira para amar, fazer-se presente, interessar-se. Mas o ultimato da despedida é sempre mais forte, porque ela não tem amanhã, daqui a pouco, depois eu vou, deixa pra lá, ligo mais tarde, deixo para a semana que vem. Ela não deixa. Leva embora. E acabou-se.

O fim é um alívio mais duradouro que o durante. Morrer é mais fácil que amar. Mais rápido também. E extremamente mais covarde. Quanta injustiça a morte, mais preguiçosa, conseguir a proeza de juntar, na mesma hora e local, pessoas que se amam e justamente por isso deveriam se juntar mais vezes. Talvez por ser uma constante busca, o amor insira nas pessoas a certeza de que amanhã tudo estará como hoje, de que é possível esperar, de que o tempo é dominado pelo caráter humano, quando é justamente o oposto: ele é a foice.

É na morte que as pessoas são mais hipócritas. E mais desesperadas. É quando enfrentam a si mesmas com a implacabilidade do inevitável. Por outro lado, é também na morte que elas são mais solidárias, às vezes mais por susto que por sentimento genuíno.

As pessoas são mais unidas na morte que na vida. E essa verdade mortifica.

05 fevereiro 2011

A falta que você me faz

Serra Negra, SP, numa tarde em que Deus resolveu tomar sopa no céu


Deveria ser lei todo mundo ter avó até o final da vida, porque a gente passa a maior parte dela sentindo falta de uma. E não me refiro aos doces, aos afagos cúmplices, à piscina de afeto azulzinha só de olhar. Sinto falta da sabedoria que só as avós têm. Elas sempre sabem o que fazer bem na hora em que não sabemos. Elas pescam as dúvidas em nossos olhos, sem que tenhamos de pronunciar angústia.

Quando eu era bem pequena, minha avó materna me visitava às quintas, quando a feira fugia do dia da semana para se instalar na rua em barracas bem coloridas. Ela chegava um pouco antes do almoço, carregando uma panela cor de abóbora com tampa preta, onde guardava salsichas apetitosas mergulhadas em molho de tomate caseiro. Prendia a tampa à panela com uma manobra de elástico. Logo atrás vinha uma tigelinha cor de areia de tampa de vidro transparente que deixava à mostra uma farofinha gostosa.

As quintas eram meus dias preferidos porque era quando eu mais tinha avó. Num desses dias, ganhei dela uma lupinha para observar formigas. Até então, eu nunca havia reparado no minúsculo. Essa é outra habilidade das avós: ensinar a gente a ampliar o campo visual.

Foi com a minha avó que aprendi que não se pode gastar com uma mão o que não se tem na outra. Às quintas ela me dava moedas, mas me incentivava a poupá-las em vez de sair desembestada para comprar uma vontade. Quando eu era um pouco maior, mas ainda pequena diante de parâmetros adultos, veio outra lição: o dinheiro se conquista, não se ganha. Eu pintava umas gravuras que achava bonitas e minha avó as comprava de mim com mais centavos. Devia jogá-las fora, hoje eu sei.

Minha avó era severa na educação dos netos. Falava baixo, mas sempre firme. Tinha horror a escândalo, louça e toalha de plástico, xícara de borda grossa, guardanapo de papel. Vestia-se sempre com roupas simples mas de caimento perfeito, era recatada. Embora não tivesse completado o ensino fundamental, teve educação europeia: aprendera boas maneiras como governanta de uma família alemã de cuja fazenda o pai fora administrador. Comigo nunca falou alemão, mas minha mãe afirma que minha avó conhecia muitas palavras dessa língua.

Tinha nome literário ela: Julieta. Tinha um irmão Romeu. Entretanto, embora alfabetizada, minha avó não era de ler histórias em livros. Ela me contava algumas de cabeça. Uma delas era uma parlenda – hoje eu sei o nome – de um caranguejo que havia brigado com um galo e levado uma bicada. Saía por aí pedindo um “pano porque o galo me pinicou” e desenrolavam-se muitas exigências dependentes umas das outras para que o bicho obtivesse o tal pano. Foi a primeira vez em que tive contato com um final não feliz, porque, mediante tanta barganha, o pobre-diabo acabava morrendo. Ao terminar o caso, minha avó ria. Eu não entendia a graça e achava horrível as pessoas terem se recusado a ajudar alguém necessitado por pensarem em se beneficiar disso de alguma forma. Sábia, minha avó. Estava me preparando para o mundo: no fundo somos todos caranguejos implorando por panos para estancar feridas.

Todas essas lembranças, porém, não são suficientes para eu me sentir completa. Minha avó sempre falta, porque tem muita coisa que eu não tive tempo de perguntar a ela e que eu tenho certeza de que ela saberia me responder com o pé nas costas, com toda aquela experiência que o rosto denunciava. Ela me entendia mais do que meus pais porque era mãe ao quadrado.

Deveria ser proibido as avós morrerem no início da adolescência da gente, quando mais precisamos delas. A gente acaba se virando sozinha, é verdade, mas nunca tão bem. E termina arrastando para a vida adulta todas as perguntas que não puderam ser pronunciadas e que manual, guru ou google nenhum respondem.

Penso na minha avó todos os dias, porque ela faz parte de mim, porque foi com ela que aprendi a me portar direito, a zelar por meus pertences, a ser criativa, solidária, responsável, observadora e sensível. É nela que me espelho para continuar uma mulher forte. Ela era dona de si.

Mas hoje, especialmente, eu sinto uma falta gigante da minha avó. Hoje é um daqueles dias sem saída, em que tentamos escalar as paredes mesmo conscientes de sua altura. Nessas situações, dona Julieta não me estenderia uma escada, tenho certeza, mas me ensinaria a construir uma com o que eu tivesse à mão.

Eu olho, olho, olho ao redor. Até enxergo possibilidades. Mas não sei montar com elas uma escada. Continuo perdida, me debatendo com perguntas e mais perguntas me tirando a voz, acumulando na garganta. Perguntas que só minha avó, do alto de sua sabedoria, saberia responder, ainda que sem palavras.

Queria que hoje fosse quinta-feira.

31 dezembro 2009

Renovação

Última página do meu álbum da Itália

Que saudade de escrever aqui. O último dia do ano é mesmo um dia estranho, todo saudoso, como se carregasse em suas horas todos os minutos do ano que passou, tudo o que vivemos e não volta, todos os sorrisos que demos, a intensidade do que sentimos. Mas também é um dia que carrega o futuro: o ano que está por vir. É o momento oportuno para idealizarmos nossos desejos, estabelecermos metas e reunirmos forças para cumpri-las – muita gente faz listas de metas de ano-novo e não se compromete consigo mesma para cumpri-la. Isso é grave.

2009 foi um ano de muito trabalho para mim – 90% dele consequência da entrada em vigor do Acordo Ortográfico. Curiosamente, uma das minhas metas de ano-novo era trabalhar menos. 1 x 0 para o tempo. Mas, sendo a minha especialidade a língua portuguesa, não tinha como eu ficar olhando a banda passar. Por conta disso, o que eu não vi passar foi o ano, que hoje termina com uma sensação de São Silvestre dentro de mim, uma pressa danada de tentar dar conta de tudo num tempo curto demais para tanta intenção.

Mas outras metas foram cumpridas. Metas menos egoístas que demandaram de mim uma renovação comportamental: conviver mais com as pessoas. Este ano, batizei meu segundo afilhado; ganhei três sobrinhas lindas – uma de cada irmão –; fui (finalmente!) ao show da Laura Pausini, minha cantora favorita; conheci pessoas legais; revi amigos incríveis (ainda faltaram alguns...); completei 10 anos na mesma empresa; estive em Brasília, no Rio de Janeiro, em Itapetininga, em Florianópolis e em Belo Horizonte, para conhecer outros horizontes e novos amigos; mudei a operadora de celular graças à portabilidade, para falar mais com mais pessoas; fiz biscoitos para os outros; fiz bastante artesanato de presente para amigos; escrevi para uma revista; amei e fui amada do jeito que as pessoas sabem amar. E elas sabem amar de jeitos estranhos e introspectivos às vezes...

Em 2009, cuidei mais da minha vida, apesar de trabalhar tanto: cortei minhas madeixas onduladas; mudei o grau dos óculos (para mais!); consegui montar meu álbum da Itália; senti uma saudade danada da Itália; aprendi a usar carimbos e a tirar melhores fotos; comecei a assistir a todos os filmes da Audrey Hepburn; mudei uns paradigmas; ganhei um livro em francês como incentivo para estudar francês; terminei de ler O amor nos tempos do cólera; engordei (finalmente!); comprei a lingerie dos meus sonhos e fui obrigada, pelas minhas metas, a ausentar-me um pouquinho do mundo virtual para viver mais o real. Escolhas são assim.

É verdade que um ano não cabe em dois parágrafos – mas, com um pouco de dedicação, pode caber na memória, em um álbum de fotos, em cartas, cartões, depoimentos em comunidades virtuais, e-mails sinceros, torpedos expressivos, enfim, em todas as formas de comunicação.

Sabe, eu acredito verdadeiramente na comunicação e faço o que posso para neutralizar mal-entendidos, incentivar sinceridades, deixar claro o que penso, ajudar as pessoas a serem mais íntegras, coordenando pensamento, sentimento e ação. O mundo PRECISA disso: de teoria andando de mãos dadas com a realização; de intenções sendo postas em prática, de palavras ditas, de menos interpretação e nenhum blá-blá-blá. O mundo precisa ser mais simples e objetivo, como uma canção de ninar.

E é como uma canção de ninar que o ano termina, porque hoje é dia de saudade e de novas metas, a tal da renovação de que tanto falam. Mas ela só se concretiza a partir de atitudes, de um novo comportamento, de uma nova forma de pensar, de se comunicar, de fazer acontecer. A renovação só se realiza mediante o comprometimento. Infelizmente, as pessoas não se comprometem mais hoje em dia, nem consigo mesmas nem com os outros. Elas transferem, repelem, evitam, ignoram, deixam para lá, para depois, pra alguém resolver. Isso não é deixar de ter trabalho. Isso é ser medíocre.

O ano será novo. Nós temos de ser também. Íntegros, comprometidos e esforçados.

Sem medo.


Uma das minhas metas de 2010 é escrever mais neste blog. Obrigada a quem me lê, a quem comenta, a quem me manda e-mails, a quem me acompanha sem me conhecer. Feliz ano-novo!

12 setembro 2007

Algodão-doce

Com um pouco de atraso (desculpem!), este post responde o convite que recebi do Rafael Porto, do Alforria. Parece simples, mas resumir as lembranças todas da infância a apenas cinco faz pensar um bocado...


Lápis de cor

Sempre fui uma criança curiosa, que tudo perguntava e tudo queria saber. Nunca aceitava ordens sem que me explicassem o motivo, porque a racionalidade mora em mim desde que nasci. Então, quando me mandavam fazer alguma coisa sem me explicarem por quê, eu simplesmente não fazia, por não entender a necessidade daquilo.

Os apelos eram em vão. Se não me convencessem, nada feito. Uma criança quase incorruptível, não fossem... os lápis de cor! Por uma caixa deles, de 12, 24 ou 36 cores, eu fazia qualquer coisa. Lembro-me de que minha mãe, às vezes cansada de argumentar comigo, apelava para o acordo: "Kandy, se você fizer o que a mamãe combinou com você, você ganha uma caixa de lápis de cor". Valia a pena.

Mesmo que eu já tivesse uma caixa, sempre queria mais. Adorava olhar para as cores arrumadinhas fazendo degradê, mesmo sem entender para que servia o branco; achava mágico demais ter o poder de colorir tudo o que nasce sem graça, desprovido de alegria.

Um dia, num aniversário aí, acho que de 8 ou 9 anos, minha tia me deu um estojo de zíper com dois compartimentos recheado de cores. Ela conseguiu reunir lápis de cor e canetinhas de todas as cores do mundo num lugar fechadinho só para mim! Foi um presente inesquecível! Outro dia, no Orkut, reencontrei um amigo meu da infância que, ao ser perguntado se se lembrava de mim, respondeu rapidinho: "se eu me lembro? Claro! Você era aquela menina que tinha um estojo cheio de lápis de cor!"...



Jantar de domingo na casa da minha avó

Uma vez por mês, eu, meus irmãos e minha prima nos reuníamos na casa da minha avó materna para jantar. Éramos tão pequenos que cabíamos todos ao redor da mesa de centro da sala, que minha avó cobria com uma toalha com cheiro de sabão em pó. Comíamos em pratos fundos, de louça boa, com garfo e faca de sobremesa. Bebíamos vinho com água e açúcar, que minha avó colocava em cálices de cristal bem pequenininhos, desses de servir licor. Eu me sentia importante com um cálice daqueles, porque, nas histórias da Idade Média que eu lia, todos os cavaleiros e reis e rainhas e princesas usavam cálices nas refeições.

O menu era sempre o mesmo: macarrão com salsicha Santo Amaro, aquelas gorduchas e suculentas, farofa com ovinho e azeitonas e, às vezes, a torta de batata da Celina, uma senhora que sempre trabalhou para a minha avó e que merece um post só para ela.

Minha avó gostava de guardanapo de pano, xícara de borda fina sempre com pires, coisas de cristal, porta-guardanapo de metal, tudo fino. Eu achava o máximo, mas sempre me atrapalhei com molho de tomate. Todas as roupas do meu armário têm atração por molho de tomate... Então, minha avó abria um guardanapo de pano bem grande (para mim era bem grande) e amarrava-o em volta do meu pescoço, feito aqueles bandidos de bangue-bangue. E era assim que eu comia, junto com meus irmãos e com minha prima, assistindo aos Trapalhões, quando eram quatro e engraçados.



Livros de contos de fadas e do rei Artur



Sou fã número um do Rei Artur. Chorei feito uma louca quando li a história do Tristão e da Isolda. Acho a rainha Guinevere uma fraca indecisa e, apesar de concordar com a população feminina mundial de que o Lancelot era um pedaço de mau caminho, nunca o perdoei por ter traído o rei Artur, um homem tão nobre e justo daqueles! E rei, ainda por cima!


Isso é que dá ler desembestada! Eu me insuflava de maniqueísmos de tanto que lia contos de fadas de todos os países, em edições de capa dura com a ortografia ainda antiga, antes da reforma ortográfica de 1970, apesar de eu ter nascido em 1975. Da coleção toda, os de que eu mais gostava eram Os mais belos contos de fadas tchecos e Os mais belos contos de fadas húngaros. Eu nem sabia o que era tcheco e húngaro, mas tudo bem, devia ser uma coisa legal.


As ilustrações eram grosseiras, mas eu gostava. Passavam uma idéia de sombra, mistério... e aquela ausência de cor me fazia querer pintar tudo com os meus lápis de cor. É que eram tantas ilustrações que, se eu fosse pintar uma, teria de colorir todas. Era trabalho demais, eu acho... ia gastar todo o meu estoque de lápis de cor. Então, decidi que não valia a pena. Ficava só com as histórias mesmo, com anões, dragões, princesas e injustiças num mundo esquisito onde as pessoas usavam roupas mais esquisitas ainda, sumiam e apareciam do nada, voavam, adivinhavam ou eram tapadas demais para entender o que estava acontecendo ao redor.




Passeios de graça com o meu avô

Meu avô já ganhou um post só para ele, mas os passeios que fazíamos eram mesmo inesquecíveis, sobretudo porque ele me fotografava, numa época em que ninguém quase era fotografado assim, com essa abundância de cliques.

Como éramos cinco netos, meu avô não tinha dinheiro para levar a gente a lugares caros. Então, ele foi o responsável por estreitar minhas relações nada amigáveis com o governo, porque me levava a todos os lugares públicos de São Paulo. Eu conhecia todos os parques, o do Ibirapuera, da Água Branca, do Carmo e do Piqueri; andava de metrô para cima e para baixo, e era amiguíssima da girafa do Zoológico, porque eu vivia lá, era praticamente de casa. Ao que parece, num dado momento lá ela nem agüentava mais olhar para a minha cara, por isso nossa amizade terminou, eu acho. Pescoçuda de uma figa!



Brincadeiras na casa da minha prima

Era muito legal ir para a casa da minha tia, a única irmã da minha mãe. Lá eu jogava Atari, apesar de sempre perder dos meus irmãos, brincava de pista (minha prima espalhava pistas em pedaços de papel remetendo a gente de um lugar para outro pela casa inteira até achar o tesouro, geralmente uma coisa bem besta...), de trenzinho, de casinha, de cabana no jardim, participava do batizado da Fifi, a coelha bege e fofa que minha prima tinha, escorregava pelo beiral da escada, dava comida para as tartarugas que me morderam o nariz quando eu era bem pequena, ouvia música, dançava e, o mais legal de tudo: me fantasiava. Não sei se minha prima me achava com cara de boneca para ficar me vestindo daquele jeito, mas eu achava divertido experimentar aquele monte de roupas engraçadas, usar colares, chapéus, bolsas, sapatos e maquiagem de gente grande. Minha prima tinha uma Polaroid e acho que se divertia mais do que eu fotografando aquela palhaçada toda!



Não posso reclamar porque tive uma infância especial e feliz, a base do que sou hoje, dos valores que carrego, do meu senso de família. Foi na infância que aprendi a ser verdadeira, a dar vazão à criatividade, a achar que todo mundo é bom, que tudo é açucarado e possível, numa ingenuidade típica de quem não tinha com o que se preocupar.

Então, apesar de ser uma pena crescer e perder um pouco disso, a saudade é bem boa. Dá um acalento todo especial à alma e faz brotar um sorriso suave nos lábios, desses que só quem foi criança de verdade consegue resgatar de vez em quando.


30 julho 2007

Amigo pra cachorro


Quando cheguei em casa hoje, vi a Lua linda e redondinha no céu. Estava tão brilhante, talvez por causa do frio, que me deixei encantar. Mas faltava alguma coisa... Uma Lua assim tão imponente no meio do azul-marinho (que deveria ser celeste) estava silenciosa demais para o meu gosto.

Em noites assim, de Lua calada, sempre me lembro do Apolo. Por razões que talvez apenas Zeus conheça, o Apolo detestava tudo o que habitasse o céu. Latia para a Lua, para pipas, aviões, fogos de artifício, pássaros e balões. Só perdoava as estrelas. Era poético esse meu amigo, um dog alemão muito boa gente, que de cachorro só tinha a fidelidade, o físico e a onomatopéia — tem muita gente-cachorro que não chega aos pés dele.

Ninguém nunca me olhou como ele me olhava, jeito desvelado de dizer eu te entendo sem sequer levantar as sobrancelhas. Aceitava-me triste, entusiasmada, concentrada ou feliz, com os cabelos bonitos caindo sobre os ombros ou todo emaranhado num birote improvisado; de pijamas descombinados ou na elegância de um salto alto. Nunca desfiou uma meia de náilon minha, apesar de ter destruído meu escalímetro. Às vezes cismava em subir na minha cama. E ficávamos cada um com metade, em média uns cinco minutos, até que ele se enchesse de tanto aperto e resolvesse ir para o chão.

Até hoje, foi o único que me enxergou transparente, fazendo-me companhia, sem reclamar, em muitos longos finais de semana em que eu ficava em casa e a família debandava, revoada inquieta. Fazia o supermercado inteiro achar que eu era dona de um canil: "80 quilos de ração? Nossa, quantos cachorros você tem?". "Um", eu respondia. Era único mesmo.

Mal-agradecida que eu só pela gentileza da fiel companhia, premiava meu amigo dourado — melhor seria dizer de ouro — com um banho que encharcava o mundo. O Apolo era enorme. Só assim para abrigar coração tão grande. Íamos ora eu e ele, ora ele e eu, não se sabe quem levando quem para onde, rumo à saga de tentar fugir ou desencardir toda aquela área peluda. Eu sempre saía mais molhada, e ele, mais limpo. É o que dá misturar leão com cachorro.

Em compensação, eu o deixava andar no meu carro popular. Abaixava o banco e abria o porta-malas, convite perfeito para um passeio, porque, na coleira, era impossível andar civilizadamente com aquele ser mitológico fora dos portões de casa. Os quase noventa quilos dele sempre arrastavam os meus cinqüenta.

Invariavelmente, porém, acabávamos sempre no mesmo lugar: a casa da Sonia, uma dachshund muito da posuda, apesar do tamanho, que se dependurava nas orelhas do Apolo com uma coragem espantosa. A Sonia guardava o consultório da Florinda, criadora de são-bernardos e veterinária do bairro, a paciência em pessoa para limpar o tártaro daquela bocarra de cavalo que só o Apolo tinha. Era tratado no chão mesmo, sobre o cobertor dele — um de solteiro, que ele sempre carregava com a boca, dobrado, sem arrastar no chão —, visto que colocá-lo na mesa era missão para alguém bem mais forte do que eu e a Florinda juntas.

Não sei quantas tardes de sábado eu passei naquele consultório esperando os quase noventa quilos acordarem da anestesia e caminharem com as próprias pernas para o porta-malas do meu carro. Não sei quantas vezes levei o carro para lavar depois de ter sido marcado tão carinhosamente por montes de babas alegres por voltar para casa, nem quantos chumaços de algodão gastei para limpar aquela vastidão de orelhas sem fundo ou quantas foram as tentativas de fazê-lo parar quieto para trocar os curativos da orelha operada para retirada de coágulo.

Quanto trabalho!, todo mundo dizia. Não entendiam que, quando a gente ama verdadeiramente, se doa de um jeito desinteressado e espontâneo, que compensa supostos esforços que nunca existiram, nada mais que uma troca: eu cuido de você, você me ensina a ser melhor.

Estabanado, guloso, divertido, desengonçado, carinhoso, folgado e sem noção de direção, proporção ou espaço, esse meu cachorro me ensinou a semântica de sua denominação: era mesmo um animal para estimar, meu bicho de estimação por oito anos e meio.

Não me lembro o ano em que o perdi, só sei que faz tempo, muito pra mim. A saudade é mesmo assim: se estica até não poder mais quando o amor é maior que a gente. O Apolo morreu dormindo, depois de, sem saber, termos nos despedido rolando longamente pelo chão em brincadeiras afoitas.

Hoje eu entendo por que ele não latia para as estrelas.


07 maio 2007

Um caso de amor

Chega, pra mim tà tudo acabado. Nada vai me fazer mudar de idéia.

Sete anos, você tem noção?! Foram sete anos de cumplicidade, de companheirismo de que eu estou, sim, abrindo mão. Cansei simplesmente, apesar de sentir assim uma pontada de pena, uma tristezinha assim... apertadinha, sabe?

Eu sei, isso magoa. Mas tem hora que não dá mais. Você está careca de saber o que eu penso (ai, ai, e põe careca nisso...), eu nunca te enganei. Nunca disse que seria eterno. Ainda mais hoje em dia, quando tudo é assim tão, tão... substituível. Tem tanto vovô por aá que troca a "caranga velha de guerra" por duas ou três "máquinas" mais jovens... Por que eu não posso trocar você por outro e recomeçar do zero? Vida nova, sabe? Por que sou mulher? Pois eu posso, sim! E, convenhamos, você não é lá assim aquela "potência" pra me deixar empolgada a ponto de me fazer repensar nossa relação. AliÁs, diga-se de passagem que "potÊncia" não é a palavra mais adequada, né?, porque várias foram as vezes em que fiquei a ver navios na primeira tentativa. Na segunda você entendia a gravidade da situação e até que dava sinal de vida, mas tinha de se esforçar de um jeito que, sinceramente, tem de ter fé, viu? Pensando bem, é, eu me satisfazia com pouco.

Apesar disso, você nunca me deixou na mão, não vou negar. Sempre me levou pra tudo que foi lado, eu nem precisava pedir. Um verdadeiro cavalheiro, você sabe. Foi subserviente, resignado. Nunca se rebelou, fez greve, saiu por aí dando piti com aquelas fumacinhas de histórias em quadrinho, nervoso e sendento por vingança. Nunca foi esquentadinho, ao contrário! Uma calma irritante, uma frieza interior incapaz de esquentar sequer meus pés nos dias frios. Isso eu sempre relevei, porque não se pode ter tudo, não é verdade?

Mas tudo bem. Não quero parecer mal-agradecida, até por isso é que decidi te chamar pra conversar e falar tudo, assim, abertamente. Você foi competente, considerando-se todo o nosso histórico. Você me abrigou de uma série de intempéries, inclusive emocionais. Aturou, sem se envergonhar, a minha voz estridente cantando feito um candidato desafinado de programa de auditório, ouviu atentamente as minhas lamúrias, até presenciou momentos históricos de falta de educação... tudo impassível, numa compreensão que, eu sei, vai ser difícil de achar em outro. Você agüentou o tranco, eu admito. Nunca sumiu, porque essa coisa de sumir deixa qualquer mulher fula da vida. A gente conta com o ser e, quando vai ver, cadê? Puft, meu bem, puft! Você, não. Pelo menos isso, hein?! Da nossa cumplicidade, meu querido, eu vou sentir saudade.


Então, por que não dá mais, você me pergunta... Os relacionamentos precisam se modernizar, meu bem. Você parou no tempo. Eu sou uma mulher moderna, que precisa de uma certa estabilidade, você me entende? Não dá pra ficar balanceando tudo assim, toda hora, como quem não tem mais o que fazer! E outra: você está me levando à falência. Hoje dia, queridinho, o dinheiro fala, sim, mais alto. Não dá pra ficar te bancando assim. Você vive duro! Tenho de me desdobrar em mil, tirar forças sabe Deus de onde pra conseguir sair do lugar. Eu sou uma lady, mereço conforto, bajulação, comodidade. Não sou eu que tenho de pagar por isso! Sua obrigação, como parte atuante neste relacionamento, é prover o mínimo de conforto à sua família. Mas, que nada!

E tem mais: todos os livros de auto-ajuda do mundo — eu disse do mundo! — afirmam categoricamente que existe, sim, a tal crise dos sete anos. Foi isso. Deu o estalo, entende? Eu acordei um dia, olhei para você daquele jeito de manhã e me desencantei. Você ronca de um modo que não dá pra suportar! E no começo não era assim, você lembra? Agora?! Jesus me salve! A gente não pode encostar, dar um tranquinho um pouquinho mais agressivo pra deixar as coisas mais emocionantes, sabe?, que você já se desmancha que é de dar dó. Acabado, pra dizer o mínimo. Até a cor você perdeu, anda meio pálido pelos cantos. Anda é modo de dizer, né, porque rápido você nunca foi. Agilidade não é mesmo sua característica principal. Você é prático e tal, quebra um galho. Mas que mulher sou eu que se contenta com um quebra-galhos? Olha pra mim, criatura! Tenha piedade, não?!

Entende agora, meu amigo — ai, quando a gente chama de amigo é porque não tem mais jeito mesmo, né? Olha, pensa pelo lado positivo: se eu dissesse "fofo", seria pior... —, o motivo de eu estar te trocando por outro? O outro apareceu, é mais bonito inclusive. E eu não sou cega! Um bonitão me dando mole? Dependendo da idade, querido, a gente não pode ficar pensando muito, não! E, sabe o que foi decisivo pra mim? Diferentemente de você, ele não tem problemas com álcool. Vai ser muito melhor pra mim, compreende? Não vai haver desgaste na relação. E ele vai me proporcionar o que você não consegue, é melhor nem entrar em detalhes, não quero te magoar ainda mais...

Pra variar você não fala nada, não? Sempre quieto, resiliente. Você não se sente usado, não?! Bom, já que você não se manifesta, agora vem o pior: eu vou te depenar. Tô sendo honesta, tô falando porque detesto falsidade. O pouco que você ainda tem com você, seus parcos pertences, já era, meu bem. Eu vou ficar com t-u-d-o, tudo, ou melhor, com o que restou, que chamar de tudo é superlativo.

Sete anos de fidelidade, de cumplicidade. Você me conhece bem, foi quem mais andou comigo nesse tempo todo, então nem vem dizer que eu te enganei e tal e coisa. Como sempre, estou sendo supersincera e abrindo meu coração pra você. Eu te agradeço por tudo, pela paciência inclusive, porque eu sei que me agüentar não é fácil (apesar de eu ser leve! Isso facilitou sua vida, hein? Fala sério!). Ã, desculpe a brincadeira, isso não é hora de ter ataque de bom humor, mas, você sabe, esse meu lado sarcástico incontido é fogo!

Não fique triste, alguém vai te encontrar e te achar o máximo, como eu te achei um dia. Você pode fazer alguém feliz mesmo, er... er..., com as suas limitações. É difícil, eu sei, ouvir isso não é pra qualquer um, mas eu tô sendo legal em te alertar e sei que você é forte e vai superar. As pessoas têm de começar por algum lugar, né? Relacionamento é isso, fofo, ops, amigo. Na boa, você me entende?

É que realmente estava mais do que na hora de eu trocar de carro.



Para o meu Pálio verde, de quem vou sentir saudades agradecidas por 81 mil quilômetros sem sequer furar o pneu ou ter de chamar o seguro.


23 abril 2007

De quando eu vejo a morte de perto

Cemitério da Consolação, SP


A gente se dá conta de que cresceu quando começa a freqüentar velórios e não apenas festas de aniversário. É nessa hora em que se instala dentro da gente o começo de toda a indagação a respeito da morte.

Não sei se, com a idade, as outras pessoas se acostumam com eventos tristes desse tipo, se passam a achar que a vida é assim mesmo — vive-se, morre-se e acabou-se. Eu não me acostumo.

Enquanto puderam, meus pais sempre pouparam a mim e meus irmãos desse contato mais próximo com a morte. Minha mãe ia aos velórios e meu pai ia aos enterros. Eles se revezavam para que sempre um deles ficasse cuidando de nós.

Um dia, porém, morreu alguém que acabou com o revezamento. Era o pai de uma aluna da minha mãe, pessoa muito chegada à família, e parece que meu pai não podia faltar ao serviço no dia seguinte, de modo que teria de ir ao velório junto com a minha mãe e, conseqüentemente, levar-nos com eles.

Enquanto minha mãe me penteava, dizia: "Kandy, não fique impressionada, porque eu sei que você se impressiona com as coisas. Não fique olhando porque não há o que olhar, entendeu?". Interessante como as pessoas interpretam a morte. Para a minha mãe, talvez, ela fosse sem forma, porque não havia o que olhar. Mas, se não havia o que olhar, para que velório?

As mães sabem os filhos que têm. Eu, sempre morrendo de curiosidade, não acatei o conselho e olhei aquele senhor num caixão, com aquele monte de gente chorando em volta. Senti o cheiro de crisântemo misturado ao de velas acesas sabe-se lá há quanto tempo. O que mais me incomodou, porém, foi a indiferença do morto, aquele jeito impessoal. Ele não estava nem aí — ou lá — para todo aquele escândalo.

Isso me causou uma sensação terrível. Aquelas pessoas todas tristes e chorosas, sentindo tanto aquele muito que todo mundo diz que sente quando alguém morre, e o morto estático, inexpressivo e alheio àquele tudo. Nesse momento eu entendi minha mãe: o morto era um nada que não tinha o que ser olhado. E isso era mesmo pesado de traduzir pelo muito que o morto tinha sido. Hoje sei que é daí que provém a palavra pêsame (de "pesa-me", de "pesar", do latim "penso, as", que significa "pensar, examinar, ponderar, considerar, meditar"). É, eu estava indo pelo caminho certo.

O segundo velório de que me lembro foi o da minha avó materna (de minha avó paterna infelizmente eu só conheci o túmulo, quando estive em Portugal). Nesse, a tristeza era proporcional à pessoalidade que tínhamos em vida. Eu tinha treze anos. Foi a primeira vez que ouvi de alguém "meus sentimentos" e, sempre racional em relação ao significado das palavras, estreei-me aí na arte de refletir sobre o que aquilo poderia querer dizer. Até hoje acho incompleto, lacunesco, tão vago quanto a morte. Que sentimentos são esses? A pessoa está tão triste quanto a gente? Mas ela não sou eu para saber! Está tão saudosa quanto a saudade que aperta miúdo o meu coração num momento assim? Mas o coração dela não é o meu!

Àquela altura, eu só entendia o vazio daquelas palavras, e era aí que fazia todo o sentido: um vazio que eu identificava com o vazio daquilo tudo, tão sem sentido, coisa besta, confusão, conflito. Eu achava razão no que, além de não ter o que olhar, não era pensável.

Dois anos depois foi a vez do meu avô materno, mas nem por isso foi menos triste. Ao contrário: tenho pra mim que, quanto mais a gente freqüenta velórios e presencia perdas, nossas ou dos outros, um pouco mais fundo a morte entra na gente, mostrando que existe, que é implacável, nada, nada simpática e, o pior, que sempre volta. A freqüência das visitas é proporcional à idade que acumulamos, isso é fato.

Prestar minhas condolências às pessoas que perderam entes queridos passou a ser, deste modo, um exercício de reflexão sobre essa visitante atrevida e insegura, que tem a péssima mania de se impor a qualquer custo. Fui percebendo que ela levava a alma das pessoas, como nos é explicado nas histórias, não porque as pessoas diziam que era assim, mas porque eu notava o vazio, sempre o vazio. Era na inexpressividade do morto que a morte começava a fazer sentido para mim.

Tudo porque a palavra alma vem de "ânima", que, novamente em latim, significa "sopro". É a essência que temos dentro da gente, o que infla nosso corpo e nos dá movimento e sentimento. É daí que, curiosamente, surgiu a palavra "ânimo". É preciso alma para resolver os problemas, alma para combater a tristeza, alma para levantar da cama. Sem alma, a gente não vive.

E, então, meus olhos curiosos notaram como o morto fica diferente no caixão. Não pelas flores ou pelo inconveniente algodão que nele é colocado, mas pela falta de ânimo: a expressão muda de um jeito que a pessoa parece até outra, completo desconhecido, tão estranho quanto a morte que o fez assim.

Portanto, tão triste quanto a saudade que a pessoa deixa, quanto as circunstâncias da perda, é a falta de ânimo, sopro que a morte inspira, arrebatando a essência que levamos a vida toda para lapidar. O sopro que resta nos que sobrevivem a isso pode ficar mortiço por um tempo, mas vai inflando novamente à medida que o ânimo volta a preencher cada vazio que dentro de nós fica. E é ela, a alma, que sabiamente transforma esse vazio em saudade, palavra que só existe em português, para o nosso consolo.


29 novembro 2006

Até logo!


Para Angélica, com carinho de ontem, hoje e amanhã


Eu e Angélica estudamos juntas até a oitava série. Até festa de aniversário surpresa ela fez para mim um ano, com direito a venda nos olhos e tudo. Depois, cada uma seguiu a vida, numa dessas rotas cheias de bifurcações e não tão bem sinalizadas que fazem as pessoas se perderem umas das outras. Mas o destino nunca me deixa na mão. Certo dia, eu e Angélica nos encontramos casualmente em um vagão do metrô. Descobrimos que ambas tínhamos escolhido o mesmo curso de graduação; o mundo das letras é mesmo seletivo. Nessa época, Angélica trabalhava numa companhia aérea e estava estudando francês.

Tínhamos a mesma idade, a mesma infância, a mesma formação. Tínhamos passado em comum, um segundo lugar num festival de música da escola, muitas brincadeiras escondidas no quarto dela, onde brincávamos em tardes esticadas pela vontade de não crescer, que acabavam com bolo feito pela mãe dela; mimo doce para preparar o paladar para o às vezes amargo futuro.

“Vamos nos encontrar para tomar um café?”, ela me escreveu dia desses.

Não tomamos aquele café.

O destino, no entanto, sempre tão condescendente comigo, providenciou outro encontro casual. No dia do primeiro turno da eleição, quando trabalhei como mesária e fui almoçar no shopping, Angélica me viu comendo em pé e, gentilmente, como sempre, foi até mim para me chamar para almoçar na mesa onde ela estava com a família. Fazia anos que não nos víamos, embora nos falássemos via tecnologias disponíveis.

Por que não tomamos aquele café? Não foi por falta de tempo, porque isso não é desculpa. Não foi por má vontade, porque Angélica e eu seríamos incapazes disso. Não foi desencontro. Eu não sei o que foi. E esse não saber é que angustia, embrulhando todas essas maravilhosas lembranças em papel feio sem laço de fita, como coisa sem importância amontoada em qualquer gaveta.

É o velho e bom depois, um dia, vamos combinar, indefinição. É a velha e traiçoeira confiança no amanhã, no virar a folha do calendário como dois e dois são quatro, com o respaldo da tola juventude. É a velha e falsa imortalidade que vai juntando cafés aqui e ali, numa coleção infindável de até logos imbecis e estéreis, que nunca vão chegar.

Foi a última vez que vi Angélica. Hoje, ironicamente por meio das mesmas tecnologias disponíveis que tornaram possível restabelecermos nossa comunicação, eu soube que ela morreu. (Ainda se morre de meningite no século 21.) Fiquei sem chão, momentaneamente sem infância, sem mundo de letras, sem palavras, chorosa por dentro e por fora, mais até que essa chuvarada toda que embolora as idéias. Eu transbordei foi de saudade ao começar a embalar nossas lembranças em papéis maravilhosos, com fitas coloridas. (Nunca fui boa em despedidas.) Irrompi em lágrimas escandalosas de decepção comigo mesma por não entender o porquê de não termos tomado aquele bendito café.

Talvez porque simplesmente não haja razão para tudo. Nós é que somos nada.


19 novembro 2006

A mulher e a carta


A mulher lia a carta.
A carta desconfiava da mulher.
A rua olhava as duas.
Na sombra.

A carta chegava mais perto da vista da mulher.
A mulher decifrava a caligrafia da carta.
A rua acolhia as duas.
Na subida.

A mulher não entendia o que lia na carta.
A carta tentava explicar-se para a mulher.
A rua ajudava as duas.
Na largura.

A carta emocionava a mulher.
A mulher chorava na carta.
A rua amparava as duas.
No chão.

A mulher sentou-se para dar mais tempo à carta.
A carta encompridou-se para auxiliar a mulher.
A rua esperava as duas.
No comprimento.

A carta fez suspirar a mulher.
A mulher dobrou a carta.
A rua assistia às duas.
No silêncio.

A mulher entrou em casa para guardar a carta.
A carta guardou as emoções da mulher.
A rua guardou as duas.
No anonimato.



História da foto: Em um dos passeios que fiz quando viajei para Portugal, em 2005, visitei um vilarejo com as casas todas branquinhas. Não havia ninguém na rua, exceto eu. De repente, a mulher da foto sai da casa dela, verifica a caixa de correspondência e pega uma carta. Ansiosa, senta-se ali mesmo e começa a ler. Eu não sei quem era aquela mulher nem o que havia na carta. Mas nunca presenciei uma manifestação de emoção confusa, solitária e espontânea como foi a daquela mulher, que não pude deixar de fotografar.

20 agosto 2006

Contemplação

Era um senhor septuagenário. Àquela altura da vida, passava o dia sentado em um banco improvisado, em frente à sua casa, vasculhando com seus imensos olhos azuis tudo aquilo que por ele ousasse passar. Às vezes eram pessoas; às vezes, borboletas.

Chamava-se Luís. Usava óculos grossos, desses com lentes que deixam os olhos ainda maiores e, no caso dele, ainda mais deslumbrantes. Tinha bochechas vermelhas, não por causa do calor. Parecia que tinha nascido assim.

Fora marceneiro, um desses bem habilidosos, coisa que os calos das mãos denunciavam. Muitos calos, poucas palavras. Falava pelo olhar. Quando o ânimo deixava, no entanto, ele ousava acenar timidamente. Quando paravam, pessoas ou borboletas, ele cumprimentava com bom-dia ou boa-tarde, oferecendo um sorriso que diminuía o tamanho das bochechas.

Um dia apareceu alguém que de lá não era. Trouxe empolgação, novidade, o passado inteiro repaginado em forma de nova geração. Mas tudo o que os olhos azuis fizeram foi oferecer vinho e goiabada com queijo, perguntar como estava a vida — numa confissão óbvia de não saber lidar com o inesperado — e olhar, olhar e olhar, escaneando a visita para, quem sabe, conseguir desvendar a genética.

E sempre que a visita passava em frente à casa do senhor Luís, ele tirava o chapéu e inclinava levemente a cabeça. Tinha dias em que fazia tchau, batendo a bengala com a outra mão... Dizia que a cabeça era boa, mas as pernas, ruins. E a visita sempre achava que ele se despedia melhor do que cumprimentava.

Pode parecer poético alguém passar o dia assim, olhando tudo numa quietude providencial. Há até quem pense que era uma vida triste ou ociosa pela preguiça dos anos. Dizem que algo nele sabia o que o futuro lhe reservava e que justamente por isso ele ficava ali, paciente, só esperando...

A visita foi embora de vez. Dois meses depois, ele também.


13 julho 2006

1950


Para o tio Carlos, que me deu a idéia...

— Alô?
— Boa tarde. Por favor, aí é da casa do senhor Antônio Carlos?
— Sim, é. Quem está falando, por favor?
— Aqui é a Olívia, do Sarmento.
— Nossa, que nome diferente! Pois não, dona Olívia do Sarmento, posso ajudá-la?
— Não, não, você não entendeu. Sarmento não é meu sobrenome, é um lugar.
— Lugar?
— É, é o nome de um colégio.
— Ah! Bem, que seja. O que posso fazer pela senhora?
— É um assunto delicado, eu receio. Você pode me responder uma pergunta?
— A senhora está fazendo alguma pesquisa, por acaso? É que eu estou com um pouco de pressa e...
— Não, não, não se trata de pesquisa. Você é o quê do senhor Antônio Carlos?
— Filha dele.
— Ah! Desculpe o jeito da pergunta, mas... o seu pai ainda está vivo?
— Quê?! Ah, bem, está sim. Tudo bem que eu não entendi esse “ainda” aí da sua pergunta. Significa por acaso que ele passou da idade de estar vivo?
— Não, absolutamente. Ufa, que alívio! Sabe o que é, é que eu estou ligando para a turma de 1950 do colégio Sarmento, sabe? Seu pai estudou nessa turma e eu queria fazer um reencontro dessas pessoas. O problema é que a maioria dos ex-alunos que eu consigo localizar já morreu, sabe?
— Não, não sei. Morreram? Que horror!
— Pois é. Mas que bom que seu pai está vivo, acho que ele vai gostar de ir à reunião. Nossa, tão emocionante! Imagine você, a turma de 1950!
— É, dona Olívia do Sarmento, eu faço uma idéia. A reunião vai ser onde?
— Ainda não está planejado porque preciso saber primeiro quantas pessoas sobreviveram, ou melhor, quantas irão. Mas você acredita que uma outra moça, filha de um ex-aluno pra quem liguei, teve a coragem de perguntar se a reunião não seria num centro espírita, porque era o único jeito de convocar os defuntos?!
— Ai, cruz-credo!
— Então, você poderia falar para o seu pai que eu liguei?
— Claro, a senhora deixe o seu telefone, por favor, que ele liga de volta.

+ + + + +

— Pai, ligou para o senhor uma tal de Olívia do Sarmento.
— Não conheço ninguém com esse nome.
— Não, não, o senhor não entendeu. Sarmento é o nome de um colégio.
— Colégio? Mas eu já passei da idade escolar faz um tempo... No mínimo pegam o nome da gente na lista telefônica pra sair oferecendo curso...
— Pai, Sarmento é o nome do lugar onde o senhor estudou! Eu, hein!
— Eeeeeeuuuuuu? Quem te falou isso?
— A tal da Olívia do Sarmento, ué. Aliás, ela também ficou muito feliz pelo senhor ainda estar vivo. Disse que todo mundo pra quem ela liga da turma de 1950 já morreu. Bom, né?
— Ô louco! Como é que pode ser bom?! Coitados! Será que morreram de morte morrida ou de morte matada?
— Isso eu não sei, mas falei bom porque isso é sinal de que o senhor está aí, firme e forte, pra contar a história.
— Mas eu nem me lembro dessa gente! Não me lembro sequer do nome desse colégio! Quem dirá contar história. Posso é contar umas piadas, serve?
— Mesmo assim, eu se fosse o senhor iria a essa reunião!
— E vai ser onde? No cemitério?! — e caiu na risada.
— É, pai, acho que entendi por que o senhor é um sobrevivente da turma de 1950...
— Tudo bem que eu não era lá um aluno exemplar, mas também não boiava nas aulas pra você me considerar um náufrago a ponto de me chamar de “sobrevivente”!
— O senhor é bem-humorado e espirituoso.
— A tal da Olívia do Sarmento achava que eu já era espiritual — e caiu na risada de novo.
— Que roupa o senhor vai usar nessa reunião?
— Pelo andar da carruagem, acho melhor eu ir fantasiado de Gasparzinho, o fantasminha camarada... para me reenturmar, entende? Vai ser uma aparição e tanto! Cai como uma luva para esse evento! Pensando bem, vai ser um assombro essa reunião, né? — ria feito doido — Eu e a Olívia do Sarmento com um bando de almas penadas. Hi, hi, que divertido! Vou poder finalmente saber como é que é o outro mundo! Já vou chegar falando: e aí, turma do além, há quanto tempo, hein?
— Isso é o que eu chamo de reviver os velhos tempos! Ou é melhor dizer desenterrar o passado? Só falta ela marcar isso no Dia das Bruxas... já pensou?
— Aí, minha filha, vai ser literalmente de arrepiar!

E os dois morreram de rir. Ops, modo de dizer, modo de dizer...


26 junho 2006

Memória fotográfica


Quando eu era pequena, meu avô materno me levava, junto com minhas irmãs e meu irmão, para passear de metrô. Era uma farra. Íamos e vínhamos na mesma linha várias vezes sem cansar. E ele lá, paciente, ouvindo os mesmos comentários a cada vez que víamos as mesmas coisas. Para ele, nada nunca era a mesma coisa.

Essa é uma das lembranças que tenho da infância. Durante os anos de faculdade, em que tinha de pegar o metrô lotado todo santo dia, freqüentemente me apanhava com essa memória invadindo a mente. Quem diria que aquele gostoso passeio de criança seria uma obrigação chata na minha idade adulta...

Meu avô era fotógrafo. Não desses chiques, com cartão com logotipo, placa na porta do estúdio e tudo. Meu avô não tinha estúdio nem ambição suficiente para chegar a ter um. Era mecânico de motos também. Mas, diferentemente do estúdio, moto ele tinha. Uma grande, de tanque vermelho, em cima da qual quantas e quantas vezes ia me buscar na escola. A mim e a meus irmãos. Todos de uma vez.

Brasílio Sgarbi era o nome dele. Eu sempre escrevi com s; ele, sempre com z. Dizia que o Brasil com s era com z quando ele nasceu e que, por isso, ele era com z também. Nunca averigüei isso, talvez por não aceitar sequer a possibilidade de tirar-lhe a razão... aquela coisa de neto que respeita demais os mais velhos. Teve pouco estudo, o suficiente para aprender sozinho a fotografar e a consertar motocicletas. Adorava comer banana, tinha umas manias engraçadas, retratava a família inteira em slides, filmava minha infância em rolos de filme que projetava na parede, atrás da porta do quarto, em algumas tarde de domingo, tinha uma garagem que cheirava a gasolina e uma Variant vermelho-cereja impecável, de pouco uso. Nos últimos anos de vida, com óculos emprestados, passava o dia assistindo à televisão, numa poltrona comum.

Morreu há 15 anos, tempo bastante para transformar a tristeza de sua ausência em suave saudade, em lembranças como as que conto aqui. Ultimamente, tenho me lembrado muito do meu avô.

Embora nunca tenha conversado com ele sobre fotografia, sei que ele nem imaginava que um dia as máquinas seriam digitais, que haveria Internet, msn, telefone celular, conversa em tempo real com o outro lado do mundo — e com imagem! Essas coisas certamente o fascinariam, ainda que tivéssemos de levar algum tempo para explicar-lhe como funcionam.

Então, cada vez que me deparo com o avanço tecnológico, principalmente no que se refere à imagem, lembro-me do meu avô, antigo, velhinho, com toda aquela parafernália que ele guardava em uma parede inteira cheia de prateleiras. Sinto-me a conexão dele com a tecnologia, e é uma sensação curiosa sentir-se ponte entre passado e futuro.

Qual não foi minha surpresa quando, tendo voltado de uma viagem à terra do meu pai, em visita aos meus ancestrais, algo que sempre tive vontade de fazer desde pequena sei lá por quê, vi que minha máquina digital recém-comprada e cujo manual fui lendo durante a viagem era capaz de tirar fotos belíssimas.

Não era a máquina. Era meu avô me ensinando que nada nunca é a mesma coisa e que precisamos mostrar aos outros o nosso modo de olhar...

Não estudei fotografia e ainda não sei consertar motocicletas. Não tenho cartão com logotipo nem ambição suficiente para ter um estúdio. Mas gosto de retratar a vida, embora tenha óculos próprios. Por isso, antes de ser Saraiva, eu sou Sgarbi.