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19 novembro 2006

A mulher e a carta


A mulher lia a carta.
A carta desconfiava da mulher.
A rua olhava as duas.
Na sombra.

A carta chegava mais perto da vista da mulher.
A mulher decifrava a caligrafia da carta.
A rua acolhia as duas.
Na subida.

A mulher não entendia o que lia na carta.
A carta tentava explicar-se para a mulher.
A rua ajudava as duas.
Na largura.

A carta emocionava a mulher.
A mulher chorava na carta.
A rua amparava as duas.
No chão.

A mulher sentou-se para dar mais tempo à carta.
A carta encompridou-se para auxiliar a mulher.
A rua esperava as duas.
No comprimento.

A carta fez suspirar a mulher.
A mulher dobrou a carta.
A rua assistia às duas.
No silêncio.

A mulher entrou em casa para guardar a carta.
A carta guardou as emoções da mulher.
A rua guardou as duas.
No anonimato.



História da foto: Em um dos passeios que fiz quando viajei para Portugal, em 2005, visitei um vilarejo com as casas todas branquinhas. Não havia ninguém na rua, exceto eu. De repente, a mulher da foto sai da casa dela, verifica a caixa de correspondência e pega uma carta. Ansiosa, senta-se ali mesmo e começa a ler. Eu não sei quem era aquela mulher nem o que havia na carta. Mas nunca presenciei uma manifestação de emoção confusa, solitária e espontânea como foi a daquela mulher, que não pude deixar de fotografar.

19 outubro 2006

Fado diverso

Basta.
Tirarei férias de mim
[mesma
para procurar ausência
e neutralizar atitudes
que nunca tive.

Há vontades que não
[esqueço
por se fazerem lembrar
[a todo momento.

Há desejos insones,
teimosos em manter-me
[acordada,
mais prováveis no mundo
[dos sonhos.

Não sossego.
Ando numa onda de inquietação irritante
em que todas as vontades formigam.

Cansei de esperar
o que não conheço ou quem nunca vi.
Não tenho mais fôlego
para acenar para o que não me enxerga
ou procurar o que nunca me encontrou.

Sufoquei de tédio,
paralisei princípios,
que agora se dispersam devagar
rastejando estorvo.

Não sei se contenho essa dispersão
— num gesto óbvio de quem valoriza resquícios —
ou se deixo tudo escorrer para esvair-me junto
num desaparecer consentido.

Por mais que me esforce,
eu persisto, resisto, não passo.
Tardo e permaneço
ao arrastar sobrevivência.

Murcho gradativamente
ainda que incapaz de esvaziar-me e diluir-me
em esperanças aguadas de horas inexistentes.

Sou sem existir,
porque inócua me transformo
em descrenças que não quero ser.

(Querer é verbo anômalo,
que para certas coisas
é preciso abolir do vocabulário)

Se sou desejos e vontades espalhafatosos;
se anseio, teimo e insisto,
querer é o que move meus instintos
dilacerados e roucos berrando para o nada.

Mais fácil ser nada,
sentir nada,
querer nada,
mesmo tendo quase tudo.

Desisto.
Abro mão desse tudo.
É o quase que me faz falta.



09 outubro 2006

Última chamada

Você deixa interrogações caírem dos bolsos
quando segue para a estação ziguezagueando sumiço.

Eu vou atrás para recolher a sombra
enquanto junto as dúvidas
remendando
conformação.

Você pára.
Eu continuo.

Você pega o trem.
Eu parto.

Em dois