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03 novembro 2014

Enterro

“Viver é sempre dizer aos outros que eles são importantes. Que nós os amamos, porque um dia eles se vão 
e ficaremos com a impressão de que não os amamos o suficiente”
Chico Xavier


Quando ela chega a mudez toma conta. Fica tudo atônito, suspenso. Muito embaçado, confuso e triste. É só nessa hora que ela é mais forte que o amor, por ser capaz de reunir de verdade, em carne e osso, principalmente osso, as pessoas. 

Quando ela chega, é a essência que fica. De quem foi e de quem ainda está. Porque a sensação de última vez opera os milagres que o amor passa a vida tentando fazer.

Quando ser deixa de ser, o que permanece se torna mais importante do que tudo o que já foi. Emergem arrependimentos com os quais será preciso conviver, quando poderiam ter sido extintos no viver. Com viver é isso: carregar e pesar, relevar e guardar, esquecer e lembrar, constantemente lembrar, de um momento covarde, uma reação descabida, um silêncio coberto de pensamentos não ditos que poderiam ter feito toda a diferença.

Mulher vendendo lenços em um cemitério de Istambul (2013).
Há gente que passa a existência toda em um eterno velório, apenas admirando a essência alheia, remoendo remorsos, entristecendo-se com a falta de movimento, mas sem se levantar da cadeira. Sem se levantar.

Há também quem mate outros antes de eles morrerem de fato, quer por uma procrastinada chance à paciência, quer por fraqueza preguiçosa e lenta de dedicar-se. É melhor assistir à TV. Ou comer um chocolate para enganar o amargor. Enfrentar dói. O travesseiro é mais macio.

Uma vida inteira para amar, fazer-se presente, interessar-se. Mas o ultimato da despedida é sempre mais forte, porque ela não tem amanhã, daqui a pouco, depois eu vou, deixa pra lá, ligo mais tarde, deixo para a semana que vem. Ela não deixa. Leva embora. E acabou-se.

O fim é um alívio mais duradouro que o durante. Morrer é mais fácil que amar. Mais rápido também. E extremamente mais covarde. Quanta injustiça a morte, mais preguiçosa, conseguir a proeza de juntar, na mesma hora e local, pessoas que se amam e justamente por isso deveriam se juntar mais vezes. Talvez por ser uma constante busca, o amor insira nas pessoas a certeza de que amanhã tudo estará como hoje, de que é possível esperar, de que o tempo é dominado pelo caráter humano, quando é justamente o oposto: ele é a foice.

É na morte que as pessoas são mais hipócritas. E mais desesperadas. É quando enfrentam a si mesmas com a implacabilidade do inevitável. Por outro lado, é também na morte que elas são mais solidárias, às vezes mais por susto que por sentimento genuíno.

As pessoas são mais unidas na morte que na vida. E essa verdade mortifica.

02 janeiro 2013

De olhos bem abertos

Eu, ano passado

Em noites de insônia, o que não nos deixa dormir são pensamentos. Natural tê-los mais intensos – e confusos – no início de um calendário. São mudanças pulsando, ávidas por realização, que nem sempre queremos. Teimosia também tira o sono.

Então, no meio da madrugada, o que resta são retrospectivas. Onde erramos. Onde acertamos. Há consciência do erro ou do acerto? E se o erro virou acerto? Ou vice-versa? Tudo é de fato relativo. A quê, mesmo?

Pensamos em banho de sal grosso no dia seguinte, para limpar resquícios. Mas é com eles que aprendemos se de olhos abertos estivermos. A tal da insônia de novo. Mudamos o foco – ou a falta dele – para algo mais prático, para tabular organização: um bloco sempre à mão, de preferência com pauta, porque é muita pretensão querer escrever certo por linhas tortas. Até o bloco, a pauta, a organização e as ideias dormirem em sono profundo em algum canto remoto do porta-luvas, da bolsa, da gaveta, do criado-mudo ou de um espaço inútil qualquer. Pelo menos alguma coisa dorme nesse ambiente insone.

E nos lembramos dos desejos adormecidos até então. Não contentes, e talvez pela falta do que fazer no silêncio, os ressuscitamos. Tem graça acordar recordações inconcretas. Olhamos ao redor: os livros que não lemos por falta de tempo, de vontade ou por sono demais. Aliás, se pudéssemos mandar nesse último, não haveria insônia nem livros não lidos, apenas olhos vermelhos em outras horas. De choro, é provável. É quando nos comprometemos a não chorar mais tanto. Mas cada lágrima lembrada puxa outra ainda mais chorosa e, em vez de dormir, lacrimejamos devagar, prometendo nunca mais sucumbir. A firmeza da resolução, entretanto, sinaliza incômodo: uma insensibilidade que não nos pertence. A luz começa a faiscar, resultado da intermitência entre olhos cansados e consciência de nossa capacidade de amar, cada vez maior, como o algarismo que denomina o ano novo. Uma capacidade que nos alarga por dentro mas que, quase sempre, espreme nossa alma bem apertadinho. É nesse momento que revisitamos os relacionamentos, buscando conclusões inconclusas, alguma consolação, uma saudade, explicação mergulhada em uma xícara de chá. Coisas assim nunca dormem.

Arriscamos olhar para o relógio, na esperança de que o tempo não tenha passado demais, para podermos descansar quando a insônia desistir. Mas é o tempo que desiste de nós, sempre atrasados, correndo atrás do impalpável.

É melhor não pensar nisso. Fechemos os olhos para recomeçar. Hoje é outro dia.

09 abril 2012

Sempre em frente


Páscoa, dia em que se fala muito em renascimento, ressurreição, transformação. Mas será mesmo que temos o poder de renascer, sobretudo quando vivenciamos uma tristeza profunda, uma perda, uma decepção irreparável? Será que, se quisermos, de verdade, com uma vontade genuína bem lá do fundo, conseguimos transformar a realidade interior ou exterior?

Pergunto, porque às vezes tudo parece imutável demais o tal do destino. A gente olha para um lado, olha para o outro, e parece enxergar sempre a mesma coisa, por mais ângulos diferentes que procuremos. A verdade parece estar lá, de um jeito irritantemente implacável, como se fizesse questão de esfregar na nossa cara justamente e com uma ironia maquiavélica o que fazemos questão de não ver. A gente desvia o olhar, vira o rosto para lá, mas não adianta. Ela ecoa bem alto e fica martelando, martelando, martelando, até a gente ouvir. E como as palavras machucam quando ouvidas assim, dentro dessa teimosia.

Viver intensamente tem dessas. Às vezes a gente quebra mesmo a cara. E bonito. O problema é que isso deixa cicatrizes que reluzem no espelho toda vez que a gente se enfrenta. E aí, se bobear, acabamos nos escondendo de nós mesmos, para evitar o confronto, a dor, as lembranças, para não forçar o corpo a sentir tudo de novo, porque memória não fica só no cérebro. Ela invade cada terminação nervosa e devasta todo cantinho da gente, sem dó.

Se foi um erro, melhor, aprendamos com ele. Mas e se fizemos tudo certo e a vida é que nos deu a bofetada que ainda arde? Devemos insistir, respeitando nossa natureza humana, ou desistir, aceitando o que não pode mudar? Devemos ter fé, depositando esperanças em algo impalpável e desconhecido, ou lidar com o real, com o prontoeacabou?

Essa enxurrada de emoções confusas deve acometer o ser humano desde os primórdios. Muita gente já morreu desse mal. Ainda hoje ainda morre. Tem muito fulano que se mata por não ter coragem de olhar para dentro de si ou de lutar contra uma frustração. Foge dela. Porém, há os que renascem. Para os primeiros, sobram os obituários. Aos outros, um caminho novinho em folha, clamando por ser experimentado.

E lá vamos nós. Vai doer, a gente sabe. Se não for assim, não é humano. A coragem de conviver com o dolorido não é algo divino. O destino é que deve ser, vai saber.

O que sabemos é que, fosse a causa da morte qual fosse, os sábios gregos não escreviam obituários. A respeito de quem morria, apenas se perguntavam: “viveu com paixão?”.

Eis a chave da ressurreição.

Atibaia, SP

13 março 2011

Desilusão

Desilusão,
Desilusão,
Danço eu, dança você,
Na dança da solidão.

(Dança da solidão – Paulinho da Viola)


Hoje passei a tarde com meus afilhados, uma garota esperta de 4 anos e um garotinho engraçado de 2 anos e meio. Eles acham que eu ensino coisas a eles, como desenhar uma joaninha perfeita ou subir no escorregador pelo lado errado. Mas, especialmente hoje, eles me ensinaram muita coisa.

As crianças lidam com a verdade de um jeito muito transparente, o que torna tudo muito fácil. Não se constrangem, apenas falam. E o jeito como falam, o olhar que destinam ao interlocutor são suficientes para decifrar uma intenção genuína de simplesmente dizer o que se passa na cabeça e no coração, sem o objetivo de ofender, enganar, omitir, dissimular. Nelas, é tudo sincero. Por que nascemos certos e, ao crescermos, vamos ficando todos errados? Por que desaprendemos a dizer a verdade? De onde vem o medo de magoar, de ofender, quando a intenção nunca foi essa? É na vida adulta que a gente aprende a ter intenções erradas e passa a distorcer tudo.

A certa altura da tarde, brincamos de esconde-esconde. Eu ainda era pequena na última vez em que me escondi debaixo de uma pia ou me agachei atrás de uma porta. Hoje foi divertido lembrar como é ser criança e revelador observar que, mesmo estando grande, bem à vista dos menores, o olhar deles é carregado de ingenuidade. Eles procuram o óbvio porque não desconfiam de que a vida pode ser diferente do que se mostra. É preto no branco, a verdade, a transparência. Não tem mistério. Eles colocam a cabecinha para dentro de um cômodo e, se não encontram lá o que procuram nessa olhadela, passam para o seguinte. Não têm a malícia de olhar atrás da porta, dentro do armário, debaixo da pia, atrás da cortina. Não sentem a necessidade de desvelar porque não sabem se esconder. Nós, adultos, é que os ensinamos a “serem mais espertos”.

Pena que, ao crescerem, vão descobrir que os adultos também brincam de esconde-esconde. Alguns são tão bons nisso que conseguem esconder-se de si mesmos tão bem a ponto de não se encontrarem mais. E, como na brincadeira infantil, levam consigo aqueles que os procuram. Mas a graça acaba: ninguém quer continuar brincando de encontrar o que não quer ser encontrado. Uma hora, desiste.


À medida que crescemos e vamos perdendo essa saudável maneira de enxergar o mundo, somos levados a nos comportar como todo o resto se comporta, talvez como forma de nos protegermos do que os próprios adultos criaram: tornamo-nos hipócritas em nome de uma sociedade contaminada, que revida com desilusão ou isolamento quando confrontada com o íntegro; deixamos de combater o egoísmo, como fazíamos quando pequenos – “divida com seu irmão”; “agora é a vez do coleguinha brincar com este brinquedo”; calamos mais e falamos menos, dando mais chance a mal-entendidos, mentiras, julgamentos. Esquecemos a verdade porque já não sabemos mais como lidar com ela. E vamos sobrevivendo.

Por outro lado, se tentarmos resgatar os valores da infância, seremos constantemente massacrados. Se dissermos o que sentimos, perdemos o amor (porque ele se assusta), o emprego (porque chefes e colegas de trabalho se sentem ameaçados com tanta sinceridade), a família (que, por mais que se esforce, não entende os sentimentos), o lugar no mundo. Sinceridade demais ofende.

O problema de tornar-se adulto com consciência dos valores íntegros da infância é que isso gera um sofrimento – e um inconformismo – sem tamanho. Esperamos que a vida seja justa como nas histórias infantis, que o bem sempre vença, que os maus sejam punidos, que recebamos recompensa ou sejamos valorizados por termos nos comportado como o esperado, que encontremos o amor e sejamos correspondidos. É tudo uma bobagem, que deve estar em letras miúdas nos livros, em uma daquelas páginas que ninguém lê, porque a gente só descobre crescendo.

Trabalhamos honestamente e temos as casas destruídas pela água de chuvas incessantes ou de ondas anormais. Agimos corretamente no trânsito e presenciamos um milhão de infrações impunes. Pagamos as contas em dia e temos a conta bancária carcomida por impostos avassaladores. Somos eficientes, éticos e corretos no emprego e vemos o colega incompetente, preguiçoso e dissimulado ser promovido, enquanto permanecemos no mesmo lugar (com um pouco de perspicácia, acabamos descobrindo que, na vida corporativa, as promoções estão majoritariamente ligadas a troca de favores, rabo preso, saia curta ou decote profundo). Somos dedicados à pessoa amada e, não raro, desprezados, trocados, traídos, enganados, abandonados ou preteridos – há quem prefira a solidão à nossa companhia.

Não somos preparados na infância para tantos baques, a não ser que entremos no jogo e prefiramos sempre nos esconder a ter a iniciativa de procurar. É mais fácil ficar imóvel, vendo os outros passarem.

Entretanto, ainda hoje, olhando para os meus afilhados buscando cantinhos em branco, para tentar o novo, em folhas já desenhadas por outras crianças, tive a clara dimensão do que é recomeçar, encontrar novo espaço, uma abertura, um motivo para fazer o inédito. As crianças, mesmo sem querer, lidam bem com o passado, que, para elas, é sempre recente. Desenham por cima se preciso for.

Elas olham para a frente, esperando o melhor, ainda que com ingenuidade. Por isso são mais felizes.



Legenda da imagem: Fachada da igreja da Sagrada Família, de Gaudí. Barcelona.

16 julho 2010

Isto é só

Um senhor em Barcelona, batendo à porta de si mesmo

A gente só tem a gente. No fundo, lá no fundo, essa é a realidade. Qualquer outra interpretação é espera. No outro. Que o outro fale, que o outro perceba, que outro entenda. Não entende. Porque não é a gente. Imagina que entende, mas não enxerga porque os olhos são outros, ainda que da mesma cor.

A gente só tem um: o íntimo ou o espírito, o pensamento ou o sexto sentido. Fala um de cada vez, mas a gente cisma em ensurdecer por dentro e ouvir um outro. O alheio parece mais sábio, tem mais razão. Fala mais alto.

Qualquer boa vontade alheia é lucro. Ou caridade, compaixão, gentileza, consideração. Com um pouco de sorte, amizade; mais sorte ainda – muito mais! –, amor. Mas tudo isso não é da gente, é de quem o tem. Porque a gente, ah, a gente sabe, no fundo, lá no fundo, que não tem ninguém.


P.S.: Escrevi este texto no interminável trânsito paulistano, nesta noite chuvosa de sexta-feira. Parei em uma padaria e tive a sorte de encontrar pão de laranja quentinho. Ao sair, dei de cara com uma obra grande e li na placa do arquiteto o nome da minha melhor amiga-irmã. Isso me sacudiu, sobretudo porque passo ali diariamente e nunca havia visto a tal placa. Talvez, no fundo do no fundo-lá no fundo, a gente tenha alguéns, sim.

07 maio 2009

É fato

A intuição falava mais forte: não vá, fique quieto. Mas a quietude havia muito andava em outros ares. Aquele passageiro nunca gostara de andar de avião.

Os aeroportos sempre o incomodaram, porque, para ele, imprimem nas pessoas uma pressa que não lhes pertence. Querem ir logo, chegar logo, voltar logo. A transitoriedade nos saguões é incômoda.

Incômodo também era um barulho surdo que nada dizia, apenas cutucava aquele passageiro. Não tinha jeito. Decidiu voar assim mesmo.

No check-in, perguntaram-lhe qual a preferência de assento. “Tanto faz”, respondeu. Já não ligava mais para esse tipo de coisa. A aleatoriedade talvez trouxesse um pouco mais de emoção.

O voo atrasou. Incrível como o sempre insiste em acontecer. 9F era a poltrona. Janela. Talvez um sinal para a necessidade de aprimorar a observação.

Ia começar a meditar sobre o acaso, o horizonte, a chuva que caía, quando sentiu o barulho surdo cutucar mais uma vez, agora mais real, bem atrás de sua poltrona: uma garota mal-educada, que deveria se chamar Chata, não Aline -- ele descobrira o nome da criatura por causa da mãe dela, cujo vocabulário limitava-se ao nome da filha e mais meia dúzia de críticas à idade da aeronave. Soltava frases ameaçadoramente patéticas, abafadas pela falta de autoridade que se refugiava no abraçar do travesseiro velho trazido de casa.

O passageiro resolveu tampar os ouvidos com música, quem sabe assim abafaria a ansiedade. Quis ocupar também os olhos. Pegou a revista da companhia aérea e, mais uma vez apostando no aleatório, abriu-a ao acaso. “Divina Celeste”, anunciava a reportagem. Falava sobre uma professora de ioga. É, era mesmo preciso paciência de monge naquela situação.

Voo lotado, chutes mais incisivos na poltrona, a Chata chatíssima tagarelando com a mãe, que agora acariciava a fronha brega do travesseiro, que combinava com seu cabelo.

Foi então que o sempre deu lugar ao inesperado. “Finalmente”, ele pensou. Um pouco de novidade para distrair os nervos. O comandante anunciou pelo alto-falante que o atraso – desculpe-nos o transtorno – devia-se a um problema técnico com o rádio de comunicação interna. Deveras criativo aquele comandante, é fato.

O passageiro interpretou isso como outro sinal: estavam forçando-o a pensar mais seriamente em considerar a intuição, isso sim era fato.

O pensador, escultura de Rodin - Museu Rodin - Paris

Decidiu anotar toda aquela imprevisão em seu caderninho de bolso. Ao abri-lo, também a esmo, encontrou uma nota de 50. O acaso era mesmo emocionante. Resolveu, então, dar mais uma chance ao inesperado e continuar ali, para ver no que ia dar.

Até que os cinquenta minutos de pensamentos forçados foram bruscamente interrompidos por outra informação: “senhores passageiros, infelizmente, o problema é um pouco mais sério e teremos de trocar de aeronave”.

O passageiro foi tomado pela quietude de seu levantar de sobrancelhas. Fique quieto, a perplexidade sussurrava. Pouco durou. O barulho surdo que nada dizia vagarosamente foi voltando, até ficar mais forte, e, dessa vez, não era mais a menina chata da mãe com o travesseiro.

O que mais o impressionara nem fora o transtorno de trocar de aeronave, mas aquela revelação: “o problema é um pouco mais sério”.

Sempre é.

03 fevereiro 2009

Inocência

Carregue o vídeo (Return to innocence, de Enigma) antes de ler o texto. Depois volte, e preste atenção às imagens. É importante voltar.



A gente sempre convive com a certeza inabalável de ter pela frente a vida inteira, longa e interminável. Porém, à medida que vivemos, perdemos um pouco da nossa inocência.

Aprendemos a ter medo, a mentir e omitir, a enganar, difamar, iludir – a nós mesmos e aos outros –, a julgar e condenar, a dissimular o que sentimos e, o pior, a não sentir, porque, quanto mais vivemos, mais perdemos o sentido de ser.

Perdidos ficamos e mais nos perdemos. E, como tudo fica curiosamente mais difícil, gastamos nosso precioso tempo maquinando facilidades. Na ânsia de desatar o que tomou proporções emaranhadas, simplificamos também o coração e a memória, incapaz, agora, de lembrar o quão inocentes já fomos.

Houve um tempo em que parávamos para ouvir, arregalando os olhos, como se eles ajudassem a melhorar a audição. Olhávamos mais para as pessoas. Reparávamos nelas, falávamos mais com elas, usávamos mais a gargalhada, éramos sinceros. Comprávamos fiado na quitanda da esquina (o que é quitanda mesmo?), confiávamos, acreditávamos, trocávamos figurinhas com vizinhos, na casa de quem sempre havia uma xícara fumegante de algo bom e acolhedor. Sentíamos mais perfumes, aroma de bolo quente, sabonete grande, fruta suculenta. Amávamos essências.

Mas que desconsolo! À medida que crescemos, constatamos que a experiência é chata; as escolhas, quase sempre monótonas; e, ao chegarmos à velhice, damo-nos conta de que o destino é uma reta emparedada, ao término da qual há algo que já não importa mais, porque perdemos a importância.

Parece que vamos perdendo a cor. A graça da descoberta se vai e, com ela – e com um vento misterioso chamado responsabilidade –, escoa toda a nossa curiosidade. É nesse quando que tudo serve, tudo é igual, todos são coisas, a mesma coisa.

Ficamos na mesma, um mesmo imenso. Tornamo-nos nós mesmos, sem saber disso.


Para Dona Dulce, sempre tão expressiva, que hoje voltou de vez à inocência.

05 novembro 2008

Sente-se ao meu lado

Ouça a música (Sit Down, de James) enquanto lê o texto, preferencialmente sentado:





Hoje, olhando a tarde morrendo, vi que a cadeira ao meu lado estava vazia. Dirigindo para casa, senti, como sempre, o banco vazio ao meu lado vazio. Queria alguém sentado ali, ao meu lado, com quem eu pudesse conversar sobre óperas e violinos ou para quem eu pudesse falar sorrisos.

Sinto falta de alguém que se sente ao meu lado apenas para me fazer companhia, sem segundas intenções, sem querer se aproveitar da minha competência, da minha influência, da minha demência; sem vontade de cavoucar o que penso, de adivinhar minha alma, sem curiosidade de atravessar meu reflexo. Alguém que me visse no escuro, sem se importar com os fios do meu cabelo que porventura estivessem fora do lugar — eu vivo despenteada.

Sentar-se ao lado de alguém, perto, próximo, exige coragem, ainda que não haja toque, porque há olhar. E esse vai muito além do tato. Exige postura, porque a gente pode se desequilibrar e cair... Doente. Exige jeito, um traquejo de movimentos para que o corpo fale a linguagem correta. Exige uma certa diplomacia, para não invadir espaços.

Sedia, silla, chaise, chair, stuhl, stoel, não importa o idioma. Não é preciso falar nada para sentar-se ao lado de alguém. Basta querer contato, algum tipo de socialização, sinalizar desejo de intimidade, cumplicidade ou mera falta do que fazer.

Metaforicamente, sentar-se ao lado de alguém é ser simpático, solidário, companheiro. É estar à disposição, oferecendo um colo mais confortável que o assento da cadeira, suavizando os momentos, amortecendo os impactos da vida. E eles são tantos!

Quantas vezes já dissemos a alguém: “Você quer se sentar?”, “Por favor, sente-se” ou “puxe uma cadeira”, e recebemos como resposta: “obrigado, estou bem de pé”? Leio isso como “Não tenho tempo para você”, “Não quero proximidade”, “Isso não é importante”, “Tenho mais o que fazer”.

Atualmente, é triste constatar que cada vez mais cadeiras ficam vazias. As pessoas não se sentam mais próximo umas das outras, a não ser quando não há mais lugar nem jeito ou desculpa. Deve ser algum tipo de fobia idiota. Mal sabem que permanecer de pé é muito mais difícil.

12 outubro 2008

Vivência

Um homem que não conheço olhou para mim e me deu boa-noite de um jeito gratuito, mas sincero. Eu respondi sorrindo, porque hoje em dia raros são aqueles que nos dão boa-noite, ainda mais se não nos conhecem. É que ficou tudo impessoal de uns tempos para cá, sobretudo nas grandes cidades, onde ser anônimo é tão comum.

Num primeiro momento, achei que talvez a educação daquele homem tivesse aflorado da solidariedade: eu estava sozinha, num banco duro de cimento, tomando um café amargo, em um velório, numa noite fria e chuvosa — a natureza sabe mesmo combinar com a morte.

Mal sabia o homem que eu estava totalmente deslocada da cena, sem vínculo emocional nenhum com aquelas pessoas, apenas simpática à dor da perda. O morto era um amigo da minha mãe, a qual fui levar ao tal velório. Na verdade, era irmão de um amigo de escola da minha mãe, dos idos de nem sei quando. Depois fiquei sabendo que, ironicamente, um dia antes de perder o irmão, esse amigo de escola da minha mãe havia ganhado um neto.

O morto era um homem que dizia boa-noite. Mandava à minha mãe mensagens bonitas via e-mail, com um jeito invejável de acreditar na vida, mesmo submetendo-se à hemodiálise três vezes por semana. No dia seguinte ao velório, teria completado 60 anos. Por ironia do destino, porém, resolvera dar uma festa dois dias antes, para reunir a família, rever os amigos do trabalho, da faculdade, da infância, e fazer uma retrospectiva para guardar na mente os momentos bons, como se já não fossem suficientemente inesquecíveis.

Depois de agradecer a cada pessoa presente, expressando também o amor que sentia pela família, deu boa-noite a todos e foi para casa morrer. Pareceu saber a hora em que o coração ia parar. Entretanto, mesmo com essa noção, quando alguém morre sempre tira os vivos do contexto.

Então, quando, parada ali, totalmente fora do contexto, ouvi aquele cumprimento do homem desconhecido, sendo eu uma desconhecida para ele e o morto um desconhecido para mim, senti intensamente a ironia que é viver e me dei conta de que, na hora da morte, somos todos iguais inertes. O que nos torna memoráveis é saber dizer boa-noite, sinceramente e sem distinção de destinatário.

Praia de Boiçucanga - litoral norte de SP


23 maio 2008

O tempo todo

Para ouvir enquanto lê o texto:


Silent Lucidity - Queensrÿche

Era um barulho fora, mas um silêncio dentro. O entra-e-sai do metrô e o tagarelar tipográfico das pessoas espalhando os acontecimentos do dia ensurdeceram-me quando li uma das mensagens que passavam naquelas televisõezinhas que agora há em alguns vagões: “Conserve seu planeta. Ainda dá tempo”.

Ficou um eco no meu pensamento, reverberando idéias que começaram a passar pela mente mais rápido que as estações da linha vermelha. Ainda dá tempo. É isso que pensa alguém quando corre apressado para pegar um ônibus ou aqueles que decidem ser pais depois dos 40. Isso é o que move quem resolve aprender a ler depois de anos de analfabetismo, quem vai para o aeroporto mesmo sem passagem marcada, quem desce as escadas rolantes ainda que tenha ouvido o aviso sonoro de portas fechando. Porque sempre é tempo de abri-las.

Ainda dá tempo de esquecer a falta de reciprocidade de uma paixão; a última chuva que encharcou os nervos, deixando úmido muito mais que a barra das calças; a palavra ríspida de quem nunca foi apresentado à gentileza ou redondos nãos que carimbaram tentativas. Simplesmente porque ainda dá tempo de tentar, de aprender outro idioma, de conhecer outro país ou pegar uma condução simples que leve àquela esquina à qual a gente nunca foi por falta de curiosidade ou... de tempo. Ainda dá tempo de fazer falta a alguém, de demorar-se na cozinha preparando alguma coisa com farinha, de tirar das caixas o que está guardado por motivos que já emboloraram com o passar... do tempo.

Dá tempo de mudar de casa, de idéia, de vida, de planos, de curso, de abordagem, de conversa, de padaria, de lado. Dá tempo de dizer que ama, que sente muito, que errou, que se desculpa, que vai pensar, que sente falta, que tem vergonha, que vai mudar.

E tudo isso porque, apesar do barulho do lado de fora, a sensação acontece lá dentro, bem no escuro de profundezas que nem todos sabem onde ficam, lugar em que tudo é silêncio. Uns chamam isso de esperança. Eu, de lucidez.

04 maio 2008

Insônia

Foz do rio São Francisco - AL


A Sarah Brightman canta na TV enquanto meu sono dança em mim, pra lá e pra cá, sem parar quieto. Mantenho os olhos abertos porque ouço ruídos pela casa. Será que é ladrão? É isso que dá se meter a corajosa e ficar sozinha numa casa desse tamanho. Esqueci de colocar o lixo pra fora. O que eu vou fazer com o resto da pizza que sobrou? Deviam fazer pizzas pra um. Se eu só sou uma, pra que oito pedaços? Até parece que não tem gente passando fome no mundo! Conheço essa música de algum lugar... Preciso de outro cobertor, detesto frio. Nossa, hoje foi aniversário do fulano, esqueci de ligar. Tudo bem, vai, amanhã eu mando um e-mail. Mas e-mail é tão impessoal. Eu ligo, mesmo atrasado. Que dia é amanhã mesmo? Who wants to live forever, ela canta. I want. É tanta coisa para fazer. I need to. Meu quarto está uma baderna. Bom, pelo menos é uma bagunça colorida. Na verdade, eu devia era tomar vergonha na cara e arrumar um jeito de organizar esse material todo. Eu nunca me acho nas minhas fitas de tecido. Ai, mas aqueles papéis são tão lindos, minha melhor aquisição no ano. Preciso guardar aquele ali que tã perto do telefone. Pra que eu tenho telefone se ninguém me liga? Não sei. Depois eu penso nisso. I'd like to live forever. Mas, se eu vivesse para sempre, teria ainda mais coisas para fazer. Acho que não é uma idéia muito inteligente. Nada inteligente, aliás, é olhar pra cara desse livro em cima do sofá todos os dias em vez de lê-lo de uma vez. Mas é que não dá tempo. Nem consegui ler todas as seções da revista que eu assino. Talvez isso seja indício de que não devo assiná-la mais. Um passo para a alienação. Que que ela tá cantando agora? Caramba, como tem gente que gasta dinheiro, não? Quanto será o ingresso para assistir a uma superprodução dessas? Bem que eu queria ter essa sorte. Por que uns têm muito e outros têm de trabalhar demais feito eu? Nem ao Cirque du Soleil eu consegui ir este ano. Caro demais. Será que o show dela é mais caro que o ingresso do Cirque? Bom, eu pagaria. Tô precisando de um pouco de emoção. A que ponto eu cheguei... eu pagaria por um pouco de emoção. Que patético. Mais patético ainda é trabalhar feito camelo para pagar para ter um pouco de emoção. E ainda passar frio, enfrentar fila, pagar estacionamento, andar horrores para chegar a um lugar que eu nem sei onde fica direito. Essa mania de ser imenso que alguns lugares têm. Irritante. E eu ainda não fui arrumar o pneu do carro. Que coisa mais chata isso de furar o pneu! Como é mesmo o nome daquele cara que fez Highlander? Acho que é Crístofer alguma coisa. Como será que se escreve Crístofer? Tem um pê agá em algum lugar. Vai ver são dois, ou são dois agás? Ah, depois eu procuro no Google. Por que eu não tive a idéia de inventar o Google? Ah, é verdade, porque eu nasci para trabalhar feito camelo. Alguém com um destino desses jamais teria a brilhante idéia de inventar o Google, curiosamente um sistema de buscas. Se eu nem sei escrever Crístofer! Nossa, a voz dela é tão bonita... isso só pode ser dom. Disso eu não posso reclamar. Na terceira década da minha vida eu já sei quais são os meus. E pensar que tem gente que passa a vida inteira buscando isso. Nem no Google vão achar. O problema é que as pessoas não sabem procurar direito no Google. Tem o lance das aspas, mas é cada busca estapafúrdia que esse povo até merece ficar sem dom por uns tempos. Será mesmo que todo mundo tem dom? Se escrever se aprende, então, qualquer dom também deve ser... ih, qual é a palavra? "Aprendível"? Qual é o adjetivo, meu Deus... aprender, aprendizado, apren... tinha de ser dível. Mas acho que não tem. Ah, depois eu procuro no dicionário. Puxa, eu adoro essa música! É daquelas que deveriam tocar quando a gente beija alguém com paixão. Ou quando se despede, para enganar a tristeza. Ou quando ganha um prêmio. Ou quando todas as luzes da cidade se apagam e só fica a nossa, numa solidão besta. Hoje eu entendo Drummond naquele poema da vida besta. Não presto nem pra lembrar o nome do raio do poema. Caramba, eu devia escrever ouvindo essa música, daria um texto legal. Quem diria que eu sentiria saudades do Pavarotti. A Sarah canta bem, mas essa música o Pavarotti cantava melhor. Eu não tenho nenhum cd do Pavarotti. Isso deveria ser item obrigatório no bolsa-família. Um cd do Pavarotti. Mas eu não recebo bolsa-família. Whatever. As pessoas têm de aprender a sentir, não é possível! Um cd do Pavarotti seria uma forma boa de começar. Não tem como ficar indiferente. Falar nisso, amanhã vou procurar o Pavarotti no Google, é uma vergonha não saber nadica de nada da vida dele. E pensar que ele nunca soube que eu existia... Eu nem ia querer que ele soubesse, pra quê? E já morreu. Novo, coitado. Who wants to live forever? Ih, voltei pro começo. Agora é que eu não durmo mais...


O DVD da Sarah Brightman ao qual o texto se refere é The Harem World Tour, live from Las Vegas (duplo). A música que creio ser melhor na voz de Pavarotti é Nessun dorma. O ator de Highlander é o Christopher Lambert, assim, com dois agás, um junto de um pê. E o poema, ah, o poema de Drummond, se chama "Cidadezinha qualquer" e tem um verso que tem muito a ver com este blog: "Devagar... as janelas olham".

04 março 2008

Doença crônica

Paripueira - Maceió, AL


O gosto de vinho ainda permanecia na boca pasma. O resto de amor continuava ofegante, apertando o peito. O gosto e o resto misturavam-se em sentimentos confusos, e a confusão tornava o gosto ainda mais ácido, e o resto, mais enorme.

Ele queria ter dito o que pensava naquele instante de analfabetismo, mas tudo o que conseguiu dizer foi silêncio. Ela queria ter sido tomada por certa compreensão gigantesca, mas tudo o que conseguiu compreender foi bobagem.

Embora trocassem olhares de pena recíproca, tinham mesmo era desejo de abismo. Em horas assim, sabiam que só a escuridão tem um abraço reconfortante, capaz de apagar todos aqueles cacos de indiferença que cortavam os passos. Passos que poderiam ter ficado para tentar reconciliação, mas que preferiram ir embora enroscados em solidão.

O gosto, o resto, os cacos, os passos. E tudo o mais pingava, numa homeopatia besta.

Amanhã estariam curados.


12 novembro 2007

Complexo de hoje

O gentil e talentoso Doda convidou-me para:
1 - pegar um livro próximo;
2 - abrir na página 161;
3 - procurar a 5.ª frase completa;
4 - postar essa frase em meu blog.

Aproveitei e escrevi sobre ela...



"Simplicidade e simplificação são características do pensamento racional."
5.ª frase completa da página 161 de O ócio criativo,
de Domenico de Masi



Todo mundo acorda de manhã pensando que a vida poderia ser mais simples. Pede um café simples na padaria, torce para que a prova da primeira aula seja simples, que sejam tomadas decisões simples ao longo do dia, que o chefe simplifique as coisas para poupar mais raciocínio, que o namorado ou a esposa entendam a simplicidade intensa que vai no coração dos cônjuges ou que tudo simplesmente caia do céu.

Entretanto, a gente complica um bocado. Faz tempestade em copo d'água, se apaixona pela pessoa errada, atravessa a rua fora da faixa, fura fila, esquece de pagar conta, leva multa, perde a hora e o guarda-chuva, esquece as chaves, polui o ar e a água só para poder reclamar depois de que não dá para respirar ou nadar, se mete em briga e ainda quer sair sem se machucar, fica adivinhando pensamentos que não são nossos e reagindo a eles como se fossem. A gente sofre apertado como se o mundo fosse uma caixa de fósforos.

Muito difícil tudo isso, tamanha confusão que vai na gente, redemoinho estranho de coisas contrárias que não se bicam por nada no mundo, mesmo com torcida. De um lado, uma vida simples, clean, que leva a gente à rua todos os dias usando roupa branca e levinha recendendo a sabonete bem cheiroso. De outro, sentimentos e comportamentos inconsistentes duelando num tabuleiro de xadrez enorme feito elefante, que a gente carrega com costas que não tem — é daí que vem o peso.

É disso que resulta a frustração: o querer é uma coisa; o fazer é outra. Querem ensinar coesão e coerência em aulas de redação, mas a maioria teima em escrever tudo errado; lutam pelos direitos humanos, mas o noticiário só traz desumanidade; pregam a alimentação saudável, mas não param de inventar guloseimas industrializadas que dão água na boca; criam cada vez mais entretenimento para ser desfrutado em um tempo que ninguém tem, quando é necessário trabalhar cada vez mais; desenvolvem cremes anti-rugas miraculosos para combater linhas de expressão que ganhamos nos cansando todos os dias do sempre.

E, se a gente parar para amar a pessoa certa, para atravessar na faixa, não poluir e esperar a vez chegar, perde mais um pouco daquele mesmo tempo que a gente não tem. Se tiver boa memória para pagar as contas em dia, lembrar onde deixou o guarda-chuva e as chaves, colocar o relógio para despertar e procurar a paz, entra num tédio sem tamanho e vira um daqueles quadradinhos em branco do calendário, que, curiosamente, serve para marcar o tempo que todo mundo quer ter um dia.

Simples assim.


Taking roots, de autoria de Christopher Ferris, é o nome do papel de parede que ilustra este post. Você pode encontrar este e outros deste fotógrafo aqui.

14 outubro 2007

Pão nosso de cada dia

Foz do rio São Francisco, Alagoas


Magnólia saiu para jantar mesmo sem fome. Pensava em padaria embora não tivesse estômago para encontrar soluções. Os problemas teriam de acabar um dia, ela pensava. Um dia, padaria.

Sentou-se ao balcão e remoeu indecisão. Tantos pães diferentes poderiam resolver os percalços do mundo, ela pensou. De certa forma, saber que muita gente passava fome consolou-a um pouco. Ela, pelo menos, podia escolher o pão embora não pudesse fazer o mesmo com os problemas. Um dia, faria.

Pediu um francês, frios, suco de laranja sem gelo — de frieza já estava farta. Sem açúcar, de preferência. Necessidade urgente de acostumar-se ao amargo. Preparava a garganta para misturar tudo aquilo quando viu que alguém a observava. Será possível? Um dia, pararia.

Nada feito. Magnólia não acreditava no desassossego que aquele olhar lhe causava. A paz que procurava na refeição tinha virado farinha. "Algum problema?", tinha vontade de perguntar. Resolveu engolir seco. O suco não estava bom mesmo. Um dia, estaria.

Ignorava o olhar, o sabor, a resistência do estômago em digerir tudo aquilo. Levantou-se, foi até o outro lado do estabelecimento, lavou as mãos na pia para enxaguar a confusão. Não havia papel para enxugá-las. Um dia, haveria.

Voltou para o seu lugar, terminou o francês, os frios, parou de ruminar e finalmente decidiu: "algum problema?", perguntou, incisiva. "Todos", ouviu de volta. Calou-se. Descobriu-se. Percebeu que era só mais uma. Um dia, não mais seria.

E era isso o que ela mais queria.


08 outubro 2007

Muralha de vento

Castelo de Almourol, Portugal


Disseram-me que sou uma mulher corajosa. Nunca temos certeza de uma coisa dessas até que nos digam isso.

Já fui mais covarde. Muito mais covarde, como todo mundo. A sorte é que, com o passar dos anos, as linhas de expressão que vão marcando o rosto mostram-se um indicativo de que estamos aprimorando a arte de expressarmo-nos e aprendendo a dizer o que sentimos sem medo de incompreensão. É uma liberdade estranha que poucos entendem, mas que nos torna mais corajosos, destemidos e decididos a enfrentar o que vier: solidão, rejeição, desmotivação, hipocrisia, egoísmos de todos os tipos, insegurança, cegueira, escudos intransponíveis de psicológicos alheios mais diversos que toda a diversidade que guardamos dentro de nós.

Não precisamos ser inesquecíveis. Seremos corajosos se tivermos presença de espírito para saber que somos falíveis, substituíveis, falhos e imperfeitos, nunca nos acomodarmos com essa consciência, mas usá-la para aprimorar nossos sentidos.

Temos de saber lidar com nãos. Podemos simplesmente passar pela vida de algumas pessoas se assim elas quiserem. Seremos corajosos se as respeitarmos como são, represando nossa imensa vontade de nos impor a qualquer custo, porque sentimos, porque queremos, porque sabemos que nossa bondade é maior que tudo e que estamos repletos de boas intenções. Há horas em que elas não bastam. Nem nosso olhar mais terno, nossa sinceridade mais nua, nossas paixões mais viscerais ou nosso eu em ebulição. A coragem cresce a cada balde de água fria, e é necessária principalmente quando precisamos chorar. Só os corajosos não têm vergonha de chorar de verdade, vestidos numa transparência que moda nenhuma imita.

Aliás, parece-me proporcional: quanto maior a coragem, maior a probabilidade de sofrer. Porque dar a cara a tapa dói, cair machuca, entender que nem tudo acontece como gostaríamos decepciona, perceber que os outros não sentem o mesmo que sentimos, ou tão profundamente quanto, desilude, vermo-nos ilha tira-nos o chão.

E, ainda com as pernas bambas, quando perdemos a base temos apenas duas possibilidades: permanecermos inócuos e chorosos pelos cantos, esperando o mundo resolver-se por si só, ou levantar toda santa vez, aprender com os tombos, memorizar bem o que causou as feridas, para literalmente não cairmos de novo na mesma emboscada, e resgatar o ânimo para continuar andando, doloridos por um tempo, é verdade, mas mais preparados e cientes de que haverá mais tropeços. Tudo porque quem se mete a desbravar tudo aventura-se a desbravar a si mesmo. E não tem coisa mais assustadora e perigosa que o autoconhecimento. Olhar para dentro é uma forma de ser valente.

Mais do que enfrentarmos tudo, termos garra, acreditarmos nos próprios princípios e colocá-los em prática, trabalharmos, esforçarmo-nos, não esmorecermos, não perdermos as esperanças nem temermos o sofrimento, sermos corajosos é sabermos nos despedir de quem não nos quer ou nos faz mal, sairmos das situações que nos atam as mãos e nos deixam infelizes, livrarmo-nos sem dó do que não serve mais e guardarmos o carinho e a ternura que o aprendizado vai marcando tão gentilmente em nós com todas as linhas de expressão a que temos direito.

Pensando em tudo isso, descobri-me corajosa exatamente como disseram que sou. Porque eu sempre recomeço. Sem rancores.


24 junho 2007

Ignorância

Praia da areia preta - Guarapari - ES


Eu achava que existia. Até ontem. Não, não, eu não morri; apenas nunca existi. Dei-me conta da minha transparência e senti toda a importância que eu achava que tinha escorrer violentamente pelo ralo do descaso.

QUEM VOCÊ PENSA QUE É?

Não sou ninguém. Ignorada quer pela falta de reciprocidade, quer pelo desinteresse de notícias e telefonemas não recebidos, quer pela ausência total de criatividade forjada em plágios descarados. Aniquilaram minha originalidade retirando-me a vontade de escrever e de criar, apagaram as lembranças que tinham de mim dissolvendo-me a naturalidade de confiar.

Ser neutralizada pela descrença é como acordar cinza e vazia por terem-me arrancado a presença. Virei fantasma de valores insossos, inexistência de sentimentos.

QUEM SE IMPORTA COM O QUE VOCÊ SENTE?

Se eu não existo, não há por que se importarem. Se não me enxergam, não há por que me fazer notar. Se querem que eu apenas passe, por que insisto em ficar?

Infelizmente, a individualidade e o egoísmo alheios têm sobrepujado meus esforços de não ser generalização.

No entanto, apesar de saber que eu não existo, não me roubaram a identidade. Imitaram-na, ignoraram-na, calaram-na. Mas ela ainda é minha. E é ela que me faz perguntar:

QUANTAS VEZES É PRECISO RENASCER?




28 maio 2007

Esta data querida

Vila Velha - ES

Há um ano eu tinha idéias que hoje se multiplicaram. Eu pensava, pensava e pensava, mas deixava tudo trancadinho na minha mente, talvez por falta de diálogo, preguiça em transformar em tipologia ou autocrítica exagerada freando iniciativas. A literatura tem disso: precisa de interlocutores para existir; do contrário, não passa de palavras.

Palavras todos temos, aos montes, brotando a todo instante, tagarelando dentro da gente como matracas históricas. O desafio reside justamente em organizá-las de um modo original, por vezes poético, fluente, impactante, de maneira a silenciar todo o barulho para provocar reflexão: um pensar suave, despretensioso e tranqüilo, gostoso de ler.

Isso é difícil. Faço essa afirmação com conhecimento de causa porque lido diariamente com autores cheios de idéias e (embora nem sempre) cheios de talento, mas que, no afã da criação, se deixam embaralhar. Minha função é desembaraçar tudo, colocando cada coisa em seu devido lugar, mas interferindo o menos possível, mantendo o estilo, a linguagem, o intuito. Aí é que está a complexidade da profissão: entender e incorporar uma intenção que não é a minha (sempre digo que o revisor é um leitor de intenções).

Por outro lado, é igualmente difícil olhar para o meu próprio texto com toda essa severidade neutra. E é exatamente isso que o Idéias na Janela faz comigo duas ou três vezes por semana: abre um horizonte de possibilidades para que eu me aprimore como profissional, como pessoa, como leitora, amiga, revisora, ilustradora, fotógrafa e autora. Este blog me multiplica, tal como fez com as idéias que eu tinha quando comecei a escrevê-lo.

Mas esse exercício de autoconhecimento não seria nada sem os diálogos que este blog me proporciona, ainda que silenciosos e imaginários, mantidos com leitores que não se manifestam por motivos vários. Não seria nada sem os comentários dos que quebram o anonimato e mostram outros enriquecedores pontos de vista. Não seria nada sem a participação freqüente de pessoas espetaculares, amigos maravilhosos, família e colegas de profissão que adotaram o Idéias como leitura assídua em seus movimentados dia-a-dias e deixam sempre registradas aqui valiosas contribuições pessoais.

Então, se este blog faz aniversário hoje, não é apenas pela minha perseverança e disciplina em escrever e postar textos, mas, sobretudo, pela troca de horizontes — proposta primeira deste espaço — que ele nos proporciona a todos.

Nesse um ano, e quase 10 mil visitas, não parei para pesquisar qual o texto mais lido (que não é necessariamente o mais comentado), o de que as pessoas mais gostaram, o que causou mais discussão, polêmica, estranheza ou fascínio. Eu simplesmente não sei informar essas coisas e vira e mexe me surpreendo. Às vezes, textos pelos quais eu não daria tanto quanto dou para outros emocionam mais e se evidenciam de um jeito literariamente descontrolado. Nessas horas eu comprovo que a literatura continua no leitor depois de ter sido concluída pelo autor. E isso é que é mágico: a ramificação dessas idéias em outras e outras e outras, parecidas ou completamente diferentes, motivadas pela organização preconcebida de palavras aos montes.

Eu mesma aprendo com o que escrevo quando releio cada texto, cada comentário, quando me dou conta da responsabilidade de ser lida por pessoas que não conheço, em geografias próximas ou distantes do meu computador. E fico imensamente feliz em andar pelo mundo assim, dessa forma virtual e invasiva, abrindo janelas por aí, para deixar idéias passarem em forma de intercâmbio.

Obrigada a cada um que lê ou já leu algum dos meus posts, aos novos amigos que passaram pela janela e pararam para tomar um café (e espero que fiquem, fiquem, fiquem nesse papo gostoso de cidade de interior). Isso me enriquece e me faz vasta, como toda pessoa deve ser. Isso me abre para outras dimensões e me coloca em contato com mais idéias, opiniões, diversidade.

Feliz aniversário para nós. Vida longa ao rebuliço de idéias que todos temos dentro de nossas janelas: o PENSAMENTO.


24 maio 2007

Eu, eu mesma e os homens



Minha prima convidou-me a comentar sobre um "manual da mulher bem-resolvida", composto por alguns parcos fundamentos que pretensiosamente tentam resumir esse complexo mundo dos relacionamentos entre homens e mulheres. Escolhi algumas das "regras" para comentar aqui com base única e exclusivamente na minha interpretação pessoal; não é uma verdade absoluta e, como tal, é passível de críticas. Não é bem o tipo de texto que gosto de escrever (até porque a redação dessas "regras" desmoralizaria qualquer tentativa de construir um texto literário), mas minha consideração me impede de declinar um convite da Glau.




Eu não acredito em manual, porque qualquer tipo de manual é feito para coisas produzidas em série, que precisam ser entendidas e corretamente usadas. Homens, para mim, não são iguais, do contrário teriam número de série — e, do jeito que o mundo anda, é o que vai acabar acontecendo com todo ser humano —, não são coisas, embora precisem ser entendidos, e, apesar de quase sempre merecerem, não têm de ser usados.

A regra número um desse manual diz que, "se ele se interessou, ele liga!". Tem cara que não liga. Pra nada. E, sinceramente, de que adianta ligar para cumprir um protocolo tido como de praxe? É algo preestabelecido pela sociedade o cara ter de ligar se estiver interessado? Se o motivo da ligação for esse, não, obrigada. Ele tem de ligar porque quer (desesperadamente?) falar comigo, porque se sente bem conversando comigo, porque sente falta de conversar comigo, porque se preocupa e quer saber se eu estou bem, porque quer me ver. Ligar puramente para dar sinal de que está interessado, cumprindo esse papel ridículo de "eu sei que preciso ligar porque é isso que ela quer que eu faça", mesmo sem estar com vontade ou coragem ou estado de espírito pra isso, é sinal de covardia. E não tem nada mais patético do que homem covarde. Então, é preferível o cara levar um século para ligar, mas demonstrar sinceridade e espontaneidade na ligação, do que ligar imediatamente, mas receoso, cauteloso, no melhor estilo "vou ligar porque é isso que ela espera de mim". Ser bem-resolvida, para mim, é nunca esperar, para não quebrar a cara depois, o que, invariavelmente, sempre acaba acontecendo.

O segundo passo aconselha o seguinte: "Passou uma semana sem ouvir notícias dele? Esquece, parte para outra! Ligar para saber se tá tudo bem nem pensar!". Nem pensar em seguir um conselho absurdo desses, isso sim! São atitudes como essa que minam a comunicação, a sinceridade, a intensidade dos sentimentos, a demonstração de sensibilidade. As pessoas começam a se enganar, porque fazem o que lhes é dito em vez daquilo que sentem vontade de fazer. Isso é falta de integridade e é exatamente o oposto de ser bem-resolvido. Estar com vontade de fazer algo e não fazê-lo porque todo mundo diz que não, porque o livro de auto-ajuda diz que não, porque a mãe e a irmã da amiga dizem que não, porque o teste do mês da revista feminina famosa diz que não é falta de personalidade, é medo de levar um fora ou de pagar mico ou de passar por ridícula convertido em desculpa. Uma mulher bem-resolvida tem certeza do que quer e, se preciso for, ela conquista, ela tenta, persevera, demonstra o que sente. As várias formas de fazê-lo é que variam, condizendo com a personalidade de cada fêmea. E, se ela tiver uma boa auto-estima, que isso é a chave para a maturidade emocional, então ela vai perceber quando o cara de fato não estiver a fim dela (porque a maioria deles não tem coragem de dizer na cara da gente, com todas as letras, que não quer nada. Puro comodismo ou medo de ser interpretado como mau caráter, de assumir o que pensa e dar a cara para bater convertido na desculpa esgarçada "eu não vou magoá-la". Ou, o que é pior, forma besta de manter a garota na agenda para poder entrar em contato num momento de carência profunda). Uma mulher bem-resolvida vai parar, naturalmente, de se fazer notar. E vai viver a vida dela do jeito que ela souber, ainda que triste e melancólica por não ter sido correspondida. Nada que doses homeopáticas de amor-próprio não curem.

O terceiro conselho imperdível: "Vocês saíram e ele não ligou mais. Foi porque você cedeu? Ou foi porque você não cedeu? Na verdade, pouco importa. Se o que ele estava a fim era de sexo e rolou, ótimo! Sexo é que nem pizza: bom-até-quando-é-ruim". Como levar a sério um manual que traz "que nem" e reduz o ato sexual à culinária fast-food?! Questões lingüísticas à parte, bem se vê que a pessoa que redigiu isso ainda não saiu do primeiro passo, o que indica que é mal resolvida e que, portanto, não tem cacife para dar conselho nenhum sobre o assunto, porque ainda está encanada com o fato de o cara ter ou não ligado. (Filha de Deus, pare de pagar a conta telefônica que seus problemas acabam. Aí, sim, você poderá mergulhar nessa crise do ninguém me liga e morrer se perguntando se ele não ligou porque não tinha linha ou se foi assassinado pelo homem da companhia telefônica ou se houve uma enchente na casa dele que levou o aparelho telefônico embora e o deixou ilhado sem qualquer tipo de comunicação.) Uma mulher bem-resolvida vai para cama com um cara independentemente de ser a primeira, a segunda ou a vigésima vez que sai com o ser. Se ela sabe o que quer, se o cara é confiável, se ela for segura e se sentir à vontade com ele, ela cede (que verbo mais infeliz!) quando bem entender, e é porque ela quer, não porque ele insistiu. A mulher é a guardiã do sexo, a decisão é sempre dela. Pode ser o deus grego que for, se ela for bem-resolvida, não vai se arrepender de atitudes que tomou. Vai enfrentá-las e aprender com os erros. Ou se vangloriar pelos acertos.

"Mas se você não cedeu, ele provavelmente não te procurou mais porque achou que ia dar muito trabalho. Ou seja, pare de se atormentar porque transou ou não! Duas lições: dar uma de difícil depois de uma certa idade já era! Ridículo é fazer tipinho! E, além do mais, você vai se arrepender de ter cedido e de não ter cedido." Esse negócio de "dar uma de difícil" é coisa de mulher que está acostumada a fazer joguinhos o tempo todo e se esconde em si mesma porque não é capaz de se entender. Tudo para ela é indireto, camuflado, como se fosse preciso se comportar em código o tempo todo. Ela até encontra homens que se sentem "desafiados" em "decifrá-la" (argh!), mas são uns fulanos que têm pouco a oferecer e se contentam com pouco. São homens cuja auto-estima já era faz tempo. Os que interpretam um "não" de uma mulher bem-resolvida como um "comportamento típico de quem está dando uma de difícil" não estao preparados para ficar com uma mulher assim. São imaturos, incompreensivos e insensíveis, além de extremamente egoístas e pretensiosos, por acharem que ela está se dando o trabalho de fazer esse teatro idiota para se valorizar. A mulher bem-resolvida se impõe naturalmente, ela não precisa de subterfúgios. Por isso ela assusta, como eles gostam de enfatizar, porque eles não sabem lidar com transparência, o que simplifica tudo. Ela não "faz tipo", não se baseia na idade para tomar ou não determinadas decisões e não se comporta de modo a querer testar o cara para ver se ele de fato quer ou não algo com ela. Mulher que age assim espera que o homem a valorize porque ela própria não o faz.

Em relação à traição, o conselho é taxativo: "Não continue com um cara que te chifrou se você não agüentar a onda de ser traída de novo. E olho vivo se ele já foi infiel com outras. A gente sempre acha que com a gente vai ser diferente... Esqueça! Nunca é!". Isso é o que eu chamo de falta de esperança no ser humano. Eu luto diariamente contra generalizações, porque entendo as pessoas como únicas e trato-as de modo personalizado porque é assim que as enxergo. Massificar os relacionamentos e seguir cartilha num assunto tão delicado como esse da traição é ser ou ingênuo ou maria-vai-com-as-outras. A mulher bem-resolvida está aberta para tentar entender os acontecimentos, compreender o parceiro e analisar as situações com parcimônia. Vai aceitar ou não ter sido traída dependendo da própria auto-estima e do amor que tiver pelo parceiro. Cada um sabe de si e só se engana se quiser. Até isso é opcional. Se ela tiver consciência de que merece sinceridade e respeito, vai se fazer respeitar e vai respeitar também. Se souber que o parceiro já foi infiel com outras, cabe a ela tentar entender os valores que o parceiro tem, se mudaram ou não, porque as pessoas podem, sim, mudar. Mas elas sempre dão indícios de que mudaram por meio de atitudes; só palavras não bastam.

Para terminar a sessão cascata, o manual de meia-tigela fecha com chave de ouro, no mais batido lugar-comum: "E atenção! A 'fila anda'! Pior do que nunca achar o homem certo é viver pra sempre com o homem errado". Essa coisa de fila é conversa para boi dormir. As mulheres falam isso para tentar se defender do "efeito falta de homem no mercado". Não existe fila coisa nenhuma, pelo menos não para a maioria delas. Elas é que mudam de fila e vão para a fila de outros homens, pegam senha e tudo, esperando chegar a vez. É machista dizer isso, sim, eu sei, mas é o que acontece. Homem certo e homem errado são valores relativos. O que é o certo para uma pode ser o errado para outra e vice-versa, do contrário todos os "errados" estariam sozinhos. Não existe isso, porque as pessoas nunca estão totalmente prontas. Os relacionamentos as lapidam, as amadurecem e as ensinam a tornarem-se o certo para a pessoa com quem estão, sem perder sua individualidade.

Para mim, é assim que tem de ser. E, para esse aprendizado, infelizmente ainda não existe manual.


23 abril 2007

De quando eu vejo a morte de perto

Cemitério da Consolação, SP


A gente se dá conta de que cresceu quando começa a freqüentar velórios e não apenas festas de aniversário. É nessa hora em que se instala dentro da gente o começo de toda a indagação a respeito da morte.

Não sei se, com a idade, as outras pessoas se acostumam com eventos tristes desse tipo, se passam a achar que a vida é assim mesmo — vive-se, morre-se e acabou-se. Eu não me acostumo.

Enquanto puderam, meus pais sempre pouparam a mim e meus irmãos desse contato mais próximo com a morte. Minha mãe ia aos velórios e meu pai ia aos enterros. Eles se revezavam para que sempre um deles ficasse cuidando de nós.

Um dia, porém, morreu alguém que acabou com o revezamento. Era o pai de uma aluna da minha mãe, pessoa muito chegada à família, e parece que meu pai não podia faltar ao serviço no dia seguinte, de modo que teria de ir ao velório junto com a minha mãe e, conseqüentemente, levar-nos com eles.

Enquanto minha mãe me penteava, dizia: "Kandy, não fique impressionada, porque eu sei que você se impressiona com as coisas. Não fique olhando porque não há o que olhar, entendeu?". Interessante como as pessoas interpretam a morte. Para a minha mãe, talvez, ela fosse sem forma, porque não havia o que olhar. Mas, se não havia o que olhar, para que velório?

As mães sabem os filhos que têm. Eu, sempre morrendo de curiosidade, não acatei o conselho e olhei aquele senhor num caixão, com aquele monte de gente chorando em volta. Senti o cheiro de crisântemo misturado ao de velas acesas sabe-se lá há quanto tempo. O que mais me incomodou, porém, foi a indiferença do morto, aquele jeito impessoal. Ele não estava nem aí — ou lá — para todo aquele escândalo.

Isso me causou uma sensação terrível. Aquelas pessoas todas tristes e chorosas, sentindo tanto aquele muito que todo mundo diz que sente quando alguém morre, e o morto estático, inexpressivo e alheio àquele tudo. Nesse momento eu entendi minha mãe: o morto era um nada que não tinha o que ser olhado. E isso era mesmo pesado de traduzir pelo muito que o morto tinha sido. Hoje sei que é daí que provém a palavra pêsame (de "pesa-me", de "pesar", do latim "penso, as", que significa "pensar, examinar, ponderar, considerar, meditar"). É, eu estava indo pelo caminho certo.

O segundo velório de que me lembro foi o da minha avó materna (de minha avó paterna infelizmente eu só conheci o túmulo, quando estive em Portugal). Nesse, a tristeza era proporcional à pessoalidade que tínhamos em vida. Eu tinha treze anos. Foi a primeira vez que ouvi de alguém "meus sentimentos" e, sempre racional em relação ao significado das palavras, estreei-me aí na arte de refletir sobre o que aquilo poderia querer dizer. Até hoje acho incompleto, lacunesco, tão vago quanto a morte. Que sentimentos são esses? A pessoa está tão triste quanto a gente? Mas ela não sou eu para saber! Está tão saudosa quanto a saudade que aperta miúdo o meu coração num momento assim? Mas o coração dela não é o meu!

Àquela altura, eu só entendia o vazio daquelas palavras, e era aí que fazia todo o sentido: um vazio que eu identificava com o vazio daquilo tudo, tão sem sentido, coisa besta, confusão, conflito. Eu achava razão no que, além de não ter o que olhar, não era pensável.

Dois anos depois foi a vez do meu avô materno, mas nem por isso foi menos triste. Ao contrário: tenho pra mim que, quanto mais a gente freqüenta velórios e presencia perdas, nossas ou dos outros, um pouco mais fundo a morte entra na gente, mostrando que existe, que é implacável, nada, nada simpática e, o pior, que sempre volta. A freqüência das visitas é proporcional à idade que acumulamos, isso é fato.

Prestar minhas condolências às pessoas que perderam entes queridos passou a ser, deste modo, um exercício de reflexão sobre essa visitante atrevida e insegura, que tem a péssima mania de se impor a qualquer custo. Fui percebendo que ela levava a alma das pessoas, como nos é explicado nas histórias, não porque as pessoas diziam que era assim, mas porque eu notava o vazio, sempre o vazio. Era na inexpressividade do morto que a morte começava a fazer sentido para mim.

Tudo porque a palavra alma vem de "ânima", que, novamente em latim, significa "sopro". É a essência que temos dentro da gente, o que infla nosso corpo e nos dá movimento e sentimento. É daí que, curiosamente, surgiu a palavra "ânimo". É preciso alma para resolver os problemas, alma para combater a tristeza, alma para levantar da cama. Sem alma, a gente não vive.

E, então, meus olhos curiosos notaram como o morto fica diferente no caixão. Não pelas flores ou pelo inconveniente algodão que nele é colocado, mas pela falta de ânimo: a expressão muda de um jeito que a pessoa parece até outra, completo desconhecido, tão estranho quanto a morte que o fez assim.

Portanto, tão triste quanto a saudade que a pessoa deixa, quanto as circunstâncias da perda, é a falta de ânimo, sopro que a morte inspira, arrebatando a essência que levamos a vida toda para lapidar. O sopro que resta nos que sobrevivem a isso pode ficar mortiço por um tempo, mas vai inflando novamente à medida que o ânimo volta a preencher cada vazio que dentro de nós fica. E é ela, a alma, que sabiamente transforma esse vazio em saudade, palavra que só existe em português, para o nosso consolo.


28 fevereiro 2007

Trinta dias contados


O último dia do mês geralmente é o último dia de tudo.

Em um mês, a gente muda de casa, de rumo, de estado civil, de emprego, de país ou de plano, inclusive espiritual. A gente passa dessa pra melhor ou se enrosca de um jeito na vida que acaba pior do que o mês anterior.

A gente termina de pagar conta em prestações, abre novo crediário, torna-se mensalista, recebe mesada, juros de poupança, salário defasado e mais contas para pagar. A gente faz balanço, malabarismo, milagre, contabilidade, previsão. Espera o mês seguinte pra ver como vai ser.

Em um mês a gente se vira, vira a página, a mesa, a folha do calendário, o jogo. A gente termina ou começa uma dieta, fecha a boca, tira férias, a barriga da miséria, engole sapo e fica digerindo situações mal explicadas até o mês seguinte. A gente dá um tempo, se aperta, se aflige, se emociona, se encanta e se decepciona. Experimenta todas as épocas do ano para decidir qual a de que mais gostamos.

A gente pega chuva, gripe, pega mal, cura ferida e paga o plano de saúde torcendo para não ter de usá-lo.

A gente termina um projeto, um curso, um relacionamento, uma aposta. A gente pode até nascer de novo, morrer, ser desenganado, preso, solto, corrompido, absolvido, deportado, assaltado ou levado a tomar atitudes extremas. Deste mês não passa.

Em um mês a gente vê, com um pouco de sorte, um feriado, vê quatro luas, uma menstruação, quatro ou cinco semanas, duas ou três baladas, um escândalo, uma polêmica, um punhado de aniversários, trezentas medidas provisórias, uma inflação mais alta, muita violência, nenhuma mudança política num governo que é um zero à esquerda.

A gente leva adiante, leva calote, susto, soco no estômago, leva a mal, vai levando... levanta. Completa uma gravidez, um contrato, a idade, um raciocínio, um ciclo, um sonho, um período de experiência. Ou deixa para completar tudo isso daqui a um mês.

A gente fala quinhentas vezes "no mês que vem", pergunta outras mil em que dia do mês estamos, quantos meses faltam para a Páscoa, o Natal, as férias, o Carnaval. Pergunta, pergunta, se pergunta trinta, trinta e uma ou vinte e oito vezes a mesma coisa.

Mas em um mês a gente também pode achar respostas, graça, fazer uma descoberta, entrar para uma terapia, receber alta, herança, parar de tomar tanto tombo, tanto remédio e tomar mais sorvete, providência, atitude, ar.

Tomara.