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11 dezembro 2011

Casal

Um casal, em Madri

Faria tudo de novo. Amaria intensamente, como se amanhã não houvesse. Choraria todas as dúvidas de sempre e perderia noites maldormidas pela ansiedade incomodando debaixo do colchão. Mas olharia mais nos olhos – eles sempre falam mais alto do que qualquer enxurrada linguística.

Mesmo sabendo do fim, faria tudo de novo. Riria os momentos divertidos juntos, dedicaria os melhores pensamentos, torceria para dar certo, ainda que caminhasse para dar errado. Sempre mergulhava assim nas coisas; era a forma de enfrentar o medo de não ter oportunidades suficientes para viver tudo. Coragem demais é medo do avesso. Cautela demais é coragem contida.

Teria as mesmas brigas: são elas que frequentemente desnudam sentimentos encortinados, comentários não ditos, sinceridades refreadas pelo receio de magoar. Amor é tanto receio! De magoar, de desiludir, de decepcionar, de mostrar os defeitos, a natureza, o instinto. Sempre achava que, num relacionamento amoroso, os envolvidos despendiam mais energia tentando contornar os receios do que se dedicando mais objetivamente ao outro. Como tinha de ser. Mas nunca era.

Faria as mesmas viagens, as mesmas descobertas. Tiraria as mesmas fotos, as mesmas conclusões, talvez mais panorâmicas para evitar tanto equívoco. Daria os mesmos créditos exacerbados ao deslumbre. Mas abriria mão de todos os minutos que não havia reservado ao relacionamento. Poderia ser mais. Poderia ser ainda melhor. Mesmo sentindo a dor do fim, queria ter ido mais fundo. Teria valido a pena. (Fique tranquilo: nesses tempos modernos, ninguém mais morre de amor. Apenas sobrevive. E é isso que dói.)

Embora tivesse aberto o coração, tê-lo-ia escancarado até as portas baterem violentas na parede, com aquela ventania toda que vasculhava os poros. E continuaria absorvendo cada recusa como tragédia e cada consentimento como prêmio. Manteria as mãos dadas com o intenso. Era assim.

Faria tudo de novo. Amaria intensamente, como se amanhã não houvesse. Porque o amanhã que conhecia era difícil demais de aceitar. Não daria o braço a torcer à conformação. Isso não combina com amor, desses de verdade. Não sufocaria os sentimentos assim, como quem apaga uma chama com a saliva.

Ainda tinha muito o que dizer.



"Desate o nó que te prendeu
A uma pessoa que nunca te mereceu"
Ando só - Engenheiros do Hawaii

28 fevereiro 2011

Quanto tempo demora?

Daqui a um mês,
quando você voltar,
a Lua vai estar cheia
e no mesmo lugar


Quanto tempo demora um mês,
Biquíni Cavadão.


Acordei com o seu gosto e a lembrança do seu rosto. Mas, daqui a um mês, ela vai ter se dissipado, eu sei. Quando salpicamos os dias de lacuna, o tempo acaba apagando tudo, até as memórias mais resistentes. No começo, é um esforço para não deixar as reminiscências submergirem, trazendo-as à tona toda hora, num resgate incessante. Há quem diga que isso se chama esperança. Eu chamo de teimosia. A gente resiste a ver morrer, quer sempre salvar. Dá um certo desespero, é um derramamento de angústias. Mas tudo o que é sedimento uma hora sucumbe e afunda. Devagar. O inflexível não tem como ser fácil.

Não é fim do mundo. Até porque ele não acaba. Daqui a um mês, a Lua vai continuar no mesmo lugar.

Se eu pudesse escolher outra forma de ser, seria menos em vez de querer sempre ser mais. Eu me contentaria com a Lua imutável, com o tempo pastoso, a falta de gosto, a ausência. Acharia normal. Não me esforçaria para salvar nada. Deixaria passar. Eu me anestesiaria mais. Sonharia mais, realizaria menos. Seria menos esperançosa, mais mitológica, menos humana. Se eu pudesse escolher, nada eu sentiria. Mais simples.

E a saudade em mim agora, quanto tempo será que demora? Sentimentos assim não demoram. Perduram. Daqui a um mês, um ano, uma década.

E a Lua lá, no mesmo lugar.





Os versos destacados foram retirados da letra da música "Quanto tempo demora um mês", cantada por Biquíni Cavadão. Ao contrário deste texto, a música dá outro sentido para os versos. Ouça-a.

16 janeiro 2011

Prato do dia

Um belo dia você se senta para fazer uma refeição e, quando a termina, percebe que sua vida mudou. Você experimentou algum alimento inédito ao seu paladar, ou recebeu uma ligação reveladora no celular, não tendo resistido à tentação de atendê-la mastigando. Ou, ainda, ao saborear um gosto preferido, teve um estalo acompanhado de uma ideia milionária. Pode ter se lembrado de um desejo de anteontem de mandar flores para uma senhora doente (o que amanhã será retribuído com uma receita divina de bolinhos de chuva) ou decidido mudar de profissão.

A vida pode mudar durante uma refeição aparentemente insignificante, feita num dia normal, com o tempo parcialmente nublado sujeito a pancadas de chuva, mas com um solzinho no final da tarde. Pode mudar logo após você ter escolhido uma salada ou preferido evitar a sobremesa -- ou a indigestão.

Apesar de saber disso, lá no fundinho da consciência a gente pensa que a vida só muda por causa da loteria, de formatura, de um acidente gravíssimo, de uma gravidez descuidada, um tapa na cara, desemprego, morte. Só configura mudança o que é grande, para caber em caminhão ou não caber mais na gente.

Mas o minúsculo muda tanto quanto o gigante. Aqui, ali, hoje, daqui a pouco, de novo, amanhã. A soma do microscópico pode ser uma mudança e tanto. Uma palavrinha mal colocada muda um diálogo. Um instantinho atrasado esfria o prato. Um beijinho inócuo, o namoro. Um buraquinho na blusa muda os planos. Um descontinho, a conta bancária. Um tiquinho de miopia requer novos óculos. Uma moto caída na avenida, novos caminhos. Um megapixel altera toda uma resolução. Uma notinha fora do lugar desafina uma canção. Um centimetrozinho altera o número da calça. Um pouquinho mais de sal estraga a refeição.

É no pequeno que o grande muda: a recorrência de pequenas gentilezas pode reconfigurar toda uma cultura, e a repetição de pequenos deslizes pode destruir toda uma relação.

É no mínimo que tudo muda todos os dias. A gente é que não percebe, porque mastigamos demais, remoendo a falta de gosto, ou engolimos de qualquer jeito, sem saborear a pressa.

Até que, um belo dia, ao sentar-se para fazer uma refeição, a gente tem algum tipo de estalo: sai da catatonia por causa de um amargo na boca ou fica vermelho devido a um sabor apimentado demais, e, finalmente, se permite mudar o cardápio.

O lombo de bacalhau a Santo Ofício, da cervejaria Trindade de Lisboa, mudou meu paladar e virou uma das minhas melhores memórias gastronômicas. Só a descrição do cardápio já dá água na boca: "lombo de bacalhau assado na brasa deitado sobre uma grossa fatia de pão cozido feito pelos nossos irmãos alentejanos, acompanha-o uma comitiva de batatinha miúda cozida com casca e grelos de nossa horta salteados com azeite virgem e alho".

16 julho 2010

Isto é só

Um senhor em Barcelona, batendo à porta de si mesmo

A gente só tem a gente. No fundo, lá no fundo, essa é a realidade. Qualquer outra interpretação é espera. No outro. Que o outro fale, que o outro perceba, que outro entenda. Não entende. Porque não é a gente. Imagina que entende, mas não enxerga porque os olhos são outros, ainda que da mesma cor.

A gente só tem um: o íntimo ou o espírito, o pensamento ou o sexto sentido. Fala um de cada vez, mas a gente cisma em ensurdecer por dentro e ouvir um outro. O alheio parece mais sábio, tem mais razão. Fala mais alto.

Qualquer boa vontade alheia é lucro. Ou caridade, compaixão, gentileza, consideração. Com um pouco de sorte, amizade; mais sorte ainda – muito mais! –, amor. Mas tudo isso não é da gente, é de quem o tem. Porque a gente, ah, a gente sabe, no fundo, lá no fundo, que não tem ninguém.


P.S.: Escrevi este texto no interminável trânsito paulistano, nesta noite chuvosa de sexta-feira. Parei em uma padaria e tive a sorte de encontrar pão de laranja quentinho. Ao sair, dei de cara com uma obra grande e li na placa do arquiteto o nome da minha melhor amiga-irmã. Isso me sacudiu, sobretudo porque passo ali diariamente e nunca havia visto a tal placa. Talvez, no fundo do no fundo-lá no fundo, a gente tenha alguéns, sim.

22 janeiro 2010

Depois de amanhã

Engenho Central - Piracicaba - SP


Somos um galpão que se esvazia todos os dias. Na vastidão do chão imenso, é comum sentirmo-nos pequenos, porque ele reflete o que inexiste: o que gostaríamos de ter sido, o que deveria ter sido dito, as histórias que não vivemos, as pessoas que não conhecemos, os lugares que não visitamos, os gostos que deixamos de experimentar, as páginas que preferimos não ler.

Somos um galpão que se enche todos os dias. Na agonia da falta de espaço, é comum sentirmo-nos pequenos, porque ela reflete a bagunça que somos: as ideias inacabadas, os dias intermináveis, as indecisões que se arrastam fazendo um barulho incômodo, distorções, indisciplina como fronha do travesseiro, imaturidade misturada a uma sopa insossa.

Pequenos nós somos, por mais adultos que achemos ser. Porque enchemo-nos e esvaziamo-nos dia sim outro também, encontrando espaço para conservar o que acabamos de descobrir, ao mesmo tempo que despejamos em caixas robustas o que poderíamos ter aprendido.

Apesar de menores, entretanto, podemos ser grandes nas intenções, no porvir, no calendário que ainda não estreamos. Porque é disso que somos feitos: de um eterno preparo para o breu à nossa frente, que, sabemos, um dia vai se descortinar...

16 setembro 2008

O amor nos tempos verbais

Aparecida do Norte - SP


“Pensava nele sem querer, e quanto mais pensava nele, mais raiva lhe dava,
e quanto mais raiva lhe dava, mais pensava nele,
até que a coisa ficou tão insuportável que lhe afogou a razão.”

Gabriel García Márquez, O amor nos tempos do cólera.
29. ed. Rio de Janeiro: Record, 2007, p. 351.


Nós, que nos amávamos tanto, deixamo-nos acabar como a garoa de ontem, que caiu de repente, invisível. Porque não nos enxergamos mais. Porque transcrevemos o amor demais em cartas hoje encalacradas em alguma gaveta por aí. Porque desgastamos o tapete da sala com passos de ansiedade, de espera, de desconfiança. Sobraram os fiapos.

Se nos amávamos tanto, deveríamos buscar a origem disso em vez de esforçarmo-nos pelo fim, inspirados pelo cinema que adorávamos freqüentar juntos, onde todo começo é medíocre, onde todo final é grandioso.

Agora, sentindo o frio que voltou sem aviso, o vazio que cresceu sem sentido, o arrepio que percorre a espinha, assombra-me a certeza de amarmos tanto, devora-me a ousadia de teimarmos tanto, devassa-me o orgulho de corrermos tanto, desesperados, para lados idiotamente opostos, permitindo que a mágoa nos habite desse jeito covarde e pífio, como se fracos fôssemos.

Porque nós, que nos amávamos tanto, escurecemos sem mais, tornando tudo noite, breu, seu, meu. Nossos egos inflados ultrapassaram os contornos um do outro, e invadimo-nos numa guerra de subjuntivos. Quando as hipóteses tomam conta, deixamos de ser reais.

Nós, meu amor, justo nós, que nos amávamos tanto, perdemos um ao outro junto com a razão, num labirinto próprio, tão vasto e sinuoso, que nos fez desabar de raiva em recorrente ressurreição, num chão empapado de mesmice.

Pensando nisso — e eu não paro de pensar —, amanhã, futuro do presente, vou comprar outro tapete para direcionarmos nossos passos à mesma direção, porque temos de amar no indicativo e escolher os mesmos verbos. Portanto, sejamos cúmplices, não mais imperativos.

Afinal, nós nos amamos tanto... Isso tem de bastar.

27 julho 2008

O dia em que perdi a fala

Do dia para a noite fiquei sem palavra.

Minha mudez espalhou-se na minha cama fria. Em pensamentos de paroxítona, pergunto-me para que servem agora os cobertores se nem suas franjas me fazem mais cócegas. Eu e tudo perdemos o sentido.

A água com que eu lavo meu rosto todas as manhãs não me diz mais nada. Não ouço conselhos nem gritos de socorro. Ficou tudo silencioso depois que as pessoas engoliram seus olhares de cobiça junto com o café. Um pingado insignificante que já não me alimenta mais.

Não posso mais decodificar as palavras que leio, o que me impede de escrever: uma dor muda nos olhos, capaz de arremessar a órbita para um mundo surdo, me impossibilita ser a voz de quem nunca sabe o que dizer. Uma pessoa muda não pode mais ser porta-voz dos outros, encarando expressões cínicas e fingindo ser delas palavras que lhes empresta em momentos de prostituição.

E as lágrimas que antes diziam tanto agora secaram de vez. Curioso como há partes da gente que só gritam de um jeito rouco quando o restante pára e torna o silêncio ensurdecedor.

O médico vai mandar pôr a língua para fora e dizer "aaaaaaa". E vou mostrar-lhe a língua até dizer chega, sem letra nem som, deixando-o intrigado a encontrar onde a minha voz ativa se perdeu. Deve ser o mesmo lugar onde deve estar a minha vontade de tirar a palavra da boca dos outros.

É que do dia para a noite fiquei sem palavra, como se tivesse desaprendido a ler, como se tivessem raptado minha fala. Só me restaram pensamentos sussurrados soprando o que não me diz mais respeito.

E durante um tempo vai ser assim: vou acordar na cama fria com cobertores inexpressivos, e lavar o rosto com água insalubre, e tomar café insosso olhando para um jornal em branco.

Os dicionários definem isso como desilusão. Taí a palavra.


Blenheim Palace - Woodstock, Inglaterra

22 junho 2008

Fome


O corpo esticado sobre a cama forrada de lençóis lisos, as mãos enlaçadas atrás da nuca, evidenciando os bíceps, mostravam que era todo curvas, em temperatura ideal para o tato.

Permanecia com as pálpebras ligeiramente cerradas, feito milharal em época de colheita, embora não deixasse os pensamentos serem ceifados por observação alheia. Escondia ali um par de castanhas.

Sorria com o canto dos lábios finos, numa educação contida demais para um momento sem ponteiros. Ofereceu um pouco de chá branco, tal qual o lençol. Tinha gosto de maçã. Um pouco verde, talvez. Irrelevante. A embriaguez era mesmo de vinho.

Apesar da miopia, proferia palavras nítidas, que emendava num português quase perfeito envolto num timbre de pêssego. O humor era doce; o toque, sussurrado como quem acaricia uma onda sem molhar as mãos; o desejo, exalado por poros contemplativos, fincados na degustação do agora.

E não importavam os olhos que o admirassem, fossem anis, de quiuí ou de chocolate. E não importava o perfume, se de amêndoa, adocicado ou cítrico. Quer fosse um aperitivo, uma entrada, uma sobremesa ou um banquete, pedia era para ser devorado. Só assim sentir-se-ia satisfeito.

Nascera para a tentação, porque abria qualquer apetite.

17 abril 2008

Volta e meia

Para Cleu Sampaio, pela idéia e pelas folias de donzela

Pall Mall - Londres

É uma pessoa que só vai. Para cima e para baixo, como libélula que sempre procura água. Tem mesmo sede de conhecimento, porque carrega curiosidade em sacolas feitas de retalhos coloridos, como se a vida fosse assim, um punhado de remendos que se leva para lá e para cá. Para ela, as agulhas existem para costurar desafios, e as linhas dos mapas são todas imaginárias. Essa mulher vai sempre além.

Cheia de vida, é alguém de carimbos no passaporte, souvenirs na memória e passagens aéreas pelos lugares que visita, para quem "além" ultrapassa o mais para lá: significa o que os olhos não alcançam, a vastidão redonda que clama por ser conhecida. Por isso vai em frente, porque atrás vem mais, e sempre um mais que atropela. Não há tempo de sentir dor nem saudade; é preciso força para carregar a bagagem.

É uma mulher que não volta, porque não tem medo do que ainda não aconteceu. Vai sem data para retorno, sem planos, com sonhos e um espírito escancarado pronto para banhos diários de lavanda, cheirando a novidades que ainda virão no vento, enquanto o suor seca no varal.

Não carrega a casa nas costas nem peso no coração. Não arrasta culpa nem os pés, porque pisa firme e planta o apego na terra em vez de levá-lo nos bolsos do casaco florido.

Essa mulher vai longe, projetando coragem à frente, puxando a sombra atrás, sem chorar. Isso fazem os regadores. Porque ela, ela volta e meia pode ir sem voltar. Ela vive. O lugar.


09 abril 2008

Anjos

Ilha da Crôa - AL


Para um Querubim

Espíritos independentes não estão acostumados a receber ajuda. Às vezes porque foram habituados a ser assim; às vezes porque estão sempre ilhados em suas próprias convicções, ou, ainda, porque se cansaram de se decepcionar com as pessoas. Esperar dos outros nem sempre é um costume sadio.

Mas há comportamentos que desarmam. Eles vêm envoltos em tanta espontaneidade que o ineditismo espanta, cala as desconfianças, apazigua a resistência. (Você está vendo? Há estrelas no céu!)

E essas tímidas aberturas que a vida proporciona ensinam que poder contar com alguém é ter o travesseiro preferido sempre à mão, envolvendo-se naquela sensação morna de aconchego para respirar quieto um monte de tranqüilidade. É sentir-se em casa mesmo estando no Chile, no Amazonas ou perdido em alguma rua estranha de cidades grandes demais. É uma noite de sono profundo sem interrupções em um lençol limpinho e todo branco.

São promessas que sempre serão cumpridas, gritos que nunca serão dados, escolhas que não precisarão ser feitas. (Alívio.) É ficar à vontade para errar quantas vezes forem necessárias, sem culpa ou temor de repreensão, porque saber que há alguém com quem contar é ver um guarda-chuva em cada abraço, é sentir sossego com cheiro de camomila, santo remédio para tirar qualquer frio na barriga.

Confiar é terceirizar a razão, adoção sem perguntas. (Olhe para as estrelas. Elas estão lá ainda que não as veja.) É mesmo debruçar-se no desconhecido, deixando-se desequilibrar se preciso for, com um espírito aventureiro esparramado no que a gente não tem, mas que sabe que está lá, sempre, como chão firme sob os pés. (Não precisa mais olhar para baixo.)

Pessoas assim, sempre de braços abertos para amortecer passos em falso, que envolvem feito cobertor sem que seja preciso dizer que se está com frio, são alguens com quem contar. E pode ser tudo em silêncio, porque elas lêem a alma. São incondicionais, não têm relógio ou compromisso inadiável, melindres ou complexos, apenas uma compreensão almofadada disfarçada em um olhar que tudo diz.

E, para ter com quem contar, tudo o que é preciso fazer é olhar para cima (as estrelas existem) e parar de pensar sozinho.

04 março 2008

Doença crônica

Paripueira - Maceió, AL


O gosto de vinho ainda permanecia na boca pasma. O resto de amor continuava ofegante, apertando o peito. O gosto e o resto misturavam-se em sentimentos confusos, e a confusão tornava o gosto ainda mais ácido, e o resto, mais enorme.

Ele queria ter dito o que pensava naquele instante de analfabetismo, mas tudo o que conseguiu dizer foi silêncio. Ela queria ter sido tomada por certa compreensão gigantesca, mas tudo o que conseguiu compreender foi bobagem.

Embora trocassem olhares de pena recíproca, tinham mesmo era desejo de abismo. Em horas assim, sabiam que só a escuridão tem um abraço reconfortante, capaz de apagar todos aqueles cacos de indiferença que cortavam os passos. Passos que poderiam ter ficado para tentar reconciliação, mas que preferiram ir embora enroscados em solidão.

O gosto, o resto, os cacos, os passos. E tudo o mais pingava, numa homeopatia besta.

Amanhã estariam curados.


13 dezembro 2007

Um livro para chamar de meu

A convite do Vinícius, o Devorador de Livros, escrevi um texto sobre o livro que mais me marcou. Foi uma literatura que influenciou bastante meu jeito de escrever. Lá no texto eu explico por quê.

Vai lá dar uma olhada e aproveitar para conhecer o blog do "Elfo". Ele é mesmo encantador (o blog e o autor).

08 dezembro 2007

Linguagem

Para Marcelo, pela sugestão do tema e pelo desafio que ele é.

Salvador - Bahia

"O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.

O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.

O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar."


Carlos Drummond de Andrade, "O mundo é grande".


O mundo é grande. O mar é grande. O amor é grande. E tudo cabe no breve espaço de beijar.

No breve espaço de beijar cabe o universo. Um universo de sensações, um universo de expectativas, um universo de desejo que vai e vem, que percorre o corpo várias vezes, provocando ondas de calor como se todos os segundos fossem verão.

Mas, mesmo sendo universo, no breve espaço de beijar só cabem dois: dois pares de lábios, dois pares de olhos fechados, duas línguas, dois corações, duas pessoas, dois jeitos, duas improvisações.

No breve espaço de beijar cabe mesmo o mar. Um mar de água na boca. Vontade de mais, de sempre, de grude, de amasso, de sexo.

No breve espaço de beijar cabe muita volúpia, muito movimento, toque e tesão. Cabe uma aquarela completa que dança no pensamento vazio enquanto o corpo se enche de... mundo.

No breve espaço de beijar cabe troca. De saliva, de textura, de sentimento, de um mar de silêncio, apesar da trilha sonora que toca na imaginação, porque um beijo pára tudo ao redor só para ser apoteose, mesmo quando considerado mera alegoria.

No breve espaço de beijar cabe o que a gente ainda não sabe. Não sabe se é amor, se é paixão, química, tentação ou só impulso. Cabe o indefinível, porque beijar é mais importante do que qualquer tentativa de dicionarização.

No breve espaço de beijar cabe estréia. O primeiro, o segundo, o terceiro, o milésimo. Todos premières cheias de glamour, porque as variáveis são muitas e as combinações, inúmeras: variam as bocas, os lábios, os amantes, os dias, os cenários, os motivos — um beijo nunca é igual ao outro.

O breve espaço de beijar é tão enorme que nele também cabe paradoxo: brevidade e permanência, elegância e desalinho, calma e voracidade, fome e satisfação. Congela a memória mas faz ferver o sangue. Em um beijo cabe um mundo de contrariedades, de opostos que se atraem, de algo em comum.

O beijo é intenção declarada, ponte para o outro, uma invasão consentida mesmo quando roubado, apetite incontido, jeito ousado de mostrar com a boca o que os olhos querem e não alcançam. É sei lá, deixa para lá, o lá de dentro e o lá de fora num diálogo mudo que diz tudo aqui e agora.

Beijar desequilibra, faz perder o rumo, a cabeça, a razão, mas não a oportunidade. É mesmo um espaço infinito ainda que acabe rápido, deixando a respiração ofegante e o corpo todo falante, já que a boca está ocupada demais para pronunciar sílaba. Um beijo é língua comum embora deixe a gente sem palavras. Beijo é linguagem. Desvia todos os sentidos para o paladar. É gosto que não se discute ao sabor de cada par.

Por isso que o beijo contém o mar, o céu e o que mais for possível imaginar. Porque qualquer beijo é um gigante mostrando horizontes inteiros para a gente desvendar.

O mundo é grande. O mar é grande. O amor é grande. E tudo, absolutamente tudo, cabe no breve espaço de beijar.

21 outubro 2007

Vontade de verdade

Hoje me deu vontade de pôr tudo no lugar, os pingos nos is, tudo em pratos limpos — e novos. Vontade de verdade, de sol, de ar bem puro passeando pelos pulmões de um jeito bem despreocupado.

Hoje é dia de pregar botão, de alinhavar tudo o que está solto, pôr para lavar o encardido, tirar o edredom da cama, porque é quase verão, e a preguiça teima em enrolá-lo ao pé da cama todos os dias — isso sufoca.

Hoje é para jogar fora aquele monte de coisa que recebo pelo correio e que me informa o que eu já sei. Tirar o pó, limpar o teclado, mudar de idéia. Está na hora de arquivar a tonelada de documento que se empilha há dias em cima de mim — isso oprime. Trocar a cor da tinta, escrever com outra caneta, colocar para reciclar algumas embalagens que, sei lá, eu cismei de guardar por algum motivo que já fugiu de mim.

É porque hoje acordei de outra cor, com uma disposição daquelas de lavar carro, mas vou lavar mesmo é meus pecados, minhas lamúrias e toda sorte — aqui seria melhor escrever "azar" — de quinquilharias emocionais que andam atopetando de cólera todos os meus armários.

É dia de devolver para a estante os livros que não estou lendo, mudar a folha do calendário, porque o mês novo já entrou faz um tempo e eu nem percebi. A vontade é mesmo tirar da frente o que confunde minha visão, aquele monte de formas que olham para mim toda hora pregadas no quadro de avisos. Já avisaram o que tinham para avisar. Está na hora de saírem de lá.

Agora é a hora de parar de implicar, parar de amontoar as roupas em cima daqui e de lá, esperando a hora de arrumar. É hora de parar de esperar. Sacudir a moleza e mandá-la passear. De preferência, lá para a Capadócia, que é onde a gente pode ser bem mole até ver o tempo parar.

Hora de acabar com os restos de xampu, com o nunca que a gente enfia nas gavetas achando que um dia vai usar. Hora de doar, pôr para circular, desfazer-se tirando todos os nós, andar descalço, vestir roupa leve, esfoliar o cérebro para deixar só essência.

Hoje, minha gente, é dia de ver orquídeas, de andar florido, de encher a casa de lírios, de sentir perfume bom, cheiro de bolo quente, pão doce ou bom humor.

É dia de simples, de dançar, de rodopiar até ficar tonto no meio de tanta coisa para fazer. Dia de deixar o que é chato para lá. Porque a vontade de verdade é de paz.



Para quem é de São Paulo e está a fim de ver orquídeas, o Orquidário Morumby é uma boa pedida. A exposição "Festival da Primavera" vai até dia 28/10/2007, e, para entrar, basta levar um quilo de alimento não perecível. Você vê beleza e ajuda o próximo. Ótima maneira de ficar em paz.

Os lírios da paz que ilustram o post são um pedacinho do meu quintal que escaneei, usando como fundo um presente lindo que ganhei da Cleu Sampaio, junto com uma bolsa linda que ela fez para mim, porque ela transforma a arte que vai dentro dela em objetos personalizados que combinam com a alma. Passa lá para ver...



24 setembro 2007

O dia em que choveu azul


"You tell me we can start the rain
You tell me that we all can change"
Rainmaker - Iron Maiden
(Dave Murray/Bruce Dickinson/Steve Harris)



Achava que já estava completa, de tantas convicções que carregava dentro de si. Sempre foi alegre, distribuindo por aí pitadas aleatórias de intensidade e revestindo de otimismo todos os acontecimentos, como se se preparasse constantemente para um baile de Carnaval.

Até que um dia deparou-se com um azul. Ficou desconcertada com tanto deslumbre. Era de um tom que ela nunca havia visto antes, desses que a gente não encontra em mostruários; só sob encomenda.

Numa determinada manhã, daquelas bem calminhas, a moça das convicções saiu para caminhar numa praia desconhecida, lugarzinho perdido num canto esquecido do mapa. Levou com ela o azul, ávido por encontrar mais cores. Então, num dado momento, desses que o relógio esconde quando o mundo pára em forma de deserto, sentaram-se à beira-mar para olhar para o horizonte.

À frente deles havia verde, um pouco do bege da areia, o branquinho de quando as ondas quebram, várias nuanças de marrom cobrindo pedras e uma vastidão de cinza maciço, como se o céu tivesse se vestido mais sério só para se impor em silêncio.

Foi aí que viram, no mesmo horizonte para onde olhavam, uma nuvem chuvosa carregadinha de de-repente vindo na direção deles. Mais ninguém ao olhar para a direita. Mais ninguém ao olhar para a esquerda. Só ela e o azul, as outras cores e a chuva iminente, trazendo água para, quem sabe, desbotar tudo numa lavagem inocente.

Então, com uma coragem serena, dessas que não se compram a granel, permaneceram ali, quietos. Não correram. Não falaram. Pensavam aquarela enquanto esperavam a nuvem chegar.

Foi quando choveu. Forte, torrencialmente, numa sucessão de pingos grossos ensopando tudo. Decerto a chuva seria passageira, dessas de verão que atravessam outras estações em forma de imprevisto.

De súbito, debaixo daquela chuva, a moça das convicções viu todas escoarem para o mar, deixando-se chover também, completamente despreocupada. E, daquele dia em diante, ela nunca mais foi a mesma.

Dizem que a culpa é daquela aguaceira toda. Mas alguma coisa dentro dela sabe que foi a cumplicidade do azul.


04 junho 2007

Passagem

A mulher baixinha que passava foi atropelada por um carro que também passava. E foi assim que tudo se passou:

O motoqueiro que voava pelo local só teve tempo de levantar a viseira, porque a velocidade limitava seu campo visual.

O homem gripado assoou o nariz, preocupado com a ocorrência: era sua aflição que escorria.

Os passageiros do ônibus parado amontoaram seus olhares interrogativos na mesma janela.

O menino que empinava despreocupação numa pipa deixou-a misturar-se ao céu e arregalou o azul que tinha dentro dele, querendo entender descontrole.

O guarda apitava numa tentativa surda de conter a curiosidade e abrir passagem para o socorro, tão aflito quanto o homem gripado.

A senhora da casa em frente fechou a janela com uma incompreensão abrupta, girando seu trinco todo estrangeiro.

O homem que saía da padaria trazendo pãozinho quente perdeu toda a fome ao abrir a boca, horrorizado.

A moça que passeava com dois cachorros ficou louca de raiva, tamanha sua indignação com o acontecimento.

O ciclista colorido perdeu a cor de tanto susto.

Os moradores do edifício vizinho à janela estrangeira salpicaram nas sacadas derramando uma cascata de perguntas.

O trânsito parou para olhar. O resgate parou para socorrer. A mulher baixinha parou de respirar.

O carro havia passado em cima dela. Ela passou desta para melhor.




22 fevereiro 2007

Dama de folhas

"A ventania misteriosa
passou na árvore cor-de-rosa
e sacudiu-a como um véu
um largo véu na sua mão.
Foram-se os pássaros para o céu
mas as flores ficaram no chão."
Cecília Meireles

A ventania vive passando misteriosamente na vida da gente. Mas existe também o que foi concebido pássaro, que tem em si um bônus celeste para poder escolher a árvore em que vai ficar. Isso para não falar das flores, que caem desiludidas ao chão depois de já terem embelezado alguma árvore. Não têm culpa de terem nascido poesia.

De todos, ultimamente ando árvore: sinto e resisto à ventania apesar de pender; acolho pássaros consciente de que um dia eles se vão; produzo flores sabendo que cairão, embora me esforce numa companhia silenciosa enquanto ainda estão no chão, esperando que um infortúnio as venha varrer dali.

Entretanto, não é fácil estar árvore. As raízes não deixam voar ou cair. É preciso ser impávido e agüentar tudo, porque acontecimentos alados ou pessoas passarinhentas, livres e muito avulsos, sempre se vão para o céu, e, inevitavelmente, as flores-lembrança acabam ficando no chão.

Talvez essa seja a razão de as folhas caírem: jeito desvairadamente elegante que as árvores têm de chorar. Umas, mais desesperadas, despem-se de vez. Outras, de espécie mais comedida, demoram mais para se recuperar da angústia e vão desfolhando aos poucos, até a mais completa nudez. Mais dia, menos dia, recompõem-se com a ajuda do tempo, faça chuva ou faça sol, pouco importa.

Será essa a minha sina? Como árvore que se preze, esperar, impassível, outras ventanias passarem? Não. Creio que, antes disso, é aprender a conviver com as intempéries imprevistas pela minha ingênua meteorologia.

Para tanto, posso contar com uma única certeza: ser forte por natureza.




25 janeiro 2007

Entrada franca

Para Eduardo Lima,
que tem olhos lindos
quando estão abertos...


Primeiro abra os olhos e tenha coragem, porque você não vai encontrar tudo como deixou.

Levante a cabeça e saia do lugar. As coisas mudaram, isso é fato. Encare-o sem perguntas, porque elas atrapalham demais.

Mas, cuidado! Não tropece nos próprios passos na ânsia de ver novidades. Acordar leva tempo.

Tome um copo d’água enquanto tenta encaixar as peças, mas, por favor, pare de bocejar. Você já dormiu tempo demais.

E todos aqueles jornais que se empilham lá fora? E as xícaras sujas de café de ontem transbordando na cozinha? E todo esse silêncio que desperdiça minutos? Os ossos doem, eu sei. Mas é preciso engolir esse amargo da boca e parar de ruminar desgosto.

E apagar lembranças, e curar ressacas, e tomar atitudes, e ir para algum canto, para deixar a luz entrar.

Você precisa se mexer! Parar de tratar a vida como pão fatiado, que acontece em capítulos e precisa ter final feliz. Geralmente não tem, aceite.

O cansaço é inevitável, nunca imbatível. Mas você desiste, porque a fraqueza acarpeta sua sala sem permissão. Olhe pra você, assim, tão miserável por tentativas fracassadas de suicidar desilusões. Em vez disso você as alimenta como animais de estimação. Covarde.

Não investigue sua casa tentando achar motivos. A culpa não é dela; é sua, que se machuca toda hora com essa descrença podre que aprendeu em algum lugar escuro não sei com quem.

Você ficou sozinho tempo demais com todas as mentiras, o descaso, o azar, a perda. E se afundou nessa torpeza nauseante por não saber nadar. Não foi capaz de pedir socorro...

Ninguém te salvou, eu sei, porque você mesmo matou a esperança e se trancou aí, nesse rancor bruto e irritantemente maciço, sem deixar ninguém entrar.

Não adianta, não há pra onde fugir. Uma hora você vai ter de enfrentar tudo isso mesmo, querendo ou não. E a hora é agora, porque parece que você acordou.

Diga-me que você abriu os olhos, vamos, diga-me que você finalmente abriu esses olhos...

Porque aí vai faltar pouco pra abrir essa maldita porta.



08 janeiro 2007

Balada de um coração desconcertado

Para ela, todo homem era um canalha. Todos mentiam, dissimulavam, escondiam-se. Ora no medo, ora na covardia.

Para ela, todo homem era menos homem do que podia ser: não olhavam no olho dizendo com o olhar o que de fato o olho via. Passavam outra mensagem para enganar o cérebro. Deles e dela.

Para ela, todo homem tinha verdadeira paúra de ser verdadeiro. Não se sentiam à vontade nus. Que fossem tímidos, vá lá, mas assim, tão irritantemente inverídicos? Difícil de acreditar que fosse natural. Eles eram naturalmente assim, digamos, esquisitos. E, para ela, a esquisitice não parava aí: eles tinham códigos próprios, em sua maioria indecifráveis, capazes de concorrer em grau de dificuldade com quaisquer hieróglifos. Isso para não falar da caligrafia. Eram mesmo ilegíveis.

Para ela, todo homem lavava o rosto de manhã com uma porção generosa de complicação, ainda que com cheiro de hortelã. Mas eles também eram tão absurdamente objetivos que o paradoxo virava um nó gigante e para sempre indesatável, de enforcar qualquer tentativa de compreensão.

Para ela, todo homem enganava, traía, se aproveitava — das situações e dela. Corriam da fidelidade como se todos os dias fosse São Silvestre. Nisso, ela admitia, eles eram bem rápidos, assim como no raciocínio e na arte do sumiço.

Para ela, todo homem não valia nem um dos números do telefone dela, que, infelizmente, não tinha zero. Tinham incertezas flutuantes a deriva, desejos múltiplos e simultâneos por todas as mulheres do mundo, paixão por jipe na garagem, dicionário próprio, descontrole emocional impetuoso ou controle insensível e frio das próprias emoções. Todos uns malabaristas desequilibrados e mulherengos, com alergia a compromisso ou ao simples conceito de exclusividade.


Para ela, todo homem era isso: genética embutida num DNA distorcido e infeliz, numa química mal explicada que podia explodir a qualquer momento, sem manual de instruções. Sempre querendo impressionar com uma espontaneidade premeditada, mas incrivelmente perfumados num fanatismo esportivo de dar nos nervos.

Para ela, todo homem era generalização, conteúdo pouco original diluído em massa, estatisticamente comprovado como sendo de valor questionável, que não merece aplicação ou investimento. Tinha cansado de ver casos e mais casos da espécie que, mais dia, menos dia, apresentavam os sintomas. Mas quem caía doente era sempre ela. Por isso tinha desistido de antídoto. O caso era mesmo crônico.

Para ela, todo homem era uma decepção em potencial quando não um doido neurótico. Uns passivamente calados, morando no mundo aéreo e distante das idéias; outros tagarelas insistentes soltando insensatez a torto e a direito. Era tão mais fácil falarem a verdade, abrirem o jogo, os olhos, o coração; dizerem sinceramente o que sentiam, com todas as letras, sílabas, palavras, gestos, beijos e abraços. Para ela, os homens não sabiam abraçar senão o próprio egoísmo e não se esforçavam para entendê-la com o mesmo afinco com que tentavam tirar a aliança do dedo enquanto escondiam a mão no bolso.

Para ela, todo homem era um joão-vai-com-os-outros, disparando intimidades hiperbólicas em rodas bêbadas de amigos sóbrios demais para saber que ela existia.

Mas, um dia, sua teoria foi traída pela prática, e ela ouviu um olhar sincero vindo em sua direção. E viu palavras tão descomedidamente reais atingindo suas inquietações, que tremeu. De medo ou de covardia, embaraçada em seu próprio vocabulário. E sentiu-se complicar, dizendo com o olhar coisas diferentes do que a boca dizia com gosto de hortelã. Travou sua espontaneidade, engoliu a caligrafia em monossílabos ressecados de timidez, soltou disparates e refreou a sinceridade numa paralisia incrédula. Não podia mesmo ir falando tudo assim, aquele monte de sentimentos em dia de feira, porque isso passa outra mensagem para o cérebro deles, o dela sabia.

Daquele dia em diante, para ela, todo homem era apaixonantemente desafiador. Então, ela se desequilibrou de seu malabarismo defensivo e deixou-se cair. Inebriada, caiu numa particularidade, dessas de neutralizar impressões. Ficou tão desconcertada com aquela exceção que nunca mais teve conserto. E, mesmo suspirando dúvidas, respirou uma certeza absoluta: ele podia ser homem, mas, para ela, ele era único.


27 dezembro 2006

O caso das prateleiras


Esperança está pensando no que deve encostar e o que deve deixar à mão. Quer deixar de lado o excesso de peso, de preguiça, de seriedade, de procrastinação ou de vontade, dando lugar à ânsia de satisfazer ideais de ano-novo. Faz lista, promessa, anotação, simpatia, reza, mantra e meditação. Faz faxina na índole, varre da mente as idéias negativas, tira o pó dos velhos desejos e respira fundo, como se o primeiro de ano fosse algum tipo miraculoso de tira-manchas.

Se não bastasse a pressão que essa época pré-ano-novo geralmente causa nas pessoas, tal elucubração de Esperança fora motivada pela Dúvida, a irmã caçula e fiel, quase sempre estraga-prazeres: “O que você vai colocar nas prateleiras que ganhou, Esperança?”. Três prateleiras vazias no quarto, ultimamente tão bagunçado de aindas espalhados por todos os cantos, caixas amassadas amontoando quaisquer-dias, muitos pedaços de daqui-a-poucos pendurados em cabides desordenados.

Diante da Dúvida, Esperança resolveu colocar a ordem antes do progresso daquela bagunça toda. Mas olhava para as prateleiras e, com o indicador esticado sobre os lábios, pensava sem parar: “o que é que vou colocar aqui?”. Eram tantas as coisas das quais queria se desfazer. E outras tantas deveriam ficar organizadas, para que pudesse alcançá-las sempre, sabendo exatamente onde era o lugar delas. Puxa vida, eram apenas três prateleiras para aquela vastidão de vai-chegar, espera-aís, futuros e serás que Esperança decidiu ser democrática. Para não magoar seus pertences — porque há muito de sentimentos nas coisas que guardamos —, ela achou por bem usar as prateleiras para coisas novas, porque o ano seria novo, e tudo, então, deveria sê-lo também.

Sentou-se em sua cama fofa coberta por uma colcha de retalhos, que isso combinava com ela, e ficou matutando que novas deveria adquirir para colocar ali. Boas-novas, só podia ser. E o resto seria organizado ali mesmo, no chão, nas caixas, nos armários e cabides espalhados onde a Esperança dormia. O que não servisse ela poderia até passar para a Dúvida, que se encarregaria de dar um fim, se assim conseguisse.

Começou colocando amores. Achou melhor mais de um, porque há muitos tipos e são todos tão coloridos que ficariam bonitos ali, na prateleira mais alta. Para tanto, resolveu jogar fora os muitos ele-não-dá-continuidade-ao-relacionamento-mas-é-legal, sins-ele-vai-me-ligar e afins. Esse tipo de artigo não combinava mais com ela. Era uma Esperança renovada e queria amor de verdade, desses de tirar o fôlego, disparar o coração e trazer todos os oceanos do mundo aos olhos emocionados. Os suspiros tristonhos com pitadas de decepção que ficassem com a Dúvida. Esperança queria em sua prateleira algo mais concreto, que ela soubesse estar de fato ali quando ela precisasse, em que pudesse tocar.

Depois, escolheu saúde e disposição, que deixou lado a lado, em pé, amparadas por pesos de mármore em forma de estrela, que isso ficava lindo e impedia que saíssem dali. Também arrumou diversão, que não sabia por que cargas d’água escorregava da prateleira toda santa hora. Descobriu que ficava melhor na do meio, pois exigia um certo equilíbrio. Trocou os velhos minha-promoção-vai-chegar por trabalho-bem-feito-e-prazeroso. Jogou fora um monte de quero-ir, colocando no lugar uma dose generosa de viagens inesquecíveis. Desfez-se dos sorrisos amarelos e colocou na prateleira de baixo muita gargalhada sincera, com abraços de verdade e olhares profundos, daqueles que tudo dizem sem soltar palavra.

Mas ainda havia espaço. Esperança, então, resolveu deixá-lo lá, para muitos o-que-vieres. Desses há diversos modelos: novas amizades, aprendizado, experiência, desconhecido. Quando chegassem, precisariam de um lugarzinho.

Nem a Dúvida poderia achar defeito naquela arrumação porque, pela primeira vez na vida, Esperança tinha sentido determinação. Teria, finalmente, um ano novíssimo em folha, brilhando de limpo, cheiroso e diferente, livre das insistências tolas que em nada dão.

Estava resolvido. Era, agora, uma Esperança otimista, respirando limpo para um tempo novo, ali, ao alcance da mão e dos olhos, mais palpável, mais possível, menos ideal.

Pensando bem, aquelas prateleiras não tinham sido feitas sob medida, mas combinavam perfeitamente com Esperança. E isso bastava para um ano feliz.




P.S.: esta idéia na janela tem uma origem curiosa. Fui ao cinema ontem assistir a O amor não tira férias, filme água-com-açúcar que mostra duas protagonistas se livrando de valores que não lhes fazem bem, superando medos e realizando esperanças. Curiosamente, a expressão “colocar algo na prateleira”, que também existe em inglês (to put something on the shelf), no sentido figurado significa “livrar-se de algo pouco importante”, “deixar de lado o que não se quer mais”. Ganhei no Natal três prateleiras novas para o meu quarto e até agora penso no que colocar nelas, já postas na parede, num lugar em evidência. Por último, estamos prestes a entrar em um novo ano. Juntei tudo e deu nisso. Como sou subversiva, inverti a semântica da expressão, porque, nas minhas prateleiras em evidência, só cabe o que é importante e precisa estar ao alcance da mão.