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28 abril 2013

Toda céu


Foi numa noite de junho, do outro lado do mundo, que vi o céu estrelado mais estrelado do mundo. O que me surpreendeu foi a desintenção de olhar para cima.

Num quarto de hotel, com camas duplas que agigantam qualquer solidão, levantei-me para tirar da tomada próxima à janela algo que piscava e atrapalhava o tudo em que eu pensava no meio daquele nada. Sem querer, esbarrei na cortina, que, permissiva, deixou entrar o luar. Um luar de presença tão marcante que me fez olhar para cima, bocejando deslumbramento.

Naquele silêncio estrangeiro, um milhão de estrelas reluziam na escuridão de um céu azul-marinho, uniforme, limpo e perfeito, côncavo acima de mim. Abri a janela. Na impossibilidade de recolher todas aquelas luzes, ou de pelo menos resvalar em algumas delas, usei as mãos para apoiar a cabeça, debruçando-me no parapeito.

Era o início do verão em um lugar sem grilos ou qualquer ruído natural que distraísse os sentidos da beleza refletida em meus olhos ainda sonolentos.

O céu mais estrelado do mundo me inundou de gratidão. Aquilo era um privilégio do qual eu sempre me lembraria. Nada mais incomodava: nem sombra de solidão, nem ansiedade pelo tudo que ainda viria, nem interrogações ou insônia. Eu era céu. E me senti abraçada em todos os pontos cardeais, protegida pela abóboda salpicada de boas lembranças, de pessoas queridas que agora lá moram, pessoas amadas que ficaram do outro lado do mundo e não podiam experimentar assistir a tantas e infinitas estrelas brigando por espaço naquele breu.

Pensei no breu que mora na gente. Nas estrelas que piscam quando praticamos boas ações. No breu que alguns olhos adotam para disfarçar amargura. Nas estrelas que brilham mais quando pessoas se apaixonam. No breu que domina os corações egoístas. Nas estrelas que embalam esperanças para presente.

Não sei quanto tempo permaneci ali, olhando sem parar, já fora de mim, vasculhando cada canto daquele cenário redondo e inédito. Tinha receio de nunca mais presenciar tamanho presente, de me perder novamente no tudo que aquele lugar quase deserto teimava em não acolher.

E me lembrei da minha palavra favorita: stupore, do italiano. Um estupor aquilo. A noite do céu estrelado mais estrelado do mundo não podia ser registrada de outra forma que não na memória, por vezes tão incompetente ou incompleta: ou não absorve a totalidade do momento, ou perde as imagens, deixando apenas resquícios das sensações que elas causaram. Prometi me esforçar para não deixar nada esvanecer feito neblina, porque aquele bálsamo é para toda uma vida. Para lembrar da minha pequenez e insignificância em um Universo indescritível. Que tristeza nenhuma permanece quando existe a possibilidade de um céu assim. Que toda alegria merece ser imensa, para alcançar um céu assim. Que tudo é efêmero, porque sempre amanhece. Esse é o segredo das noites: digerir os dias.

Foi naquela noite que me dei conta de que até nossas intenções mais nobres não são nada perto de tanta grandeza, ali, de graça, esperando ser descoberta. Eu sorria e chorava, desejando escancaradamente poder compartilhar aquela experiência com todos que amo. E disponibilizá-la aos que ainda não amo por não conhecê-los. Quem dera todo o mundo olhasse para cima àquela hora e visse o que eu via.

Na manhã seguinte eu voaria de balão no céu da Capadócia, outro deslumbre da minha vida. E qual não foi minha surpresa – outra – quando, ao amanhecer, o céu, limpo de novo, não ostentava nuvem nenhuma. Era outro céu, só azul, claro, cor de céu de desenho infantil, como se as estrelas tivessem ido para algum outro lugar e o céu tivesse voltado ao princípio, para amadurecer mais tarde.

Esse estrelado todo só se repetiu três dias depois, em Pamukkale, um nada mais nada que o nada de antes. Agora, em vez da surpresa da inauguração celeste, o céu estrelado mais estrelado do mundo surgiu no susto. Eu estava no jardim do hotel, pensando sem noção de tempo, quando apagaram todas as luzes, inclusive as da piscina, que chamava para si todas as atenções. E, com um sorriso maroto nos lábios, olhei para cima, cumprimentando o que eu sabia estar ali.

Tudo ali, disponível. Nada importava mais. O nada, o tudo, o céu.



Diário de viagem, Turquia, 21 de junho de 2012.

17 abril 2008

Volta e meia

Para Cleu Sampaio, pela idéia e pelas folias de donzela

Pall Mall - Londres

É uma pessoa que só vai. Para cima e para baixo, como libélula que sempre procura água. Tem mesmo sede de conhecimento, porque carrega curiosidade em sacolas feitas de retalhos coloridos, como se a vida fosse assim, um punhado de remendos que se leva para lá e para cá. Para ela, as agulhas existem para costurar desafios, e as linhas dos mapas são todas imaginárias. Essa mulher vai sempre além.

Cheia de vida, é alguém de carimbos no passaporte, souvenirs na memória e passagens aéreas pelos lugares que visita, para quem "além" ultrapassa o mais para lá: significa o que os olhos não alcançam, a vastidão redonda que clama por ser conhecida. Por isso vai em frente, porque atrás vem mais, e sempre um mais que atropela. Não há tempo de sentir dor nem saudade; é preciso força para carregar a bagagem.

É uma mulher que não volta, porque não tem medo do que ainda não aconteceu. Vai sem data para retorno, sem planos, com sonhos e um espírito escancarado pronto para banhos diários de lavanda, cheirando a novidades que ainda virão no vento, enquanto o suor seca no varal.

Não carrega a casa nas costas nem peso no coração. Não arrasta culpa nem os pés, porque pisa firme e planta o apego na terra em vez de levá-lo nos bolsos do casaco florido.

Essa mulher vai longe, projetando coragem à frente, puxando a sombra atrás, sem chorar. Isso fazem os regadores. Porque ela, ela volta e meia pode ir sem voltar. Ela vive. O lugar.


16 fevereiro 2008

Bagagem

Praia das Castanheiras — ES


"And love is not the easy thing....
The only baggage you can bring
Is all that you can't leave behind"
U2 - Walk on

Deixar alguém partir é sempre dolorido. Isso vale para aquele amigo legal que vai embora tentar a vida em outro país, para aquele que achou a gente sem querer, nos desmonta só de olhar para a nossa cara e vai embora por não nos querer mais, para os amigos de faculdade que seguem o dia-a-dia deles sem a nossa participação quando o curso termina, para os colegas de trabalho, quando deixamos um emprego, que aturaram anos a gente vestindo meia dúzia de roupas diferentes que eles gentilmente fingiram ser um guarda-roupa Armani. Serve para pessoas inesquecíveis que viajaram conosco mas de quem hoje mal nos lembramos o nome, e, na pior das hipóteses, infelizmente, serve também para quem parte para sempre, e sempre mais cedo.

Dizer adeus, ainda que por um certo tempo, vai muito além de um abraço e de um aceno carinhoso de tchau, de um beijo de despedida angustiado e já saudoso pelo dia de ser repetido, de uma carta de até breve ou de demissão, de lembranças boas que tivemos com quem se foi. Exige uma confiança no futuro que ninguém tem. Uma entrega resignada ao que está por vir que ninguém quer. E é isso que causa o nó na garganta tão característico dos momentos de despedida, esse imenso ponto-de-interrogação que engancha tudo o que de pleno temos com quem vai embora e joga-o para o ar, para ver no que dá.

Aquele que morreu nunca mais vai voltar. As pessoas que estudaram conosco talvez nem sigam a profissão, os que viajaram com a gente já somem no final da viagem e aquele que partiu nosso coração e foi embora num pra sempre mais eterno que a nossa idéia de eternidade talvez se case, talvez não; talvez nem se lembre mais da gente daqui a uma semana, talvez não; talvez viaje para o Alasca e decida se estabelecer por lá, talvez não. São todos esses talvezes que fazem da despedida um momento difícil, trazendo à tona um egoísmo todo próprio que faz desejar a cada minuto que a pessoa fique, viva, continue perto.

É em momentos assim que a vastidão do mundo mais assusta, porque parece que ele fica gigante e, mesmo globalizado, assume distâncias intransponíveis. É aí que todas aquelas lições de probabilidade e estatística que tivemos em Matemática adquirem a forma fantasmagórica de hipóteses quase reais. E se a pessoa nunca mais voltar da experiência no exterior? E se nunca mais retomarmos o contato com as pessoas maravilhosas com as quais trabalhamos? E se aquela nossa cara-metade realmente especial que não sabe que é especial nem nossa cara-metade ou cujo livre-arbítrio tem um espírito aventureiro demais realmente se casar ou for morar no Alasca?

Tudo o que nos resta é aprender a ter saudades. E, para aqueles com memória extraordinária, como eu, nem perder tempo tentando esquecer, superar, não pensar, deixar para lá, pois essas pessoas que se vão e que de alguma forma marcam a vida da gente passam a fazer parte do que nos tornamos.

Porque ninguém continua sendo o mesmo depois de um adeus.

20 setembro 2007

Logo ali, onde você vai estar

O meu querido amigo André convidou-me a escrever um post sobre viagens para colocar no blog dele enquanto ele viaja pela Europa.

O texto, escrito especialmente para o Marmota, está logo ali para você ler e, se quiser, comentar, lá ou aqui.

Boa viagem!

14 junho 2007

A vela, o pão e a procissão

Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa


Todos os anos eu vou à missa de Santo Antonio numa tímida igrejinha aqui perto de casa. Depois da missa sempre tem uma procissão. É, na metrópole mais desenvolvida do país, ainda existem bairros de vizinhança amigável, de crianças brincando na rua com traves improvisadas com pares de chinelos, de igrejinhas pequenas com procissão seguindo o santo.

Eu vou à missa porque simpatizo com Santo Antonio, que prefiro chamar de Santo Antonio de Lisboa — minha parte portuguesa falando mais alto. Mas não é só por isso que sigo a procissão com uma vela simples acesa iluminando o caminho. Não sou movida pela esperança de que o santo me ajude a casar, embora esse seja o motivo principal de a maioria das mulheres lá irem. Eu simplesmente gosto desse santo, porque ele me ajuda a achar as coisas perdidas, me ouve com uma paciência de Jó apesar de ser Antonio, tem aquele olhar complacente difícil de encontrar hoje em dia. Além disso, eu sou afeita a tradições e confesso adorar o caráter cultural que as procissões têm. Elas mostram mesmo a alma das pessoas.

Quando estive em Portugal, por exemplo, terra desse santo Antonio, pude visitar Fátima, onde há a Procissão das Velas. À noite, com tudo escuro, aquele mar de gente reza junto o terço, cada dez ave-marias em uma língua diferente, que é para agregar todos os povos que por lá passam. E todo mundo anda com uma vela na mão. A mistura cultural e a união de pessoas provenientes de cantos tão longínquos uns dos outros é tão emocionante quanto o visual de tudo aquilo: luzinhas cintilantes mostrando corações tão acesos.

Pois eu lá, comovida com tudo, obviamente quis participar da procissão. Mas eu não tinha vela. Estava com cinco euros no bolso, o que dá para comprar um monte delas. Minha ingenuidade brasileira fez-me crer ser possível adquirir a vela, receber o troco e ainda dar um sorriso amigável a alguma portuguesa simpática que as estivesse vendendo. Mas lá em Fátima as velas ficam em caixas de acrílico abertas, ao lado das quais há um vão, como a abertura de um cofrinho, onde são colocadas as moedas para pagá-las. O valor de uma era algo como trinta centavos de euro, o que significava que a nota que eu tinha no bolso era muito. No lugar onde as velas ficavam à venda não havia qualquer tipo de fiscalização, câmera, pessoas vigiando ou conferindo se o valor depositado correspondia mesmo à quantidade de velas tiradas das caixas. Santa honestidade!

Fiquei maravilhada com aquilo: só faltou cair de joelhos para agradecer o contato com a civilização. Entretanto, fiquei mesmo sem vela diante da impossibilidade de obter troco. Não que a lindíssima procissão não valesse uma vela superfaturada, mas é que a conversão para reais travou minha fé.

Pude me redimir de ter ido a uma procissão de velas sem uma vela em outra procissão, desta vez na cidade natal do meu pai, onde fiquei uma semana. O patrono da cidade, São Sebastião, estava sendo festejado justamente quando de minha passagem pela aldeia. A festa é linda. A procissão é de verdade. Nunca andei tanto na minha "imaculada" vida. Lá, as pessoas se comprometem com o propósito da procissão, levam a sério de um jeito que emociona estrangeiros, dedicam-se a tornar tudo bonito, organizado e inesquecível.

No entanto, todo santo ano eu me decepciono quando, aqui em São Paulo, vou à missa de Santo Antonio. Não com o santo nem com a procissão em si, mas com as pessoas. A maioria é de um egoísmo de irritar qualquer cristão, até os não praticantes. Talvez por isso precisem freqüentar a missa, ir à igreja, pedir perdão ou o que for. Mas já era para terem aprendido, não?

A impressão que me dá é que as pessoas só seguem a procissão porque é apenas depois dela que são distribuídos os famosos pães bentos de Santo Antonio, comumente tidos como fonte inesgotável de abundância até o próximo 13 de junho. A tradição diz que se deve deixar um pedaço daquele pão onde se guardam os mantimentos, para que nunca falte comida. Reza a história — e o padre — que o pão de Santo Antonio simboliza o pão que Jesus dividiu com os apóstolos na Última Ceia, isto é, representa a partilha.

Dividir é tudo o que aquelas pessoas não fazem. Terminada uma procissão onde só meia dúzia acompanha a reza enquanto o restante da centena fala da novela, reclama do trajeto, presta atenção no carro da CET interditando as ruas, reclama da fome, olha para as placas de vende-se dependuradas em qualquer portão, brinca de colocar fogo no copo de plástico que protege a vela, faz-se um tumulto ao redor do que era para ser um andor — os tempos modernos demandam que o santo ande de carro, coitado.

Pois aquela bendita gente depena o pobre do santo. Não sobra uma flor para contar a história. Arrancam tudo como se aquilo fosse prover milagres, suprir necessidades, arranjar casamentos hollywoodianos com homens estonteantemente belos, bons, honestos e românticos. É, faz mesmo bem acreditar em milagres.

E a partilha, a comunhão, o olhar o próximo e dividir com ele, tudo isso fica na promessa. As pessoas se engalfinham com saquinhos plásticos nas mãos pegando quantos pães o desespero e a falta de educação permitirem. Não olham para trás, não levam em consideração a existência de outras pessoas, não têm sequer vergonha daquela insanidade toda. Os mais pacientes, que ficaram esperando sua vez com uma civilidade d'além-mar e atitude cristã, acabam sem pão. Justo eles, que saberiam, como ninguém, multiplicá-lo em tantos pedaços quantos fossem necessários para satisfazer a todos.

Não sei se é ignorância ou egoísmo demais abraçando a alma desses pobres de espírito. Sei que é preciso ser santo para continuar perseverante na crença de que elas um dia serão de fato catequizadas, introjetando, independentemente da religião que escolherem, a máxima que salvaria o mundo de todo tipo de infortúnio: "ama o próximo como a ti mesmo".


14 maio 2007

Lucy do Espírito Santo

" Oi, minha linda! Que prazer em conhecê-la!"

É assim que a dona Lucy — "é com ípsilon, minha nega" — cumprimentou-me quando estive em Guarapari, no estado do Espírito Santo. Ela costumava ter um quiosque na Praia de Itaparica, perto da casa da Roseli, irmã da Rute. Então, por tabela, acabei conhecendo-a também, porque a Rute sempre visita a dona Lucy quando vai ao Espírito Santo.

Mesmo sem me conhecer, essa senhora risonha, bronzeada e bem-disposta tratou-me com uma doçura de madrinha, distribuindo espontaneidade em risadas sonoras carregadas de diversão. Ela sabe viver de um jeito invejável. Mas é uma inveja boa, como ela.

Nesse único dia em que passei com dona Lucy, aprendi um mundo de coisas. Além de me ciceronear, ensinou-me a fazer moqueca adaptada (porque nem eu nem ela comemos camarão), feita com um peixe fresco delicioso que fomos comprar na peixaria do magnata da cidade; a reconhecer o amor verdadeiro, quando descreveu em meia dúzia de precisas palavras como é o casamento com o marido; a ser simpática, pois cumprimenta Guarapari inteira com gentis boas-tardes entremeados por piscadelas conquistadoras; a entrar no mar gelado e ainda assim achá-lo quente; a tratar bem os animais, quando parou numa farmácia para comprar remédio para a cachorrinha dela; a cultivar plantas em vasos improvisados dispostos em tudo o que é canto da casa; a rir com programa de televisão vespertino e a amar o próximo com todo o imenso coração que ela carrega dentro dela.

Fomos a várias praias, à praça da cidade, ao bairro onde ela mora, ao céu... Porque a dona Lucy é algo de divino que habita este planeta. Ela come na panela, tira todas as toalhas do armário para te convencer a tomar banho no banheiro dela enquanto ela arruma o almoço, conta como Deus entrou na vida dela, como ela ajuda a comunidade, como cortar a batata para ela cozinhar mais rápido ou o que fazer com o pepino para que ele fique leve na digestão. Tudo isso quase ao mesmo tempo.

Mas a dona Lucy não apenas cozinha bem. Ela é o bem em uma pessoa inesquecível que resgata na gente todas as esperanças perdidas com trânsito caótico, comportamentos egoístas ou falta de consideração. Ela é destemida, clássica, sociável e atenciosa. Olha a gente com uma profundidade indizível, numa expressão serena e de bem com a vida.

Quem conhece essa senhora paulistana radicada no Espírito Santo — "e daqui ninguém me tira, turista, só se for pra eu voltar pra Osasco, onde fui muito feliz!" — entra em contato com o que de mais nobre o ser humano guarda dentro de si: o doar-se, com toda a boa vontade do universo, àqueles que de nós precisam.

É por isso que a partir daquele dia eu passei a amar Guarapari. Porque é lá que mora a dona Lucy.



19 novembro 2006

A mulher e a carta


A mulher lia a carta.
A carta desconfiava da mulher.
A rua olhava as duas.
Na sombra.

A carta chegava mais perto da vista da mulher.
A mulher decifrava a caligrafia da carta.
A rua acolhia as duas.
Na subida.

A mulher não entendia o que lia na carta.
A carta tentava explicar-se para a mulher.
A rua ajudava as duas.
Na largura.

A carta emocionava a mulher.
A mulher chorava na carta.
A rua amparava as duas.
No chão.

A mulher sentou-se para dar mais tempo à carta.
A carta encompridou-se para auxiliar a mulher.
A rua esperava as duas.
No comprimento.

A carta fez suspirar a mulher.
A mulher dobrou a carta.
A rua assistia às duas.
No silêncio.

A mulher entrou em casa para guardar a carta.
A carta guardou as emoções da mulher.
A rua guardou as duas.
No anonimato.



História da foto: Em um dos passeios que fiz quando viajei para Portugal, em 2005, visitei um vilarejo com as casas todas branquinhas. Não havia ninguém na rua, exceto eu. De repente, a mulher da foto sai da casa dela, verifica a caixa de correspondência e pega uma carta. Ansiosa, senta-se ali mesmo e começa a ler. Eu não sei quem era aquela mulher nem o que havia na carta. Mas nunca presenciei uma manifestação de emoção confusa, solitária e espontânea como foi a daquela mulher, que não pude deixar de fotografar.

27 outubro 2006

O tempo a meus pés

Foi uma segunda-feira dos ventos. Uma ventania desvairada de descabelar qualquer mentira cabeluda, despenteando até os mais carecas.

Com férias assim, ventando contentes, o que fazer com tanto tempo livre, arrepiado de frio? Dizem que, quando venta muito, é porque morreu um padre. Pois devem ter assassinado o clero inteiro naquela segunda-feira dos ventos.

Apelei então para a mais solidária das companhias, dessas que trazem eras dentro delas, com 45.578 histórias diferentes se entrelaçando em tranças intertextuais. E li, em voz alta, 327 páginas deliciosas, entonando emoções para minha irmã mais velha, de férias comigo na praia da ventania.

A Kelly é preguiçosa para ler. Por coincidência do destino, foi ter uma irmã movida a leitura. Passamos a segunda-feira dos ventos lendo Luna Clara&Apolo Onze, eu engolindo as palavras em sílabas docinhas, ela vidrada, querendo sempre que a história continuasse e que o vento parasse.

Por outra coincidência do destino, o livro começa justamente falando do vento, de tarde, de gelatina, esquilos, gerânios, pensamentos, vaga-lumes, chuva, novidade, inusitado, tempo, procura, desencontros, aventura, tudo vindo de lá de onde o vento vinha, lugar em que o tempo tira férias.

Conhecemos personagens incríveis que dialogavam mundos numa linguagem que, se não era onda, tinha aprendido a embalar sonhos com o mar: justo ele, ali, tão pertinho.

Fazia tempo que eu não devorava um livro inteiro assim, sem entrada nem antepasto, feito pudim de leite que escorrega pela garganta caramelada. Tive vontade de ter um cavalo só para chamá-lo de Equinócio, ou dois cachorros bem grandes com o nome do par que dá título ao livro. (Outra coincidência do destino: já tive um dog alemão lindo de morrer chamado Apolo, e meu irmão tem uma cadelinha labrador com o nome de Luna.)

Queria visitar Desatino do Sul e Desatino do Norte, me demorando em conversas com Seu Erudito ou invadindo a festa sem-fim que Dona Madrugada e Seu Apolo Dez, junto com as sete maravilhas do mundo, promovem há exatos treze anos, dezoito meses e quinze dias.

Percebi que tenho desejos de desejo e que, como Doravante, não desistiria de meus ideais ainda que com uma nuvem carregada de chuva bem em cima da minha cabeça, chovendo azar.

Até aquele momento, não sabia o que toda essa ventania da segunda-feira estava querendo trazer para mim: vontade de usar chapéu xadrez, de ler revista velha; tomar café-da-manhã demorado ouvindo o barulho do mar; andar feito cata-vento, só parando para ver o pôr-do-sol; encher o boné de conchas de todos os tamanhos e cores; colecionar caramujos; escalar pedras; comer bolo de chocolate com sorvete; visitar amigos distribuindo abraços; ver um monte de beija-flores dançando ao redor de orquídeas; olhar sonolentamente para o céu estrelado, só visível fora da poluição urbana, e pensar em todo mundo para quem a gente quer que as coisas dêem certo; tomar café recém-passado, em coador de pano, pela madrinha, acompanhado de biscoitos de goiabada; e me entregar preguiçosa ao Vale da Perdição, onde as palavras me seqüestram, encarcerando-me junto com um papagaio intelectual chamado Pilhério... Coisas simples que podemos fazer no dia-a-dia, mas que só dá para fazer tudo junto nas férias.

Que vente muito assim na minha vida, sempre e em todo lugar, para me fazer ler mais 2.876.457.382 livros em voz alta, para propagar aos quatro ventos tudo o que Luna Clara e Apolo Onze me ensinaram num pedacinho tímido do litoral paulista de um 23 de outubro ventoso, vendavando literatura e espalhando férias, num sopro contínuo de descanso inesquecível, que todos nós merecemos...


28 agosto 2006

Axé, meu rei!

Para Pablo e Helen, que me mostraram a Bahia com o coração mineiro.


“Queria ter nascido baiana, nesta terra privilegiada e colorida, onde rir é mais natural que o coco que dá nas árvores”, eu pensava, enquanto visitava um dos pontos turísticos mais famosos de Salvador, onde Jesus vira Nosso Senhor do Bonfim, da boa morte, do bom final.

Marta queria ter voltado para Porto Alegre. Pensava nisso, sentada num dos bancos da Igreja, quando olhou para mim. “Você é gaúcha?”, ela perguntou, olhos brilhantes pela familiaridade com a brancura da minha pele num lugar onde isso não é tão comum. “Não, sou paulista.” “Pois faça três desejos nesta Igreja e depois reze ali, na Nossa Senhora da Boa Morte, que é pra ela te dá a graça de morrer sem sofrimento.” Rezei. Deveria ter rezado ainda mais, pedindo perdão por tudo o que foi feito com os escravos naquele pedaço de chão. Aquilo sim foi sofrimento... pude constatar depois por tudo o que visitei na primeira capital do Brasil.

O mesmo Nosso Senhor do Bonfim, para mostrar que a escravidão é relativa, colocou seu Odilson bem na minha frente, vendendo coco a um real. “Preciso reclamá com o fabricante desse carrinho, porque ele não gela o coco. Tenho que acordá mais cedo pra tirá os coco da geladera e pô aqui. Sabe, eu vô te dizê uma coisa: o povo aqui é pobre porque a televisão ilude muito, num sabe?”. (Pois eu não sei? Sempre achei que aquela escadaria do Bonfim fosse uma enormidade de grande e era aquilo?! Que decepção!) Seu Odilson falava escancarado ainda que sem a maior parte dos dentes na boca. Vestia roupa esfarrapada, mas estava coberto de razão. Ali, na frente da meia dúzia de degraus da Igreja do Bonfim, ele lavava era a alma, ao contrário de mim, que tomei banho de MPB na praia de Itapuã e na Baixa do Sapateiro.

Todo mundo ali sorri até quando reclama da vida. Eles se revestem de uma conformidade consoladora que espalha uma energia estranha no vento. A gente sente o aroma da vida, a fé derrubando tudo, porque lá as fronteiras entre as religiões não existem. Importa o que carregamos dentro da gente... “Vá com Deus”, eles dizem. “A senhora fique com ele”, respondi.

“Fitinha do Bonfim, presente da Bahia”, achegou-se um ambulante. “Não, obrigada... Ô moço, você sabe todos os orixás de cor?”, eu e minhas perguntas esquisitas! “São deiz. Te faço uma lista, qué?” Eu até queria, mas ele ia cobrar, aquela coisa da falta de emprego e da televisão que ilude todo mundo. (Confesso que não entendo de orixás e preciso de uma tabela de conversão para saber quem é quem, mais ou menos como aquela de equivalência entre os deuses gregos e romanos. Nomes diferentes para a mesma divindade; mais uma prova de que o substantivo próprio pouco importa.)

Eu estava com amigos: Leo, que viajou comigo, e Pablo e Helen, um casal mineiro que nos recebeu de coração aberto. “Queria ter nascido mineira, pra ser assim tão legal”, eu pensei num certo momento. Eles falam manso, mas numa mansidão diferente da baiana. Pablo já mistura os sotaques. Daqui a quinze dias, mudam-se para a Espanha, onde Helen vai fazer doutorado em Nutrição. Serão quatro anos longe do Brasil, de Minas, da Bahia...

“O importante é você conversá cum gente importante, purque assim você fica importante também”, disse seu Edvon, 71 anos, que nasceu com outro nome mas mesmo assim tornou-se artista. Deixou uma promissora carreira em Milão porque, ao contrário de Helen, tem medo de avião. Anda com seu portfólio debaixo do braço, fazendo graça para quem olha pra ele. Helen olhava a cidade lá de cima, talvez pensando na Espanha, talvez pensando na vida, no que vai deixar, no que vai ser... “Tá tão lonelí essa minina!”, seu Edvon tentou falar inglês. Lonely estamos nós em São Paulo, eu quase respondi. “E você, aí, tão grisonê, hein?”, virou-se pro Leo. Perspicaz daquele jeito, foi fácil notar nossa cara de interrogação. “Num estudô franceis, não, minina?”, perguntou pra mim. Eu bem que queria, até tentei, mas nunca cheguei nessa parte do grisonner.

Um homem de 71 anos tirando um sarro daqueles de nós quatro! Pudera! Tirou até foto com a Vanusa numa época aí de óculos enormes. Era bonitão o homem. “O senhor acha que a vida melhorou?”, arrisquei a pergunta. “Mais é claro! Antigamente as minina ficavam viúva e tinham que ficá com roupa preta pra sempre. Agora, não. Ninguém mais fala nada. Casa de novo e tá tudo certo!”. Esse ria com todos os dentes da boca, que o ajudavam a imitar madame falando ao telefone, mestre-de-cerimônias apresentando o prêmio que ele ganhou pelo melhor desenho. “Vô te contá um fenômeno: pois compre um cântaro na Grécia quando você for pra lá pra pudê chorá todas as lágrimas de arrependimento por não tê comprado uma gravura minha. Depois que eu morrê vou virar um Van Gogui, um Matisse...” e ria. Definitivamente, “cântaro” e “fenômeno” não são palavras que passeiam na boca do povo, pelo menos não na daqueles com poucos dentes nela.

Quando, já tendo chegado em São Paulo, encostei minha cabeça no travesseiro, rezei de novo, mesmo não estando mais no Bonfim. Agradeci tudo, o fim de semana, o fim do tipo mais cruel de escravidão, o relativo progresso da humanidade, o coco do seu Odilson, o talento do seu Edivon, a saudade da dona Marta, o Sol que substituiu a chuva, meus ombros vermelhos por causa da mudança de tempo, a boa vontade mineira em terra baiana, a amizade do Leo, meu trabalho que paga uma extravagância como uma viagem dessas...

Mas o mais importante de tudo eu deixei para quando a gente se emociona mais: agradeci veementemente meu privilégio em ter nascido... brasileira.



P.S.: "Axé" significa, segundo o Houaiss, "a força sagrada de cada orixá, que se revigora, no candomblé, com as oferendas dos fiéis e os sacrifícios rituais"; como interjeição é "saudação votiva de felicidade", "expressão equivalente a 'assim seja' ou 'tomara'", "expressão de concordância, aprovação; está bem".

Legenda da imagem: Vista da orla de Salvador da parte de cima do Elevador Lacerda.


20 agosto 2006

Contemplação

Era um senhor septuagenário. Àquela altura da vida, passava o dia sentado em um banco improvisado, em frente à sua casa, vasculhando com seus imensos olhos azuis tudo aquilo que por ele ousasse passar. Às vezes eram pessoas; às vezes, borboletas.

Chamava-se Luís. Usava óculos grossos, desses com lentes que deixam os olhos ainda maiores e, no caso dele, ainda mais deslumbrantes. Tinha bochechas vermelhas, não por causa do calor. Parecia que tinha nascido assim.

Fora marceneiro, um desses bem habilidosos, coisa que os calos das mãos denunciavam. Muitos calos, poucas palavras. Falava pelo olhar. Quando o ânimo deixava, no entanto, ele ousava acenar timidamente. Quando paravam, pessoas ou borboletas, ele cumprimentava com bom-dia ou boa-tarde, oferecendo um sorriso que diminuía o tamanho das bochechas.

Um dia apareceu alguém que de lá não era. Trouxe empolgação, novidade, o passado inteiro repaginado em forma de nova geração. Mas tudo o que os olhos azuis fizeram foi oferecer vinho e goiabada com queijo, perguntar como estava a vida — numa confissão óbvia de não saber lidar com o inesperado — e olhar, olhar e olhar, escaneando a visita para, quem sabe, conseguir desvendar a genética.

E sempre que a visita passava em frente à casa do senhor Luís, ele tirava o chapéu e inclinava levemente a cabeça. Tinha dias em que fazia tchau, batendo a bengala com a outra mão... Dizia que a cabeça era boa, mas as pernas, ruins. E a visita sempre achava que ele se despedia melhor do que cumprimentava.

Pode parecer poético alguém passar o dia assim, olhando tudo numa quietude providencial. Há até quem pense que era uma vida triste ou ociosa pela preguiça dos anos. Dizem que algo nele sabia o que o futuro lhe reservava e que justamente por isso ele ficava ali, paciente, só esperando...

A visita foi embora de vez. Dois meses depois, ele também.


02 julho 2006

Quebrando os paradigmas

Para Neto (enchanté!), virtualmente uma amizade real

Ela entrou no avião sentindo um friozinho na barriga. Embora já tivesse viajado sozinha, aquela era a sua primeira viagem internacional e, para piorar, para o outro lado do oceano. Não tinha medo de o avião cair no meio do Atlântico, pois sabia nadar e pretensiosamente achava que sobreviveria à queda. Tinha medo era da vastidão do mundo, do desconhecido e de como aquilo tudo poderia influenciar sua vida, abalar sua segurança e modificar seus parâmetros, pois nunca mais se é o mesmo quando conhecemos alguém ou alguma coisa.

O frio na barriga ia demorar para passar, ela sabia. E, logo, logo, a ele seria adicionada aquela sensação incômoda no ouvido provocada pela mudança de altitude. Como, não raro, as alterações físicas são um indício de alterações emocionais que estão por vir, era natural preparar-se para ser surpreendida. O novo sempre assusta no princípio.

Começou a procurar por seu assento. Havia solicitado, na agência, que a pusessem à janela, mas, no
check-in, viu que a tinham colocado em um daqueles quatro assentos centrais. Em meio àquela balbúrdia de gente conversando, malas sendo acondicionadas aqui e ali, pacientemente ela foi pedindo licença para tentar chegar logo a seu destino. Curioso isso... Como podia procurar por algo que nem ela ainda conhecia?

Mas, como ser ímpar tem lá suas vantagens, foi fácil encontrar um único assento desocupado no meio. Ajeitou a bagagem de mão no compartimento próprio para isso e já estava pegando o cobertor deixado em seu assento para colocá-lo junto à bagagem quando o rapaz já sentado ao seu lado a interrompeu com um calmo e sorridente “é meu”. Ele lia, interessado, um guia sobre Roma. “Vai para a Itália”, ela obviamente deduziu.

Sentou-se observando tudo. O assento até que não era ruim: de lá dava para ver muito bem a televisão, e o banheiro, que ela nem chegaria a usar, era próximo.

Talvez por terem de passar as 9 horas seguintes lado a lado, o rapaz virou-se para ela e, numa acolhedora demonstração de simpatia, perguntou algo como “está indo pra onde?”. Ela timidamente respondeu: “Pra Portugal. Você, pelo visto, vai pra Roma, né?”.

Pensando bem, aquele assento ali, no meio, dava de dez no da janela. O frio na barriga foi passando. O medo do desconhecido converteu-se em conforto. Sem que eles percebessem, as coisas já começavam a mudar de uma maneira inusitada: até então, nunca haviam conhecido alguém a bordo de um avião.

Embora tivessem destinos diferentes, haviam se encontrado no meio do caminho.