14 outubro 2006

Obrigado e vote sempre!

A seção eleitoral n.º 109 onde trabalho como mesária funciona num colégio de ensino fundamental na rua onde moro. Fica em uma classe da 3.ª série, cujas paredes estão repletas de flores de papel meio tortas, feitas pelas crianças em comemoração à chegada da primavera.

Nas mesmas paredes, colaborando para a poluição visual, ainda há um mapa do Brasil, um do Estado de São Paulo e um relógio brega com um fundo protagonizado por uma famosa dupla sertaneja.

Apesar de ser uma classe de terceira série, sobre a lousa ainda está o alfabeto, em letras de mão e de forma, como se as crianças daquela sala ainda estivessem aprendendo a ler. Talvez estejam.

Pois a seção 109 não poderia funcionar num lugar mais apropriado. A maioria dos eleitores que lá votam ainda estão aprendendo a ler e não conhecem o Brasil estampado no mapa. “Meu marido mandou eu votar nesses números aqui, ó”, diz uma senhora, estendendo o papel para mim. Faltavam os deputados. Quando foi informada disso, virou-se para nós, mesários, e, numa irritante ingenuidade, soltou: “Ah, escreve uns números pra mim que eu voto. Todo ano eu voto errado, me atrapalho”.

Havíamos deixado escrito na lousa, em letras garrafais, a ordem em que deveriam ser digitados os votos na urna eletrônica. Pela quantidade de números para cada cargo, era possível sabermos em qual voto o eleitor estava. Mas perdemos a conta de quantos eleitores digitaram um monte de números seguidamente (talvez achassem por bem colocar o RG ou o CPF na máquina!) na crença de que deveriam apertar a tecla “confirma” uma única vez. Inúmeras foram as vezes em que repetimos as mesmas instruções... infinitamente quase em vão.

Os eleitores da 109 não lêem: o famoso analfabetismo funcional. “Senhor, descreva a tela em que está para a gente, por favor. Qual o cargo que o senhor está elegendo agora? Está escrito bem grande na tela.” “Ah, é deputado estadual.” “Então, senhor, são 5 números ou, se o senhor quiser votar na legenda, são 2, o número do partido.” Ele digita um monte. Quando termina e aperta o verde, ouvimos o som da conclusão da votação. Aquele eleitor, como muitos outros, estava votando para presidente e não sabia. Votou errado. Saiu dizendo “tudo bem, isso nem é problema meu”.

Chega uma esbaforida à porta da seção: “Quero votar no Maluf, me ajuda?”. “A senhora tem certeza?”, perguntei. “Tenho, sim, mas não sei o número dele. Qual o número dele, me fala...” “Não posso. A senhora precisa ir até o pátio para procurar na lista.” Ela foi. Voltou com o número anotado num papel, amassado junto a outros numa mão trêmula. Tinha cara de quem não tinha a menor idéia do que estava fazendo ali. “São 5 votos, senhora, e a senhora começa votando nos deputados, tá?” Fez cara de interrogação e exclamação juntas, ao mesmo tempo que jogou todos aqueles papéis em cima da minha mesa. Pacientemente, coloquei todos ao papéis na ordem em que ela deveria votar, expliquei tudo de novo na esperança de que ela não desperdiçasse os votos. Aparentemente, votou certo. Na saída da seção, rasgou todos os papéis e jogou no lixo, aliviada: “ai, ainda bem que isso acabou, credo, nem quero mais saber!”.

Chega outra, empolgada: “Eu só vim pra votar no Eli Correa! Ele é maravilhoso! Mas não aparece a foto dele aqui, por quê?”. Ela estava votando no Eli Correia para o cargo ao qual ele não era candidato.

Um rapaz bocejante aparece para votar. “Cadê os números das pessoas?”, pergunta. “Que números?”, respondo. “O dos candidatos. Eu não escolhi ninguém ainda...”

80% dos eleitores da 109 se confundiram quando viram a tela de Senador. “Tem isso, é?!” “Nossa, em quem eu voto aqui?”, “Moça, moça, aqui tá escrito se-na-dor. O que é isso?” “Senador?! Mas eu nem escolhi um número pra isso!”. Realmente, Jó deveria ter sido promovido a santo.

Um outro, mais impaciente, esmurrava o botão verde como se amassasse batatas. “Isso aqui tá quebrado! Não funciona!”. Eu, impassível: “Estava funcionando até o senhor chegar. Por favor, não quebre o patrimônio público e preste atenção no que está fazendo”. Minha paciência já tinha ido para o ralo àquela altura. Ele queria votar na legenda para senador em um partido que não tinha candidato a senador. Ia morrer ali, apertando o verde sem sucesso. E não conseguimos convencê-lo de que ele estava errado. Quando já estava cansado de tentar sair daquela tela, esbravejou: “qual o número daquele senador lá?”. “Qual, senhor?”, respondemos. “Aquele lá que rouba, vou votar no que rouba mesmo!” Admirados, perguntamos: “Seja mais específico, senhor. Qual deles?”. “O famoso, que rouba. Voto e acabou, se ele rouba, isso não é problema meu!”

Fui almoçar já esgotada mentalmente por ver tanto descaso. Cheguei em casa, não havia almoço e eu não tinha tempo de fazer. Peguei o carro e fui ao shopping perto de casa. Lotado. Filas e filas para almoçar. Servi-me correndo; a moça do restaurante, vendo minha identificação de mesária na blusa, me passou na frente do restante da fila. Não encontrei lugar para sentar. Um casal estava saindo da mesa que ocupava. Eu, já com a bandeja na mão, esperava que eles saíssem. Quando eu estava prestes a me sentar, um japonês que agregava tudo o que de mais abominável um cidadão pode ter, começou a gritar que aquela mesa era dele, que ele estava esperando há mais tempo, que estava com criança, será que eu não via isso?! A criança corria pela praça de alimentação. Sinceramente, eu nem sabia qual era o filho dele. Argumentei que já havia me servido, que minha comida estava esfriando, que ele nem havia decidido o que comer ainda e que estava querendo guardar mesa, que não estava ali quando eu cheguei e que, ainda por cima, eu estava em horário de almoço porque estava trabalhando de graça na eleição e precisava voltar para a 109. “Isso não é problema meu”, ele disse.

Deixei ele com a mesa. Os fracos precisam sentar. Eu podia comer de pé. Meu desejo era fazer igual às novelas, despejando meu copo de suco na cara daquele infeliz. Mas sou muito civilizada para isso. Uma amiga minha que eu não via havia anos chamou-me para sentar com ela. Foi minha salvação, porque a raiva já estava me fazendo perder o apetite.

Ao voltar para a 109, continuei constatando descasos. Mas, como em tudo, há exceções. Dona Conceição Hernandez, de 81 anos, vem votar lúcida, arrumada, unhas feitas e cabelo caprichosamente tingido. Deixou cair o comprovante de votação na saída, que está comigo, para que eu entregue a ela no 2.º turno. Eu sei que ela volta.

O Sr. Celso, que nas duas últimas eleições incluindo o referendo não veio votar porque, segundo o filho homônimo que também vota lá, estava desiludido com a política, apareceu à tarde, andando devagar. Demorou a conseguir votar usando todos aqueles números. Quando comentei: “Puxa, senhor Celso, desta vez o senhor apareceu, que bom!”, ele limitou-se a responder: “Vamos desempoleirar essa gente”. E foi embora.

A seção 109, com as paredes azuis salpicadas de flores de papel, recebeu três bêbados patéticos recendendo cachaça. Na eleição a prefeito, quando impedi que um deles votasse por causa da Lei Seca, voltaram escoltados por policiais, que me repreenderam dizendo “ser direito deles votar”. Dessa vez, só faltou colocar tapete vermelho para que eles achassem a urna. Cambaleantes, saíram de trás da urna várias vezes sem ter concluído a votação. “Psiuuuuuuu! Psiuuuuuuuuuuu! Vem aqui, ó”. Não fui. O cara ia votar errado de qualquer forma, não havia nada que eu pudesse fazer.

É triste presenciar um país assim: quem tem instrução não tem educação. Embora mais humano, quem não teve educação não tem instrução para se fazer cidadão e exercer sua democracia. E eu estava em apenas um pedacinho daquele mapa colocado na parede junto à dupla sertaneja sorridente no relógio.

A seção 109 não podia funcionar em lugar mais propício: seus eleitores, como os de muitas e muitas outras seções espalhadas pelo País, parecem viver num mundo de faz-de-conta cheio de flores tortas de papel, encantado e irreal, onde nada é problema deles.

É por isso que cada país tem o governo que merece.


15 comentários:

bruno peres disse...

realmente a politica nesse pais não é levada a serio, poderia dizer que é uma palaçada, mas isso seria uma ofensa , e das grandes, aos palhaços.
Mas, ao contrario da politica nesse país, o seu texto é muuuuuuuito bom !!!!!!

Jana disse...

aiiiiiiiii
entaum eu estou no país errado...

Ricardo disse...

Minha vontade, ao ler, era esmurrar cada um desses, principalmente o japonês mal-educado.

Mas sabendo do seu profundo apreço e veneração pelo povo brasileiro, sei que foi uma leitura incorreta de minha parte, no fundo vc amou tudo isso! rsrs

Ironias à parte, seu texto é um fiel retrato do nosso país.

Neto disse...

Irresponsabilidade ? Descaso ? Falta de instrução ? Falta de informação ?

É triste ver por onde anda a consciência e responsabilidade política de cada cidadão. E assim obtemos respostas à pergunta que, num primeiro momento, fica sem resposta : "Ninguém está vendo ?"

Beijos e boa semana ...

Tuca disse...

Perfeito o seu retrato, justamente por ser assustador. São episódios que nos fazem compreender o porquê de muitos candidatos vitoriosos terem optado por uma campanha focada nos analfabetos funcionais, com discursos ora bizarros, ora melodramáticos. Esses políticos sabem que não adianta gastar saliva e santinho com a minoria pensante. E se depender deles, continuará minoria por muito tempo, numa situação que sustentará gerações e gerações de vagabundos (dis)funcionais.

marcelozanon disse...

Impecável!

Patrícia Köhler disse...

Kandy, excelente texto, parabéns!
Reflete mesmo o jeito no qual a grande maioria da população enxerga e pratica a política.

Eu sempre me considerei politizada, tirei meu título aos 16 anos e votar era uma das poucas formas de exercer minha cidadania de maneira mais eficaz (?).

E nestas eleições, me vi às voltas com a possibilidade de simplesmente não votar. Quando vi o resultado (Frank Aguiar, Maluf, Clodovil, entre tantos outros tão bizarros e deletérios à nação quanto os citados), a vontade de me eximir totalmente desta tarefa só aumentou.

A massa ignara continua prevalecendo, isso é um cenário desolador e desanimador.

Espero que você se livre desta função de mesária logo mais. Eu, no seu lugar, acho que teria me estressado até mais.

Um beijo, e parabéns mais uma vez pela lucidez do post. :-)

Anônimo disse...

Kandy,

Texto nota 10!

Esta realmente é a cara do Brasil! Infelizmente!
O Brasil certamente merece cidadãos mais conscientes! Quem sabe um dia ainda chegamos lá!
bjs
Jonas

Patrícia Köhler disse...

Kandy,

Tomei a liberdade de mandar este seu texto à minha mãe (com os devidos créditos, logicamente) e ela adorou! Vim aqui então te parabenizar novamente, desta vez por ela. rs

:-)


ps: voltei à atividade de blogueira, apesar deste blog estar praticamente na incubadora e ainda não haver textos meus lá. Mas logo mais escreverei. Passa por lá pra tomar um cafezinho depois, se quiser... ah, e se puder, leia minha "sócia" Luciana, que é ótima cronista também. :-)

Patrícia Köhler disse...

Nossa, Kandy, você já nos linc(k)ou aqui, que rapidez! :-)

Obrigada pelo comentário carinhoso lá e apareça sempre que quiser... será um prazer tê-la como nossa leitora! :-)

Beijo e até mais.

ps: nossa, como vim aqui na sua caixa de comentários... que vergonha... rs... ;-)

rafael fermiano disse...

Eu voto numa seção 119...conhecia todos os mesarios esse ano. Meus conhecidos de escola. Interessante eles falando "vai votar na mudança, né?" "contra privatização rafa"...
Pensei, farei uma denuncia. Encontrei um fiscal, também amigo meu. Na hora de abrir a boca pra falar ele se adiantou:
- Já votou?
- Já, então, sobre isso eu queri...
- Num fez besteira não né?
- Ahm? Como assim?
- Nunca sei o que vc ta pensando! Espero que dessa vez não tenha feito como na outra eleição.
- Você quer dizer?
- Calma ai, já volto! Tem uma velhinha com o santinho do outro candidato, vou trocar!!!
...
quantas velhinhas passaram ali naquele dia? vai saber...
abraços kandy!!

Edson Matos disse...

Me permita enviar o texto para alguns amigos, com o link direto para o seu blog, seu texto é maravilhoso, muito embora retrate o descasso em que vivemos politicamente falando.
Ri muito com o texto,quando achei que ja estava no final vc ainda ia almoçar !! E ao chegar no fim, me bateu uma sensação de tristeza, de impotencia e como diz a musica " Nas favelas, no Senado , sujeira pra todo lado, ninguem respeita a constituição, mas todos acreditam no futuro da Nação. Que país é este ???"

Clei Sgarbi disse...

Kandy...perfeito!
Que podemos esperar de um país cujas escolas não ensinam se quer o que é um senador, um deputado federal ou estadual? Que esperar de um país onde o cidadão honesto é visto como ET? Onde o futebol, o carnaval e o happy hour vêm antes do trabalho, da educação e da saúde?
Como se pode formar "cidadãos" votantes se a maioria é semi-analfabeta?
Acho até que a urna eletrônica tem a finalidade única de se conseguir um resultado desonesto (votos errados, votos digitados aleatoriamente, votos anulados sem querer...).
Só Deus mesmo poderá ajudar o Brasil a tomar um rumo melhor!
Continuo achando que vc. deveria editar um livro....
Mamãe

Anônimo disse...

Texto ótimo, emocionante e infelizmente desmotivador.
O retrato do Brasil é este mesmo: cosciência política patética, educação pífia, povo pouco ou nada engajado em movimentos de transformação política.
O mesmos políticos continuam lá, e nós, olhando pelo parapeito o circo passar.
Cabe a nós, pequena e agraciada parcela da população com instrução e consciência, se unir como ferramenta de transformação.
1 abç
Daniel
danlisboa@yahoo.com.br

Werner Moecke disse...

Kandy,

Não me conhece, sou amigo do Diogo Salles. Ele encaminhou-me o texto, o qual tomei a liberdade de repassar a mais pessoas, todas da minha lista de contatos.

Vale muito a pena ler esse texto, especialmente para aqueles que ainda nao se deram conta do país onde vivem.

Depois de ler o texto, duvido quem ainda nao desconfie pq temos novamente o Lula-lá (trocadilho intencional)...

Parabéns, e obrigado! Não poderia ter sido mais eloqüente...