21 março 2007

Água na boca — os melhores beijos que eu não dei

Um dos visitantes até então silenciosos deste blog, o Ian, convidou-me (o certo seria desafiou-me) a escrever sobre o tema. Quem não me conhece o suficiente pode ser levado a crer que as oportunidades de beijos tórridos, carinhosos, intensos, sinceros, impetuosos et cetera e tal inundam a minha vida. Mas as coisas geralmente não são o que parecem.

Foram tantos os beijos que eu não dei, as vontades sufocadas, paralisias covardes ou tímidas, minhas ou dos outros, congelando momentos enquanto oportunidades escorregavam... muitos que poderiam ter sido e não foram, quer por eu ser seletiva, por não ter uma horta em que costuma chover muito ou por ser dispensada ou ignorada antes de acontecerem naturalmente. O fato é que — vejam só o desperdício — coleciono mais beijos que não dei do que beijos que dei. Mas tenho plena consciência de que mereço realizá-los todos, porque viver também é isso.

Ainda não experimentei, por exemplo, um beijo aflito, daqueles que causam uma montanha-russa dentro da gente, com direito a nó na garganta e lágrima contida por uma despedida inevitável, um fora previsível ou algum tipo de incompreensão imóvel.

Não dei beijo aquático ou litorâneo, com o mar inteiro ali, à disposição, olhando barulhento um beijo longo e intenso numa arrebentação de desejos, maré de impetuosidade banhada por ondas intermitentes de calor, lábios se encostando ávidos, num ir-e-vir provocante de corpos totalmente fora de seus centros.

E, até agora, não sei o que é um beijo roubado, desses de repente, inesperados e imprevistos... pelos dois — o que beija e o beijado. Escuso, arriscado, ousado, que começa com um — rápido como teste de reflexo — e se desdobra em vários — empolgados como confirmação, sempre com aquele gosto de “por que demorou tanto pra tomar essa atitude?!”, paladar preso ao pensamento, porque simplesmente não dá tempo de falar...

Nunca fui beijada no tradicional três-dois-um-feliz-ano-novo, em que os casais bem-resolvidos ou bêbados do mundo inteiro celebram empolgação e trocam olhares cúmplices, independentemente da minha predisposição em tornar-me cúmplice... não só não contava com o fato de não encontrar quem me aceitasse assim, como também pela minha incompetência em ficar bêbada.

Desejo experimentar, também, um daqueles beijos de cinema, menos na posição dos amantes e mais no contexto em que acontecem. Não fui beijada depois de uma declaração de amor, porque até hoje ninguém teve coragem de se declarar. Tudo muito avulso, descartável, reciclado, medroso, como se um beijo assim fosse um pedido oficial de casamento trancafiando comportamentos.

Tenho certeza de que nunca fui beijada por alguém que me amasse de verdade, que sentisse minha falta ou mesmo um tiquinho de saudade. E se tem coisa que eu abomino é ser tratada como contabilidade.

Quanta água na boca, volúpia deixando as idéias arrepiadas e ensurdecendo a razão. E como é melancólico lembrar o que poderia ter sido e não foi, tentar contentar-se com a vontade não realizada ou esforçar-se em compreender frustrações.

É por essas e outras que, desta vez, o post vai ficar sem foto. Eu simplesmente não consigo ilustrar ausência.


11 comentários:

rafael fermiano disse...

é sempre tempo de experimentar coisas novas.

abraços kandy

Bruno Peres disse...

Kandy...
que texto lindo !!!
amei demais...
Muitissimo bem escrito


Você pode ter certeza que não esta sozinha nesse barco...
Mas porque não revirar a vida e torna-la mais interessante ???
Seu texto me inspirou muito...

Parabéns Kandy...

Edilene disse...

Kandy!

De novo, você expressa algo que sinto neste momento.

Deu mais sede ainda... Mas esteja certa de que há um oceano para nós...

Beijo

Glaucia disse...

Adorei a última frase "eu não consigo ilustrar ausência"...
Daria um novo título para mais um blog! Ai que tentação...
Agora...nada mais propício para te mandar que não seja: BEIJOS

Ricardo disse...

Triste...

Ian. disse...

a glaucia tem razão, kandy, essa frase é daquelas coisas que pensamos 'ai, queria eu ter pensado nisso', mas também é de igual felicidade que alguém que tanto apreciamos o tenha feito.

quando a convidei para escrever sobre o assunto, sabia que coisa boa não deixaria de vir, e olha você me surpreendendo, para melhor, com essa crônica espetacular, tão bem amarrada à proposta original.

meus parabéns.

desculpe a demora em comentar, mas é que precisava fazê-lo com a devida atenção.

meus sinceros beijos.

Ian.

Sergio F. Lima disse...

Sem dúvida o texto é bonito, sensível e revelador...

Embora seja muita pretensão tentar desvelar uma pessoa pelo seu texto..fica a impressão de que você precisa aproveitar mais o dia...

Corre-se mais riscos, sem dúvida... mas já disseram que a essência da vida é correr riscos :-)

Beijos de um seu desconhecido!

Fernanda Suaiden disse...

Minha querida,

Todos estes beijos serão dados pelo homem que vc escolher ser o seu. Faz maravilhosamente bem ser seletiva. Uma Jóia Raríssima como vc não deve estar pendurada em qualquer pescoço.

beijos litorâneos (rsrsrs)

Donizetti disse...

Um das melhores coisas que o Ian fez foi ter convidado você! :)

Leo disse...

Kandy,

Melhor não falarmos sobre os beijos que você deu! (risos)

Beijo,

Leo

Anônimo disse...

Melhor é falarmos de tanta loucura que dá certo