05 fevereiro 2011

A falta que você me faz

Serra Negra, SP, numa tarde em que Deus resolveu tomar sopa no céu


Deveria ser lei todo mundo ter avó até o final da vida, porque a gente passa a maior parte dela sentindo falta de uma. E não me refiro aos doces, aos afagos cúmplices, à piscina de afeto azulzinha só de olhar. Sinto falta da sabedoria que só as avós têm. Elas sempre sabem o que fazer bem na hora em que não sabemos. Elas pescam as dúvidas em nossos olhos, sem que tenhamos de pronunciar angústia.

Quando eu era bem pequena, minha avó materna me visitava às quintas, quando a feira fugia do dia da semana para se instalar na rua em barracas bem coloridas. Ela chegava um pouco antes do almoço, carregando uma panela cor de abóbora com tampa preta, onde guardava salsichas apetitosas mergulhadas em molho de tomate caseiro. Prendia a tampa à panela com uma manobra de elástico. Logo atrás vinha uma tigelinha cor de areia de tampa de vidro transparente que deixava à mostra uma farofinha gostosa.

As quintas eram meus dias preferidos porque era quando eu mais tinha avó. Num desses dias, ganhei dela uma lupinha para observar formigas. Até então, eu nunca havia reparado no minúsculo. Essa é outra habilidade das avós: ensinar a gente a ampliar o campo visual.

Foi com a minha avó que aprendi que não se pode gastar com uma mão o que não se tem na outra. Às quintas ela me dava moedas, mas me incentivava a poupá-las em vez de sair desembestada para comprar uma vontade. Quando eu era um pouco maior, mas ainda pequena diante de parâmetros adultos, veio outra lição: o dinheiro se conquista, não se ganha. Eu pintava umas gravuras que achava bonitas e minha avó as comprava de mim com mais centavos. Devia jogá-las fora, hoje eu sei.

Minha avó era severa na educação dos netos. Falava baixo, mas sempre firme. Tinha horror a escândalo, louça e toalha de plástico, xícara de borda grossa, guardanapo de papel. Vestia-se sempre com roupas simples mas de caimento perfeito, era recatada. Embora não tivesse completado o ensino fundamental, teve educação europeia: aprendera boas maneiras como governanta de uma família alemã de cuja fazenda o pai fora administrador. Comigo nunca falou alemão, mas minha mãe afirma que minha avó conhecia muitas palavras dessa língua.

Tinha nome literário ela: Julieta. Tinha um irmão Romeu. Entretanto, embora alfabetizada, minha avó não era de ler histórias em livros. Ela me contava algumas de cabeça. Uma delas era uma parlenda – hoje eu sei o nome – de um caranguejo que havia brigado com um galo e levado uma bicada. Saía por aí pedindo um “pano porque o galo me pinicou” e desenrolavam-se muitas exigências dependentes umas das outras para que o bicho obtivesse o tal pano. Foi a primeira vez em que tive contato com um final não feliz, porque, mediante tanta barganha, o pobre-diabo acabava morrendo. Ao terminar o caso, minha avó ria. Eu não entendia a graça e achava horrível as pessoas terem se recusado a ajudar alguém necessitado por pensarem em se beneficiar disso de alguma forma. Sábia, minha avó. Estava me preparando para o mundo: no fundo somos todos caranguejos implorando por panos para estancar feridas.

Todas essas lembranças, porém, não são suficientes para eu me sentir completa. Minha avó sempre falta, porque tem muita coisa que eu não tive tempo de perguntar a ela e que eu tenho certeza de que ela saberia me responder com o pé nas costas, com toda aquela experiência que o rosto denunciava. Ela me entendia mais do que meus pais porque era mãe ao quadrado.

Deveria ser proibido as avós morrerem no início da adolescência da gente, quando mais precisamos delas. A gente acaba se virando sozinha, é verdade, mas nunca tão bem. E termina arrastando para a vida adulta todas as perguntas que não puderam ser pronunciadas e que manual, guru ou google nenhum respondem.

Penso na minha avó todos os dias, porque ela faz parte de mim, porque foi com ela que aprendi a me portar direito, a zelar por meus pertences, a ser criativa, solidária, responsável, observadora e sensível. É nela que me espelho para continuar uma mulher forte. Ela era dona de si.

Mas hoje, especialmente, eu sinto uma falta gigante da minha avó. Hoje é um daqueles dias sem saída, em que tentamos escalar as paredes mesmo conscientes de sua altura. Nessas situações, dona Julieta não me estenderia uma escada, tenho certeza, mas me ensinaria a construir uma com o que eu tivesse à mão.

Eu olho, olho, olho ao redor. Até enxergo possibilidades. Mas não sei montar com elas uma escada. Continuo perdida, me debatendo com perguntas e mais perguntas me tirando a voz, acumulando na garganta. Perguntas que só minha avó, do alto de sua sabedoria, saberia responder, ainda que sem palavras.

Queria que hoje fosse quinta-feira.

7 comentários:

Nozomi Yuntaku disse...

Kandy, estou conhecendo o teu blog
Os dois textos mais recentes são maravilhosos.
Como vi que há muitos textos, noutro dia continuarei.
Acho que você tem tudo para, no futuro bem distante, ser uma avó maravilhosa.
Nozomi

Reminiscências de Emerson Batista disse...

Oi Kandy...

Ja passei aqui para pedir autorização para divulgar seu blog...
Adorei este texto... indiquei novamente por lá...

Bjsss

Notícias em Foco disse...

Olá...Qto tempo não passava por aqui! Vejo que fez algumas mudanças, e por sinal ficaram ótimas. Sinto muito pela perda da sua avó. Realmente sempre é bom compartilhar momentos tão preciosos com avós. Me lembro até hj, qdo ganhava cruzeiros para comprar balas no armazem da esquina. Belo texto. I miss you!!

Gabrielle Andrade!

Jaqueline Cherubini disse...

Olá Kandy!
Adoro ler suas postagens!
Lembra-se de mim? Fiz o curso com você aqui em Brasília em 2009 se não me engano.
Fiz um blog pra mim, se quiser dar uma olhadinha é o: http://jaquelinejornalista.blogspot.com/.
Como lhe disse na época, não quero perder o hábito de escrever e expor minhas idéias e pensamentos. Se bem que, coloco notícias e outras matérias que as julgo interessantes também!
Me passa seu e-mail depois para que eu possa me corresponder com você com calma e trocar experiências e outras cositas mais!...rs
Bjus e parabéns!

Anônimo disse...

OLá Kandy,
Meu nome é Juliana e quem indicou o seu blog foi o "Reminiscências de Emerson Batista".
Por coincidência hoje eu postei uma frase de avós no meu facebook, ele pediu para eu ler o seu texto. Abaixo a frase:
"Dizem que avó é mãe com açúcar e avô é pai com doce de leite. Essa maneira de descrever pessoas tão importantes na vida de todos é fundamental para entender o seu verdadeiro papel na criação dos netos". **Saudades dos meus avós :-(
Fiquei emocionada com o seu texto.
Parabéns.
Sucesso!
Juliana

Kandy disse...

Nozomi, seja bem-vinda! Obrigada pelo seu gentil comentário. Antes de ser uma boa avó, entretanto, falta-me ser mãe, num futuro bem próximo, eu espero. Volte sempre a esta janela!
Juliana, por mais que as pessoas comentem aqui, nunca tenho a real dimensão do que meus textos causam nas pessoas. Eu não escrevo para ninguém, eu escrevo e só. Se a consequência disso é um sentimento bom em alguém, uma reflexão oportuna, uma mudançazinha de nada, tanto melhor. Obrigada pelo feedback!

lilly disse...

Olá, me chamo eliane, gostaria de posta uma idéia espero q gostem e reflitam, adorei o blog...

Sabe as pessoas vivem se queixando de suas próprias vidas, de como suas vidas ta uma droga! Ou com problemas maiores q o mundo, qnd elas n descem do salto do orgulho simplesmente elas esquecem das pessoas q a amam, essas pessoas podem ser VOCÊ, e as vezes vc trata ou machuca friamente quem esta ou estava do seu lado o tempo todo. Problemas familiares? Negócios? .. esses problemas nós resolvemos, pois n há família q n perdoe e n há negócios q n possa reparar, o q n resolvemos é qnd encontramos uma pessoa em nossa vida em q vc se sentia bem ao estar com ela, seja longe ou perto, mas vc deixa escapar... escapar de fazer tudo diferente na sua vida, pessoas maravilhosas para um relacionamento sério encontramos as vezes 1 vez, uma única vez na vida e ainda temos coragem de bater no peito e dizer o velho clichê ‘’ não era pra ser ‘’ .... q hipocrisia do ser humano se deixar levar por qualquer desafio, n digo isso pra convencer alguém, mas acho q as pessoas se queixam demais sem olhar ao seu lado, e ainda subir em qualquer ego antes de tomar atitude.. uma prova disso? Já se perguntaram pq muitos casamentos n dão certo? Casais de 2, 3, 4 ou 10 anos, enfim... ao contrário de algumas pessoas q só veem um rostinho bonitinho em mim, EU TENHO SENTIMENTO, e gostaria q muitas pessoas obtivessem o mesmo pensamento. ( talvez assim o mundo com AMOR de verdade se tornaria diferente, MELHOR... )
OBS: Minha maior idéia não é plantar negócios, mas plantar relacionamentos. Os negócios são ao mesmo tempo MEIO e CONSEQUÊNCIAS. Fica a minha dica.
BY LILLY