Colocar as ideias na janela é deixá-las à vista, tomando sol, para não embolorarem por ficar guardadas por muito tempo. É abrir-se para o mundo sem cadeados e trancas. É dividir o olhar com o "lá fora", num intercâmbio de interiores, trocando horizontes.
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17 abril 2008
Volta e meia
É uma pessoa que só vai. Para cima e para baixo, como libélula que sempre procura água. Tem mesmo sede de conhecimento, porque carrega curiosidade em sacolas feitas de retalhos coloridos, como se a vida fosse assim, um punhado de remendos que se leva para lá e para cá. Para ela, as agulhas existem para costurar desafios, e as linhas dos mapas são todas imaginárias. Essa mulher vai sempre além.
Cheia de vida, é alguém de carimbos no passaporte, souvenirs na memória e passagens aéreas pelos lugares que visita, para quem "além" ultrapassa o mais para lá: significa o que os olhos não alcançam, a vastidão redonda que clama por ser conhecida. Por isso vai em frente, porque atrás vem mais, e sempre um mais que atropela. Não há tempo de sentir dor nem saudade; é preciso força para carregar a bagagem.
É uma mulher que não volta, porque não tem medo do que ainda não aconteceu. Vai sem data para retorno, sem planos, com sonhos e um espírito escancarado pronto para banhos diários de lavanda, cheirando a novidades que ainda virão no vento, enquanto o suor seca no varal.
Não carrega a casa nas costas nem peso no coração. Não arrasta culpa nem os pés, porque pisa firme e planta o apego na terra em vez de levá-lo nos bolsos do casaco florido.
Essa mulher vai longe, projetando coragem à frente, puxando a sombra atrás, sem chorar. Isso fazem os regadores. Porque ela, ela volta e meia pode ir sem voltar. Ela vive. O lugar.
14 outubro 2007
Pão nosso de cada dia
Magnólia saiu para jantar mesmo sem fome. Pensava em padaria embora não tivesse estômago para encontrar soluções. Os problemas teriam de acabar um dia, ela pensava. Um dia, padaria.
Sentou-se ao balcão e remoeu indecisão. Tantos pães diferentes poderiam resolver os percalços do mundo, ela pensou. De certa forma, saber que muita gente passava fome consolou-a um pouco. Ela, pelo menos, podia escolher o pão embora não pudesse fazer o mesmo com os problemas. Um dia, faria.
Pediu um francês, frios, suco de laranja sem gelo — de frieza já estava farta. Sem açúcar, de preferência. Necessidade urgente de acostumar-se ao amargo. Preparava a garganta para misturar tudo aquilo quando viu que alguém a observava. Será possível? Um dia, pararia.
Nada feito. Magnólia não acreditava no desassossego que aquele olhar lhe causava. A paz que procurava na refeição tinha virado farinha. "Algum problema?", tinha vontade de perguntar. Resolveu engolir seco. O suco não estava bom mesmo. Um dia, estaria.
Ignorava o olhar, o sabor, a resistência do estômago em digerir tudo aquilo. Levantou-se, foi até o outro lado do estabelecimento, lavou as mãos na pia para enxaguar a confusão. Não havia papel para enxugá-las. Um dia, haveria.
Voltou para o seu lugar, terminou o francês, os frios, parou de ruminar e finalmente decidiu: "algum problema?", perguntou, incisiva. "Todos", ouviu de volta. Calou-se. Descobriu-se. Percebeu que era só mais uma. Um dia, não mais seria.
E era isso o que ela mais queria.
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14 maio 2007
Lucy do Espírito Santo
" Oi, minha linda! Que prazer em conhecê-la!"É assim que a dona Lucy — "é com ípsilon, minha nega" — cumprimentou-me quando estive em Guarapari, no estado do Espírito Santo. Ela costumava ter um quiosque na Praia de Itaparica, perto da casa da Roseli, irmã da Rute. Então, por tabela, acabei conhecendo-a também, porque a Rute sempre visita a dona Lucy quando vai ao Espírito Santo.
Mesmo sem me conhecer, essa senhora risonha, bronzeada e bem-disposta tratou-me com uma doçura de madrinha, distribuindo espontaneidade em risadas sonoras carregadas de diversão. Ela sabe viver de um jeito invejável. Mas é uma inveja boa, como ela.
Nesse único dia em que passei com dona Lucy, aprendi um mundo de coisas. Além de me ciceronear, ensinou-me a fazer moqueca adaptada (porque nem eu nem ela comemos camarão), feita com um peixe fresco delicioso que fomos comprar na peixaria do magnata da cidade; a reconhecer o amor verdadeiro, quando descreveu em meia dúzia de precisas palavras como é o casamento com o marido; a ser simpática, pois cumprimenta Guarapari inteira com gentis boas-tardes entremeados por piscadelas conquistadoras; a entrar no mar gelado e ainda assim achá-lo quente; a tratar bem os animais, quando parou numa farmácia para comprar remédio para a cachorrinha dela; a cultivar plantas em vasos improvisados dispostos em tudo o que é canto da casa; a rir com programa de televisão vespertino e a amar o próximo com todo o imenso coração que ela carrega dentro dela.
Fomos a várias praias, à praça da cidade, ao bairro onde ela mora, ao céu... Porque a dona Lucy é algo de divino que habita este planeta. Ela come na panela, tira todas as toalhas do armário para te convencer a tomar banho no banheiro dela enquanto ela arruma o almoço, conta como Deus entrou na vida dela, como ela ajuda a comunidade, como cortar a batata para ela cozinhar mais rápido ou o que fazer com o pepino para que ele fique leve na digestão. Tudo isso quase ao mesmo tempo.
Mas a dona Lucy não apenas cozinha bem. Ela é o bem em uma pessoa inesquecível que resgata na gente todas as esperanças perdidas com trânsito caótico, comportamentos egoístas ou falta de consideração. Ela é destemida, clássica, sociável e atenciosa. Olha a gente com uma profundidade indizível, numa expressão serena e de bem com a vida.Quem conhece essa senhora paulistana radicada no Espírito Santo — "e daqui ninguém me tira, turista, só se for pra eu voltar pra Osasco, onde fui muito feliz!" — entra em contato com o que de mais nobre o ser humano guarda dentro de si: o doar-se, com toda a boa vontade do universo, àqueles que de nós precisam.
É por isso que a partir daquele dia eu passei a amar Guarapari. Porque é lá que mora a dona Lucy.
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27 março 2007
O céu de Sueli

A Sueli trabalha no mesmo lugar que eu. Quase nunca abre a boca, mas presta muita atenção na conversa alheia. De boba não tem nada. Nem de surda, só de calada.
Ela entra na sala das pessoas com passos silenciosos, porque a gente só se dá conta da presença dela quando ouve o barulhinho do saco de lixo, onde ela cuidadosamente coloca o papel reciclado que a gente junta. Dá uma olhadinha de lado, eu sempre falo oi e obrigada, mas a voz dela está ali tão presa na insignificância imaginária que eu mal ouço resposta.
Nos corredores o contato é mais amistoso. É só a Sueli começar a limpar o chão, que lá vou eu passar pra lá e pra cá. Cumprimento novamente, peço desculpas toda sem graça por atrapalhar, mas ela sorri. Não tem problema, pode passar. Pra ela, parece que nada nunca tem problema, tudo neutro feito o detergente que ela usa.
Na hora do almoço a Sueli sempre limpa o banheiro feminino. Eu entro lá assobiando, feliz da vida por poder escovar meus dentes na santa paz e... dou de cara com a Sueli lavando a pia. Oi, Sueli, volto depois. Nem é preciso esperar muito, pois a rapidez e a eficiência da Sueli são proporcionais ao silêncio que dela emana.
Tudo isso me faz pensar que a Sueli tem um céu só dela. Mas eu não tenho certeza de que cor ele deve ser. Penso nele sempre cinza, porque a Sueli é toda quieta, presa, contida feito nuvem guardando chuva. Mas ela nunca troveja. Nem ameaça. Ela passa dentro de um uniforme branco e azul, touca na cabeça e todo aquele material de limpeza. De certa forma, a Sueli chove naquela empresa, lavando tudo daquele jeito... neutro.
Um dia, porém, o céu da Sueli desabou em outro lugar. Justamente pela eficiência e rapidez proporcionais ao silêncio, foi convocada para cobrir as férias de uma colega em outra empresa, porque a Sueli trabalha para uma limpadora terceirizada. Para o lugar dela veio a Isabel, tão torta que devia ser com z.
E essa troveja de um jeito estrondoso. Pois não é que a dita fala pelos cotovelos e ri com as mãos? Sempre tagarelando e reclamando da vida. Tem três filhos, que ficam sozinhos à tarde porque, sabe, menina, eles não têm com quem ficar. A mais velha estragou a televisão porque achou que, pelo fato de ela ter esquentado, estava com sede. Derramou água no aparelho. A mais nova puxou à mãe: ri o tempo todo. A Isabel faltou no trabalho quatro dias seguidos. O bilhete-único dela quebrou. Fiquei em casa, sabe?
Ela adora forró. Numa sexta-feira, enquanto todo mundo ia embora dizendo animados tchaus, ela ria mais ainda e dizia, num sorriso desabotoado, que não via a hora de ir para o forró, mas só com o dinheiro da condução que ela não é besta; lá ela havia de achar alguém que pagasse a consumação dela. De boba não tem nada. Nem de surda, só de calejada.
Nesse período, eu senti saudade da Sueli, apesar de a Isabel ser divertida. Mas minha mesa vivia cheia de resquício de borracha, meu lixo demorava pra ser esvaziado, minha sala não era varrida todos os dias, e a Isabel se arrastando na má vontade... tudo isso me incomodava de um jeito todo meu. Cheguei a preferir um céu cinza a toda aquela alegria isabeliana azul cintilante. Será que na outra empresa o céu da Sueli continuava nebuloso?
Um outro dia, porém, indo almoçar na minha caminhada diária, encontro a Sueli na rua indo para o trabalho. Ela voltou, ela voltou! Mas, calma. A Sueli estava mudada, ensolarada, radiante. Sem aquele uniforme branco e azul, sem a touca e todos os produtos de limpeza, com os cabelos longos soltos e vestindo roupa colorida, a Sueli mudou de céu. Ficou atá mais nova, sorriso menos tímido e oi sonoro.
Foi aí que entendi que o céu da Sueli é todo dela, multicolorido e sujeito a variações. Meu olhar é que vivia nublado.
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06 janeiro 2007
A romã e a Rute
Todos os anos, no Dia de Reis, eu como romã e separo três carocinhos, um para cada rei mago. Peço a eles que nunca me deixem sem algum dinheiro na carteira, centavos que sejam. Não sei se é a superstição ou o quê, mas tem dado certo.

O problema sempre é o mesmo: achar a romã. Este ano, no entanto, nem deu tempo de a expectativa virar problema, porque a romã veio quase voando parar na minha mão. Há quem diga que é providência divina. Mas foi a Rute, o que dá no mesmo.
A Rute trabalha na mesma empresa que eu, mas em outro prédio. É esforçada, bondosa, espontânea, sorridente, prestativa e poética, porque faz aniversário no Dia dos Namorados. “Vou te dar a romã mais bonita que tiver no meu jardim”, ela disse, quando perguntei a ela se ela sabia quem poderia me arrumar uma romã.
Por eu não estar acostumada a essas preferências, esse tipo de frase me emociona. E, para ser mais Rute do que já é, a Rute me encontrou no refeitório, na hora do nosso almoço, e me deu um pacotinho azul com fita verde. Era uma romã redondinha de presente.
A Rute diz que eu faço muito por ela ensinando análise sintática e tirando todas as dúvidas de português que ela tem. É, eu a ajudo a redigir as cartas, a revisar releases, explico gramática, descomplico as regras e a incentivo porque eu sei o quanto de Rute ela tem: uma bondade imensurável que não cabe nem em Itu; um olhar de compaixão que abraça todo mundo; uma vontade instintiva de abrandar qualquer aflição, solucionar impasses e desfazer nós; um esforço agigantado pela determinação de progredir; uma forma muito particular de acolher o próximo conhecendo-o ou não, sem qualquer tipo de preconceito, palavra que Rute não conhece. Na sua ingenuidade angelical, a Rute não poderia ter um nome mais de acordo, porque, mesmo baixinha, ela é enorme.
Então, quando olhei para aquela romã ontem enquanto eu caminhava de volta para o prédio onde trabalho, decidi que ela não poderia ficar só comigo, porque isso não combina com ser Rute. A romã vai ser dividida em quantos pedaços der, para que todo mundo possa fazer seu pedido para o rei mago preferido. E todo mundo vai ter no mínimo uns centavinhos na carteira o ano inteiro, porque a Rute merece que a bondade se espalhe, que a felicidade floresça, que a boa vontade dê frutos assim tão redondinhos.
Ela diz que o pouco que ela faz para mim não é suficiente para me agradecer pelo muito que eu faço por ela. A Rute é que não sabe que tem um tudo bem genuíno e desmesurado dentro de si. E que pode qualquer coisa, a hora que quiser.
É por isso que eu acho que todo mundo precisa ter uma Rute na vida. Porque aprender a ser Rute é um dos desafios da humanidade.

O problema sempre é o mesmo: achar a romã. Este ano, no entanto, nem deu tempo de a expectativa virar problema, porque a romã veio quase voando parar na minha mão. Há quem diga que é providência divina. Mas foi a Rute, o que dá no mesmo.
A Rute trabalha na mesma empresa que eu, mas em outro prédio. É esforçada, bondosa, espontânea, sorridente, prestativa e poética, porque faz aniversário no Dia dos Namorados. “Vou te dar a romã mais bonita que tiver no meu jardim”, ela disse, quando perguntei a ela se ela sabia quem poderia me arrumar uma romã.
Por eu não estar acostumada a essas preferências, esse tipo de frase me emociona. E, para ser mais Rute do que já é, a Rute me encontrou no refeitório, na hora do nosso almoço, e me deu um pacotinho azul com fita verde. Era uma romã redondinha de presente.
A Rute diz que eu faço muito por ela ensinando análise sintática e tirando todas as dúvidas de português que ela tem. É, eu a ajudo a redigir as cartas, a revisar releases, explico gramática, descomplico as regras e a incentivo porque eu sei o quanto de Rute ela tem: uma bondade imensurável que não cabe nem em Itu; um olhar de compaixão que abraça todo mundo; uma vontade instintiva de abrandar qualquer aflição, solucionar impasses e desfazer nós; um esforço agigantado pela determinação de progredir; uma forma muito particular de acolher o próximo conhecendo-o ou não, sem qualquer tipo de preconceito, palavra que Rute não conhece. Na sua ingenuidade angelical, a Rute não poderia ter um nome mais de acordo, porque, mesmo baixinha, ela é enorme.
Então, quando olhei para aquela romã ontem enquanto eu caminhava de volta para o prédio onde trabalho, decidi que ela não poderia ficar só comigo, porque isso não combina com ser Rute. A romã vai ser dividida em quantos pedaços der, para que todo mundo possa fazer seu pedido para o rei mago preferido. E todo mundo vai ter no mínimo uns centavinhos na carteira o ano inteiro, porque a Rute merece que a bondade se espalhe, que a felicidade floresça, que a boa vontade dê frutos assim tão redondinhos.
Ela diz que o pouco que ela faz para mim não é suficiente para me agradecer pelo muito que eu faço por ela. A Rute é que não sabe que tem um tudo bem genuíno e desmesurado dentro de si. E que pode qualquer coisa, a hora que quiser.
É por isso que eu acho que todo mundo precisa ter uma Rute na vida. Porque aprender a ser Rute é um dos desafios da humanidade.
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17 julho 2006
A história de Judite

Judite não sabia o que fazer. Queria alguém que a fizesse rir, alguém que pudesse abraçá-la sem perguntar nada. Mas o ser humano é curioso por natureza, isso ela sabia. Por que está chorando? Por que está assim? Por que não sai um pouco? Mas fazê-la sorrir que era bom, nada.
Judite era esperta. Esperta e triste. Vivia melancólica pelos cantos, esperando o tal alguém que a fizesse sorrir, que pudesse abraçá-la. Não se olhava no espelho porque já estava cansada de ver a si mesma. Aquela companhia como reflexo não era o que ela desejava.
Judite era a desesperança em pessoa. Só sabia querer, não agia. Isso a impedia de ver além de sua própria imagem e a deixava cada vez mais distante de si mesma.
Judite chorava, inundando a sala. Havia lenços de papel por toda a casa da Judite. Eles a entendiam, ela pensava.
Judite já não assistia mais tv, não lia mais o jornal, não achava nada interessante. Vestia apatia, respirava solidão.
Judite um dia ouviu uma música vinda do vizinho. Era uma melodia linda, suave, confortadora. Esboçou um sorriso e lentamente foi sendo abraçada pela poesia daquele som.
Judite começou, daquele dia em diante, a prestar mais atenção às coisas, querendo ouvir mais. E vieram outras músicas ainda mais belas.
Judite se surpreendeu.
Judite estava encantada. Começava a ser fisgada pela vida com a isca das notas musicais. Deixou acabarem os lenços de papel e parou de chorar. Quebrou o espelho, vestiu uma roupa limpa e cheirosa, respirou fundo e saiu.
Judite saiu de si mesma.
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