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05 fevereiro 2011

A falta que você me faz

Serra Negra, SP, numa tarde em que Deus resolveu tomar sopa no céu


Deveria ser lei todo mundo ter avó até o final da vida, porque a gente passa a maior parte dela sentindo falta de uma. E não me refiro aos doces, aos afagos cúmplices, à piscina de afeto azulzinha só de olhar. Sinto falta da sabedoria que só as avós têm. Elas sempre sabem o que fazer bem na hora em que não sabemos. Elas pescam as dúvidas em nossos olhos, sem que tenhamos de pronunciar angústia.

Quando eu era bem pequena, minha avó materna me visitava às quintas, quando a feira fugia do dia da semana para se instalar na rua em barracas bem coloridas. Ela chegava um pouco antes do almoço, carregando uma panela cor de abóbora com tampa preta, onde guardava salsichas apetitosas mergulhadas em molho de tomate caseiro. Prendia a tampa à panela com uma manobra de elástico. Logo atrás vinha uma tigelinha cor de areia de tampa de vidro transparente que deixava à mostra uma farofinha gostosa.

As quintas eram meus dias preferidos porque era quando eu mais tinha avó. Num desses dias, ganhei dela uma lupinha para observar formigas. Até então, eu nunca havia reparado no minúsculo. Essa é outra habilidade das avós: ensinar a gente a ampliar o campo visual.

Foi com a minha avó que aprendi que não se pode gastar com uma mão o que não se tem na outra. Às quintas ela me dava moedas, mas me incentivava a poupá-las em vez de sair desembestada para comprar uma vontade. Quando eu era um pouco maior, mas ainda pequena diante de parâmetros adultos, veio outra lição: o dinheiro se conquista, não se ganha. Eu pintava umas gravuras que achava bonitas e minha avó as comprava de mim com mais centavos. Devia jogá-las fora, hoje eu sei.

Minha avó era severa na educação dos netos. Falava baixo, mas sempre firme. Tinha horror a escândalo, louça e toalha de plástico, xícara de borda grossa, guardanapo de papel. Vestia-se sempre com roupas simples mas de caimento perfeito, era recatada. Embora não tivesse completado o ensino fundamental, teve educação europeia: aprendera boas maneiras como governanta de uma família alemã de cuja fazenda o pai fora administrador. Comigo nunca falou alemão, mas minha mãe afirma que minha avó conhecia muitas palavras dessa língua.

Tinha nome literário ela: Julieta. Tinha um irmão Romeu. Entretanto, embora alfabetizada, minha avó não era de ler histórias em livros. Ela me contava algumas de cabeça. Uma delas era uma parlenda – hoje eu sei o nome – de um caranguejo que havia brigado com um galo e levado uma bicada. Saía por aí pedindo um “pano porque o galo me pinicou” e desenrolavam-se muitas exigências dependentes umas das outras para que o bicho obtivesse o tal pano. Foi a primeira vez em que tive contato com um final não feliz, porque, mediante tanta barganha, o pobre-diabo acabava morrendo. Ao terminar o caso, minha avó ria. Eu não entendia a graça e achava horrível as pessoas terem se recusado a ajudar alguém necessitado por pensarem em se beneficiar disso de alguma forma. Sábia, minha avó. Estava me preparando para o mundo: no fundo somos todos caranguejos implorando por panos para estancar feridas.

Todas essas lembranças, porém, não são suficientes para eu me sentir completa. Minha avó sempre falta, porque tem muita coisa que eu não tive tempo de perguntar a ela e que eu tenho certeza de que ela saberia me responder com o pé nas costas, com toda aquela experiência que o rosto denunciava. Ela me entendia mais do que meus pais porque era mãe ao quadrado.

Deveria ser proibido as avós morrerem no início da adolescência da gente, quando mais precisamos delas. A gente acaba se virando sozinha, é verdade, mas nunca tão bem. E termina arrastando para a vida adulta todas as perguntas que não puderam ser pronunciadas e que manual, guru ou google nenhum respondem.

Penso na minha avó todos os dias, porque ela faz parte de mim, porque foi com ela que aprendi a me portar direito, a zelar por meus pertences, a ser criativa, solidária, responsável, observadora e sensível. É nela que me espelho para continuar uma mulher forte. Ela era dona de si.

Mas hoje, especialmente, eu sinto uma falta gigante da minha avó. Hoje é um daqueles dias sem saída, em que tentamos escalar as paredes mesmo conscientes de sua altura. Nessas situações, dona Julieta não me estenderia uma escada, tenho certeza, mas me ensinaria a construir uma com o que eu tivesse à mão.

Eu olho, olho, olho ao redor. Até enxergo possibilidades. Mas não sei montar com elas uma escada. Continuo perdida, me debatendo com perguntas e mais perguntas me tirando a voz, acumulando na garganta. Perguntas que só minha avó, do alto de sua sabedoria, saberia responder, ainda que sem palavras.

Queria que hoje fosse quinta-feira.

12 setembro 2007

Algodão-doce

Com um pouco de atraso (desculpem!), este post responde o convite que recebi do Rafael Porto, do Alforria. Parece simples, mas resumir as lembranças todas da infância a apenas cinco faz pensar um bocado...


Lápis de cor

Sempre fui uma criança curiosa, que tudo perguntava e tudo queria saber. Nunca aceitava ordens sem que me explicassem o motivo, porque a racionalidade mora em mim desde que nasci. Então, quando me mandavam fazer alguma coisa sem me explicarem por quê, eu simplesmente não fazia, por não entender a necessidade daquilo.

Os apelos eram em vão. Se não me convencessem, nada feito. Uma criança quase incorruptível, não fossem... os lápis de cor! Por uma caixa deles, de 12, 24 ou 36 cores, eu fazia qualquer coisa. Lembro-me de que minha mãe, às vezes cansada de argumentar comigo, apelava para o acordo: "Kandy, se você fizer o que a mamãe combinou com você, você ganha uma caixa de lápis de cor". Valia a pena.

Mesmo que eu já tivesse uma caixa, sempre queria mais. Adorava olhar para as cores arrumadinhas fazendo degradê, mesmo sem entender para que servia o branco; achava mágico demais ter o poder de colorir tudo o que nasce sem graça, desprovido de alegria.

Um dia, num aniversário aí, acho que de 8 ou 9 anos, minha tia me deu um estojo de zíper com dois compartimentos recheado de cores. Ela conseguiu reunir lápis de cor e canetinhas de todas as cores do mundo num lugar fechadinho só para mim! Foi um presente inesquecível! Outro dia, no Orkut, reencontrei um amigo meu da infância que, ao ser perguntado se se lembrava de mim, respondeu rapidinho: "se eu me lembro? Claro! Você era aquela menina que tinha um estojo cheio de lápis de cor!"...



Jantar de domingo na casa da minha avó

Uma vez por mês, eu, meus irmãos e minha prima nos reuníamos na casa da minha avó materna para jantar. Éramos tão pequenos que cabíamos todos ao redor da mesa de centro da sala, que minha avó cobria com uma toalha com cheiro de sabão em pó. Comíamos em pratos fundos, de louça boa, com garfo e faca de sobremesa. Bebíamos vinho com água e açúcar, que minha avó colocava em cálices de cristal bem pequenininhos, desses de servir licor. Eu me sentia importante com um cálice daqueles, porque, nas histórias da Idade Média que eu lia, todos os cavaleiros e reis e rainhas e princesas usavam cálices nas refeições.

O menu era sempre o mesmo: macarrão com salsicha Santo Amaro, aquelas gorduchas e suculentas, farofa com ovinho e azeitonas e, às vezes, a torta de batata da Celina, uma senhora que sempre trabalhou para a minha avó e que merece um post só para ela.

Minha avó gostava de guardanapo de pano, xícara de borda fina sempre com pires, coisas de cristal, porta-guardanapo de metal, tudo fino. Eu achava o máximo, mas sempre me atrapalhei com molho de tomate. Todas as roupas do meu armário têm atração por molho de tomate... Então, minha avó abria um guardanapo de pano bem grande (para mim era bem grande) e amarrava-o em volta do meu pescoço, feito aqueles bandidos de bangue-bangue. E era assim que eu comia, junto com meus irmãos e com minha prima, assistindo aos Trapalhões, quando eram quatro e engraçados.



Livros de contos de fadas e do rei Artur



Sou fã número um do Rei Artur. Chorei feito uma louca quando li a história do Tristão e da Isolda. Acho a rainha Guinevere uma fraca indecisa e, apesar de concordar com a população feminina mundial de que o Lancelot era um pedaço de mau caminho, nunca o perdoei por ter traído o rei Artur, um homem tão nobre e justo daqueles! E rei, ainda por cima!


Isso é que dá ler desembestada! Eu me insuflava de maniqueísmos de tanto que lia contos de fadas de todos os países, em edições de capa dura com a ortografia ainda antiga, antes da reforma ortográfica de 1970, apesar de eu ter nascido em 1975. Da coleção toda, os de que eu mais gostava eram Os mais belos contos de fadas tchecos e Os mais belos contos de fadas húngaros. Eu nem sabia o que era tcheco e húngaro, mas tudo bem, devia ser uma coisa legal.


As ilustrações eram grosseiras, mas eu gostava. Passavam uma idéia de sombra, mistério... e aquela ausência de cor me fazia querer pintar tudo com os meus lápis de cor. É que eram tantas ilustrações que, se eu fosse pintar uma, teria de colorir todas. Era trabalho demais, eu acho... ia gastar todo o meu estoque de lápis de cor. Então, decidi que não valia a pena. Ficava só com as histórias mesmo, com anões, dragões, princesas e injustiças num mundo esquisito onde as pessoas usavam roupas mais esquisitas ainda, sumiam e apareciam do nada, voavam, adivinhavam ou eram tapadas demais para entender o que estava acontecendo ao redor.




Passeios de graça com o meu avô

Meu avô já ganhou um post só para ele, mas os passeios que fazíamos eram mesmo inesquecíveis, sobretudo porque ele me fotografava, numa época em que ninguém quase era fotografado assim, com essa abundância de cliques.

Como éramos cinco netos, meu avô não tinha dinheiro para levar a gente a lugares caros. Então, ele foi o responsável por estreitar minhas relações nada amigáveis com o governo, porque me levava a todos os lugares públicos de São Paulo. Eu conhecia todos os parques, o do Ibirapuera, da Água Branca, do Carmo e do Piqueri; andava de metrô para cima e para baixo, e era amiguíssima da girafa do Zoológico, porque eu vivia lá, era praticamente de casa. Ao que parece, num dado momento lá ela nem agüentava mais olhar para a minha cara, por isso nossa amizade terminou, eu acho. Pescoçuda de uma figa!



Brincadeiras na casa da minha prima

Era muito legal ir para a casa da minha tia, a única irmã da minha mãe. Lá eu jogava Atari, apesar de sempre perder dos meus irmãos, brincava de pista (minha prima espalhava pistas em pedaços de papel remetendo a gente de um lugar para outro pela casa inteira até achar o tesouro, geralmente uma coisa bem besta...), de trenzinho, de casinha, de cabana no jardim, participava do batizado da Fifi, a coelha bege e fofa que minha prima tinha, escorregava pelo beiral da escada, dava comida para as tartarugas que me morderam o nariz quando eu era bem pequena, ouvia música, dançava e, o mais legal de tudo: me fantasiava. Não sei se minha prima me achava com cara de boneca para ficar me vestindo daquele jeito, mas eu achava divertido experimentar aquele monte de roupas engraçadas, usar colares, chapéus, bolsas, sapatos e maquiagem de gente grande. Minha prima tinha uma Polaroid e acho que se divertia mais do que eu fotografando aquela palhaçada toda!



Não posso reclamar porque tive uma infância especial e feliz, a base do que sou hoje, dos valores que carrego, do meu senso de família. Foi na infância que aprendi a ser verdadeira, a dar vazão à criatividade, a achar que todo mundo é bom, que tudo é açucarado e possível, numa ingenuidade típica de quem não tinha com o que se preocupar.

Então, apesar de ser uma pena crescer e perder um pouco disso, a saudade é bem boa. Dá um acalento todo especial à alma e faz brotar um sorriso suave nos lábios, desses que só quem foi criança de verdade consegue resgatar de vez em quando.


16 dezembro 2006

Que presepada!

Depois das cartas ao Papai Noel, outra tradição natalina com a qual sempre convivi foi o presépio. Minha mãe capricha todos os anos, colocando a criatividade a serviço da fé.

Então, assim como os vários natais maravilhosos que tive, também tenho algumas presepadas para contar, pois, como minha mãe, sempre fui deveras criativa.

Uma vez, não sei qual era a minha idade, minha mãe conta que eu coloquei todas as peças do presépio para dormir. Decerto eu devia achar aquilo estático demais; cansativo todo mundo ali de pé daquele jeito, por dias e dias a fio. Coitados! Na dúvida, deitei todas as peças: pessoas, porcos, perus, ovelhas, vaquinhas... acho que só poupei as árvores.

Minha irmã mais velha já foi mais prática, como é até hoje: enquanto eu queria dar descanso à humanidade ali representada, a Kelly achou por bem fazer uma fila, porque já estava mais do que na hora de aquele povo se mexer para ir visitar Jesus. Como o presépio tinha dois ou três níveis ligados por rampas de madeira cuidadosamente cobertos de papel-pedra, formou-se uma enorme fila de pessoas, porcos, perus, ovelhas e vaquinhas, um atrás do outro, numa romaria digna de Aparecida.



Não bastasse todo o exposto (que fazia minha mãe ficar de cabelo em pé por ter de arrumar tudo de novo, cada peça em seu devido lugar), numa bela quinta-feira — me lembro bem do dia da semana porque era dia de feira na minha rua, o que só ocorria às quintas — eu e minha honorável e sábia irmã mais velha decidimos pôr em prática nossos ensinamentos cristãos. Havíamos ganhado uma vela cada uma, presente de nossa mais-sábia-ainda-avó. A minha era de estrelinha; a da Kelly, de coração. Então, na calada do dia, fomos acender a vela para Jesus, feito aquelas crianças meigas e gorduchas (a Kelly, não eu) estampadas nos cartões natalinos.

O único porém foi justamente a ingenuidade da infância. A gente só ganhou as velas e nada mais. Então, foram apenas as velas e nada mais que pusemos, acesas, sobre aquele pasto verde lindo feito de serragem, onde ficavam aquelas ovelhas branquinhas.

Um tempinho depois, a chama da fé, sempre tão poderosa, desprendeu-se de vez de nossos corações e manifestou-se, imponente, na sala silenciosa.

Estávamos almoçando quando alguém irrompeu a cozinha gritando “fogo! fogo!”, num desespero pra lá de aflito. A fé tem mesmo dessas coisas; as pessoas se comovem entregando-se de alma e tudo.

Eu e a Kelly tínhamos colocado fogo no mundo. Aquilo ali estava parado demais...


08 dezembro 2006

Papai Noel e eu: cartas

(Clique na carta para lê-la)


Todo escritor, artista, filósofo, músico ou ser humano que se preze já escreveu cartas a alguém. Woody Allen escreveu para Platão; Rilke, a um jovem poeta; Kafka, ao pai dele; Pero Vaz de Caminha, ao Rei D. Manuel; Van Gogh, a Théo; Mario de Andrade, a Câmara Cascudo; Mariana Alcoforado, ao léu; Scott e Zelda Fitzgerald, um ao outro; eu, ao Papai Noel...

Eu acreditava em Papai Noel, aquele mesmo, de roupa vermelha, barba branquinha e sininho na mão. Meus pais contratavam um senhor, o mesmo todos os anos, que vinha com um saco cheio de presentes devidamente etiquetados, pois éramos cinco: eu, meus irmãos e minha prima — esta última entrava na dança por diversão e para dar verossimilhança à cena, porque já não acreditava mais fazia tempo...

Mas não quero falar desse dia da visita do velhinho de barba de verdade (eu puxei uma vez para me certificar), o ápice natalino. Antes desse acontecimento anual, havia toda uma preparação fantasiosa que me ensinou muitos dos valores que tenho hoje.

Eu escrevia cartas ao Papai Noel. Minha mãe dava a mim e aos meus irmãos moedas para comprarmos selos na banca de jornal, de modo a poder postá-las. Bom, se eu mesma, com as minhas perninhas, ia comprar o selo, colocava na carta, endereçava ao céu — porque era lá que eu acreditava ser a moradia do velhinho — e enfiava a carta na caixa do correio, era para acreditar nele quando eu recebia as respostas. Tudo porque, como minha mãe tinha nos ensinado a colocar remetente nas cartas, pedia ao carteiro para devolvê-las pessoalmente a ela, de modo que ela pudesse lê-las e respondê-las devidamente. E era tudo tão bem-feito, e não tinha a internet para atrapalhar, que não dava para desconfiar...

Minha mãe tem letra de mão, mas escrevia com letra de forma os cartões-postais, cartas e cartões de Natal que recebíamos do Papai Noel. E como ele sempre respondia o que eu escrevia, era sinal de que me lia. A mesma letra das cartas eu encontrava nas etiquetas dos presentes que ele trazia na noite de Natal. Mais verossímil, impossível.

Por essas e outras, eu me sentia especial. Na escola, ninguém acreditava, diziam que era meu tio, meu avô, meu pai... Mas eu sabia que não era, porque eles estavam todos lá, vendo o Papai Noel junto comigo. E o cara ainda tinha barba de verdade, têm noção?! Isso porque eles nem sabiam das cartas... Ah, se eu contasse! Convenci-me de que as outras crianças não recebiam a visita natalina justamente porque não acreditavam nela. E essa aura de magia é que começa a formar dentro da gente um sentimento importantíssimo que muita gente perde quando cresce: a esperança.

Minha mãe nos ensinava que o Papai Noel tinha de dar muitos presentes para muitas crianças e que, por isso, nem sempre tinha dinheiro para dar o que pedíamos (psicologia pura de mãe que tem quatro filhos pedindo bicicletas individuais!). Se o problema era esse, estava resolvido: eu juntei o meu dinheiro, umas parcas moedas que ganhava da minha avó quando ela me visitava, e separei, como diz a minha carta, em duas partes: uma para comprar o aparelho dentário de que a Kelly precisava; outra para enviar ao Papai Noel como ajuda de custo. Uma menina de 9 anos já consciente quanto às finanças pessoais! Mandei um anexo na carta: “Já que eu não posso mandar o dinheiro pela carta, o senhor pode vir buscar. Mas não agora, só em novembro!”.

Eu trocava correspondências com o Papai Noel durante uns dois meses. Eu escrevia, ele respondia, e assim era até o Natal. Eu tentando convencê-lo de que havia me comportado bem, e, portanto, era merecedora do presente; ele às vezes bem-humorado dizendo bondades, outras mais sério, coisa de mãe brava ou sonolenta escrevendo respostas para quatro filhos tagarelas altas horas da manhã talvez. Tenho cartões em que Papai Noel me dá broncas homéricas — “fale menos e ajude mais” ou “se continuar chorona assim vai ficar enrugadinha como eu”, ou ainda “tente chorar menos e ser mais amiga dos seus irmãos” — PSs que me ajudavam a aprender a lidar com decepções e a constatar que eu era uma chata.

O mais impressionante da história é que Papai Noel gostava mais de cartas do que eu. Ele as mandava para mim antes mesmo de eu ser alfabetizada. Tenho várias como essas guardadas, com elogios breves, é verdade, por eu ter passado para o pré, por eu ter dançado bem no balé, me comportado bem... tudo permeado por alguma lição básica de cidadania, como repartir as coisas com o próximo, ajudar os pobres, fazer caridade, entender que há pessoas mais tristes e mais necessitadas do que eu e que, perto disso, meu presente não era assim tão importante.

Por essas e outras é que eu respeitava pra caramba o Papai Noel. Era Deus no céu e ele também. Além de símbolo mor da bondade sobre todas as coisas, ele ainda achava tempo para me escrever, dividia os sentimentos dele comigo, me ajudava a ser uma pessoa melhor e era amigo de verdade, porque só os amigos de verdade dão bronca na gente quando o que a gente mais quer receber é mão na cabeça em sinal de aprovação. Para mim, o que ele dizia era lei.

Mas, como toda correspondência que se preze, um dia o contato acaba por razões que só o Universo conhece. Embora a carta que abre este texto tenha sido escrita em 1984, quando eu tinha 9 anos, nossa correspondência só cessou em 1986, quando descobri que Papai Noel não existia, pelo menos não assim, de carne e osso, com barba que não sai, roupa vermelha e saco cheio de presentes padronizados. A última palavra, lógico, tinha de ser dele, porque foi ele que começou tudo aquilo:

Menina Kandy,
Desejo que todas as canções de Natal tragam paz, amor e felicidade! Lembre-se de que o verdadeiro espírito de Natal é o amor, a fé e a caridade repartidos com o próximo. Se em seu coração sempre houver a meiguice, a sinceridade e a ingenuidade de criança, então eu estarei com você em todos os Natais que virão! Beijos do “Papai Noel”

Nesse ano, eu passei o Natal com menos magia, mas nem por isso menos contente. Tinha feito uma descoberta interessantíssima com aquelas aspas: Papai Noel morava mesmo no céu, de onde vem tudo o que é bom que a gente vai guardando dentro da gente, como parcas moedas sendo depositadas em cofrinhos da alma. Ele não tinha forma, barba, roupa, letra de forma, sino ou saco de presentes. Ele tinha espírito natalino. E é nisso que eu acredito até hoje.



P.S.1: Nem sei o que foi feito desse dinheiro, porque a Kelly só foi usar aparelho dentário na idade adulta, bancado pelo próprio bolso.

P.S.2: Minha estilística já denunciava minha vocação... que criança de 9 anos escreve "mande-me a resposta"?!!! Para compensar, avacalhei na colocação pronominal da oração que veio depois. Paciência... e olha que isso eu tinha, estava disposta a esperar a bicicleta no ano seguinte ou no outro ou no outro... ;-)


15 agosto 2006

Cantoria mais besta, sô!


Dizem por aí que quem canta os males espanta. Mas aposto que muita gente canta sem sequer prestar atenção àquilo que está cantando: pronunciam as palavras assim, descompromissadamente, mais guiadas pela melodia que propriamente pelo significado da canção.

Pois eu, aquela que lia o mundo de um jeito pra lá de curioso, também lia o que eu cantava, ou o que cantavam para mim, com os mesmos olhos “isológicos” de sempre: arregalados de horror ou com cintilantes pontos de interrogação faiscando pra lá e pra cá.

Minha mãe, por exemplo, na melhor das intenções maternas, cantava uma música para a gente dormir. Segundo ela, uma música que minha avó cantava para ela. Mas eu, em vez de dormir, permanecia imóvel debaixo das cobertas, com um medo friorento que congelava meus movimentos e não me deixava sequer piscar.

A música dizia assim: “Ei vi Nossa Senhora / na beira do rio / lavando os paninhos / pro seu bento filho / Nossa Senhora lavava / São José estendia / e o menino chorava / do frio que fazia / Não chore, meu menino / não chore, meu amor / o frio é uma faca que corta / um talho sem dor”.

Pois era justamente esse talho sem dor e a tal da faca que corta que me deixavam horrorizada. Como eu ainda não era alfabetizada, pensava em imagens e, sendo a metáfora uma delas, pensava-a literalmente: imaginava um menino todo retalhado (“talho” < “retalho”) pela faca do frio... e eu é que ficava gelada.

A música do Cravo que briga com a Rosa era outra coisa pavorosa. Rosa mais burra, que, depois de apanhar do imbecil do Cravo, ainda vai visitá-lo por ele ter ficado doente! Inadmissível isso para mim. Eu via a cena na minha cabeça: os dois debaixo da sacada numa briga violenta. Um barraco nada divertido para uma criança, convenhamos. Música mais machista e, ainda por cima, de espancamento!

Aí vinham as cantigas de roda. Sabe-se lá de que tempo era isso, porque eram umas palavras muito estranhas para alguém que ainda estava aprendendo o som correto que elas têm. Duvido que alguma criança soubesse o que era “ladrilhar” na música: “Se essa rua / se essa rua / fosse minha / eu mandava / eu mandava / ladrilhar / com pedrinhas / com pedrinhas de brilhante / para o meu / para o meu amor passar”; ou o que era uma cutia que corria na casa da tia. Diga-se de passagem que essa música da cutia apressada era a coisa mais sem pé nem cabeça que eu já havia escutado na minha tão infantil vida. Um galo que chupa cana com um dente só?! Eles pensam o quê? Que criança é burra?! Para piorar, a bendita segunda pessoa... aqui em São Paulo, onde sempre vivi, essa coisa do te, ti, contigo, tu e afins não é usada. Então, pra mim, a música da Ciranda, Cirandinha continha umas palavronas: “tumitinhas”, “tumidestes” que eu nem fazia idéia do que eram. É, porque eu também achava que o “Abre-te, Sésamo” do filme era “Abre, Tesésamo”, assim, tudo grudado. Essa prática mania de juntar tudo eu também aplicava a uma música portuguesa que eu sempre ouvi: “Lá em cima está o tiro liro liro / lá embaixo está o tiro liro ló / juntaram-se os dois na esquina / tocaram concertina / dançaram sol e dó”. Pergunto-vos: como é que este ser que vos fala saberia, naquela idade, que concertina era um instrumento musical? Achava que era algo como “com certeza”. E o “sol e dó”, como era cantado “solidó”, só podia ser o nome da dança que aqueles loucos dançavam com certina.

Para terminar essa minha truculenta relação com as canções infantis, eu ficava arrasadíssima com a música do ribeirão que secou. Na parte do “as flores já não crescem mais / até o alecrim murchou / o sapo se mandou / o lambari morreu / porque o ribeirão secou”, eu com certina absoluta achava que o Lambari era uma pessoa que tinha morrido. Puxa, muito triste isso! Eu não chegava a chorar, mas me recusava terminantemente a cantar algo tão trágico. Mal sabia eu que a melodia da idade adulta traria imagens infinitamente mais trágicas do que as que minha mente criativa imaginava de maneira tão inocente. Porque, meus caros, quando a gente perde a inocência, passa a sofrer não mais apenas na imaginação.



Legenda da imagem: quadro de Almeida Júnior, chamado "O violeiro" (1899), fotografado na Pinacoteca do Estado, em São Paulo.

Curiosidade: segundo o Houaiss, "concertina: instrumento da família do acordeão, de forma hexagonal, dotado de dois teclados de botões com que se produzem acordes e melodias; gaita".

09 julho 2006

Lendo o mundo


A gente aprende a aprender em casa. Pelo menos foi assim comigo. Sou perguntadeira. Meus pais, respondedores de primeira.

Lembro-me como se fosse hoje de quando aprendi a ler. Nauseada pela ânsia de juntar aquelas letras todas que passavam apressadas enquanto andávamos de carro, eu perguntava: “Nossa, como é que vocês conseguem? Eu fico tonta!”. Meu pai: “Calma, você não precisa ler tudo o que aparece pela frente”. Então, eu tapava os olhos com as mãos, porque fechá-los era pouco. Eu não me continha. Primeiro me ensinam a ler e depois me falam que não é pra ler?! Vai entender a cabeça dos adultos!

Nem preciso dizer que meu primeiro filme legendado foi frustrante. As linhas eram muito longas e eu não me contentava em mover apenas os olhos. A cabeça ia pra e pra também. É, ler, definitivamente, era uma tortura.

Mas, quem diria! Se a vocação de fato existe, eu demonstrei a minha precocemente. Eu dizia “cisnei” porque fazia o paradigma com Disney, que, pra mim, nem com letra maiúscula era. Meu eu infantil achava que disney era um lugar comum, não sobrenome de gente.

No dia em que descobri que testemunha não começava com D, quase caí pra trás. Pra quem sempre “guspia”, o cuspe foi difícil de engolir. Minha mãe sempre me corrigia quando eu perguntava se íamos ao isológico. Na minha cabeça de criança que tudo compara, esse lugar não era nenhum bicho-de-sete-cabeças: um mero prefixo iso- com a palavra lógico. Pra quem conhecia isopor e isolar, isológico era o mais lógico, obviamente. Mas minha mãe dizia: “eu disse, Kandy, que é zoológico”. Errei outras vezes não por ignorância ou teimosia. Era por convicção mesmo. Como ninguém pronuncia os dois o, que outra palavra começava com zo? Desde criança a gente aprende a desconfiar do que é esquisito...

Mas só fui descobrir que tinha um i no fim da imundície na faculdade. Vergonhoso. Mas tanta palavra termina com ice que esse ície até hoje não me convence. Outra esquisitice.

Ainda criança, um dia comentei: “pai, eu não aprendi na escola essa letra da globo”. Eu olhava, olhava e não entendia que aquilo era um G grudado no L inclinadinho. É mais ou menos como os pingüins da Antarctica que parecem uma carinha ou o C branco do Carrefour que todo mundo como uma seta azul. Eu enxergava a Globo com uma letra dela que não tinha no meu alfabeto.

Meu alfabeto, diga-se de passagem, era bem diferente mesmo. Fui alfabetizada com a cartilha Caminho Suave, que trazia de um tudo, exceto o K de Kandy e o Y do meu final. Naquela cartilha, eu sempre me senti incompleta.

Nela, a lição do fá-fé-fi-fo-fu tinha uma faca desenhada na letra F. Sei por quê eu associava o som do f com a letra v. Ainda hoje, quando minha mão vai mais rápido que o pensamento, troco um pelo outro. É tanta faca que sai vaca que eu nem te conto!

Não me lembro a idade que eu tinha quando perguntava essas coisas. Mas me lembro perfeitamente de que nunca fiquei sem resposta. Não para as indagações lingüísticas; para tudo.

Por que alguns fios dos postes têm essas bolinhas no meio?”, “Para os aviões não baterem neles quando pousarem ou decolarem, Kandy”. “Como a gente faz para sair de dentro da Terra?”, “a gente não está dentro da Terra, Kandy, mas em cima dela”. Isso eu levei um certo tempo para entender, confesso. Como via sempre aquelas gravuras do planeta todinho azul, achava que aquela cor era o céu em volta da gente, porque, na figura, o resto era preto e sem forma. Na minha cabeça isológica, o céu era mesmo redondo, de um horizonte a outro, e a gente morava dentro do globo, um desses simples, sem letra estranha grudada e inclinadinha.

Por essas e outras é que a gente aprende a aprender em casa. Sem as pacientes respostas que meus pais sempre me deram, eu não teria seguido a tal da vocação. Hoje mesmo, vinte e poucos anos depois disso tudo, ainda perguntei pro meu pai enciclopédico enquanto assistíamos a tv: “o que é aquilo oval atravessado por uma reta que a gente sempre de cima do Cristo Redentor?”. “É o jóquei clube do Rio de Janeiro, Kandy”.

Não adianta. Eles sempre sabem tudo. Pra minha sorte.