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02 novembro 2007

Eu não sou fiel

Não vou pedir desculpas, porque não me envergonho do que fiz. Eu traí. Deixei a lealdade em casa e saí, com o maior sorriso na cara, esperando o inusitado, o gostinho de novidade. Foi mesmo uma aventura, que é que tem?

Ninguém descobriria, porque fiz tudo bem-feito. Mas achei melhor falar. Não, não, isso não é drama de consciência, culpa, nada disso. Eu repetiria a dose outras vezes, porque foi muito bom. Uma adrenalina boa de sentir e prazer antes, durante e depois. Só se eu fosse louca para me arrepender.

Há quem diga que é falta de personalidade, fraqueza, mania de querer abraçar o mundo, literalmente. Não sou dessas. Acreditem: foi a primeira vez, um ato deliberado, friamente planejado, com dia e hora marcados. Sou decidida. Foi depois do trabalho, na última quarta-feira de outubro.

Eu torci para dar certo. Gritei muito, embora tenha tido umas crises de identidade esporádicas. "Então, é assim que um traidor se sente?" Difícil explicar a dualidade. Meus sentimentos eram sólidos em relação às minhas convicções de sempre, mas aquele desvio era excitante demais. Eu continuava amando o que ia no meu coração, mas estava gostando muito do que se passava diante dos meus olhos, do que meus ouvidos ouviam, do meu batimento cardíaco acelerado esperando o ápice. E foram três. Sou mesmo uma mulher de sorte.

Fui covardemente seduzida. Meu ponto fraco: a razão. Foram argumentos irrefutáveis e uma oportunidade e tanto de entender mais o ser humano. Como ele se comporta numa situação dessas? O que sente? O que o leva a se sujeitar a isso? A sensação é tão boa assim? É.

Podem falar o que for. Traí bonito, com fogos de artifício e tudo. E o pior: sabia que estava sendo filmada. Eu sou assim: dou a cara a tapa. Assumo o que faço e não ligo para o que os outros pensam. Julguem-me como quiserem. E vou além: todo mundo deveria, pelo menos uma vez na vida, ter uma experiência dessas.

A traição aconteceu num estádio. Nunca havia pisado em um. Foi no jogo do São Paulo contra o América do Rio Grande do Norte. Foi no meio da torcida, na arquibancada mesmo. Muitíssimo bem acompanhada. Tudo se deu ali, no meio daquela energia contagiante, das emoções à flor da pele, do anônimo uniformizado, entre bandeiras e palavrões. Foi tórrido e inesquecível.


Uma corintiana desde a infância, que deveria estar ao lado do time num momento de desespero, quando ele está com um pé na segunda divisão, ali, prestigiando o pentacampeão, um dos arquiinimigos. Vestindo a camisa. Cantando o hino. Fazendo ola. Gritando olés. Ovacionando o Rogério Ceni. Batendo palmas. Boquiaberta com a visão tão panorâmica. Entusiasmada por, finalmente, entender a paixão nacional.

Tenho o Corinthians no coração, meu relacionamento estável. E, agora, uma queda inexplicável pelo São Paulo, de quem me tornei amante.

Uma traidora, eu.

Tudo porque me dei conta de que, definitivamente, eu não sou Fiel.



Dedico este texto

Aos são-paulinos do meu coração: Keyla, Alexandre Tadeu, Fernanda e Milton.


E aos corintianos a quem peço perdão: Noé, Priscila, Jana, Rodrigo e Mauricio.



14 junho 2007

A vela, o pão e a procissão

Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa


Todos os anos eu vou à missa de Santo Antonio numa tímida igrejinha aqui perto de casa. Depois da missa sempre tem uma procissão. É, na metrópole mais desenvolvida do país, ainda existem bairros de vizinhança amigável, de crianças brincando na rua com traves improvisadas com pares de chinelos, de igrejinhas pequenas com procissão seguindo o santo.

Eu vou à missa porque simpatizo com Santo Antonio, que prefiro chamar de Santo Antonio de Lisboa — minha parte portuguesa falando mais alto. Mas não é só por isso que sigo a procissão com uma vela simples acesa iluminando o caminho. Não sou movida pela esperança de que o santo me ajude a casar, embora esse seja o motivo principal de a maioria das mulheres lá irem. Eu simplesmente gosto desse santo, porque ele me ajuda a achar as coisas perdidas, me ouve com uma paciência de Jó apesar de ser Antonio, tem aquele olhar complacente difícil de encontrar hoje em dia. Além disso, eu sou afeita a tradições e confesso adorar o caráter cultural que as procissões têm. Elas mostram mesmo a alma das pessoas.

Quando estive em Portugal, por exemplo, terra desse santo Antonio, pude visitar Fátima, onde há a Procissão das Velas. À noite, com tudo escuro, aquele mar de gente reza junto o terço, cada dez ave-marias em uma língua diferente, que é para agregar todos os povos que por lá passam. E todo mundo anda com uma vela na mão. A mistura cultural e a união de pessoas provenientes de cantos tão longínquos uns dos outros é tão emocionante quanto o visual de tudo aquilo: luzinhas cintilantes mostrando corações tão acesos.

Pois eu lá, comovida com tudo, obviamente quis participar da procissão. Mas eu não tinha vela. Estava com cinco euros no bolso, o que dá para comprar um monte delas. Minha ingenuidade brasileira fez-me crer ser possível adquirir a vela, receber o troco e ainda dar um sorriso amigável a alguma portuguesa simpática que as estivesse vendendo. Mas lá em Fátima as velas ficam em caixas de acrílico abertas, ao lado das quais há um vão, como a abertura de um cofrinho, onde são colocadas as moedas para pagá-las. O valor de uma era algo como trinta centavos de euro, o que significava que a nota que eu tinha no bolso era muito. No lugar onde as velas ficavam à venda não havia qualquer tipo de fiscalização, câmera, pessoas vigiando ou conferindo se o valor depositado correspondia mesmo à quantidade de velas tiradas das caixas. Santa honestidade!

Fiquei maravilhada com aquilo: só faltou cair de joelhos para agradecer o contato com a civilização. Entretanto, fiquei mesmo sem vela diante da impossibilidade de obter troco. Não que a lindíssima procissão não valesse uma vela superfaturada, mas é que a conversão para reais travou minha fé.

Pude me redimir de ter ido a uma procissão de velas sem uma vela em outra procissão, desta vez na cidade natal do meu pai, onde fiquei uma semana. O patrono da cidade, São Sebastião, estava sendo festejado justamente quando de minha passagem pela aldeia. A festa é linda. A procissão é de verdade. Nunca andei tanto na minha "imaculada" vida. Lá, as pessoas se comprometem com o propósito da procissão, levam a sério de um jeito que emociona estrangeiros, dedicam-se a tornar tudo bonito, organizado e inesquecível.

No entanto, todo santo ano eu me decepciono quando, aqui em São Paulo, vou à missa de Santo Antonio. Não com o santo nem com a procissão em si, mas com as pessoas. A maioria é de um egoísmo de irritar qualquer cristão, até os não praticantes. Talvez por isso precisem freqüentar a missa, ir à igreja, pedir perdão ou o que for. Mas já era para terem aprendido, não?

A impressão que me dá é que as pessoas só seguem a procissão porque é apenas depois dela que são distribuídos os famosos pães bentos de Santo Antonio, comumente tidos como fonte inesgotável de abundância até o próximo 13 de junho. A tradição diz que se deve deixar um pedaço daquele pão onde se guardam os mantimentos, para que nunca falte comida. Reza a história — e o padre — que o pão de Santo Antonio simboliza o pão que Jesus dividiu com os apóstolos na Última Ceia, isto é, representa a partilha.

Dividir é tudo o que aquelas pessoas não fazem. Terminada uma procissão onde só meia dúzia acompanha a reza enquanto o restante da centena fala da novela, reclama do trajeto, presta atenção no carro da CET interditando as ruas, reclama da fome, olha para as placas de vende-se dependuradas em qualquer portão, brinca de colocar fogo no copo de plástico que protege a vela, faz-se um tumulto ao redor do que era para ser um andor — os tempos modernos demandam que o santo ande de carro, coitado.

Pois aquela bendita gente depena o pobre do santo. Não sobra uma flor para contar a história. Arrancam tudo como se aquilo fosse prover milagres, suprir necessidades, arranjar casamentos hollywoodianos com homens estonteantemente belos, bons, honestos e românticos. É, faz mesmo bem acreditar em milagres.

E a partilha, a comunhão, o olhar o próximo e dividir com ele, tudo isso fica na promessa. As pessoas se engalfinham com saquinhos plásticos nas mãos pegando quantos pães o desespero e a falta de educação permitirem. Não olham para trás, não levam em consideração a existência de outras pessoas, não têm sequer vergonha daquela insanidade toda. Os mais pacientes, que ficaram esperando sua vez com uma civilidade d'além-mar e atitude cristã, acabam sem pão. Justo eles, que saberiam, como ninguém, multiplicá-lo em tantos pedaços quantos fossem necessários para satisfazer a todos.

Não sei se é ignorância ou egoísmo demais abraçando a alma desses pobres de espírito. Sei que é preciso ser santo para continuar perseverante na crença de que elas um dia serão de fato catequizadas, introjetando, independentemente da religião que escolherem, a máxima que salvaria o mundo de todo tipo de infortúnio: "ama o próximo como a ti mesmo".


21 maio 2007

O buraco é mais embaixo

Para Tereza Duarte,
cidadã que tem brigado bravamente com a Prefeitura


Museu da Língua Portuguesa — SP
Exposição sobre Guimarães Rosa



— Atendimento ao cidadão, Prefeitura, bom dia!
— Bom dia, eu gostaria de fazer uma solicitação, por favor.
— Pois não.
— É que tem um buraco enorme na minha rua, sabe? Eu quero pedir para vocês virem consertar.
— Bom, senhor, para que possamos tomar providências, primeiro temos de saber quem é o dono do buraco.
— Como? Desculpa, acho que não entendi.
— O dono do buraco, senhor. Todo buraco tem um dono. A gente precisa requisitar o conserto ao dono do buraco.
— E você por acaso está insinuando que eu saia por aí procurando o dono?! "Ei, você aí, tem algum buraco?". Minha filha, isso é ofensivo, eu posso até ser agredido! Ora essa! E outra: quando eu cheguei do trabalho o buraco já estava lá. Como é que eu vou saber quem foi que fez aquilo?
— Infelizmente, senhor, essa é uma informação imprescindível para o andamento do processo. Sem saber quem é o dono do buraco, a Prefeitura não pode mandar que ele seja consertado. De qualquer modo, anote o número do seu protocolo, por favor. Quando identificar o dono do buraco, pedimos a gentileza de entrar em contato novamente e informar esse número.
— Pode falar, vai...
— 1985721936-R-B
— Credo, que número gigante!
— Para a sua informação, senhor, trata-se do número ordinal da reclamação, representada pela letra R; e B é...
— Buraco! Pra você ver como tem buraco nesta cidade! Já adotaram até um código pra eles!
— É só isso, senhor?
— E eu tenho outra opção?!
— Boa tarde. O Atendimento ao Cidadão agradece a sua ligação.

-o-o-o-o-o

— GasTura da Cidade, Atendimento ao Consumidor, bom dia!
— Oi, bom dia! Sabe o que é? É que tem um buraco na minha rua e eu queria saber se...
— Desculpe, senhor, mas, sobre buracos, o senhor precisa ligar para a Prefeitura.
— Mas é que a Prefeitura só toma providência se eu achar o dono do buraco e eu pensei que talvez vocês pudessem ter estado na minha rua esses dias fazendo alguma manutenção...
— Não, senhor, isso é impossível.
— Bom, mas você nem perguntou o nome da minha rua!
— Não é preciso, senhor. A GasTura não faz manutenção em suas tubulações há cerca de dois meses. Os funcionários que fazem esse tipo de serviço estão em greve.
— Ah, por que será que eu não fico surpreso, né? Tudo bem, obrigado.

-o-o-o-o-o-o-

— Energia na Sua Vida Cia Elétrica, bom dia!
— Bom dia! Oi, sabe, eu preciso saber se o buraco que tem na minha rua é de vocês.
— Desculpe, senhor, não entendi sua solicitação.
— Ai, é que tem um buraco enorme na minha rua, que, quem sabe — e eu espero que vocês saibam — pode ter sido causado por vocês na tentativa de soterrar a fiação elétrica, né?
— Impossível, senhor. Nós só procedemos a esse tipo de serviço em áreas tombadas pelo Departamento de Patrimônio Histórico, que, até a presente data, ainda não fez nenhuma requisição nesse sentido.
— Mas quando eu cheguei do trabalho aquele buraco estava lá e, quando fui entrar na garagem, a rua é mal iluminada, sabe, uma das rodas do carro caiu no buraco e...
— Senhor, nós não temos serviço de guincho, e, sobre buracos, o senhor tem de ligar para a Prefeitura. Agora, em relação à rua ser mal iluminada, o senhor precisa entrar no nosso site, preencher uma ordem de serviço online explicando os motivos da falta de iluminação, se a iluminação da sua rua é seriada ou não, o tipo de lâmpada utilizada, a distância entre os postes, essas coisas, para que essa requisição seja analisada e, tão logo seja classificada como procedente, possa ser encaminhada ao departamento competente e, então, ser prontamente atendida.
— Você chama isso tudo aí de prontamente?!
— De qualquer maneira, pode anotar o número do seu protocolo de atendimento, por favor? É 54678487213357-R.

-o-o-o-o-o-o-

— Água Pura na Torneira Saneamento Básico, Atendimento ao Consumidor, bom dia!
— Oi, bom dia! Então, é que tem um buraco na minha rua e eu queria saber se vocês são os responsáveis por ele.
— Houve alguma manutenção relativa a água e esgoto na sua rua nas últimas semanas?
— Não que eu saiba. Veja bem, eu cheguei do trabalho e aquele buraco já estava lá, enorme!
— É um buraco só, senhor?
— E você já não acha o suficiente, minha filha?!
— Estava havendo algum tipo de vazamento na sua rua?
— Eu trabalho, sabe, passo o dia todo fora, como é que eu vou saber?!
— É, senhor, bem se vê que o senhor não sabe nada. Então, permita-me explicar-lhe: aconselhamos que o senhor se informe com os vizinhos primeiro e depois retorne a ligação, para que possamos tentar ajudá-lo.
— Mas é que eu nem conheço os meus vizi...
— Por favor, anote o número do proto...
— Ah, que protocolo, que nada! Tenho mais o que fazer! Só não te mando à m... porque você já trabalha nela!

-o-o-o-o-o-o-

— Atendimento ao cidadão, Prefeitura, bom dia!
— Bom dia uma pinóia! Eu sou o 1985721936-R-B e exijo que vocês consertem aquela porcaria de buraco que brotou na minha rua, porque eu pago imposto e tenho esse direito! Aliás, nem é questão de direito, é obrigação mesmo; vocês têm obrigação de consertar aquilo!
— Senhor, para que possamos fazer isso...
— Já sei, precisam saber quem é o desgraçado do dono do buraco e blablablá. Pois isso não é problema meu! Se mexam, bando de desocupados! Sabe quanto tempo eu perdi ao telefone procurando o que vocês deveriam saber e não sabem? Cambada de sem-vergonhas, desorganizados! Aí não é o raio da Prefeitura?
— Sim.
— E não é o-raio-que-o-parta da Prefeitura que toma conta dos buracos?
— Se for um buraco municipal, sim. Em estradas estaduais e federais, isso é responsabilidade do governo.
— Como se vocês não fossem governo! Então, se vocês cuidam dos buracos municipais, são responsáveis pelos buracos da cidade. Pronto! Taí! Achei o dono do buraco! Não era o que você queria? Arrá! A cidade! Então, como a palavra "cidadão" vem de "cidade", posso ser o porta-voz dela nessa reclamação.
— Bom, senhor, presumo, então, que o senhor já tenha a resolução para o seu caso.
— ?!
— Se o senhor é um cidadão, palavra que provém de "cidade" como o senhor bem colocou, e se o buraco é "da cidade", então, o senhor é o dono do buraco. Sinceramente! Não tem vergonha de ligar para um serviço sério como o nosso para fazer esse tipo de brincadeira cínica, não, hein?! Tenha a santa paciência!


04 abril 2007

Socorro, não. São Paulo.

Museu de Arte de São Paulo — Avenina Paulista


Parado, aí, irmão! Vai dando tudo! O que quiser a hora que quiser. Todo tipo de gente, todo tipo de comida, de banco, de igreja, de diversão. Tudo que é religião. Gente circulando o tempo inteiro, de janeiro a janeiro. Pressa, impaciência, toda sorte de indecência; barulho, entulho, moçada estranha negociando bagulho; buraco na rua, lixo na rua, menino de rua, outdoor de mulher nua (tá pra acabar: o outdoor, não a pobreza — que beleza!), e prostituta e travesti. Caramba! O que é que eu tô fazendo aqui?! Lugar que alaga, mar de gente, enchente! Fecha esse vidro, olha pro lado, entra à direita, tá tudo parado! Parado aí, irmão, vai dando tudo; não tenho emprego, mas tu tem canudo! Tudo sujo, impregnado. Toma cuidado! Tudo por aí, espalhado: indiferença, anonimato. Olha que eu te mato! Tudo chato, descolorido. Tu é bandido? Olha a lombada, camarada. Afe, furou o pneu! Vixe, quem foi que morreu? Tia, eu não tenho nada, sou favelada, compra minha bala? Bala de menta, de hortelã, ardida. Bala perdida. Respeite o pedestre, não pare na faixa, a Zona Azul bem que podia ser de graça... Mas parou em fila dupla, dá-lhe multa. Preciso de salário nessa terra de trabalho. Cê é otário?! Puta que o pariu, minha carteira sumiu! Roubo, polícia, briga de motorista. Não vem pra cima de mim! Tá achando que meu dinheiro é capim? Música alta, terno e gravata, muita tecnologia. Orgia. Centro de compra, motel, arranha-céu; chave de carro roubado é troféu. Multa, rodízio, radar. Com quem que eu tenho de reclamar? Urbe eclética, cheia de madame, não adianta mais arame. Farpado. Tudo agora tem alarme, câmera, monitoramento. É tudo movimento, moda, museu, exposição. Da figura. Malabarismo no farol, tô suando nesse sol! Formigueiro descendo na rodoviária. Um monte de horas pra alcançar a praia. Caminhão pra todo canto, poluição, desencanto. Moto à toda, ambulância, viatura. Se situa, criatura! Fica na sua, mané! Não tá vendo meu retrovisor, qual é?! Tempo é dinheiro, tudo é mercado financeiro, cidade mais rica do país, mas tua vida aqui tá sempre por um triz. Noite badalada, vida agitada. Cadê a calçada? Todo tipo de entretenimento. Vai passando o documento! Jogo do Curíntia e do Parmera, pastel de feira. Puta loja careira! Roupa de grife. Passa tudo, patife! Estresse, desconforto. Me acudam que eu tô ficando louco! Aeroportos, caos, avião. Pra nada dão explicação. Tudo é longe, a gente demora pra chegar. Claro, claro, eu dô uma passadinha lá. Sai da frente sua lerda! Por que é que eu ainda vivo nessa merda?! Dois suflé, um real. Faço quatro, cinco, mil. Deiz real, onde já se viu?! Drama cotidiano de todo santo paulistano. Metrô lotado, trânsito engarrafado; macetes, cacetes, surra, gastura. Saber onde anda, saber onde alaga, trabalhar feito camelo pra saber o que paga. Paciência. Violência. Cumpadi, tenha piedade, me dá uma moeda? Deixa eu lavar teu vidro? Precisa, não, amigo, fica pra próxima. Oportunidade.


14 outubro 2006

Obrigado e vote sempre!

A seção eleitoral n.º 109 onde trabalho como mesária funciona num colégio de ensino fundamental na rua onde moro. Fica em uma classe da 3.ª série, cujas paredes estão repletas de flores de papel meio tortas, feitas pelas crianças em comemoração à chegada da primavera.

Nas mesmas paredes, colaborando para a poluição visual, ainda há um mapa do Brasil, um do Estado de São Paulo e um relógio brega com um fundo protagonizado por uma famosa dupla sertaneja.

Apesar de ser uma classe de terceira série, sobre a lousa ainda está o alfabeto, em letras de mão e de forma, como se as crianças daquela sala ainda estivessem aprendendo a ler. Talvez estejam.

Pois a seção 109 não poderia funcionar num lugar mais apropriado. A maioria dos eleitores que lá votam ainda estão aprendendo a ler e não conhecem o Brasil estampado no mapa. “Meu marido mandou eu votar nesses números aqui, ó”, diz uma senhora, estendendo o papel para mim. Faltavam os deputados. Quando foi informada disso, virou-se para nós, mesários, e, numa irritante ingenuidade, soltou: “Ah, escreve uns números pra mim que eu voto. Todo ano eu voto errado, me atrapalho”.

Havíamos deixado escrito na lousa, em letras garrafais, a ordem em que deveriam ser digitados os votos na urna eletrônica. Pela quantidade de números para cada cargo, era possível sabermos em qual voto o eleitor estava. Mas perdemos a conta de quantos eleitores digitaram um monte de números seguidamente (talvez achassem por bem colocar o RG ou o CPF na máquina!) na crença de que deveriam apertar a tecla “confirma” uma única vez. Inúmeras foram as vezes em que repetimos as mesmas instruções... infinitamente quase em vão.

Os eleitores da 109 não lêem: o famoso analfabetismo funcional. “Senhor, descreva a tela em que está para a gente, por favor. Qual o cargo que o senhor está elegendo agora? Está escrito bem grande na tela.” “Ah, é deputado estadual.” “Então, senhor, são 5 números ou, se o senhor quiser votar na legenda, são 2, o número do partido.” Ele digita um monte. Quando termina e aperta o verde, ouvimos o som da conclusão da votação. Aquele eleitor, como muitos outros, estava votando para presidente e não sabia. Votou errado. Saiu dizendo “tudo bem, isso nem é problema meu”.

Chega uma esbaforida à porta da seção: “Quero votar no Maluf, me ajuda?”. “A senhora tem certeza?”, perguntei. “Tenho, sim, mas não sei o número dele. Qual o número dele, me fala...” “Não posso. A senhora precisa ir até o pátio para procurar na lista.” Ela foi. Voltou com o número anotado num papel, amassado junto a outros numa mão trêmula. Tinha cara de quem não tinha a menor idéia do que estava fazendo ali. “São 5 votos, senhora, e a senhora começa votando nos deputados, tá?” Fez cara de interrogação e exclamação juntas, ao mesmo tempo que jogou todos aqueles papéis em cima da minha mesa. Pacientemente, coloquei todos ao papéis na ordem em que ela deveria votar, expliquei tudo de novo na esperança de que ela não desperdiçasse os votos. Aparentemente, votou certo. Na saída da seção, rasgou todos os papéis e jogou no lixo, aliviada: “ai, ainda bem que isso acabou, credo, nem quero mais saber!”.

Chega outra, empolgada: “Eu só vim pra votar no Eli Correa! Ele é maravilhoso! Mas não aparece a foto dele aqui, por quê?”. Ela estava votando no Eli Correia para o cargo ao qual ele não era candidato.

Um rapaz bocejante aparece para votar. “Cadê os números das pessoas?”, pergunta. “Que números?”, respondo. “O dos candidatos. Eu não escolhi ninguém ainda...”

80% dos eleitores da 109 se confundiram quando viram a tela de Senador. “Tem isso, é?!” “Nossa, em quem eu voto aqui?”, “Moça, moça, aqui tá escrito se-na-dor. O que é isso?” “Senador?! Mas eu nem escolhi um número pra isso!”. Realmente, Jó deveria ter sido promovido a santo.

Um outro, mais impaciente, esmurrava o botão verde como se amassasse batatas. “Isso aqui tá quebrado! Não funciona!”. Eu, impassível: “Estava funcionando até o senhor chegar. Por favor, não quebre o patrimônio público e preste atenção no que está fazendo”. Minha paciência já tinha ido para o ralo àquela altura. Ele queria votar na legenda para senador em um partido que não tinha candidato a senador. Ia morrer ali, apertando o verde sem sucesso. E não conseguimos convencê-lo de que ele estava errado. Quando já estava cansado de tentar sair daquela tela, esbravejou: “qual o número daquele senador lá?”. “Qual, senhor?”, respondemos. “Aquele lá que rouba, vou votar no que rouba mesmo!” Admirados, perguntamos: “Seja mais específico, senhor. Qual deles?”. “O famoso, que rouba. Voto e acabou, se ele rouba, isso não é problema meu!”

Fui almoçar já esgotada mentalmente por ver tanto descaso. Cheguei em casa, não havia almoço e eu não tinha tempo de fazer. Peguei o carro e fui ao shopping perto de casa. Lotado. Filas e filas para almoçar. Servi-me correndo; a moça do restaurante, vendo minha identificação de mesária na blusa, me passou na frente do restante da fila. Não encontrei lugar para sentar. Um casal estava saindo da mesa que ocupava. Eu, já com a bandeja na mão, esperava que eles saíssem. Quando eu estava prestes a me sentar, um japonês que agregava tudo o que de mais abominável um cidadão pode ter, começou a gritar que aquela mesa era dele, que ele estava esperando há mais tempo, que estava com criança, será que eu não via isso?! A criança corria pela praça de alimentação. Sinceramente, eu nem sabia qual era o filho dele. Argumentei que já havia me servido, que minha comida estava esfriando, que ele nem havia decidido o que comer ainda e que estava querendo guardar mesa, que não estava ali quando eu cheguei e que, ainda por cima, eu estava em horário de almoço porque estava trabalhando de graça na eleição e precisava voltar para a 109. “Isso não é problema meu”, ele disse.

Deixei ele com a mesa. Os fracos precisam sentar. Eu podia comer de pé. Meu desejo era fazer igual às novelas, despejando meu copo de suco na cara daquele infeliz. Mas sou muito civilizada para isso. Uma amiga minha que eu não via havia anos chamou-me para sentar com ela. Foi minha salvação, porque a raiva já estava me fazendo perder o apetite.

Ao voltar para a 109, continuei constatando descasos. Mas, como em tudo, há exceções. Dona Conceição Hernandez, de 81 anos, vem votar lúcida, arrumada, unhas feitas e cabelo caprichosamente tingido. Deixou cair o comprovante de votação na saída, que está comigo, para que eu entregue a ela no 2.º turno. Eu sei que ela volta.

O Sr. Celso, que nas duas últimas eleições incluindo o referendo não veio votar porque, segundo o filho homônimo que também vota lá, estava desiludido com a política, apareceu à tarde, andando devagar. Demorou a conseguir votar usando todos aqueles números. Quando comentei: “Puxa, senhor Celso, desta vez o senhor apareceu, que bom!”, ele limitou-se a responder: “Vamos desempoleirar essa gente”. E foi embora.

A seção 109, com as paredes azuis salpicadas de flores de papel, recebeu três bêbados patéticos recendendo cachaça. Na eleição a prefeito, quando impedi que um deles votasse por causa da Lei Seca, voltaram escoltados por policiais, que me repreenderam dizendo “ser direito deles votar”. Dessa vez, só faltou colocar tapete vermelho para que eles achassem a urna. Cambaleantes, saíram de trás da urna várias vezes sem ter concluído a votação. “Psiuuuuuuu! Psiuuuuuuuuuuu! Vem aqui, ó”. Não fui. O cara ia votar errado de qualquer forma, não havia nada que eu pudesse fazer.

É triste presenciar um país assim: quem tem instrução não tem educação. Embora mais humano, quem não teve educação não tem instrução para se fazer cidadão e exercer sua democracia. E eu estava em apenas um pedacinho daquele mapa colocado na parede junto à dupla sertaneja sorridente no relógio.

A seção 109 não podia funcionar em lugar mais propício: seus eleitores, como os de muitas e muitas outras seções espalhadas pelo País, parecem viver num mundo de faz-de-conta cheio de flores tortas de papel, encantado e irreal, onde nada é problema deles.

É por isso que cada país tem o governo que merece.


28 agosto 2006

Axé, meu rei!

Para Pablo e Helen, que me mostraram a Bahia com o coração mineiro.


“Queria ter nascido baiana, nesta terra privilegiada e colorida, onde rir é mais natural que o coco que dá nas árvores”, eu pensava, enquanto visitava um dos pontos turísticos mais famosos de Salvador, onde Jesus vira Nosso Senhor do Bonfim, da boa morte, do bom final.

Marta queria ter voltado para Porto Alegre. Pensava nisso, sentada num dos bancos da Igreja, quando olhou para mim. “Você é gaúcha?”, ela perguntou, olhos brilhantes pela familiaridade com a brancura da minha pele num lugar onde isso não é tão comum. “Não, sou paulista.” “Pois faça três desejos nesta Igreja e depois reze ali, na Nossa Senhora da Boa Morte, que é pra ela te dá a graça de morrer sem sofrimento.” Rezei. Deveria ter rezado ainda mais, pedindo perdão por tudo o que foi feito com os escravos naquele pedaço de chão. Aquilo sim foi sofrimento... pude constatar depois por tudo o que visitei na primeira capital do Brasil.

O mesmo Nosso Senhor do Bonfim, para mostrar que a escravidão é relativa, colocou seu Odilson bem na minha frente, vendendo coco a um real. “Preciso reclamá com o fabricante desse carrinho, porque ele não gela o coco. Tenho que acordá mais cedo pra tirá os coco da geladera e pô aqui. Sabe, eu vô te dizê uma coisa: o povo aqui é pobre porque a televisão ilude muito, num sabe?”. (Pois eu não sei? Sempre achei que aquela escadaria do Bonfim fosse uma enormidade de grande e era aquilo?! Que decepção!) Seu Odilson falava escancarado ainda que sem a maior parte dos dentes na boca. Vestia roupa esfarrapada, mas estava coberto de razão. Ali, na frente da meia dúzia de degraus da Igreja do Bonfim, ele lavava era a alma, ao contrário de mim, que tomei banho de MPB na praia de Itapuã e na Baixa do Sapateiro.

Todo mundo ali sorri até quando reclama da vida. Eles se revestem de uma conformidade consoladora que espalha uma energia estranha no vento. A gente sente o aroma da vida, a fé derrubando tudo, porque lá as fronteiras entre as religiões não existem. Importa o que carregamos dentro da gente... “Vá com Deus”, eles dizem. “A senhora fique com ele”, respondi.

“Fitinha do Bonfim, presente da Bahia”, achegou-se um ambulante. “Não, obrigada... Ô moço, você sabe todos os orixás de cor?”, eu e minhas perguntas esquisitas! “São deiz. Te faço uma lista, qué?” Eu até queria, mas ele ia cobrar, aquela coisa da falta de emprego e da televisão que ilude todo mundo. (Confesso que não entendo de orixás e preciso de uma tabela de conversão para saber quem é quem, mais ou menos como aquela de equivalência entre os deuses gregos e romanos. Nomes diferentes para a mesma divindade; mais uma prova de que o substantivo próprio pouco importa.)

Eu estava com amigos: Leo, que viajou comigo, e Pablo e Helen, um casal mineiro que nos recebeu de coração aberto. “Queria ter nascido mineira, pra ser assim tão legal”, eu pensei num certo momento. Eles falam manso, mas numa mansidão diferente da baiana. Pablo já mistura os sotaques. Daqui a quinze dias, mudam-se para a Espanha, onde Helen vai fazer doutorado em Nutrição. Serão quatro anos longe do Brasil, de Minas, da Bahia...

“O importante é você conversá cum gente importante, purque assim você fica importante também”, disse seu Edvon, 71 anos, que nasceu com outro nome mas mesmo assim tornou-se artista. Deixou uma promissora carreira em Milão porque, ao contrário de Helen, tem medo de avião. Anda com seu portfólio debaixo do braço, fazendo graça para quem olha pra ele. Helen olhava a cidade lá de cima, talvez pensando na Espanha, talvez pensando na vida, no que vai deixar, no que vai ser... “Tá tão lonelí essa minina!”, seu Edvon tentou falar inglês. Lonely estamos nós em São Paulo, eu quase respondi. “E você, aí, tão grisonê, hein?”, virou-se pro Leo. Perspicaz daquele jeito, foi fácil notar nossa cara de interrogação. “Num estudô franceis, não, minina?”, perguntou pra mim. Eu bem que queria, até tentei, mas nunca cheguei nessa parte do grisonner.

Um homem de 71 anos tirando um sarro daqueles de nós quatro! Pudera! Tirou até foto com a Vanusa numa época aí de óculos enormes. Era bonitão o homem. “O senhor acha que a vida melhorou?”, arrisquei a pergunta. “Mais é claro! Antigamente as minina ficavam viúva e tinham que ficá com roupa preta pra sempre. Agora, não. Ninguém mais fala nada. Casa de novo e tá tudo certo!”. Esse ria com todos os dentes da boca, que o ajudavam a imitar madame falando ao telefone, mestre-de-cerimônias apresentando o prêmio que ele ganhou pelo melhor desenho. “Vô te contá um fenômeno: pois compre um cântaro na Grécia quando você for pra lá pra pudê chorá todas as lágrimas de arrependimento por não tê comprado uma gravura minha. Depois que eu morrê vou virar um Van Gogui, um Matisse...” e ria. Definitivamente, “cântaro” e “fenômeno” não são palavras que passeiam na boca do povo, pelo menos não na daqueles com poucos dentes nela.

Quando, já tendo chegado em São Paulo, encostei minha cabeça no travesseiro, rezei de novo, mesmo não estando mais no Bonfim. Agradeci tudo, o fim de semana, o fim do tipo mais cruel de escravidão, o relativo progresso da humanidade, o coco do seu Odilson, o talento do seu Edivon, a saudade da dona Marta, o Sol que substituiu a chuva, meus ombros vermelhos por causa da mudança de tempo, a boa vontade mineira em terra baiana, a amizade do Leo, meu trabalho que paga uma extravagância como uma viagem dessas...

Mas o mais importante de tudo eu deixei para quando a gente se emociona mais: agradeci veementemente meu privilégio em ter nascido... brasileira.



P.S.: "Axé" significa, segundo o Houaiss, "a força sagrada de cada orixá, que se revigora, no candomblé, com as oferendas dos fiéis e os sacrifícios rituais"; como interjeição é "saudação votiva de felicidade", "expressão equivalente a 'assim seja' ou 'tomara'", "expressão de concordância, aprovação; está bem".

Legenda da imagem: Vista da orla de Salvador da parte de cima do Elevador Lacerda.


15 agosto 2006

Cantoria mais besta, sô!


Dizem por aí que quem canta os males espanta. Mas aposto que muita gente canta sem sequer prestar atenção àquilo que está cantando: pronunciam as palavras assim, descompromissadamente, mais guiadas pela melodia que propriamente pelo significado da canção.

Pois eu, aquela que lia o mundo de um jeito pra lá de curioso, também lia o que eu cantava, ou o que cantavam para mim, com os mesmos olhos “isológicos” de sempre: arregalados de horror ou com cintilantes pontos de interrogação faiscando pra lá e pra cá.

Minha mãe, por exemplo, na melhor das intenções maternas, cantava uma música para a gente dormir. Segundo ela, uma música que minha avó cantava para ela. Mas eu, em vez de dormir, permanecia imóvel debaixo das cobertas, com um medo friorento que congelava meus movimentos e não me deixava sequer piscar.

A música dizia assim: “Ei vi Nossa Senhora / na beira do rio / lavando os paninhos / pro seu bento filho / Nossa Senhora lavava / São José estendia / e o menino chorava / do frio que fazia / Não chore, meu menino / não chore, meu amor / o frio é uma faca que corta / um talho sem dor”.

Pois era justamente esse talho sem dor e a tal da faca que corta que me deixavam horrorizada. Como eu ainda não era alfabetizada, pensava em imagens e, sendo a metáfora uma delas, pensava-a literalmente: imaginava um menino todo retalhado (“talho” < “retalho”) pela faca do frio... e eu é que ficava gelada.

A música do Cravo que briga com a Rosa era outra coisa pavorosa. Rosa mais burra, que, depois de apanhar do imbecil do Cravo, ainda vai visitá-lo por ele ter ficado doente! Inadmissível isso para mim. Eu via a cena na minha cabeça: os dois debaixo da sacada numa briga violenta. Um barraco nada divertido para uma criança, convenhamos. Música mais machista e, ainda por cima, de espancamento!

Aí vinham as cantigas de roda. Sabe-se lá de que tempo era isso, porque eram umas palavras muito estranhas para alguém que ainda estava aprendendo o som correto que elas têm. Duvido que alguma criança soubesse o que era “ladrilhar” na música: “Se essa rua / se essa rua / fosse minha / eu mandava / eu mandava / ladrilhar / com pedrinhas / com pedrinhas de brilhante / para o meu / para o meu amor passar”; ou o que era uma cutia que corria na casa da tia. Diga-se de passagem que essa música da cutia apressada era a coisa mais sem pé nem cabeça que eu já havia escutado na minha tão infantil vida. Um galo que chupa cana com um dente só?! Eles pensam o quê? Que criança é burra?! Para piorar, a bendita segunda pessoa... aqui em São Paulo, onde sempre vivi, essa coisa do te, ti, contigo, tu e afins não é usada. Então, pra mim, a música da Ciranda, Cirandinha continha umas palavronas: “tumitinhas”, “tumidestes” que eu nem fazia idéia do que eram. É, porque eu também achava que o “Abre-te, Sésamo” do filme era “Abre, Tesésamo”, assim, tudo grudado. Essa prática mania de juntar tudo eu também aplicava a uma música portuguesa que eu sempre ouvi: “Lá em cima está o tiro liro liro / lá embaixo está o tiro liro ló / juntaram-se os dois na esquina / tocaram concertina / dançaram sol e dó”. Pergunto-vos: como é que este ser que vos fala saberia, naquela idade, que concertina era um instrumento musical? Achava que era algo como “com certeza”. E o “sol e dó”, como era cantado “solidó”, só podia ser o nome da dança que aqueles loucos dançavam com certina.

Para terminar essa minha truculenta relação com as canções infantis, eu ficava arrasadíssima com a música do ribeirão que secou. Na parte do “as flores já não crescem mais / até o alecrim murchou / o sapo se mandou / o lambari morreu / porque o ribeirão secou”, eu com certina absoluta achava que o Lambari era uma pessoa que tinha morrido. Puxa, muito triste isso! Eu não chegava a chorar, mas me recusava terminantemente a cantar algo tão trágico. Mal sabia eu que a melodia da idade adulta traria imagens infinitamente mais trágicas do que as que minha mente criativa imaginava de maneira tão inocente. Porque, meus caros, quando a gente perde a inocência, passa a sofrer não mais apenas na imaginação.



Legenda da imagem: quadro de Almeida Júnior, chamado "O violeiro" (1899), fotografado na Pinacoteca do Estado, em São Paulo.

Curiosidade: segundo o Houaiss, "concertina: instrumento da família do acordeão, de forma hexagonal, dotado de dois teclados de botões com que se produzem acordes e melodias; gaita".

10 junho 2006

"Ouve o barulho do rio, meu filho"


Para o Bruno, que, além de ter uma alma acessível,
foi uma companhia entusiasmada neste episódio.


A música une as pessoas. “Todo corpo que tem um deserto tem um olho de água por perto.” É capaz de fazê-las, muitas e muitas delas, ficarem em silêncio ao mesmo tempo, apreciando as palavras, sentindo aquela harmonia de notas percorrendo a alma — porque a música, definitivamente, foi feita para deliciar a alma, que se inquieta com um ritmo agitado, fazendo o corpo dançar, ou fica introspectiva, provocando pensamentos filosóficos ou incitando a imaginação. “Vem andar e voa.”

O show da Marisa Monte foi assim. Muitas pessoas, de todos os cantos da cidade, ali, reunidas (“O mundo é portátil para quem não tem nada a esconder”), em silêncio, embasbacadas não só com a afinação estupidamente perfeita da intérprete, como pela intensidade da interpretação. Marisa Monte canta poesia sentindo e declamando por meio do ritmo os muitos significados de cada palavra. Transmite isso pela forma como canta e, entre uma música e outra, pelos comentários que faz. “Na varanda quem descansa vê o horizonte deitar no chão.” Mais poesia. “No caminho que ninguém caminha, alta noite já se ia, ninguém com os pés na água.” Filosofia. “Ó chuva preste atenção se o povo lá de cima vive na solidão.” Intensidade. “Seus olhos, meu clarão, me guiam dentro da escuridão.” Conquista.

E, como toca o que aparece — violão, cavaquinho, guitarra, gaita, contrabaixo, caixinha de música —, é natural que também toque o coração.

Mas o curioso mesmo é como, mediante uma obra de arte, nossa noção de tempo se deturpa. No meio daquele monte de poesias musicadas, com letras inteligentes, bem compostas, trabalhadas, o tempo voa. “Não se perca ao entrar no meu infinito particular.” O que é bom dura muito, nós é que usufruímos rápido, tamanha nossa sede, nossa vontade, nossa fome, nossa ansiedade, nosso envolvimento.

De nada adianta, no entanto, prestigiar um show desses, de voz e orquestra (violinos e violoncelo inclusos!), ou qualquer outra manifestação cultural mais complexa, se a gente não tiver uma alma talhada para isso. Há almas duras que não se abrem para a poesia, a arte ou a literatura porque ou não as entendem ou não as querem entender. São pessoas apáticas e resistentes a tudo o que possa deixá-las vulneráveis ao mundo (“do céu amor vai chover”), uma forma cômoda de resistir ao belo, numa tentativa insana de não sentir, não interagir, não ver o outro e, assim, ilusoriamente, não sofrer.

Então, essas pessoas não vivem. Ficam desse jeito, trancadinhas, cinzas, sem graça, indiferentes. Não há anestesia pior. E é aí que começam a nascer a alienação e a preferência por aquilo que é superficial e óbvio. (Interpretar dá trabalho.) É nesse solo que se fincam o mau humor, a falta de educação e o egoísmo. (Respeitar dá mais trabalho ainda.) E parece que comportamentos assim viram epidemia, contagiando tudo. (Importar-se, então, é um sacrifício.)

Exemplo disso já se vê quando a apresentação acaba. Depois de tanta boa música, de um contato mais direto com o sublime — talento, criatividade, afinação —, a maioria da platéia só pensa em sair, de preferência primeiro que o restante, feito boiada quando a porteira se abre (“a boiada seca, na trovoada seca”). Ninguém dá passagem a ninguém, ninguém pede licença, sorri, deixa transparecer a leveza da alma necessária à fruição de tudo o que havia sido apresentado. A alma dessas pessoas pesa. “Nós que passamos apressados pelas ruas da cidade merecemos ler as letras e as palavras de Gentileza.”

Por isso há quem não entenda arte, durma toda vez que ouve música clássica, quem ache poesia idiota porque só enxerga a rima (e, quando não tem rima, se sente enganado!), que olha para um quadro e só vê tinta, que ouve as palavras tal e qual constam no dicionário, que não entendem as sutilezas do humor bem feito. Pessoas assim limitam o acesso à própria alma como forma de autopreservação.

Mas se não nos abrimos para o mundo, arriscando sermos intensos, não nos encantamos, não aproveitamos tudo o que ele tem a nos oferecer, não treinamos nossos olhos e sentidos para usufruir as várias manifestações de arte.

Além da lembrança do belíssimo espetáculo de Marisa Monte, também ficou um aprendizado: o que mais distingue as pessoas atualmente é, sem dúvida, o quanto se permitem serem atingidas bem ali, direto na alma.