22 dezembro 2006

Desejo — verbo ou substantivo, como queira

Museu da Língua Portuguesa, São Paulo.


Essa é a época de querer tudo: as crianças querem os brinquedos mais legais e, não raro, os mais caros; os doentes querem saúde; os vestibulandos, uma faculdade; os que estão longe uns dos outros, uma ponte; os solitários, um amor; os endividados, dinheiro; os descrentes, fé; os platônicos, correspondência; as empresas, resultados; os políticos, aumento; os famintos, comida; os cientistas, descobertas; a seca, chuva; o infindável, fim.

E a gente acaba querendo tanto que não olha para o que já tem. É quando pede mais e mais e mais, num alimentado inconformismo que fica sussurrando a toda hora “você merece”.

Mas merecer não é ter. Falo isso com toda a convicção do planeta, porque sei que mereço muita coisa que ainda não tive. Mereço, por exemplo, um cara muito legal, que não suma, não minta, não me use, não me traia, que me enxergue sem precisar me olhar (ops, existe um assim?); mereço um carro melhor que me leve ao trabalho sem me fazer passar calor; mereço mais visitas dos amigos, um seguro mais barato, menos imposto; mereço mais tempo de férias, mais álbuns de fotografias guardando momentos bons; mereço um ar mais puro, mais contato com a natureza, mais sinceridade. E, no entanto, não tenho nada disso.

Por outro lado, tenho tanta coisa! Tenho criatividade, uma mala expansível com rodinhas, habilidades artísticas e literárias, família, comprometimento com a verdade, autenticidade, uma tevê e um aparelho de DVD, mil papéis coloridos, originalidade, olhos bonitos, palavras soltas que sempre escorregam no céu da boca sem que eu perceba, amigos maravilhosos, integridade, um sofá vermelho, bom gosto, um ventilador de teto, sapatos, personalidade, eras e eras convertidas em livros, auto-estima, um iPod, solidariedade, devoção, um abajur, um trabalho que me realiza, viagens na memória, amor próprio, um pingüim de pelúcia, voz boa para cantar, filmes prediletos, um carro sem ar-condicionado que me leva pra onde eu quero, inspiração, senso de ridículo e idéias na janela...

Tenho, também, pés no chão e cabeça feita. Fitas de vídeo, slides da infância, lembranças registradas, gosto de baunilha em lábios que sempre dizem pensamentos verdadeiramente pensados. Eu tenho coragem e tenho medo; inteligência e ignorância; perspicácia e lentidão. Tenho uma série de antônimos que me fazem meu sinônimo.

Abrigo uma imensidão dentro de mim, que vira e mexe é sufocada por um turbilhão de desejos, porque o muito que eu tenho sempre parece pouco, e o querer mais, ao mesmo tempo que me impulsiona a ser melhor e a aprender, a realizar e a trabalhar para isso, me melancoliza.

Então, nessa época, eu sempre me pergunto a mesma redundância: será que estou querendo certo?



P.S.: A todos os meus leitores, conhecidos ou desconhecidos, identificados ou anônimos, meu desejo a vocês vai além de um Feliz Natal; desejo que vocês desejem, pois é o querer que nos impulsiona a progredir e a buscar o que nos falta, ainda que seja ilusão, ainda que seja sonho. O caminho dessa busca é que sempre nos ensina o que precisamos aprender. Obrigada por passarem por aqui. Boas Festas!


7 comentários:

Ricardo disse...

Kandoca, de tudo o que vc tem, o melhor mesmo é a mala com rodinhas. rsrs
Mais uma vez vc nos presenteia, e em data tão propícia, com um texto impecável, não só pela correção gramaical, que isso é o de menos. Impecável pelo sentido que têm as suas palavras.

Bjs e Felizes Natais!!!

Inagaki disse...

Não tenho do que reclamar de 2006. Ok, faltou um amor. Mas tenho a convicção de que as coisas acontecem quando devem acontecer. A você, desejo que você queira certo. E busque os pássaros voando. Um beijabraço!

marmota disse...

Tudo que eu quero realmente é que 2006 acabe logo (eu sei, devia providenciar um ano novo mais interessante e feliz hoje mesmo, sem esperar o dia 31). Mas a data e a festinha em casa vão me ajudar. Quanto a ter e merecer, vou adaptar uma frase simpática, de uma mocinha muito bacana que tive o privilegio de encontrar recentemente: continue cuidando do seu jardim, porque as borboletas certamente aparecerao. Feliz Natal! :)

Bruno Peres disse...

kandy, eu fico cada dia mais orgulhoso de ter uma amiga como você.
Espero um dia poder escrever pelo menos 10% do que você escreve.
Parabéns !!!

E quanto ao seu desejo de querer mais visitas dos amigos, eu tb o tenho... espero que 2007 a gente se veja mais vezes.

Ps : foto do museu da lingua portuguesa... a gente vai essa semana, né ? pretendo gastar um filme inteiro lá.

Feliz Natal minha amiga multi-cultural !!!

Jana disse...

Querida, Kandy: só faltou dizer q vc eh leonina, rs!
Bom, espero q seu 2007 seja td de bom! Vc merece
bjs,
Jana
PS Teremos um post de reveillon, né?:)

Leo disse...

Kandy,

Adorei o texto.

Em meio à todas as contradições que existem dentro de todos nós, você encontra a sua unidade. Eu sinto tranquilidade em você.

Eu queria encontrar a minha, mas ainda vivo intranquilo.

Beijo,

Leo

lau siqueira disse...

Gostei de conhecer seu blog. suas palavras parecer arrancadas das vísceras e do coração.
bj