Mostrando postagens com marcador observação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador observação. Mostrar todas as postagens

20 julho 2014

Have you ever seen the rain?

Na casa ao lado, uma festa. Música boa desta vez, daquelas que sopram vontade de dançar com o vento. Algumas risadas. Taças tilintando. Fotos. O prazer. Ainda que momentâneo. I wanna know, have you ever seen the rain? Coming down on a sunny day? Em momentos assim, não há dúvidas umedecendo a alma nem mágoas que precisem ser afogadas.

Outro vizinho franze a testa à janela, quando se aproxima dela para averiguar a origem da alegria. Yesterday, and days before, sun is cold and rain is hard, I know, been that way for all my time. Mais do que o barulho, ela incomoda, sobretudo se manifestada por outrem da mesma espécie.

Era uma festa de casamento simples -- a festa, porque casamento nunca é simples. Nem no começo, nem no meio, nem no fim. E sempre tem fim, ainda que tenha sido infinito. When it’s over, so they say, it will rain a sunny day, I know, shining down like water.

O vestido daquela noiva farfalhava, acompanhando seu coração. O noivo cantava alto junto aos amigos and forever, on it goes, through the circle, fast and slow, I know, it can’t stop, I wonder, externando empolgação. Aqueles olhos tinham brilho. Ou podia ser o luar.

A vizinhança penetra, amargando a solidão dos sábados à noite, trovoava descompasso. O eco que a música fazia naquela rua tão oca retinha-lhe o sonho. Trancada em si mesma, só ouvia o incômodo, que desaguava em uma chuva de impropérios: ah, vá, tem graça celebrar uma união! Se eu fosse eles, morava junto antes. Eles se conheceram pela internet, não vai dar certo. Por enquanto é só na alegria, quero ver é na tristeza. Ô precipitação. Someone told me long ago there’s a calm before the storm, I know, it’s been coming for some time.

Tudo porque naquela casa era a felicidade que chovia. O importante, ali, naquela noite, era o amor que dançava.

Psiquê reanimada pelo beijo do Amor, escultura de Antonio Canova/Museu do Louvre.


28 abril 2013

Toda céu


Foi numa noite de junho, do outro lado do mundo, que vi o céu estrelado mais estrelado do mundo. O que me surpreendeu foi a desintenção de olhar para cima.

Num quarto de hotel, com camas duplas que agigantam qualquer solidão, levantei-me para tirar da tomada próxima à janela algo que piscava e atrapalhava o tudo em que eu pensava no meio daquele nada. Sem querer, esbarrei na cortina, que, permissiva, deixou entrar o luar. Um luar de presença tão marcante que me fez olhar para cima, bocejando deslumbramento.

Naquele silêncio estrangeiro, um milhão de estrelas reluziam na escuridão de um céu azul-marinho, uniforme, limpo e perfeito, côncavo acima de mim. Abri a janela. Na impossibilidade de recolher todas aquelas luzes, ou de pelo menos resvalar em algumas delas, usei as mãos para apoiar a cabeça, debruçando-me no parapeito.

Era o início do verão em um lugar sem grilos ou qualquer ruído natural que distraísse os sentidos da beleza refletida em meus olhos ainda sonolentos.

O céu mais estrelado do mundo me inundou de gratidão. Aquilo era um privilégio do qual eu sempre me lembraria. Nada mais incomodava: nem sombra de solidão, nem ansiedade pelo tudo que ainda viria, nem interrogações ou insônia. Eu era céu. E me senti abraçada em todos os pontos cardeais, protegida pela abóboda salpicada de boas lembranças, de pessoas queridas que agora lá moram, pessoas amadas que ficaram do outro lado do mundo e não podiam experimentar assistir a tantas e infinitas estrelas brigando por espaço naquele breu.

Pensei no breu que mora na gente. Nas estrelas que piscam quando praticamos boas ações. No breu que alguns olhos adotam para disfarçar amargura. Nas estrelas que brilham mais quando pessoas se apaixonam. No breu que domina os corações egoístas. Nas estrelas que embalam esperanças para presente.

Não sei quanto tempo permaneci ali, olhando sem parar, já fora de mim, vasculhando cada canto daquele cenário redondo e inédito. Tinha receio de nunca mais presenciar tamanho presente, de me perder novamente no tudo que aquele lugar quase deserto teimava em não acolher.

E me lembrei da minha palavra favorita: stupore, do italiano. Um estupor aquilo. A noite do céu estrelado mais estrelado do mundo não podia ser registrada de outra forma que não na memória, por vezes tão incompetente ou incompleta: ou não absorve a totalidade do momento, ou perde as imagens, deixando apenas resquícios das sensações que elas causaram. Prometi me esforçar para não deixar nada esvanecer feito neblina, porque aquele bálsamo é para toda uma vida. Para lembrar da minha pequenez e insignificância em um Universo indescritível. Que tristeza nenhuma permanece quando existe a possibilidade de um céu assim. Que toda alegria merece ser imensa, para alcançar um céu assim. Que tudo é efêmero, porque sempre amanhece. Esse é o segredo das noites: digerir os dias.

Foi naquela noite que me dei conta de que até nossas intenções mais nobres não são nada perto de tanta grandeza, ali, de graça, esperando ser descoberta. Eu sorria e chorava, desejando escancaradamente poder compartilhar aquela experiência com todos que amo. E disponibilizá-la aos que ainda não amo por não conhecê-los. Quem dera todo o mundo olhasse para cima àquela hora e visse o que eu via.

Na manhã seguinte eu voaria de balão no céu da Capadócia, outro deslumbre da minha vida. E qual não foi minha surpresa – outra – quando, ao amanhecer, o céu, limpo de novo, não ostentava nuvem nenhuma. Era outro céu, só azul, claro, cor de céu de desenho infantil, como se as estrelas tivessem ido para algum outro lugar e o céu tivesse voltado ao princípio, para amadurecer mais tarde.

Esse estrelado todo só se repetiu três dias depois, em Pamukkale, um nada mais nada que o nada de antes. Agora, em vez da surpresa da inauguração celeste, o céu estrelado mais estrelado do mundo surgiu no susto. Eu estava no jardim do hotel, pensando sem noção de tempo, quando apagaram todas as luzes, inclusive as da piscina, que chamava para si todas as atenções. E, com um sorriso maroto nos lábios, olhei para cima, cumprimentando o que eu sabia estar ali.

Tudo ali, disponível. Nada importava mais. O nada, o tudo, o céu.



Diário de viagem, Turquia, 21 de junho de 2012.

09 abril 2012

Sempre em frente


Páscoa, dia em que se fala muito em renascimento, ressurreição, transformação. Mas será mesmo que temos o poder de renascer, sobretudo quando vivenciamos uma tristeza profunda, uma perda, uma decepção irreparável? Será que, se quisermos, de verdade, com uma vontade genuína bem lá do fundo, conseguimos transformar a realidade interior ou exterior?

Pergunto, porque às vezes tudo parece imutável demais o tal do destino. A gente olha para um lado, olha para o outro, e parece enxergar sempre a mesma coisa, por mais ângulos diferentes que procuremos. A verdade parece estar lá, de um jeito irritantemente implacável, como se fizesse questão de esfregar na nossa cara justamente e com uma ironia maquiavélica o que fazemos questão de não ver. A gente desvia o olhar, vira o rosto para lá, mas não adianta. Ela ecoa bem alto e fica martelando, martelando, martelando, até a gente ouvir. E como as palavras machucam quando ouvidas assim, dentro dessa teimosia.

Viver intensamente tem dessas. Às vezes a gente quebra mesmo a cara. E bonito. O problema é que isso deixa cicatrizes que reluzem no espelho toda vez que a gente se enfrenta. E aí, se bobear, acabamos nos escondendo de nós mesmos, para evitar o confronto, a dor, as lembranças, para não forçar o corpo a sentir tudo de novo, porque memória não fica só no cérebro. Ela invade cada terminação nervosa e devasta todo cantinho da gente, sem dó.

Se foi um erro, melhor, aprendamos com ele. Mas e se fizemos tudo certo e a vida é que nos deu a bofetada que ainda arde? Devemos insistir, respeitando nossa natureza humana, ou desistir, aceitando o que não pode mudar? Devemos ter fé, depositando esperanças em algo impalpável e desconhecido, ou lidar com o real, com o prontoeacabou?

Essa enxurrada de emoções confusas deve acometer o ser humano desde os primórdios. Muita gente já morreu desse mal. Ainda hoje ainda morre. Tem muito fulano que se mata por não ter coragem de olhar para dentro de si ou de lutar contra uma frustração. Foge dela. Porém, há os que renascem. Para os primeiros, sobram os obituários. Aos outros, um caminho novinho em folha, clamando por ser experimentado.

E lá vamos nós. Vai doer, a gente sabe. Se não for assim, não é humano. A coragem de conviver com o dolorido não é algo divino. O destino é que deve ser, vai saber.

O que sabemos é que, fosse a causa da morte qual fosse, os sábios gregos não escreviam obituários. A respeito de quem morria, apenas se perguntavam: “viveu com paixão?”.

Eis a chave da ressurreição.

Atibaia, SP

13 março 2011

Desilusão

Desilusão,
Desilusão,
Danço eu, dança você,
Na dança da solidão.

(Dança da solidão – Paulinho da Viola)


Hoje passei a tarde com meus afilhados, uma garota esperta de 4 anos e um garotinho engraçado de 2 anos e meio. Eles acham que eu ensino coisas a eles, como desenhar uma joaninha perfeita ou subir no escorregador pelo lado errado. Mas, especialmente hoje, eles me ensinaram muita coisa.

As crianças lidam com a verdade de um jeito muito transparente, o que torna tudo muito fácil. Não se constrangem, apenas falam. E o jeito como falam, o olhar que destinam ao interlocutor são suficientes para decifrar uma intenção genuína de simplesmente dizer o que se passa na cabeça e no coração, sem o objetivo de ofender, enganar, omitir, dissimular. Nelas, é tudo sincero. Por que nascemos certos e, ao crescermos, vamos ficando todos errados? Por que desaprendemos a dizer a verdade? De onde vem o medo de magoar, de ofender, quando a intenção nunca foi essa? É na vida adulta que a gente aprende a ter intenções erradas e passa a distorcer tudo.

A certa altura da tarde, brincamos de esconde-esconde. Eu ainda era pequena na última vez em que me escondi debaixo de uma pia ou me agachei atrás de uma porta. Hoje foi divertido lembrar como é ser criança e revelador observar que, mesmo estando grande, bem à vista dos menores, o olhar deles é carregado de ingenuidade. Eles procuram o óbvio porque não desconfiam de que a vida pode ser diferente do que se mostra. É preto no branco, a verdade, a transparência. Não tem mistério. Eles colocam a cabecinha para dentro de um cômodo e, se não encontram lá o que procuram nessa olhadela, passam para o seguinte. Não têm a malícia de olhar atrás da porta, dentro do armário, debaixo da pia, atrás da cortina. Não sentem a necessidade de desvelar porque não sabem se esconder. Nós, adultos, é que os ensinamos a “serem mais espertos”.

Pena que, ao crescerem, vão descobrir que os adultos também brincam de esconde-esconde. Alguns são tão bons nisso que conseguem esconder-se de si mesmos tão bem a ponto de não se encontrarem mais. E, como na brincadeira infantil, levam consigo aqueles que os procuram. Mas a graça acaba: ninguém quer continuar brincando de encontrar o que não quer ser encontrado. Uma hora, desiste.


À medida que crescemos e vamos perdendo essa saudável maneira de enxergar o mundo, somos levados a nos comportar como todo o resto se comporta, talvez como forma de nos protegermos do que os próprios adultos criaram: tornamo-nos hipócritas em nome de uma sociedade contaminada, que revida com desilusão ou isolamento quando confrontada com o íntegro; deixamos de combater o egoísmo, como fazíamos quando pequenos – “divida com seu irmão”; “agora é a vez do coleguinha brincar com este brinquedo”; calamos mais e falamos menos, dando mais chance a mal-entendidos, mentiras, julgamentos. Esquecemos a verdade porque já não sabemos mais como lidar com ela. E vamos sobrevivendo.

Por outro lado, se tentarmos resgatar os valores da infância, seremos constantemente massacrados. Se dissermos o que sentimos, perdemos o amor (porque ele se assusta), o emprego (porque chefes e colegas de trabalho se sentem ameaçados com tanta sinceridade), a família (que, por mais que se esforce, não entende os sentimentos), o lugar no mundo. Sinceridade demais ofende.

O problema de tornar-se adulto com consciência dos valores íntegros da infância é que isso gera um sofrimento – e um inconformismo – sem tamanho. Esperamos que a vida seja justa como nas histórias infantis, que o bem sempre vença, que os maus sejam punidos, que recebamos recompensa ou sejamos valorizados por termos nos comportado como o esperado, que encontremos o amor e sejamos correspondidos. É tudo uma bobagem, que deve estar em letras miúdas nos livros, em uma daquelas páginas que ninguém lê, porque a gente só descobre crescendo.

Trabalhamos honestamente e temos as casas destruídas pela água de chuvas incessantes ou de ondas anormais. Agimos corretamente no trânsito e presenciamos um milhão de infrações impunes. Pagamos as contas em dia e temos a conta bancária carcomida por impostos avassaladores. Somos eficientes, éticos e corretos no emprego e vemos o colega incompetente, preguiçoso e dissimulado ser promovido, enquanto permanecemos no mesmo lugar (com um pouco de perspicácia, acabamos descobrindo que, na vida corporativa, as promoções estão majoritariamente ligadas a troca de favores, rabo preso, saia curta ou decote profundo). Somos dedicados à pessoa amada e, não raro, desprezados, trocados, traídos, enganados, abandonados ou preteridos – há quem prefira a solidão à nossa companhia.

Não somos preparados na infância para tantos baques, a não ser que entremos no jogo e prefiramos sempre nos esconder a ter a iniciativa de procurar. É mais fácil ficar imóvel, vendo os outros passarem.

Entretanto, ainda hoje, olhando para os meus afilhados buscando cantinhos em branco, para tentar o novo, em folhas já desenhadas por outras crianças, tive a clara dimensão do que é recomeçar, encontrar novo espaço, uma abertura, um motivo para fazer o inédito. As crianças, mesmo sem querer, lidam bem com o passado, que, para elas, é sempre recente. Desenham por cima se preciso for.

Elas olham para a frente, esperando o melhor, ainda que com ingenuidade. Por isso são mais felizes.



Legenda da imagem: Fachada da igreja da Sagrada Família, de Gaudí. Barcelona.

16 janeiro 2011

Prato do dia

Um belo dia você se senta para fazer uma refeição e, quando a termina, percebe que sua vida mudou. Você experimentou algum alimento inédito ao seu paladar, ou recebeu uma ligação reveladora no celular, não tendo resistido à tentação de atendê-la mastigando. Ou, ainda, ao saborear um gosto preferido, teve um estalo acompanhado de uma ideia milionária. Pode ter se lembrado de um desejo de anteontem de mandar flores para uma senhora doente (o que amanhã será retribuído com uma receita divina de bolinhos de chuva) ou decidido mudar de profissão.

A vida pode mudar durante uma refeição aparentemente insignificante, feita num dia normal, com o tempo parcialmente nublado sujeito a pancadas de chuva, mas com um solzinho no final da tarde. Pode mudar logo após você ter escolhido uma salada ou preferido evitar a sobremesa -- ou a indigestão.

Apesar de saber disso, lá no fundinho da consciência a gente pensa que a vida só muda por causa da loteria, de formatura, de um acidente gravíssimo, de uma gravidez descuidada, um tapa na cara, desemprego, morte. Só configura mudança o que é grande, para caber em caminhão ou não caber mais na gente.

Mas o minúsculo muda tanto quanto o gigante. Aqui, ali, hoje, daqui a pouco, de novo, amanhã. A soma do microscópico pode ser uma mudança e tanto. Uma palavrinha mal colocada muda um diálogo. Um instantinho atrasado esfria o prato. Um beijinho inócuo, o namoro. Um buraquinho na blusa muda os planos. Um descontinho, a conta bancária. Um tiquinho de miopia requer novos óculos. Uma moto caída na avenida, novos caminhos. Um megapixel altera toda uma resolução. Uma notinha fora do lugar desafina uma canção. Um centimetrozinho altera o número da calça. Um pouquinho mais de sal estraga a refeição.

É no pequeno que o grande muda: a recorrência de pequenas gentilezas pode reconfigurar toda uma cultura, e a repetição de pequenos deslizes pode destruir toda uma relação.

É no mínimo que tudo muda todos os dias. A gente é que não percebe, porque mastigamos demais, remoendo a falta de gosto, ou engolimos de qualquer jeito, sem saborear a pressa.

Até que, um belo dia, ao sentar-se para fazer uma refeição, a gente tem algum tipo de estalo: sai da catatonia por causa de um amargo na boca ou fica vermelho devido a um sabor apimentado demais, e, finalmente, se permite mudar o cardápio.

O lombo de bacalhau a Santo Ofício, da cervejaria Trindade de Lisboa, mudou meu paladar e virou uma das minhas melhores memórias gastronômicas. Só a descrição do cardápio já dá água na boca: "lombo de bacalhau assado na brasa deitado sobre uma grossa fatia de pão cozido feito pelos nossos irmãos alentejanos, acompanha-o uma comitiva de batatinha miúda cozida com casca e grelos de nossa horta salteados com azeite virgem e alho".

18 setembro 2009

Diga o que tem a dizer

O olhar inquisidor de Netuno, esculpido por Bartolomeo Ammanatti - Florença - Itália


“It’s better to say too much
Than never to say what you need to say again
even if your hands are shaking
and your faith is broken
even if the eyes are closing
do it with a heart wide open
Say what you need to say”


Um dos mestres da fotografia do século passado, o francês Henri Cartier-Bresson, ficou mundialmente famoso também por seu conceito de “momento decisivo”. Para ele, uma boa foto tem o momento certo de ser tirada. Mais que isso é outra imagem. Menos que isso, outra outra. As sucessões, os milésimos de segundo, tudo encerra uma unidade e uma originalidade tamanhas que só a memória é capaz de fotografar se o momento decisivo for perdido. Mas, com o tempo, ironicamente, também ela se perde.

Quantos momentos decisivos são negligenciados pela certeza ignorante de que amanhã existe, de que o hoje se repete, de que haverá outra oportunidade... Um depois cômodo que vai embaçando o cotidiano e deixando tudo entediantemente igual, na sombra do que poderia ter sido.

Os olhos deixaram de enxergar os momentos decisivos por causa de corações anestesiados demais por estarem há muito tempo espremidos em caixas de fósforos. As palavras deixaram de ser pronunciadas nos momentos decisivos por causa de medos terríveis demais por estarem constantemente assombrados por incertezas, desaprovações imaginárias, receios injustificados, besteiras do tipo.

Estamos perdendo os momentos decisivos de dizermos o que temos de dizer, de tornar explícito o que sentimos, de não nos importarmos com o rubor das bochechas, com o tremer das mãos, com a palpitação do peito, a efervescência dos nervos, o pavor do óbvio.

Sem perceber, acorrentamo-nos a listas de desejos que só se realizarão em um futuro que nunca chega. Acostumamo-nos a nos contentar apenas com o que pode vir a ser, de tão frustrados que estamos com nossa própria incapacidade de recriação. Escolhemos a covardia, onde estacionamos nossas vontades.

Temos de ressuscitar os momentos decisivos de Cartier-Bresson, importando-nos com o agora antes de virar depois e de tornar-se o próximo. Hoje, temos de dizer o que é preciso dizer, agir costurando a integridade, a ética e a atitude para vestir sinceridade todos os dias, porque ela combina inclusive com guarda-chuva.

É verdade que nem todo mundo está preparado para ouvir o que temos a dizer, ver explicitamente o que só por dentro sentimos, entender nossas diáfanas motivações, nossas ondas, flutuações, como nos dissolvemos em nós mesmos.

Porém, se todos começarmos a reinventar os momentos decisivos, tornando marcantes os comuns, importantes os banais, significativos os tediosos, além de fotografias muito mais bonitas resgataremos o presente, o amor, o respeito, a paz. Resgataremos nós mesmos.



Para celebrar o ano da França no Brasil, o SESC Pinheiros, em São Paulo, realiza a mostra Henri Cartier Bresson: o fotógrafo, de 17/09 a 20/12/2009, com entrada franca. Organizada por Eder Chiodetto, a mostra é composta por 133 fotografias pertencentes ao acervo da Agência Magnum, fundada por Cartier-Bresson em 1947, da qual fez parte o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado. Em 45 anos de carreira, Cartier-Bresson criou um estilo único e tornou-se pai do fotojornalismo contemporâneo.

07 maio 2009

É fato

A intuição falava mais forte: não vá, fique quieto. Mas a quietude havia muito andava em outros ares. Aquele passageiro nunca gostara de andar de avião.

Os aeroportos sempre o incomodaram, porque, para ele, imprimem nas pessoas uma pressa que não lhes pertence. Querem ir logo, chegar logo, voltar logo. A transitoriedade nos saguões é incômoda.

Incômodo também era um barulho surdo que nada dizia, apenas cutucava aquele passageiro. Não tinha jeito. Decidiu voar assim mesmo.

No check-in, perguntaram-lhe qual a preferência de assento. “Tanto faz”, respondeu. Já não ligava mais para esse tipo de coisa. A aleatoriedade talvez trouxesse um pouco mais de emoção.

O voo atrasou. Incrível como o sempre insiste em acontecer. 9F era a poltrona. Janela. Talvez um sinal para a necessidade de aprimorar a observação.

Ia começar a meditar sobre o acaso, o horizonte, a chuva que caía, quando sentiu o barulho surdo cutucar mais uma vez, agora mais real, bem atrás de sua poltrona: uma garota mal-educada, que deveria se chamar Chata, não Aline -- ele descobrira o nome da criatura por causa da mãe dela, cujo vocabulário limitava-se ao nome da filha e mais meia dúzia de críticas à idade da aeronave. Soltava frases ameaçadoramente patéticas, abafadas pela falta de autoridade que se refugiava no abraçar do travesseiro velho trazido de casa.

O passageiro resolveu tampar os ouvidos com música, quem sabe assim abafaria a ansiedade. Quis ocupar também os olhos. Pegou a revista da companhia aérea e, mais uma vez apostando no aleatório, abriu-a ao acaso. “Divina Celeste”, anunciava a reportagem. Falava sobre uma professora de ioga. É, era mesmo preciso paciência de monge naquela situação.

Voo lotado, chutes mais incisivos na poltrona, a Chata chatíssima tagarelando com a mãe, que agora acariciava a fronha brega do travesseiro, que combinava com seu cabelo.

Foi então que o sempre deu lugar ao inesperado. “Finalmente”, ele pensou. Um pouco de novidade para distrair os nervos. O comandante anunciou pelo alto-falante que o atraso – desculpe-nos o transtorno – devia-se a um problema técnico com o rádio de comunicação interna. Deveras criativo aquele comandante, é fato.

O passageiro interpretou isso como outro sinal: estavam forçando-o a pensar mais seriamente em considerar a intuição, isso sim era fato.

O pensador, escultura de Rodin - Museu Rodin - Paris

Decidiu anotar toda aquela imprevisão em seu caderninho de bolso. Ao abri-lo, também a esmo, encontrou uma nota de 50. O acaso era mesmo emocionante. Resolveu, então, dar mais uma chance ao inesperado e continuar ali, para ver no que ia dar.

Até que os cinquenta minutos de pensamentos forçados foram bruscamente interrompidos por outra informação: “senhores passageiros, infelizmente, o problema é um pouco mais sério e teremos de trocar de aeronave”.

O passageiro foi tomado pela quietude de seu levantar de sobrancelhas. Fique quieto, a perplexidade sussurrava. Pouco durou. O barulho surdo que nada dizia vagarosamente foi voltando, até ficar mais forte, e, dessa vez, não era mais a menina chata da mãe com o travesseiro.

O que mais o impressionara nem fora o transtorno de trocar de aeronave, mas aquela revelação: “o problema é um pouco mais sério”.

Sempre é.

17 julho 2008

Até que a morte nos separe

Detalhe do chão da Praça da Língua, no Museu da Língua Portuguesa, SP


Todos os dias eles saem para andar. É bonito ver o amor que ele tem por ela, pegando-a pela mão e acompanhando-a na caminhada. É triste ver a falta de amor que ela tem por si mesma, deixando-se levar sem vontade, colocando um pé à frente do outro em passos de obrigação.

Não é só o tênis dela que não combina com a disposição dele; o ritmo de um destoa do do outro: ele quer ir, ela daria tudo para ficar; ele vê esperança, ela quer voltar para a cama; ele levanta os braços buscando exercício, ela boceja enfado; ele bendiz o novo dia; ela amaldiçoa o médico que deu aquela ordem besta, porque ele não precisa e quer, ela não quer e precisa.

Não dá para saber qual a doença que ela tem, o que ela pensa, por que a falta de ânimo. Não dá para saber o quanto ele quer que ela se cure, o que ele sente, a origem da persistência em levá-la adiante. Dá para ver de onde vem a paciência dele e a condescendência dela, e imaginar que ele a carregaria no colo se isso não a prejudicasse e que ela morreria por ele, se isso não o entristecesse.

Tem dias em que o sol atrapalha; ela não usa óculos escuros. Tem dias em que o frio incomoda, ele tem de emprestar-lhe a jaqueta. Tem dias em que o vento despenteia, quando ele carinhosamente ajeita uma mecha atrás da orelha dela. E tem dias em que chove, e ele a guarda sob o guarda-chuva que carrega.

Ora andam de um lado da rua, ora andam do outro. Vezes há em que não voltam, mudam o trajeto. Outras, não chegam à metade; a teimosia dela os faz voltar para o começo. Ele sempre bem-disposto; ela já debilitada.

Raramente conversam, pois a ela parece penoso andar e falar; ele prefere não ser inconveniente proferindo otimismos que ela não enxerga. É a claridade da manhã... ou a falta dos tais óculos escuros.

Ela anda lentamente olhando para baixo, acompanhando a palidez da pele. Ele olha para frente, sorrindo moreno e puxando-a delicadamente.

As mãos continuam dadas. E é isso o que importa para eles.

22 junho 2008

Fome


O corpo esticado sobre a cama forrada de lençóis lisos, as mãos enlaçadas atrás da nuca, evidenciando os bíceps, mostravam que era todo curvas, em temperatura ideal para o tato.

Permanecia com as pálpebras ligeiramente cerradas, feito milharal em época de colheita, embora não deixasse os pensamentos serem ceifados por observação alheia. Escondia ali um par de castanhas.

Sorria com o canto dos lábios finos, numa educação contida demais para um momento sem ponteiros. Ofereceu um pouco de chá branco, tal qual o lençol. Tinha gosto de maçã. Um pouco verde, talvez. Irrelevante. A embriaguez era mesmo de vinho.

Apesar da miopia, proferia palavras nítidas, que emendava num português quase perfeito envolto num timbre de pêssego. O humor era doce; o toque, sussurrado como quem acaricia uma onda sem molhar as mãos; o desejo, exalado por poros contemplativos, fincados na degustação do agora.

E não importavam os olhos que o admirassem, fossem anis, de quiuí ou de chocolate. E não importava o perfume, se de amêndoa, adocicado ou cítrico. Quer fosse um aperitivo, uma entrada, uma sobremesa ou um banquete, pedia era para ser devorado. Só assim sentir-se-ia satisfeito.

Nascera para a tentação, porque abria qualquer apetite.

23 maio 2008

O tempo todo

Para ouvir enquanto lê o texto:


Silent Lucidity - Queensrÿche

Era um barulho fora, mas um silêncio dentro. O entra-e-sai do metrô e o tagarelar tipográfico das pessoas espalhando os acontecimentos do dia ensurdeceram-me quando li uma das mensagens que passavam naquelas televisõezinhas que agora há em alguns vagões: “Conserve seu planeta. Ainda dá tempo”.

Ficou um eco no meu pensamento, reverberando idéias que começaram a passar pela mente mais rápido que as estações da linha vermelha. Ainda dá tempo. É isso que pensa alguém quando corre apressado para pegar um ônibus ou aqueles que decidem ser pais depois dos 40. Isso é o que move quem resolve aprender a ler depois de anos de analfabetismo, quem vai para o aeroporto mesmo sem passagem marcada, quem desce as escadas rolantes ainda que tenha ouvido o aviso sonoro de portas fechando. Porque sempre é tempo de abri-las.

Ainda dá tempo de esquecer a falta de reciprocidade de uma paixão; a última chuva que encharcou os nervos, deixando úmido muito mais que a barra das calças; a palavra ríspida de quem nunca foi apresentado à gentileza ou redondos nãos que carimbaram tentativas. Simplesmente porque ainda dá tempo de tentar, de aprender outro idioma, de conhecer outro país ou pegar uma condução simples que leve àquela esquina à qual a gente nunca foi por falta de curiosidade ou... de tempo. Ainda dá tempo de fazer falta a alguém, de demorar-se na cozinha preparando alguma coisa com farinha, de tirar das caixas o que está guardado por motivos que já emboloraram com o passar... do tempo.

Dá tempo de mudar de casa, de idéia, de vida, de planos, de curso, de abordagem, de conversa, de padaria, de lado. Dá tempo de dizer que ama, que sente muito, que errou, que se desculpa, que vai pensar, que sente falta, que tem vergonha, que vai mudar.

E tudo isso porque, apesar do barulho do lado de fora, a sensação acontece lá dentro, bem no escuro de profundezas que nem todos sabem onde ficam, lugar em que tudo é silêncio. Uns chamam isso de esperança. Eu, de lucidez.

02 novembro 2007

Eu não sou fiel

Não vou pedir desculpas, porque não me envergonho do que fiz. Eu traí. Deixei a lealdade em casa e saí, com o maior sorriso na cara, esperando o inusitado, o gostinho de novidade. Foi mesmo uma aventura, que é que tem?

Ninguém descobriria, porque fiz tudo bem-feito. Mas achei melhor falar. Não, não, isso não é drama de consciência, culpa, nada disso. Eu repetiria a dose outras vezes, porque foi muito bom. Uma adrenalina boa de sentir e prazer antes, durante e depois. Só se eu fosse louca para me arrepender.

Há quem diga que é falta de personalidade, fraqueza, mania de querer abraçar o mundo, literalmente. Não sou dessas. Acreditem: foi a primeira vez, um ato deliberado, friamente planejado, com dia e hora marcados. Sou decidida. Foi depois do trabalho, na última quarta-feira de outubro.

Eu torci para dar certo. Gritei muito, embora tenha tido umas crises de identidade esporádicas. "Então, é assim que um traidor se sente?" Difícil explicar a dualidade. Meus sentimentos eram sólidos em relação às minhas convicções de sempre, mas aquele desvio era excitante demais. Eu continuava amando o que ia no meu coração, mas estava gostando muito do que se passava diante dos meus olhos, do que meus ouvidos ouviam, do meu batimento cardíaco acelerado esperando o ápice. E foram três. Sou mesmo uma mulher de sorte.

Fui covardemente seduzida. Meu ponto fraco: a razão. Foram argumentos irrefutáveis e uma oportunidade e tanto de entender mais o ser humano. Como ele se comporta numa situação dessas? O que sente? O que o leva a se sujeitar a isso? A sensação é tão boa assim? É.

Podem falar o que for. Traí bonito, com fogos de artifício e tudo. E o pior: sabia que estava sendo filmada. Eu sou assim: dou a cara a tapa. Assumo o que faço e não ligo para o que os outros pensam. Julguem-me como quiserem. E vou além: todo mundo deveria, pelo menos uma vez na vida, ter uma experiência dessas.

A traição aconteceu num estádio. Nunca havia pisado em um. Foi no jogo do São Paulo contra o América do Rio Grande do Norte. Foi no meio da torcida, na arquibancada mesmo. Muitíssimo bem acompanhada. Tudo se deu ali, no meio daquela energia contagiante, das emoções à flor da pele, do anônimo uniformizado, entre bandeiras e palavrões. Foi tórrido e inesquecível.


Uma corintiana desde a infância, que deveria estar ao lado do time num momento de desespero, quando ele está com um pé na segunda divisão, ali, prestigiando o pentacampeão, um dos arquiinimigos. Vestindo a camisa. Cantando o hino. Fazendo ola. Gritando olés. Ovacionando o Rogério Ceni. Batendo palmas. Boquiaberta com a visão tão panorâmica. Entusiasmada por, finalmente, entender a paixão nacional.

Tenho o Corinthians no coração, meu relacionamento estável. E, agora, uma queda inexplicável pelo São Paulo, de quem me tornei amante.

Uma traidora, eu.

Tudo porque me dei conta de que, definitivamente, eu não sou Fiel.



Dedico este texto

Aos são-paulinos do meu coração: Keyla, Alexandre Tadeu, Fernanda e Milton.


E aos corintianos a quem peço perdão: Noé, Priscila, Jana, Rodrigo e Mauricio.



20 setembro 2007

Logo ali, onde você vai estar

O meu querido amigo André convidou-me a escrever um post sobre viagens para colocar no blog dele enquanto ele viaja pela Europa.

O texto, escrito especialmente para o Marmota, está logo ali para você ler e, se quiser, comentar, lá ou aqui.

Boa viagem!

27 agosto 2007

Da cegueira de cada um


"Só num mundo de cegos, as coisas serão o que realmente são"
Ensaio sobre a cegueira, José Saramago


Uma das minhas cenas favoritas do cinema está em um de meus filmes preferidos: O fabuloso destino de Amelie Poulain.

A personagem principal, vivida pela adorável Audrey Tautou, é diferente de tudo. Enxerga as pessoas mais ou menos como a Blimunda, de O memorial do convento: extrai-lhes a alma, inserindo-a num mundo de possibilidades. Assim, acaba brincando com a vida das personagens do filme, mostrando-lhes outros pontos de vista.

Nesse intuito, de fazer as pessoas verem o que não podem ou não conseguem, Amelie pega um senhor cego pelo braço e percorre uma rua inteira, descrevendo a ele tudo o que a deficiência o impede de ver, desde os melões dispostos em uma banca, até o estado de espírito das pessoas que passam. Mesmo atordoado com tanta informação, a alma dele sorri de um jeito agradecido, porque tudo o que ele podia ver na rua em que sempre passava eram apenas cheiros, vozes e sensações.

Então, quando me dá saudade de ser humano, desses capazes de enxergar além da aparência, eu revejo essa cena e sempre me pergunto o quanto aquele senhor cego é mais feliz do que todos aqueles que Amelie descreve a ele.

"Como um cego pode ser feliz?", você deve estar se perguntando... A cegueira é, por um lado, uma limitação física, decerto. Mas, por outro, é um portal que permite ir além do que todo mundo vê. Só os cegos alcançam o que os olhos não vêem, só eles entendem a essência das coisas sem se deslumbrar pela imagem, pela cor, só eles valorizam os cheiros, as vozes e as sensações de uma maneira delicada e profunda, numa dimensão que, apesar de escura, traz muito esclarecimento.

Ver o que as pessoas carregam dentro de si, enxergar o sentimento delas sem precisar interpretar-lhes as feições, aguça os sentidos de uma forma invejável. É ver sem precisar de olhos. É debruçar-se no outro pelo que ele é, não pelo que veste, pelo penteado que tem, a cor do olho, o sorriso perfeito, a cor das bochechas, o furinho no queixo ou os lábios rosados.

E, ironicamente, tanta gente com olhos sãos sofre de cegueira, tantos míopes que, mesmo de óculos, não enxergam um palmo à frente do nariz, tantos olhos de todas as cores perdem tempo olhando para o nada em vez de fecharem-se e olharem para dentro de si, onde estão as respostas que procuram, tanto óbvio salta aos olhos e ninguém vê... Uma ilusão de óptica, sem dúvida.

Então, por tudo isso, sempre que vejo a minha cena preferida do filme, não penso na bondade da Amelie em fazer o que, para ela, era provocar uma mudança de perspectiva, porque, se analisarmos bem, o senhor cego do filme não precisava que Amelie lhe descrevesse o que ele não enxergava. Ela quis ser gentil, numa atitude proveniente da visão ingênua de que ele estava perdendo o melhor de toda a rua movimentada num dia de sol. Mas ele foi mais gentil ainda em não lhe recusar a gentileza, porque decerto enxergava muito mais do que ela. E, ao contrário de quem vê, ele não quis ser rude.



Aqui em São Paulo, a Fundação Dorina Nowill aceita voluntários que tenham quatro horas contínuas semanais disponíveis. Uma das funções mais legais é ser um ledor: levar literatura para quem só consegue ler em braile. Você pode ajudar gravando livros falados ou executando outras tarefas, colocando à disposição dos deficientes visuais um talento ou habilidade que você tenha. Fazer qualquer tipo de serviço voluntário é deixar de ser cego.

11 agosto 2007

Pelos seus belos olhos



O casal está jantando numa noite normal. Pouco tempo de namoro, mas um silêncio que compete com a eternidade. Olhavam-se de vez em quando, mas os olhares não combinavam. As intenções eram diferentes, eles não percebiam.

De repente, palavras dela:

Você não vai falar nada? — artifício feminino para demonstrar iniciativa.
Falar o quê? — instinto masculino defensivo.
Ah, qualquer coisa. Você tá muito calado, eu tô achando esquisito demais...
É que eu tô pensando...
Em quê? — curiosidade feminina inoportuna.
Então, justamente, eu não sei... — ingenuidade masculina que o universo feminino é incapaz de ler.
Como assim? — curiosidade feminina insistentemente inoportuna.
É, eu não sei... Eu não sei em que pensar, o que querer, o que fazer... — ingenuidade masculina não-cognitiva para o cérebro feminino.
Em relação a que exatamente? — inconveniência verbalizada.
Bem... er... a tudo.

Ela pára de mastigar e olha para ele de um jeito incrédulo. Engole o pedaço de pizza para balbuciar:

Tudo? Inclusive nós? — necessidade feminina de confirmação de uma mensagem previamente compreendida.
É por isso que eu estava quieto. Você é que puxou o assunto... — justificativa masculina objetivamente insuficiente.
Lógico! Silêncio não combina com pizza nem com namoro! — indignação invadindo a razão.
Eu não sei o que eu quero... Se quero continuar no emprego que eu tenho ou tentar algo diferente, se quero viajar pelo mundo ou fincar raiz em algum lugar, se quero pintar meu quarto de azul ou deixar como está, se quero continuar namorando ou ficar sozinho, eu não sei, eu não sei! Isso está me consumindo! — sinceridade masculina com grandes chances de ser mal interpretada pela percepção feminina.

Ela desiste de comer. Aquilo era de tirar o apetite.

Sinceramente, eu nunca vi alguém não saber o que quer! Todo mundo sempre quer algo. Pode ser o mais aparentemente impossível, sei lá, escalar o Everest, visitar a Lua, transar com a Madonna, acordar com uma moto nova na garagem, enfim, qualquer coisa, porque o mundo está consumista demais... É natural querer tudo! Nunca vi ninguém querer nada! — razão totalmente tomada pela indignação.
Tá vendo agora: eu. Não é por mal, sabe, eu tô sendo bem franco com você... Eu acho que essa coisa de não saber o que eu quero é da minha natureza... — justificativa masculina objetiva e irritantemente insuficiente.
Por quê? Você nasceu assim, por acaso? — ironia feminina cruel que quer dizer "tente outra explicação, por favor".
Não, não... Eu quis dizer que eu fui ficando assim ao longo do tempo... Eu acho... — justificativa masculina indecifrável para o universo feminino.
Ai, graças aos céus ainda tem salvação! Olha aí! Você disse "eu quis dizer". Tá vendo? No fundo, no fundo você quer alguma coisa... — sutileza feminina indecifrável para o universo masculino.
Hã? Eu não sei o que você tá tentando dizer com isso, mas eu tô aqui com um problema aparentemente sem solução... — tentativa masculina de trazer o universo feminino para a realidade.
Vamos tentar racionalizar essa situação. Você disse que não sabe se quer continuar namorando ou se quer ficar sozinho. Isso a gente precisa decidir, porque, não querendo pressionar, sabe, mas me diz respeito... — mania feminina de pôr os pingos nos is quando tudo é hiato.
Claro, é verdade — mania masculina de ser sucinto ao demonstrar sentimento.

Ele descansa o garfo no prato e olha para ela. Ela respira fundo e diz:

Você gosta de mim? — resquício da Inquisição.
Gosto. Você é legal, a gente se dá bem, eu admiro seu jeito, te acho bonita, rola química e...
Pode ir parando por aí... — resquício da ditadura.
Ué, por quê? — lentidão masculina em acompanhar a complexidade do universo feminino.
Porque, quando a gente quer alguma coisa, o olhar brilha. Eu vi agorinha nos seus olhos. Você falando assim de mim e seu olhar opaco de dar dó! — ingenuidade feminina em tentar explicar o que não é cognitivo para o cérebro masculino.
É impressão sua, não é nada pessoal, é um momento de indecisão meu, entende, não tem nada a ver com olhar... — justificativa masculina óbvia para o universo masculino mas ainda insuficiente para o feminino.
Ah, tem sim, senhor! Vai por mim: olhar opaco acaba com tudo, você nem precisa abrir a boca. Eu notei, o pior é que eu notei! Você não está mais a fim de mim, está? — leve indício de democracia pelo benefício da dúvida.
Eu tô! Quer dizer, não sei se eu tô. Não, não, eu tô sim! — sinceridade masculina entendida como cinismo pelo universo feminino.
Olha aí! Aconteceu de novo! Quando você disse "eu tô", seu olhar não brilhou! Nem uma faisquinha, nada! — típica atitude feminina de interpretar as profundezas que o universo masculino não alcança.
Pára de drama! Todo esse auê porque eu não sei o que eu quero?! Daqui a pouco isso passa... — tentativa masculina de trazer o universo feminino novamente para a superfície.
Não! Os olhares conversam, sabia? E mulher saca tudo pelo olhar. Ela só não entende se não quiser. — tentativa feminina de explicar as profundezas ao universo masculino.

Ela se levanta, pega a bolsa, dá um beijo no rosto dele com uma compreensão de fim-de-mundo, um gosto assim, de pizza com nunca mais, e diz, de um jeito característico feminino de deixar tudo enervantemente subentendido:

Não saber o que quer é o de menos, qualquer mulher compreende. O problema é não olhar brilhante... — jeito feminino teimoso de dizer "venha atrás de mim assim que eu sair e me olhe com vontade".

Ela vai embora. Ele fica olhando para o prato — jeito masculino de tentar entender o que não faz sentido e deixar as oportunidades passarem.

O casal estava jantando numa noite normal. Pouco tempo de namoro, mas um silêncio que competia com a eternidade. Os olhares não combinaram. As intenções foram diferentes. E ninguém percebeu.



A imagem que ilustra este post é um papel de parede que você encontra aqui.


15 julho 2007

Absurdo

Eu deveria ser fútil e um tantinho burra, daquelas que falam besteiras sem perceber, para quem referência é tão-somente uma carta elogiosa assinada por um ex-patrão qualquer, em cima do qual já deram — ou para quem já deram, tanto faz.

E deveria ser menos dedicada às pessoas. Falta-me um tiquinho de egoísmo. E roupas mais ousadas, decotes mais profundos para evidenciar seios siliconados que eu não pretendo ter. Eu deveria me enquadrar, sabe? Aquela coisa de padrão: uma etiqueta imaginária de ÓBVIO bem legível pregada na testa. Trabalho nenhum para entender.

Não poderia mais sacar piadas de primeira ou ser espirituosa, porque contexto teria de ser apenas sinônimo de legenda curta, do contrário eu não conseguiria ler, pera lá! Deveria me contentar com qualquer tá e monossílabos do gênero em vez de buscar explicações, deixando todas as incógnitas restritas aos livros de Matemática. Nada de pensamentos complexos.

Ser mais consumista e pensar só em moda, sapatos e batons. Ser menos bem-sucedida, talvez com um pé no limite do cheque especial, carregando dívidas homéricas provenientes de juros acumulados em trezentos cartões de crédito abarrotados de gastos dispensáveis que, elementar, algum idiota se achando indispensável pagaria para mim com sorriso nos lábios e sussurros de "gostosa".

Eu não deveria ter cursado (e aproveitado) uma boa faculdade nem aprendido outra língua. Errei feio. E deveria parar de usar um vocabulário erudito conjugando verbos certo. Anômalos deveriam ser meus neurônios a ponto de assassinar o português com doses generosas de ignorância pura no agora sim e no daqui a pouco também.

O ideal seria me despir sem pudores e com mais freqüência para qualquer homem que balbuciasse clichês camuflados em sorrisos interesseiros. Junto com a roupa, eu também teria de deixar meu senso crítico. Essa coisa de questionar, analisar, ter opinião própria... chatices assim não estão com nada. Isso, falar mais gírias permeadas de uns palavrões também me faria bem.

É, eu deveria mesmo passar mais tempo em salóes de beleza, em cima de um salto quinze de ponta bem fina, que me faria andar feito uma galinha limitada que não pode afastar as patas mais que dez centímetros para não perder o equilíbrio. Mascar chiclete de boca aberta e usar bolsa minúscula de marca carérrima permeada de cristais Swarovski dentro da qual só coubesse um rímel, tudo de que preciso.

Deveria abolir de meus comportamentos conhecimentos políticos e noções de cidadania, para quem ecologia seria apenas a ciência que estuda o eco, o que, sem dúvida, provocaria umas risadinhas masculinas certamente acompanhadas de desejo.

Seria proibido saber que país fica onde, quantos continentes tem o mundo, o que é Meridiano de Greenwich e qualquer verso do Hino Nacional. Cantá-lo inteiro, então, nem pensar! Muito menos saber o significado de "plácidas", "retumbante", "penhor" e afins... caso para internação. De preferência em um spa.

E essa coisa de se virar nas emergências também deveria acabar. A solução seria ter na agenda do celular cor-de-rosa com adesivo de menina superpoderosa uma lista de telefones masculinos com quem já tivesse transado, para quem ligar com voz de desamparada e entonação infantil pedindo uma ajuda inocente no meio da rua do outro lado da cidade.

Eu teria de aprender a fazer cara de interrogação quando fosse a algum lugar cultural, perguntando mais durante as sessões de cinema o que está acontecendo no filme. Interpretá-los está definitivamente fora de cogitação.

Seria necessário doar meus livros para, no lugar, colocar vários CDs de axé e pagode, revistas femininas com conselhos picantes sobre posições sexuais ou testes de múltipla escolha cientificamente comprovados para avaliar minha auto-estima, se sei cuidar dos meus namorados, se uso o perfume certo ou se sou capaz de segurar um cara na cama.

Eu deveria ter nascido de-vez-em-quando no lugar de ter nascido constância, mulher para ficar em vez de mulher para amar. Tinha de saber tratar os homens como objetos em vez de cogitar considerar o que sentem. Nunca pedir por favor por educação, mas só quando fosse preciso fazer manha. Ser uma daquelas namoradas bem grudentinhas, que ligam quinhentas e cinqüenta vezes por dia sem assunto, só para trocar respiração, e que andam rebolando e sabem empinar a bunda como ninguém.

Teria de parar de ler manual de apetrechos eletrônicos para, com a mesma voz desamparada e infantil das situações de emergência, pedir para o namorado da vez — que, diga-se de passagem, eu teria de aprender a chifrar — se sentisse poderoso e inteligente ao decifrar os três botões de power, menu e reset.

Deveria falar hormônios e comer com os olhos, jogando meus longos cabelos para lá e para cá feito comercial de xampu em vez de tentar evidenciar sentimentos sinceros e questionar minha solidão todo santo dia. Jogar mais e transparecer menos, exceto nas blusas, porque o vulgar nunca foi tão valorizado, nós sabemos.

Quem sabe assim eu não constatasse que beiro mesmo o absurdo.





04 junho 2007

Passagem

A mulher baixinha que passava foi atropelada por um carro que também passava. E foi assim que tudo se passou:

O motoqueiro que voava pelo local só teve tempo de levantar a viseira, porque a velocidade limitava seu campo visual.

O homem gripado assoou o nariz, preocupado com a ocorrência: era sua aflição que escorria.

Os passageiros do ônibus parado amontoaram seus olhares interrogativos na mesma janela.

O menino que empinava despreocupação numa pipa deixou-a misturar-se ao céu e arregalou o azul que tinha dentro dele, querendo entender descontrole.

O guarda apitava numa tentativa surda de conter a curiosidade e abrir passagem para o socorro, tão aflito quanto o homem gripado.

A senhora da casa em frente fechou a janela com uma incompreensão abrupta, girando seu trinco todo estrangeiro.

O homem que saía da padaria trazendo pãozinho quente perdeu toda a fome ao abrir a boca, horrorizado.

A moça que passeava com dois cachorros ficou louca de raiva, tamanha sua indignação com o acontecimento.

O ciclista colorido perdeu a cor de tanto susto.

Os moradores do edifício vizinho à janela estrangeira salpicaram nas sacadas derramando uma cascata de perguntas.

O trânsito parou para olhar. O resgate parou para socorrer. A mulher baixinha parou de respirar.

O carro havia passado em cima dela. Ela passou desta para melhor.




23 abril 2007

De quando eu vejo a morte de perto

Cemitério da Consolação, SP


A gente se dá conta de que cresceu quando começa a freqüentar velórios e não apenas festas de aniversário. É nessa hora em que se instala dentro da gente o começo de toda a indagação a respeito da morte.

Não sei se, com a idade, as outras pessoas se acostumam com eventos tristes desse tipo, se passam a achar que a vida é assim mesmo — vive-se, morre-se e acabou-se. Eu não me acostumo.

Enquanto puderam, meus pais sempre pouparam a mim e meus irmãos desse contato mais próximo com a morte. Minha mãe ia aos velórios e meu pai ia aos enterros. Eles se revezavam para que sempre um deles ficasse cuidando de nós.

Um dia, porém, morreu alguém que acabou com o revezamento. Era o pai de uma aluna da minha mãe, pessoa muito chegada à família, e parece que meu pai não podia faltar ao serviço no dia seguinte, de modo que teria de ir ao velório junto com a minha mãe e, conseqüentemente, levar-nos com eles.

Enquanto minha mãe me penteava, dizia: "Kandy, não fique impressionada, porque eu sei que você se impressiona com as coisas. Não fique olhando porque não há o que olhar, entendeu?". Interessante como as pessoas interpretam a morte. Para a minha mãe, talvez, ela fosse sem forma, porque não havia o que olhar. Mas, se não havia o que olhar, para que velório?

As mães sabem os filhos que têm. Eu, sempre morrendo de curiosidade, não acatei o conselho e olhei aquele senhor num caixão, com aquele monte de gente chorando em volta. Senti o cheiro de crisântemo misturado ao de velas acesas sabe-se lá há quanto tempo. O que mais me incomodou, porém, foi a indiferença do morto, aquele jeito impessoal. Ele não estava nem aí — ou lá — para todo aquele escândalo.

Isso me causou uma sensação terrível. Aquelas pessoas todas tristes e chorosas, sentindo tanto aquele muito que todo mundo diz que sente quando alguém morre, e o morto estático, inexpressivo e alheio àquele tudo. Nesse momento eu entendi minha mãe: o morto era um nada que não tinha o que ser olhado. E isso era mesmo pesado de traduzir pelo muito que o morto tinha sido. Hoje sei que é daí que provém a palavra pêsame (de "pesa-me", de "pesar", do latim "penso, as", que significa "pensar, examinar, ponderar, considerar, meditar"). É, eu estava indo pelo caminho certo.

O segundo velório de que me lembro foi o da minha avó materna (de minha avó paterna infelizmente eu só conheci o túmulo, quando estive em Portugal). Nesse, a tristeza era proporcional à pessoalidade que tínhamos em vida. Eu tinha treze anos. Foi a primeira vez que ouvi de alguém "meus sentimentos" e, sempre racional em relação ao significado das palavras, estreei-me aí na arte de refletir sobre o que aquilo poderia querer dizer. Até hoje acho incompleto, lacunesco, tão vago quanto a morte. Que sentimentos são esses? A pessoa está tão triste quanto a gente? Mas ela não sou eu para saber! Está tão saudosa quanto a saudade que aperta miúdo o meu coração num momento assim? Mas o coração dela não é o meu!

Àquela altura, eu só entendia o vazio daquelas palavras, e era aí que fazia todo o sentido: um vazio que eu identificava com o vazio daquilo tudo, tão sem sentido, coisa besta, confusão, conflito. Eu achava razão no que, além de não ter o que olhar, não era pensável.

Dois anos depois foi a vez do meu avô materno, mas nem por isso foi menos triste. Ao contrário: tenho pra mim que, quanto mais a gente freqüenta velórios e presencia perdas, nossas ou dos outros, um pouco mais fundo a morte entra na gente, mostrando que existe, que é implacável, nada, nada simpática e, o pior, que sempre volta. A freqüência das visitas é proporcional à idade que acumulamos, isso é fato.

Prestar minhas condolências às pessoas que perderam entes queridos passou a ser, deste modo, um exercício de reflexão sobre essa visitante atrevida e insegura, que tem a péssima mania de se impor a qualquer custo. Fui percebendo que ela levava a alma das pessoas, como nos é explicado nas histórias, não porque as pessoas diziam que era assim, mas porque eu notava o vazio, sempre o vazio. Era na inexpressividade do morto que a morte começava a fazer sentido para mim.

Tudo porque a palavra alma vem de "ânima", que, novamente em latim, significa "sopro". É a essência que temos dentro da gente, o que infla nosso corpo e nos dá movimento e sentimento. É daí que, curiosamente, surgiu a palavra "ânimo". É preciso alma para resolver os problemas, alma para combater a tristeza, alma para levantar da cama. Sem alma, a gente não vive.

E, então, meus olhos curiosos notaram como o morto fica diferente no caixão. Não pelas flores ou pelo inconveniente algodão que nele é colocado, mas pela falta de ânimo: a expressão muda de um jeito que a pessoa parece até outra, completo desconhecido, tão estranho quanto a morte que o fez assim.

Portanto, tão triste quanto a saudade que a pessoa deixa, quanto as circunstâncias da perda, é a falta de ânimo, sopro que a morte inspira, arrebatando a essência que levamos a vida toda para lapidar. O sopro que resta nos que sobrevivem a isso pode ficar mortiço por um tempo, mas vai inflando novamente à medida que o ânimo volta a preencher cada vazio que dentro de nós fica. E é ela, a alma, que sabiamente transforma esse vazio em saudade, palavra que só existe em português, para o nosso consolo.


04 abril 2007

Socorro, não. São Paulo.

Museu de Arte de São Paulo — Avenina Paulista


Parado, aí, irmão! Vai dando tudo! O que quiser a hora que quiser. Todo tipo de gente, todo tipo de comida, de banco, de igreja, de diversão. Tudo que é religião. Gente circulando o tempo inteiro, de janeiro a janeiro. Pressa, impaciência, toda sorte de indecência; barulho, entulho, moçada estranha negociando bagulho; buraco na rua, lixo na rua, menino de rua, outdoor de mulher nua (tá pra acabar: o outdoor, não a pobreza — que beleza!), e prostituta e travesti. Caramba! O que é que eu tô fazendo aqui?! Lugar que alaga, mar de gente, enchente! Fecha esse vidro, olha pro lado, entra à direita, tá tudo parado! Parado aí, irmão, vai dando tudo; não tenho emprego, mas tu tem canudo! Tudo sujo, impregnado. Toma cuidado! Tudo por aí, espalhado: indiferença, anonimato. Olha que eu te mato! Tudo chato, descolorido. Tu é bandido? Olha a lombada, camarada. Afe, furou o pneu! Vixe, quem foi que morreu? Tia, eu não tenho nada, sou favelada, compra minha bala? Bala de menta, de hortelã, ardida. Bala perdida. Respeite o pedestre, não pare na faixa, a Zona Azul bem que podia ser de graça... Mas parou em fila dupla, dá-lhe multa. Preciso de salário nessa terra de trabalho. Cê é otário?! Puta que o pariu, minha carteira sumiu! Roubo, polícia, briga de motorista. Não vem pra cima de mim! Tá achando que meu dinheiro é capim? Música alta, terno e gravata, muita tecnologia. Orgia. Centro de compra, motel, arranha-céu; chave de carro roubado é troféu. Multa, rodízio, radar. Com quem que eu tenho de reclamar? Urbe eclética, cheia de madame, não adianta mais arame. Farpado. Tudo agora tem alarme, câmera, monitoramento. É tudo movimento, moda, museu, exposição. Da figura. Malabarismo no farol, tô suando nesse sol! Formigueiro descendo na rodoviária. Um monte de horas pra alcançar a praia. Caminhão pra todo canto, poluição, desencanto. Moto à toda, ambulância, viatura. Se situa, criatura! Fica na sua, mané! Não tá vendo meu retrovisor, qual é?! Tempo é dinheiro, tudo é mercado financeiro, cidade mais rica do país, mas tua vida aqui tá sempre por um triz. Noite badalada, vida agitada. Cadê a calçada? Todo tipo de entretenimento. Vai passando o documento! Jogo do Curíntia e do Parmera, pastel de feira. Puta loja careira! Roupa de grife. Passa tudo, patife! Estresse, desconforto. Me acudam que eu tô ficando louco! Aeroportos, caos, avião. Pra nada dão explicação. Tudo é longe, a gente demora pra chegar. Claro, claro, eu dô uma passadinha lá. Sai da frente sua lerda! Por que é que eu ainda vivo nessa merda?! Dois suflé, um real. Faço quatro, cinco, mil. Deiz real, onde já se viu?! Drama cotidiano de todo santo paulistano. Metrô lotado, trânsito engarrafado; macetes, cacetes, surra, gastura. Saber onde anda, saber onde alaga, trabalhar feito camelo pra saber o que paga. Paciência. Violência. Cumpadi, tenha piedade, me dá uma moeda? Deixa eu lavar teu vidro? Precisa, não, amigo, fica pra próxima. Oportunidade.


27 março 2007

O céu de Sueli


A Sueli trabalha no mesmo lugar que eu. Quase nunca abre a boca, mas presta muita atenção na conversa alheia. De boba não tem nada. Nem de surda, só de calada.

Ela entra na sala das pessoas com passos silenciosos, porque a gente só se dá conta da presença dela quando ouve o barulhinho do saco de lixo, onde ela cuidadosamente coloca o papel reciclado que a gente junta. Dá uma olhadinha de lado, eu sempre falo oi e obrigada, mas a voz dela está ali tão presa na insignificância imaginária que eu mal ouço resposta.

Nos corredores o contato é mais amistoso. É só a Sueli começar a limpar o chão, que lá vou eu passar pra lá e pra cá. Cumprimento novamente, peço desculpas toda sem graça por atrapalhar, mas ela sorri. Não tem problema, pode passar. Pra ela, parece que nada nunca tem problema, tudo neutro feito o detergente que ela usa.

Na hora do almoço a Sueli sempre limpa o banheiro feminino. Eu entro lá assobiando, feliz da vida por poder escovar meus dentes na santa paz e... dou de cara com a Sueli lavando a pia. Oi, Sueli, volto depois. Nem é preciso esperar muito, pois a rapidez e a eficiência da Sueli são proporcionais ao silêncio que dela emana.

Tudo isso me faz pensar que a Sueli tem um céu só dela. Mas eu não tenho certeza de que cor ele deve ser. Penso nele sempre cinza, porque a Sueli é toda quieta, presa, contida feito nuvem guardando chuva. Mas ela nunca troveja. Nem ameaça. Ela passa dentro de um uniforme branco e azul, touca na cabeça e todo aquele material de limpeza. De certa forma, a Sueli chove naquela empresa, lavando tudo daquele jeito... neutro.

Um dia, porém, o céu da Sueli desabou em outro lugar. Justamente pela eficiência e rapidez proporcionais ao silêncio, foi convocada para cobrir as férias de uma colega em outra empresa, porque a Sueli trabalha para uma limpadora terceirizada. Para o lugar dela veio a Isabel, tão torta que devia ser com z.

E essa troveja de um jeito estrondoso. Pois não é que a dita fala pelos cotovelos e ri com as mãos? Sempre tagarelando e reclamando da vida. Tem três filhos, que ficam sozinhos à tarde porque, sabe, menina, eles não têm com quem ficar. A mais velha estragou a televisão porque achou que, pelo fato de ela ter esquentado, estava com sede. Derramou água no aparelho. A mais nova puxou à mãe: ri o tempo todo. A Isabel faltou no trabalho quatro dias seguidos. O bilhete-único dela quebrou. Fiquei em casa, sabe?

Ela adora forró. Numa sexta-feira, enquanto todo mundo ia embora dizendo animados tchaus, ela ria mais ainda e dizia, num sorriso desabotoado, que não via a hora de ir para o forró, mas só com o dinheiro da condução que ela não é besta; lá ela havia de achar alguém que pagasse a consumação dela. De boba não tem nada. Nem de surda, só de calejada.

Nesse período, eu senti saudade da Sueli, apesar de a Isabel ser divertida. Mas minha mesa vivia cheia de resquício de borracha, meu lixo demorava pra ser esvaziado, minha sala não era varrida todos os dias, e a Isabel se arrastando na má vontade... tudo isso me incomodava de um jeito todo meu. Cheguei a preferir um céu cinza a toda aquela alegria isabeliana azul cintilante. Será que na outra empresa o céu da Sueli continuava nebuloso?

Um outro dia, porém, indo almoçar na minha caminhada diária, encontro a Sueli na rua indo para o trabalho. Ela voltou, ela voltou! Mas, calma. A Sueli estava mudada, ensolarada, radiante. Sem aquele uniforme branco e azul, sem a touca e todos os produtos de limpeza, com os cabelos longos soltos e vestindo roupa colorida, a Sueli mudou de céu. Ficou atá mais nova, sorriso menos tímido e oi sonoro.

Foi aí que entendi que o céu da Sueli é todo dela, multicolorido e sujeito a variações. Meu olhar é que vivia nublado.


04 dezembro 2006

Janeleiro de plantão

Para quem você olha quando anda na rua? Quantos mesmos você , achando que sabe tudo da vida deles, por vê-los todos os dias fazendo as mesmas coisas nos mesmos horários? O quanto você afia o seu poder de observação perscrutando os outros com doses generosas de curiosidade?

Observar é de fato uma arte. É através dos olhos, a janela da alma, que entramos nas janelas dos outros, raramente de modo consentido. Somos, na maior parte do tempo, invasores de janelas alheias. E, se preciso for, arrombamos tudo com conclusões precipitadas.

O rapaz que passeia com o cachorro todos os dias e que atravessa na faixa, na minha frente, enquanto o semáforo está vermelho, é exemplo disso. Detesta passear com aquele cachorro, porque usa a coleira da impaciência. O pobre coitado — o cachorro, não o rapaz — continua subserviente, embora procure solidariedade em olhares desconhecidos. É da janela do meu carro que observo os dois. Vou entrando sem cerimônia em vidas que não me conhecem, que, por sua vez, atravessam aquela rua avassalando outras, as quais, igualmente, não têm consciência de estarem sendo escaneadas.

muita gente em inúmeras janelas espalhadas por , olhando tudo, quietas, praticando observação. Quantos, por exemplo, lêem as idéias da minha janela sem sequer me conhecer? Quantos permanecem fiéis e anônimos leitores-observadores acessando esta janela com regularidade para dar uma olhadela no que meus verdes olhos vêem?

Freqüentemente observo a mim mesma e me pergunto se meu olhar é que é interessante ou se o fato de manter esta janela aberta é que é convite mais que suficiente para me espiarem enquanto me troco em palavras. Posso ser aquele rapaz com o cachorro andando na rua de alguém.

Não tem problema. Observar é dolorido por devassar ambientes e interiores, nossos ou dos outros, numa constante espionagem que revira valores, desesconde receios e traz à tona o que foi esquecido, mas, ao mesmo tempo, revela muito do que somos, nós e os outros, escancarando pensamentos expostos na vitrine do olhar.

Pois continuem entrando aqui, pela porta ou pela janela, tanto faz, e vasculhem tudo. Usem lente de aumento, óculos, se preciso for, mas nunca deixem de observar. Porque é assim que a gente se conhece.