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10 agosto 2008

Como o amor se multiplica

Querido Erik,

Há um ano e dez meses eu aprendi como começa o amor. Há nove meses você me ensinou como ele se multiplica. Uma responsabilidade e tanto para alguém tão pequeno, mas já cheio de personalidade.

Digo isso por causa do seu nome. Depois de uma pesquisa etimológica (deixa eu explicar: é uma pesquisa que a gente faz para saber de onde as palavras vêm), eu descobri que o nome que seu pai escolheu para você é escandinavo, quero dizer, vem de um lugar bem longe, onde hoje é a Suécia, pois foi o nome de um viking, um cara ruivo e barbudo, meio bravo, mas bem fortão e corajoso. Significa “governante honrado”. Quer mais personalidade que isso?

Pois é possível: você, como eu, além de ter “k” no nome, é leonino. E ainda nasceu num dia cheinho de oitos, o número da prosperidade, no mesmo mês que eu. O mundo, de fato, ficou bem mais azul dia 8. Tão azul que até choveu. Chovia lá fora da maternidade e dentro da gente, de alegria. Todo mundo chorou quando você chegou, porque você emociona, sabia? Além disso, tem uma família amorosa, que vai cuidar muito bem de você e ensiná-lo a ser cavalheiro, educado, honesto, bem-resolvido, gentil, amigo da sua irmã e feliz, porque isso é ser honrado e saber governar a própria vida.

Já que seremos cúmplices, deixa eu te contar um segredo: eu fiquei sabendo da sua existência antes mesmo da sua mãe. Sonhei que ela estava grávida no dia em que ela o concebeu. Bom, ela está um pouco assustada com isso até agora, mas um dia ela se acostuma. Além dessa coincidência, o médico queria que você nascesse no dia do meu aniversário. Mesmo tendo nascido uma semana antes, você foi um presente para mim, porque eu ganhei outro afilhado. Não foi um presente de aniversário, foi de Natal, numa carta linda que sua mãe escreveu para mim, pedindo para eu aceitar você como afilhado. Isso foi bem fácil, embora eu ainda não saiba como é ser madrinha de um menino, outra coisa que você vai me ensinar.


De minha parte, além de um português impecável, posso ensiná-lo a se divertir, a ver o mundo colorido, a conhecer os clássicos da música e da literatura (calma, eu seleciono os mais legais), a entender as mulheres (isso será bem útil daqui a uns anos, pode me cobrar!), a gostar de teatro, de cinema, de circo e, com um pouco de sorte, de livros, que é o que eu sei fazer. E, cá para nós, o mundo das letras é um lugar interessantíssimo para onde você pode ir sempre que quiser conhecer qualquer coisa.

Você foi muito desejado, e é tão prestativo que veio rápido, um tantinho antes do planejado. Seus pais pintaram a fachada da casa de azul — justo azul! — e fizeram um quarto de selva para receber você. Eu ajudei (e quase morri de cansaço na 25 de Março, uma rua doida que tem aqui, um dia eu te conto), o tio Bruno fotografou e pudemos deixar tudo bem bonito para você. Mas você é tão lindo pessoalmente que vamos ter de rever as imagens...

Pelo andar da carruagem (ai, isso é muito antigo!), você estará sempre à nossa frente, principalmente se decidir ser atleta como a sua mãe e sair correndo desembestado. Assim, vai longe. Mas estarei sempre com você (no caso das corridas, confesso, bem atrás, porque não sou adepta da prática esportiva...), orgulhosa por tê-lo como afilhado e amigo.

Você vai ser plenamente feliz, vai crescer forte e saudável, vai ser amistoso com as pessoas e bastante alegre, porque já é muito amado e encanta todo mundo. Isso foi outra pequena coisa que você me ensinou: agora eu entendo, sorrindo, quando as pessoas me perguntam: “está tudo azul?”. Quem conhece você sabe que sempre vai estar, e isso vai além da fachada da sua casa.

Um dia você vai ler esta carta, que estará dobradinha, com a minha letra, dizendo em cada palavra o quanto esta madrinha te ama desde o mundo dos sonhos.

Um beijo demorado na sua bochecha vermelhinha,

Kandy

12 setembro 2007

Algodão-doce

Com um pouco de atraso (desculpem!), este post responde o convite que recebi do Rafael Porto, do Alforria. Parece simples, mas resumir as lembranças todas da infância a apenas cinco faz pensar um bocado...


Lápis de cor

Sempre fui uma criança curiosa, que tudo perguntava e tudo queria saber. Nunca aceitava ordens sem que me explicassem o motivo, porque a racionalidade mora em mim desde que nasci. Então, quando me mandavam fazer alguma coisa sem me explicarem por quê, eu simplesmente não fazia, por não entender a necessidade daquilo.

Os apelos eram em vão. Se não me convencessem, nada feito. Uma criança quase incorruptível, não fossem... os lápis de cor! Por uma caixa deles, de 12, 24 ou 36 cores, eu fazia qualquer coisa. Lembro-me de que minha mãe, às vezes cansada de argumentar comigo, apelava para o acordo: "Kandy, se você fizer o que a mamãe combinou com você, você ganha uma caixa de lápis de cor". Valia a pena.

Mesmo que eu já tivesse uma caixa, sempre queria mais. Adorava olhar para as cores arrumadinhas fazendo degradê, mesmo sem entender para que servia o branco; achava mágico demais ter o poder de colorir tudo o que nasce sem graça, desprovido de alegria.

Um dia, num aniversário aí, acho que de 8 ou 9 anos, minha tia me deu um estojo de zíper com dois compartimentos recheado de cores. Ela conseguiu reunir lápis de cor e canetinhas de todas as cores do mundo num lugar fechadinho só para mim! Foi um presente inesquecível! Outro dia, no Orkut, reencontrei um amigo meu da infância que, ao ser perguntado se se lembrava de mim, respondeu rapidinho: "se eu me lembro? Claro! Você era aquela menina que tinha um estojo cheio de lápis de cor!"...



Jantar de domingo na casa da minha avó

Uma vez por mês, eu, meus irmãos e minha prima nos reuníamos na casa da minha avó materna para jantar. Éramos tão pequenos que cabíamos todos ao redor da mesa de centro da sala, que minha avó cobria com uma toalha com cheiro de sabão em pó. Comíamos em pratos fundos, de louça boa, com garfo e faca de sobremesa. Bebíamos vinho com água e açúcar, que minha avó colocava em cálices de cristal bem pequenininhos, desses de servir licor. Eu me sentia importante com um cálice daqueles, porque, nas histórias da Idade Média que eu lia, todos os cavaleiros e reis e rainhas e princesas usavam cálices nas refeições.

O menu era sempre o mesmo: macarrão com salsicha Santo Amaro, aquelas gorduchas e suculentas, farofa com ovinho e azeitonas e, às vezes, a torta de batata da Celina, uma senhora que sempre trabalhou para a minha avó e que merece um post só para ela.

Minha avó gostava de guardanapo de pano, xícara de borda fina sempre com pires, coisas de cristal, porta-guardanapo de metal, tudo fino. Eu achava o máximo, mas sempre me atrapalhei com molho de tomate. Todas as roupas do meu armário têm atração por molho de tomate... Então, minha avó abria um guardanapo de pano bem grande (para mim era bem grande) e amarrava-o em volta do meu pescoço, feito aqueles bandidos de bangue-bangue. E era assim que eu comia, junto com meus irmãos e com minha prima, assistindo aos Trapalhões, quando eram quatro e engraçados.



Livros de contos de fadas e do rei Artur



Sou fã número um do Rei Artur. Chorei feito uma louca quando li a história do Tristão e da Isolda. Acho a rainha Guinevere uma fraca indecisa e, apesar de concordar com a população feminina mundial de que o Lancelot era um pedaço de mau caminho, nunca o perdoei por ter traído o rei Artur, um homem tão nobre e justo daqueles! E rei, ainda por cima!


Isso é que dá ler desembestada! Eu me insuflava de maniqueísmos de tanto que lia contos de fadas de todos os países, em edições de capa dura com a ortografia ainda antiga, antes da reforma ortográfica de 1970, apesar de eu ter nascido em 1975. Da coleção toda, os de que eu mais gostava eram Os mais belos contos de fadas tchecos e Os mais belos contos de fadas húngaros. Eu nem sabia o que era tcheco e húngaro, mas tudo bem, devia ser uma coisa legal.


As ilustrações eram grosseiras, mas eu gostava. Passavam uma idéia de sombra, mistério... e aquela ausência de cor me fazia querer pintar tudo com os meus lápis de cor. É que eram tantas ilustrações que, se eu fosse pintar uma, teria de colorir todas. Era trabalho demais, eu acho... ia gastar todo o meu estoque de lápis de cor. Então, decidi que não valia a pena. Ficava só com as histórias mesmo, com anões, dragões, princesas e injustiças num mundo esquisito onde as pessoas usavam roupas mais esquisitas ainda, sumiam e apareciam do nada, voavam, adivinhavam ou eram tapadas demais para entender o que estava acontecendo ao redor.




Passeios de graça com o meu avô

Meu avô já ganhou um post só para ele, mas os passeios que fazíamos eram mesmo inesquecíveis, sobretudo porque ele me fotografava, numa época em que ninguém quase era fotografado assim, com essa abundância de cliques.

Como éramos cinco netos, meu avô não tinha dinheiro para levar a gente a lugares caros. Então, ele foi o responsável por estreitar minhas relações nada amigáveis com o governo, porque me levava a todos os lugares públicos de São Paulo. Eu conhecia todos os parques, o do Ibirapuera, da Água Branca, do Carmo e do Piqueri; andava de metrô para cima e para baixo, e era amiguíssima da girafa do Zoológico, porque eu vivia lá, era praticamente de casa. Ao que parece, num dado momento lá ela nem agüentava mais olhar para a minha cara, por isso nossa amizade terminou, eu acho. Pescoçuda de uma figa!



Brincadeiras na casa da minha prima

Era muito legal ir para a casa da minha tia, a única irmã da minha mãe. Lá eu jogava Atari, apesar de sempre perder dos meus irmãos, brincava de pista (minha prima espalhava pistas em pedaços de papel remetendo a gente de um lugar para outro pela casa inteira até achar o tesouro, geralmente uma coisa bem besta...), de trenzinho, de casinha, de cabana no jardim, participava do batizado da Fifi, a coelha bege e fofa que minha prima tinha, escorregava pelo beiral da escada, dava comida para as tartarugas que me morderam o nariz quando eu era bem pequena, ouvia música, dançava e, o mais legal de tudo: me fantasiava. Não sei se minha prima me achava com cara de boneca para ficar me vestindo daquele jeito, mas eu achava divertido experimentar aquele monte de roupas engraçadas, usar colares, chapéus, bolsas, sapatos e maquiagem de gente grande. Minha prima tinha uma Polaroid e acho que se divertia mais do que eu fotografando aquela palhaçada toda!



Não posso reclamar porque tive uma infância especial e feliz, a base do que sou hoje, dos valores que carrego, do meu senso de família. Foi na infância que aprendi a ser verdadeira, a dar vazão à criatividade, a achar que todo mundo é bom, que tudo é açucarado e possível, numa ingenuidade típica de quem não tinha com o que se preocupar.

Então, apesar de ser uma pena crescer e perder um pouco disso, a saudade é bem boa. Dá um acalento todo especial à alma e faz brotar um sorriso suave nos lábios, desses que só quem foi criança de verdade consegue resgatar de vez em quando.


16 dezembro 2006

Que presepada!

Depois das cartas ao Papai Noel, outra tradição natalina com a qual sempre convivi foi o presépio. Minha mãe capricha todos os anos, colocando a criatividade a serviço da fé.

Então, assim como os vários natais maravilhosos que tive, também tenho algumas presepadas para contar, pois, como minha mãe, sempre fui deveras criativa.

Uma vez, não sei qual era a minha idade, minha mãe conta que eu coloquei todas as peças do presépio para dormir. Decerto eu devia achar aquilo estático demais; cansativo todo mundo ali de pé daquele jeito, por dias e dias a fio. Coitados! Na dúvida, deitei todas as peças: pessoas, porcos, perus, ovelhas, vaquinhas... acho que só poupei as árvores.

Minha irmã mais velha já foi mais prática, como é até hoje: enquanto eu queria dar descanso à humanidade ali representada, a Kelly achou por bem fazer uma fila, porque já estava mais do que na hora de aquele povo se mexer para ir visitar Jesus. Como o presépio tinha dois ou três níveis ligados por rampas de madeira cuidadosamente cobertos de papel-pedra, formou-se uma enorme fila de pessoas, porcos, perus, ovelhas e vaquinhas, um atrás do outro, numa romaria digna de Aparecida.



Não bastasse todo o exposto (que fazia minha mãe ficar de cabelo em pé por ter de arrumar tudo de novo, cada peça em seu devido lugar), numa bela quinta-feira — me lembro bem do dia da semana porque era dia de feira na minha rua, o que só ocorria às quintas — eu e minha honorável e sábia irmã mais velha decidimos pôr em prática nossos ensinamentos cristãos. Havíamos ganhado uma vela cada uma, presente de nossa mais-sábia-ainda-avó. A minha era de estrelinha; a da Kelly, de coração. Então, na calada do dia, fomos acender a vela para Jesus, feito aquelas crianças meigas e gorduchas (a Kelly, não eu) estampadas nos cartões natalinos.

O único porém foi justamente a ingenuidade da infância. A gente só ganhou as velas e nada mais. Então, foram apenas as velas e nada mais que pusemos, acesas, sobre aquele pasto verde lindo feito de serragem, onde ficavam aquelas ovelhas branquinhas.

Um tempinho depois, a chama da fé, sempre tão poderosa, desprendeu-se de vez de nossos corações e manifestou-se, imponente, na sala silenciosa.

Estávamos almoçando quando alguém irrompeu a cozinha gritando “fogo! fogo!”, num desespero pra lá de aflito. A fé tem mesmo dessas coisas; as pessoas se comovem entregando-se de alma e tudo.

Eu e a Kelly tínhamos colocado fogo no mundo. Aquilo ali estava parado demais...


08 dezembro 2006

Papai Noel e eu: cartas

(Clique na carta para lê-la)


Todo escritor, artista, filósofo, músico ou ser humano que se preze já escreveu cartas a alguém. Woody Allen escreveu para Platão; Rilke, a um jovem poeta; Kafka, ao pai dele; Pero Vaz de Caminha, ao Rei D. Manuel; Van Gogh, a Théo; Mario de Andrade, a Câmara Cascudo; Mariana Alcoforado, ao léu; Scott e Zelda Fitzgerald, um ao outro; eu, ao Papai Noel...

Eu acreditava em Papai Noel, aquele mesmo, de roupa vermelha, barba branquinha e sininho na mão. Meus pais contratavam um senhor, o mesmo todos os anos, que vinha com um saco cheio de presentes devidamente etiquetados, pois éramos cinco: eu, meus irmãos e minha prima — esta última entrava na dança por diversão e para dar verossimilhança à cena, porque já não acreditava mais fazia tempo...

Mas não quero falar desse dia da visita do velhinho de barba de verdade (eu puxei uma vez para me certificar), o ápice natalino. Antes desse acontecimento anual, havia toda uma preparação fantasiosa que me ensinou muitos dos valores que tenho hoje.

Eu escrevia cartas ao Papai Noel. Minha mãe dava a mim e aos meus irmãos moedas para comprarmos selos na banca de jornal, de modo a poder postá-las. Bom, se eu mesma, com as minhas perninhas, ia comprar o selo, colocava na carta, endereçava ao céu — porque era lá que eu acreditava ser a moradia do velhinho — e enfiava a carta na caixa do correio, era para acreditar nele quando eu recebia as respostas. Tudo porque, como minha mãe tinha nos ensinado a colocar remetente nas cartas, pedia ao carteiro para devolvê-las pessoalmente a ela, de modo que ela pudesse lê-las e respondê-las devidamente. E era tudo tão bem-feito, e não tinha a internet para atrapalhar, que não dava para desconfiar...

Minha mãe tem letra de mão, mas escrevia com letra de forma os cartões-postais, cartas e cartões de Natal que recebíamos do Papai Noel. E como ele sempre respondia o que eu escrevia, era sinal de que me lia. A mesma letra das cartas eu encontrava nas etiquetas dos presentes que ele trazia na noite de Natal. Mais verossímil, impossível.

Por essas e outras, eu me sentia especial. Na escola, ninguém acreditava, diziam que era meu tio, meu avô, meu pai... Mas eu sabia que não era, porque eles estavam todos lá, vendo o Papai Noel junto comigo. E o cara ainda tinha barba de verdade, têm noção?! Isso porque eles nem sabiam das cartas... Ah, se eu contasse! Convenci-me de que as outras crianças não recebiam a visita natalina justamente porque não acreditavam nela. E essa aura de magia é que começa a formar dentro da gente um sentimento importantíssimo que muita gente perde quando cresce: a esperança.

Minha mãe nos ensinava que o Papai Noel tinha de dar muitos presentes para muitas crianças e que, por isso, nem sempre tinha dinheiro para dar o que pedíamos (psicologia pura de mãe que tem quatro filhos pedindo bicicletas individuais!). Se o problema era esse, estava resolvido: eu juntei o meu dinheiro, umas parcas moedas que ganhava da minha avó quando ela me visitava, e separei, como diz a minha carta, em duas partes: uma para comprar o aparelho dentário de que a Kelly precisava; outra para enviar ao Papai Noel como ajuda de custo. Uma menina de 9 anos já consciente quanto às finanças pessoais! Mandei um anexo na carta: “Já que eu não posso mandar o dinheiro pela carta, o senhor pode vir buscar. Mas não agora, só em novembro!”.

Eu trocava correspondências com o Papai Noel durante uns dois meses. Eu escrevia, ele respondia, e assim era até o Natal. Eu tentando convencê-lo de que havia me comportado bem, e, portanto, era merecedora do presente; ele às vezes bem-humorado dizendo bondades, outras mais sério, coisa de mãe brava ou sonolenta escrevendo respostas para quatro filhos tagarelas altas horas da manhã talvez. Tenho cartões em que Papai Noel me dá broncas homéricas — “fale menos e ajude mais” ou “se continuar chorona assim vai ficar enrugadinha como eu”, ou ainda “tente chorar menos e ser mais amiga dos seus irmãos” — PSs que me ajudavam a aprender a lidar com decepções e a constatar que eu era uma chata.

O mais impressionante da história é que Papai Noel gostava mais de cartas do que eu. Ele as mandava para mim antes mesmo de eu ser alfabetizada. Tenho várias como essas guardadas, com elogios breves, é verdade, por eu ter passado para o pré, por eu ter dançado bem no balé, me comportado bem... tudo permeado por alguma lição básica de cidadania, como repartir as coisas com o próximo, ajudar os pobres, fazer caridade, entender que há pessoas mais tristes e mais necessitadas do que eu e que, perto disso, meu presente não era assim tão importante.

Por essas e outras é que eu respeitava pra caramba o Papai Noel. Era Deus no céu e ele também. Além de símbolo mor da bondade sobre todas as coisas, ele ainda achava tempo para me escrever, dividia os sentimentos dele comigo, me ajudava a ser uma pessoa melhor e era amigo de verdade, porque só os amigos de verdade dão bronca na gente quando o que a gente mais quer receber é mão na cabeça em sinal de aprovação. Para mim, o que ele dizia era lei.

Mas, como toda correspondência que se preze, um dia o contato acaba por razões que só o Universo conhece. Embora a carta que abre este texto tenha sido escrita em 1984, quando eu tinha 9 anos, nossa correspondência só cessou em 1986, quando descobri que Papai Noel não existia, pelo menos não assim, de carne e osso, com barba que não sai, roupa vermelha e saco cheio de presentes padronizados. A última palavra, lógico, tinha de ser dele, porque foi ele que começou tudo aquilo:

Menina Kandy,
Desejo que todas as canções de Natal tragam paz, amor e felicidade! Lembre-se de que o verdadeiro espírito de Natal é o amor, a fé e a caridade repartidos com o próximo. Se em seu coração sempre houver a meiguice, a sinceridade e a ingenuidade de criança, então eu estarei com você em todos os Natais que virão! Beijos do “Papai Noel”

Nesse ano, eu passei o Natal com menos magia, mas nem por isso menos contente. Tinha feito uma descoberta interessantíssima com aquelas aspas: Papai Noel morava mesmo no céu, de onde vem tudo o que é bom que a gente vai guardando dentro da gente, como parcas moedas sendo depositadas em cofrinhos da alma. Ele não tinha forma, barba, roupa, letra de forma, sino ou saco de presentes. Ele tinha espírito natalino. E é nisso que eu acredito até hoje.



P.S.1: Nem sei o que foi feito desse dinheiro, porque a Kelly só foi usar aparelho dentário na idade adulta, bancado pelo próprio bolso.

P.S.2: Minha estilística já denunciava minha vocação... que criança de 9 anos escreve "mande-me a resposta"?!!! Para compensar, avacalhei na colocação pronominal da oração que veio depois. Paciência... e olha que isso eu tinha, estava disposta a esperar a bicicleta no ano seguinte ou no outro ou no outro... ;-)


15 novembro 2006

Como começa o amor

"Kan querida,
Recebi o recado cedo, mas estou respondendo só agora porque já fizemos o TESTE....

Kandy pega uma coleção (infantil viu) para seu futuro afilhado(a) rsrssrrs temos 90% de chance de estarmos corretos, nós não vamos na balada.

Vamos comer pizza aqui em casa, se vc não for na balada aparece para comemorar, ok.

Fiquei com vergonha de te ligar, a gente ficou meio esquisito... não sabe se fica feliz, ou preocupado ou apavorado...rsrsrs

Liga pra mim tá. bjs.

Fê, Eri e bebê!" (e-mail de 9/fev./2006)




“Querida Amanda,

Você fez um mês dia 12, mas já observa tudo de um jeito que conquistou esta sua madrinha aqui. Ter um olhar inquisidor, desses de varrer tudo motivado por curiosidade, é bem a minha praia. Nesse quesito, você teve a quem puxar, apesar de não termos vínculos sangüíneos — um detalhe insignificante, a meu ver.

Eu nunca havia presenciado um nascimento até você vir ao mundo. E confesso que foi uma expectativa interessante. Você já emocionava as pessoas antes mesmo de sua mãe concretizar a torcida para você nascer no dia do aniversário dela e de Nossa Senhora Aparecida. Só por isso, você já é iluminada. E vai se divertir pra caramba, porque nasceu no Dia das Crianças (eu te dou dois presentes, combinado?).

Mas olhar você ali, enfrentando o mundo pela primeira vez com um monte de gente que até então você nunca tinha visto, fez as emoções transbordarem. E, junto com seu choro, todos choramos também, numa alegria que finalmente podia se despir de qualquer preocupação.

Sua mãe, minha melhor amiga, já dizia que eu seria a sua madrinha nos tempos em que eu e ela estudávamos juntas. Acredita? Eu ainda não sei como é ser madrinha de alguém, mas posso seguir o exemplo da minha, que é mesmo minha segunda mãe. Então, queridinha dos olhos azuis, fique tranqüila, porque eu sempre estarei aqui, participando ativamente da sua vida, festejando seus aniversários, suas conquistas, apoiando suas decisões, assistindo às suas apresentações na escola, te ensinando análise sintática, ajudando você a entender o mundo de um jeito poético, que isso ajuda bastante, e torcendo para que você tenha na vida uma amizade como a que eu e a sua mãe (e agora seu pai também) temos, que isso é extremamente importante.

Provavelmente você não se lembra, mas, quando peguei você no colo, ainda na maternidade, te falei quantas coisas legais você poderia conhecer: cata-vento, parque de diversões, algodão-doce, corrida de São Silvestre (com a sua família inteira correndo nela!), música, escorregador, risada espalhafatosa (que espero você tenha herdado da sua mãe), cores, tintas, giz-de-cera, orquestra, passeio no parque, vento no rosto, lençol cheiroso, pão quente, mimo de avô e avó, bicicleta, pastel de feira, jogo de vôlei, areia de praia, mar de informação e tantos outros aparatos eletrônicos que sabe Deus o que serão na sua adolescência...

Olhando para você, é inevitável a pergunta: o que será que você vai ser? O sonho da sua mãe (porque todas têm os seus) é viajar com você nos Jogos Olímpicos. É, porque você vai ser atleta de seleção, daquelas altas e bonitas, que vai literalmente “botar pra quebrar”. Mas você pode ser médica, cientista, estilista, comerciante, astronauta, professora, apresentadora da MTV, produtora de moda, jornalista, designer ou o que quiser ser, porque tem uma família que te ama que vai te ajudar a ser você.

Particularmente, meu desafio vai ser familiarizar você com os livros. No que depender de mim, eles vão fazer parte da sua vida naturalmente. Tudo bem, vai, eu forcei um pouco a barra lotando a estante do seu quarto de obras coloridas que você ainda nem sabe ler. Mas eu vou ler para você e vou te ensinar a folheá-los e a entrar neles de um jeito divertido. Isso talvez intensifique seu modo de olhar e deixe seus olhinhos ainda mais brilhantes, e talvez nós duas consigamos seqüestrar o resto da sua família para fazerem a mesma coisa. Certamente a leitura vai torná-la uma pessoa criativa... e, pensando bem, você vai poder até ser artista, porque a arte é indissociável da literatura...

Por enquanto, continue aconchegada no cobertor laranja de franjas que foi do seu pai, alegrando a vida dos seus tios babões (fala sério, Amanda, ser a única sobrinha de três tios homens é privilégio de poucas, hein?!), ouvindo calmamente a musiquinha do móbile que você ganhou de um deles, aproveitando a delicadeza do seu quartinho branco e lilás, e crescendo forte e saudável numa família que está se esforçando para ser perfeita para você.

Amanhã eu vou visitar você e te levar os cds que comprei para você dormir feliz. Longe de mim influenciar seu gosto musical, mas dormir ouvindo Pachelbel, Bach, Beethoven e até o estressado do Mozart (foi um pessoal diferente, um dia eu te explico se você quiser), todos com arranjos especiais para ninar bebês, não é para qualquer um — e, definitivamente, você não é qualquer um. Ah, se você não gostar, também tem um cd de MPB para bebês, e você vai poder conhecer a Mônica Salmaso e a Na Ozetti cantando músicas de pingo de chuva, que confortam qualquer alma pouco ou muito sonolenta.

Você vai ser feliz, porque é querida e amada, a começar pelo belíssimo nome que te deram (deixa eu te contar, vai, uma hora você ia ter de ficar sabendo mesmo: ele vem do latim amandus, a, tendo o primeiro registro identificado no século XVII, e quer dizer “digna de ser amada”). E vai poder ler esta carta sempre que quiser, porque ela vai estar dobradinha e escrita a mão no álbum colorido que vou montar para imortalizar seus primeiros anos de vida, contando o início da sua história.

Beijos estalados na sua bochecha fofinha, desta madrinha que te ama desde 9 de fevereiro,

Kandy”

Legenda da imagem: Erison na maternidade, olhando para a filha recém-nascida.

27 outubro 2006

O tempo a meus pés

Foi uma segunda-feira dos ventos. Uma ventania desvairada de descabelar qualquer mentira cabeluda, despenteando até os mais carecas.

Com férias assim, ventando contentes, o que fazer com tanto tempo livre, arrepiado de frio? Dizem que, quando venta muito, é porque morreu um padre. Pois devem ter assassinado o clero inteiro naquela segunda-feira dos ventos.

Apelei então para a mais solidária das companhias, dessas que trazem eras dentro delas, com 45.578 histórias diferentes se entrelaçando em tranças intertextuais. E li, em voz alta, 327 páginas deliciosas, entonando emoções para minha irmã mais velha, de férias comigo na praia da ventania.

A Kelly é preguiçosa para ler. Por coincidência do destino, foi ter uma irmã movida a leitura. Passamos a segunda-feira dos ventos lendo Luna Clara&Apolo Onze, eu engolindo as palavras em sílabas docinhas, ela vidrada, querendo sempre que a história continuasse e que o vento parasse.

Por outra coincidência do destino, o livro começa justamente falando do vento, de tarde, de gelatina, esquilos, gerânios, pensamentos, vaga-lumes, chuva, novidade, inusitado, tempo, procura, desencontros, aventura, tudo vindo de lá de onde o vento vinha, lugar em que o tempo tira férias.

Conhecemos personagens incríveis que dialogavam mundos numa linguagem que, se não era onda, tinha aprendido a embalar sonhos com o mar: justo ele, ali, tão pertinho.

Fazia tempo que eu não devorava um livro inteiro assim, sem entrada nem antepasto, feito pudim de leite que escorrega pela garganta caramelada. Tive vontade de ter um cavalo só para chamá-lo de Equinócio, ou dois cachorros bem grandes com o nome do par que dá título ao livro. (Outra coincidência do destino: já tive um dog alemão lindo de morrer chamado Apolo, e meu irmão tem uma cadelinha labrador com o nome de Luna.)

Queria visitar Desatino do Sul e Desatino do Norte, me demorando em conversas com Seu Erudito ou invadindo a festa sem-fim que Dona Madrugada e Seu Apolo Dez, junto com as sete maravilhas do mundo, promovem há exatos treze anos, dezoito meses e quinze dias.

Percebi que tenho desejos de desejo e que, como Doravante, não desistiria de meus ideais ainda que com uma nuvem carregada de chuva bem em cima da minha cabeça, chovendo azar.

Até aquele momento, não sabia o que toda essa ventania da segunda-feira estava querendo trazer para mim: vontade de usar chapéu xadrez, de ler revista velha; tomar café-da-manhã demorado ouvindo o barulho do mar; andar feito cata-vento, só parando para ver o pôr-do-sol; encher o boné de conchas de todos os tamanhos e cores; colecionar caramujos; escalar pedras; comer bolo de chocolate com sorvete; visitar amigos distribuindo abraços; ver um monte de beija-flores dançando ao redor de orquídeas; olhar sonolentamente para o céu estrelado, só visível fora da poluição urbana, e pensar em todo mundo para quem a gente quer que as coisas dêem certo; tomar café recém-passado, em coador de pano, pela madrinha, acompanhado de biscoitos de goiabada; e me entregar preguiçosa ao Vale da Perdição, onde as palavras me seqüestram, encarcerando-me junto com um papagaio intelectual chamado Pilhério... Coisas simples que podemos fazer no dia-a-dia, mas que só dá para fazer tudo junto nas férias.

Que vente muito assim na minha vida, sempre e em todo lugar, para me fazer ler mais 2.876.457.382 livros em voz alta, para propagar aos quatro ventos tudo o que Luna Clara e Apolo Onze me ensinaram num pedacinho tímido do litoral paulista de um 23 de outubro ventoso, vendavando literatura e espalhando férias, num sopro contínuo de descanso inesquecível, que todos nós merecemos...


20 agosto 2006

Contemplação

Era um senhor septuagenário. Àquela altura da vida, passava o dia sentado em um banco improvisado, em frente à sua casa, vasculhando com seus imensos olhos azuis tudo aquilo que por ele ousasse passar. Às vezes eram pessoas; às vezes, borboletas.

Chamava-se Luís. Usava óculos grossos, desses com lentes que deixam os olhos ainda maiores e, no caso dele, ainda mais deslumbrantes. Tinha bochechas vermelhas, não por causa do calor. Parecia que tinha nascido assim.

Fora marceneiro, um desses bem habilidosos, coisa que os calos das mãos denunciavam. Muitos calos, poucas palavras. Falava pelo olhar. Quando o ânimo deixava, no entanto, ele ousava acenar timidamente. Quando paravam, pessoas ou borboletas, ele cumprimentava com bom-dia ou boa-tarde, oferecendo um sorriso que diminuía o tamanho das bochechas.

Um dia apareceu alguém que de lá não era. Trouxe empolgação, novidade, o passado inteiro repaginado em forma de nova geração. Mas tudo o que os olhos azuis fizeram foi oferecer vinho e goiabada com queijo, perguntar como estava a vida — numa confissão óbvia de não saber lidar com o inesperado — e olhar, olhar e olhar, escaneando a visita para, quem sabe, conseguir desvendar a genética.

E sempre que a visita passava em frente à casa do senhor Luís, ele tirava o chapéu e inclinava levemente a cabeça. Tinha dias em que fazia tchau, batendo a bengala com a outra mão... Dizia que a cabeça era boa, mas as pernas, ruins. E a visita sempre achava que ele se despedia melhor do que cumprimentava.

Pode parecer poético alguém passar o dia assim, olhando tudo numa quietude providencial. Há até quem pense que era uma vida triste ou ociosa pela preguiça dos anos. Dizem que algo nele sabia o que o futuro lhe reservava e que justamente por isso ele ficava ali, paciente, só esperando...

A visita foi embora de vez. Dois meses depois, ele também.


30 julho 2006

Tudo em família

Pai: — Coloque mais macarrão pro seu amigo, filho.
Filho: — Acho que ele não quer mais macarrão, pai.
Amigo: — É, não precisa se incomodar, não. Eu já peguei, obrigado.
Mãe: — Você está me fazendo uma desfeita, filho, pega mais, pega...
Amigo: — Obrigado mesmo, mas eu estou satisfeito, viu, já peguei...
Avô: — Ô, filha, deixa o rapaz, não tá vendo que ele não quer mais?
Mãe: — Ai, pai, também não precisa falar assim, né? Vai ver o moço tá acanhado, tem vergonha de pegar mais...
Amigo: — Não, não, não estou acanhado, é que não quero mais mesmo.
Mãe: — Por quê? Você não gostou do meu macarrão?
Filho: — Caramba, mãe, se liga, você tá deixando ele sem graça assim, ele já disse que não quer!
Pai: — Não fala assim com a sua mãe, filho!
Avô: — E você não fala assim com o meu neto, cáspita!
Amigo: — Olha, eu não quero causar discórdia, não precisa brigar, eu pego mais...
Mãe: — Pegar mais macarrão só por causa disso é uma desfeita maior que não pegar por não querer mais!
Pai: — Deixa que eu resolvo. Dá aqui o teu prato de uma vez que eu te sirvo e pronto!
Amigo: — Tudo bem. Mas põe só um pouquinho, por favor, é que eu realmente estou satisfeito.
Avô: — Se está satisfeito, por que é que tá pegando mais? A gula é um pecado capital, sabia?
Mãe: — Deixa o moço, pai, que implicância!
Avô: — Implicante é você, que fica enfiando macarrão goela abaixo nos outros. Que coisa mais feia isso! Não te deram educação, não?
Pai: — Olhe lá como o senhor fala com a minha esposa!
Filho: — E o senhor não grita com o vovô, ele é idoso!
Avô: — Eu já vou te dizer quem é o velho!
Amigo: — Gente, gente, olha aqui, ó, eu tô comendo tudo, está uma delícia! Viram só? Podem parar de discutir...
Pai: — E você não se mete que nem da família é!
Filho: — Pai, que grosseria, ele é meu convidado!
Avô: — É isso mesmo! Um convidado muito do falso, isso sim! Esse macarrão tá intragável e ele não teve coragem de dizer... por isso não quis mais!
Amigo: — Não é verdade, está uma delícia!
Avô: — Tá me chamando de mentiroso?
Mãe: — Se disser que meu macarrão tá ruim você vai ver só!
Filho: — Gente, olha a situação que vocês deixaram o cara... pega leve, pô!
Pai: — Come logo essa porcaria e pronto! Caramba!
Mãe: — Porcaria?! Você tá chamando o meu macarrão de porcaria?! Eu passo a manhã inteira do meu domingo cozinhando pra vocês pra ouvir isso? Ai, é o fim!
Amigo: — Senhora, senhora, olha, não liga pra eles, eu tô comendo tudo, está divino, de verdade. Está tão maravilhoso que... a senhora não teria um pãozinho aí pra eu raspar o molho do prato?
Avô: — Além de tudo é mal-educado! Raspar o molho do prato com pão é falta de educação!
Filho: — Vô, agora o falso é o senhor. Lá na Itália todo mundo faz isso, o senhor faz isso... e agora tá chamando meu amigo de mal-educado?! Ah, assim não dá, viu!
Pai: — Come logo isso tudo e pronto! Será que toda refeição é isso?! A gente precisa discutir?!
Mãe: — Ai, que desconsolo! Ninguém gostou do meu macarrão.... buááááááááá
Amigo: — Dona, dona, não chora. Pega aqui meu guardanapo pra enxugar suas lágrimas. Eu como tudo, a travessa inteira, mas pára de chorar.
Avô: — Porca miséria, mas que puxa-saco!
Pai: — E o senhor é um ranzinza!
Mãe: — Você tá ofendendo meu pai!
Filho: — Eu não como mais! Bando de loucos! E nunca mais trago ninguém aqui! Que vergonha!
Avô: — Isso, desconjura a família que te criou, seu desnaturado! E não bate o garfo no prato desse jeito que é falta de educação!
Amigo: — Gente, obrigado pelo almoço, de coração, mas acho que já vou indo, viu...
Mãe: — Ah, mas não vai mesmo! Sem comer a sobremesa?! E o bolo inteirinho que eu fiz pra você? Tá na geladeira, com recheio e tudo! Peraí que eu já pego. Filho, segura o seu amigo aí pra ele comer a sobremesa!
Pai: — É isso mesmo! Que horror sair assim, sem sobremesa e no meio da refeição! Isso é falta de educação!
Avô: — Pode ir parando aí! Quem vem à minha casa nunca sai sem a sobremesa. Tá pensando o quê?
Amigo: — Já sei, vai dizer que é falta de educação. Mas é que... eu não posso porque... sou diabético!
Pai: — O quê?! Filho, como é que você me traz um diabético pra almoçar e não avisa a gente? Agora o moço vai ficar sem sobremesa! Isso é inadmissível!
Filho: — Eu sabia que ia sobrar pra mim!
Avô: — Sobrar? Sobrar o quê? O esfomeado do seu amigo comeu tudo, não sobrou foi nada!
Mãe: — Olha o bolo aqui, vamos acalmar os ânimos pra comer, vamos...
Amigo: — Eu até que gostaria, mas eu não posso, entenda, meu diabetes, sabe, eu não posso comer doces e...
Mãe: — Ah, mas meu bolo é diferente, não vai fazer mal. Olha, come aí, come, eu já coloquei pra você, veja, experimenta, experimenta...
Filho: — Vocês vão matar o cara!
Avô: — Pois já passou da hora!
Mãe: — Pai!
Pai: — Come logo esse inferno de bolo!
Mãe: — Não fala assim do meu bolo!
Amigo: — Tudo bem, vai, eu como, mas só uma fatiazinha... E isso se vocês me prometerem que essa brigaiada acaba aqui! SEM CAFÉ, ENTENDERAM?!



09 julho 2006

Lendo o mundo


A gente aprende a aprender em casa. Pelo menos foi assim comigo. Sou perguntadeira. Meus pais, respondedores de primeira.

Lembro-me como se fosse hoje de quando aprendi a ler. Nauseada pela ânsia de juntar aquelas letras todas que passavam apressadas enquanto andávamos de carro, eu perguntava: “Nossa, como é que vocês conseguem? Eu fico tonta!”. Meu pai: “Calma, você não precisa ler tudo o que aparece pela frente”. Então, eu tapava os olhos com as mãos, porque só fechá-los era pouco. Eu não me continha. Primeiro me ensinam a ler e depois me falam que não é pra ler?! Vai entender a cabeça dos adultos!

Nem preciso dizer que meu primeiro filme legendado foi frustrante. As linhas eram muito longas e eu não me contentava em mover apenas os olhos. A cabeça ia pra lá e pra cá também. É, ler, definitivamente, era uma tortura.

Mas, quem diria! Se a vocação de fato existe, eu já demonstrei a minha precocemente. Eu dizia “cisnei” porque fazia o paradigma com Disney, que, pra mim, nem com letra maiúscula era. Meu eu infantil achava que disney era um lugar comum, não sobrenome de gente.

No dia em que descobri que testemunha não começava com D, quase caí pra trás. Pra quem sempre “guspia”, o cuspe foi difícil de engolir. Minha mãe sempre me corrigia quando eu perguntava se íamos ao isológico. Na minha cabeça de criança que tudo compara, esse lugar não era nenhum bicho-de-sete-cabeças: um mero prefixo iso- com a palavra lógico. Pra quem conhecia isopor e isolar, isológico era o mais lógico, obviamente. Mas minha mãe dizia: “eu já disse, Kandy, que é zoológico”. Errei outras vezes não por ignorância ou teimosia. Era por convicção mesmo. Como ninguém pronuncia os dois o, que outra palavra começava só com zo? Desde criança a gente aprende a desconfiar do que é esquisito...

Mas só fui descobrir que tinha um i no fim da imundície na faculdade. Vergonhoso. Mas tanta palavra termina com ice que esse ície aí até hoje não me convence. Outra esquisitice.

Ainda criança, um dia comentei: “pai, eu não aprendi na escola essa letra aí da globo”. Eu olhava, olhava e não entendia que aquilo era um G grudado no L inclinadinho. É mais ou menos como os pingüins da Antarctica que parecem uma carinha ou o C branco do Carrefour que todo mundo vê como uma seta azul. Eu enxergava a Globo com uma letra só dela que não tinha no meu alfabeto.

Meu alfabeto, diga-se de passagem, era bem diferente mesmo. Fui alfabetizada com a cartilha Caminho Suave, que trazia de um tudo, exceto o K de Kandy e o Y do meu final. Naquela cartilha, eu sempre me senti incompleta.

Nela, a lição do fá-fé-fi-fo-fu tinha uma faca desenhada na letra F. Sei lá por quê eu associava o som do f com a letra v. Ainda hoje, quando minha mão vai mais rápido que o pensamento, troco um pelo outro. É tanta faca que sai vaca que eu nem te conto!

Não me lembro a idade que eu tinha quando perguntava essas coisas. Mas me lembro perfeitamente de que nunca fiquei sem resposta. Não só para as indagações lingüísticas; para tudo.

“Por que alguns fios dos postes têm essas bolinhas no meio?”, “Para os aviões não baterem neles quando pousarem ou decolarem, Kandy”. “Como a gente faz para sair de dentro da Terra?”, “a gente não está dentro da Terra, Kandy, mas em cima dela”. Isso eu levei um certo tempo para entender, confesso. Como via sempre aquelas gravuras do planeta todinho azul, achava que aquela cor era o céu em volta da gente, porque, na figura, o resto era preto e sem forma. Na minha cabeça isológica, o céu era mesmo redondo, de um horizonte a outro, e a gente morava dentro do globo, um desses simples, sem letra estranha grudada e inclinadinha.

Por essas e outras é que a gente aprende a aprender em casa. Sem as pacientes respostas que meus pais sempre me deram, eu não teria seguido a tal da vocação. Hoje mesmo, vinte e poucos anos depois disso tudo, ainda perguntei pro meu pai enciclopédico enquanto assistíamos a tv: “o que é aquilo oval atravessado por uma reta que a gente sempre vê de cima do Cristo Redentor?”. “É o jóquei clube do Rio de Janeiro, Kandy”.

Não adianta. Eles sempre sabem tudo. Pra minha sorte.


26 junho 2006

Memória fotográfica


Quando eu era pequena, meu avô materno me levava, junto com minhas irmãs e meu irmão, para passear de metrô. Era uma farra. Íamos e vínhamos na mesma linha várias vezes sem cansar. E ele lá, paciente, ouvindo os mesmos comentários a cada vez que víamos as mesmas coisas. Para ele, nada nunca era a mesma coisa.

Essa é uma das lembranças que tenho da infância. Durante os anos de faculdade, em que tinha de pegar o metrô lotado todo santo dia, freqüentemente me apanhava com essa memória invadindo a mente. Quem diria que aquele gostoso passeio de criança seria uma obrigação chata na minha idade adulta...

Meu avô era fotógrafo. Não desses chiques, com cartão com logotipo, placa na porta do estúdio e tudo. Meu avô não tinha estúdio nem ambição suficiente para chegar a ter um. Era mecânico de motos também. Mas, diferentemente do estúdio, moto ele tinha. Uma grande, de tanque vermelho, em cima da qual quantas e quantas vezes ia me buscar na escola. A mim e a meus irmãos. Todos de uma vez.

Brasílio Sgarbi era o nome dele. Eu sempre escrevi com s; ele, sempre com z. Dizia que o Brasil com s era com z quando ele nasceu e que, por isso, ele era com z também. Nunca averigüei isso, talvez por não aceitar sequer a possibilidade de tirar-lhe a razão... aquela coisa de neto que respeita demais os mais velhos. Teve pouco estudo, o suficiente para aprender sozinho a fotografar e a consertar motocicletas. Adorava comer banana, tinha umas manias engraçadas, retratava a família inteira em slides, filmava minha infância em rolos de filme que projetava na parede, atrás da porta do quarto, em algumas tarde de domingo, tinha uma garagem que cheirava a gasolina e uma Variant vermelho-cereja impecável, de pouco uso. Nos últimos anos de vida, com óculos emprestados, passava o dia assistindo à televisão, numa poltrona comum.

Morreu há 15 anos, tempo bastante para transformar a tristeza de sua ausência em suave saudade, em lembranças como as que conto aqui. Ultimamente, tenho me lembrado muito do meu avô.

Embora nunca tenha conversado com ele sobre fotografia, sei que ele nem imaginava que um dia as máquinas seriam digitais, que haveria Internet, msn, telefone celular, conversa em tempo real com o outro lado do mundo — e com imagem! Essas coisas certamente o fascinariam, ainda que tivéssemos de levar algum tempo para explicar-lhe como funcionam.

Então, cada vez que me deparo com o avanço tecnológico, principalmente no que se refere à imagem, lembro-me do meu avô, antigo, velhinho, com toda aquela parafernália que ele guardava em uma parede inteira cheia de prateleiras. Sinto-me a conexão dele com a tecnologia, e é uma sensação curiosa sentir-se ponte entre passado e futuro.

Qual não foi minha surpresa quando, tendo voltado de uma viagem à terra do meu pai, em visita aos meus ancestrais, algo que sempre tive vontade de fazer desde pequena sei lá por quê, vi que minha máquina digital recém-comprada e cujo manual fui lendo durante a viagem era capaz de tirar fotos belíssimas.

Não era a máquina. Era meu avô me ensinando que nada nunca é a mesma coisa e que precisamos mostrar aos outros o nosso modo de olhar...

Não estudei fotografia e ainda não sei consertar motocicletas. Não tenho cartão com logotipo nem ambição suficiente para ter um estúdio. Mas gosto de retratar a vida, embora tenha óculos próprios. Por isso, antes de ser Saraiva, eu sou Sgarbi.


31 maio 2006

Quebra-cabeça


A mãe está lendo o jornal, sentada no sofá, enquanto a filha de sete anos brinca no tapete da sala com uns bloquinhos coloridos. Com seu raciocínio a mil, de repente a menina pergunta:
— Mãe, a gente vamos no shopping amanhã?
— A gente não vamos, filha, nós vamos.
— Nós quem?!
— Ué, eu, você e seu pai.
— Então, mãe, a gente!
— Eu sei, filha, mas é que com a gente não se usa “vamos”, mas “vai”.
— Mas eu, você e o papai não é a gente?
— É.
— E você não falou “eu, você e seu pai”?
— Falei.
— Então, é a gente vamos, oras!
— Filha, a gente e nós é a mesma coisa, mas um é vai e o outro é vamos, entendeu agora?
— Não. Se é a mesma coisa por que é diferente?
— Ai, bendita hora que te comprei esse joguinho de montar. Isso tá mexendo com a sua cabeça! — a mãe se esconde atrás do jornal, agora totalmente aberto.
— Mãe — a menina começa a puxar a barra da calça da mãe —, “a gente” não é duas palavras?
— A gente são duas palavras, Maria Eduarda!
— Olha aí! Tá vendo!? Como é a gente vai se agora é a gente são?!
A mãe começa a se mexer no sofá. Coloca o jornal de lado, ajoelha no tapete e olha firme para a garotinha, falando manso (muitas mães, quando não sabem as respostas, espelham a ignorância nos filhos, na tentativa de se safarem da situação):
— Duda, meu amor, a gente são duas palavras. Como é mais de uma palavra, a gente usa “são”.
— Então, falei certo: a gente são duas palavras, a gente vamos... Nós é uma palavra, então é vai: nós vai, né?
— Filha, presta atenção... — a mãe coça a cabeça.
— Presta atenção você, mãe! Você tá me ensinando errado... eu já sei contar faz tempo! Dois é mais que um.
— É, você tem razão. Vou tentar te explicar de outra forma — agora ela respira fundo, conta até dez mentalmente, se ajeita sobre as pernas, coloca o cabelo atrás das orelhas com as duas mãos.
— Alô-ô, tô esperando...
— Então, filha, olha só: a gente e nós são pessoas, certo?
— Que pessoas?
— Não importa. Pessoas são pessoas e pronto acabou. A gente são muitas pessoas, nós, a sociedade, entende?
— Sociedade é um conjunto de nós e de a gentes, então?
— Não, quer dizer, sim... A gentes? Que raio é isso?! Bom, voltando... as pessoas fazem parte da sociedade. Quando você diz “a gente”, embora esteja pensando em mais de uma pessoa e tenha dito duas palavras, precisa falar “vai”. Quando fala “nós”, mesmo sendo uma palavra só, precisa falar “vamos”.
— Ah, é ao contrário? É como se a gente valesse menos que nós?
— Nós e a gente são a mesma pessoa, filha de Deus!
— Ih, mãe, acho que você ficou louca. Primeiro, eu sou sua filha, não de Deus. Depois, eu sou uma pessoa só. E nós não era a tal sociedade? Como é que pode ser a gente?!
— Ai, Jesus! — a mãe bufa. — Escuta: é assim porque tem uma coisa chamada Gramática que diz que é assim.
— Ai, que Gramática burra! Nem sabe contar! Ela, então, é mais importante que nós que é a gente? Por isso a gente precisamos obedecer?
— A gente precisa obedecer, Maria Eduarda! Brinca aí, vai, brinca...
Silêncio. A mãe, achando que a filha tinha finalmente entendido o espírito da coisa, levantou-se do tapete e voltou a pegar no jornal. Ainda de costas para a filha, ouviu:
— É por isso que todo mundo só fala eu eu eu toda hora. Ninguém nessa tal sociedade entende o nós — e continuou montando seus bloquinhos.