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27 julho 2009

Reticências

Estação de metrô de Paris


Gosto de ouvir a música enquanto os créditos do filme passam. Quando todo mundo já deixou o cinema, quando aparentemente já não há mais nada para ver.

A música do fim de filme acompanha uma solidão toda minha. Geralmente bonita – a música, nunca a solidão –, prolonga em mim a sensação do que acabei de ver, penetrando em meus poros amores que não tive, mortes que não chorei, chuvas que não tomei, ressentimentos que não vivi.

É nesse momento que mais me emociono. Quando não há mais ninguém no cinema para assistir, quando não há mais a esperar, quando o escuro ainda permite fruir tudo o que, sentada, de mão dada com ela – sempre ela –, eu pude desejar para mim, mesmo chorando uma tristeza que não é minha, despedindo-me do que não me pertence, sentindo o vento de lugares aos quais nunca fui, a maciez de um verde no qual nunca pisei.

Quando para todo mundo o filme acabou, como quem termina uma salada ou deixa a sala de aula após o sinal, sou do contra: permaneço. E me permito pensar, sem iludir os olhos ou ter o coração tomado por uma beleza de cinema.

Porque, para mim, a música que embala o fim é sempre apenas o começo.



Dois filmes cujas músicas do final fazem pensar: Paris, te amo e Ao entardecer.

09 janeiro 2008

Você já viu esse filme


O filme começa com ele correndo atrás dela. Ele quer se desculpar; ela não escuta. Eles brigam, fazem as pazes; ele sempre de bem com a vida; ela sempre encanada, tentando descobrir a si mesma. Com todo o amor do mundo, ele a ajuda mandando-lhe cartas que deixou escritas antes de morrer, ao final das quais deixa sempre um "P.S.: eu te amo".

Parece um enredo superficial que serve de pano de fundo para um romance água-com-açúcar. Pode até ser para alguns. Realmente, não é aquele tipo de filme profundo, a que a gente termina de assistir achando genial, mas, depois de conhecer histórias assim, é comum ficar reflexivo. Talvez sejam as lágrimas que trazem à tona mais emoção. Não tenho vergonha de chorar no cinema com histórias de amor sincero.

As mulheres são mais sensíveis a esse apelo romântico, até porque os personagens masculinos da película são todos lindos, simpáticos, fiéis, de bom caráter e boa intenção, além de um sorriso perfeito, e as cenas gravadas na Irlanda são realmente inspiradoras, com aquelas paisagens que levam a gente a pensar que o mundo parou e que só venta ali, lugar tingido com tons de verde que não existem em nenhum tubo de tinta.

Embora esses sejam ingredientes manjados e muito bem utilizados por roteiristas e diretores que desejam conquistar a platéia — e eu tenha plena consciência disso —, o filme cumpre o objetivo: eu queria um amor daquele, cartas daquelas, um P.S. daqueles, um olharzinho sincero que fosse, um primeiro beijo como o dos protagonistas, a roupa colorida dela, o cheiro de homem dele, um abraço gostoso, apertadinho e espontâneo sem motivo — e sem precisar pedir, aconchego, falas inteligentes em diálogos divertidos.

Os produtores do filme fazem de propósito: criam deliberadamente todo o enredo para causar inveja na gente, plantando aquele sentimento de insatisfação pelo fato de a nossa vida não ser assim, aquele mar de rosas, tudo azul, e ter poucas probabilidades de o ser. Quando dei por mim, invejava o casal sentado ao lado, mesmo ela usando um vestido fora de moda namorando um fulano mais ultrapassado que o vestido. Ela ria alto do que nem tinha tanta graça assim; fazia perguntas idiotas que ele respondia pacientemente, com ares de "o que seria de você sem mim?". Minha inveja mais idiota que aquelas perguntas era do jeito que ele abraçava ela, aceitando-a mesmo com aquele vestido, e da sorte daquela moça em poder ter a quem fazer perguntas quando quisesse, recebendo respostas doces em troca.

O mais curioso é que, ainda que eu invejasse a moça, que, a meu ver, é feliz ao modo dela, ela invejava a Hilary Swank da tela, querendo ter, como ela, o mesmo colo protetor ao qual recorrer, o mesmo bom humor dedicado fazendo graça para ela em karaokês, a mesma voz bonita cantando para embalar seu sono.

Do mesmo modo, é provável que, atrás de mim, alguém estivesse invejando a minha condição: o poder da escolha (vamos fingir que ele existe), a independência, a audácia de ir assistir a um romance sem a companhia de um amor, a desenvoltura e capacidade de escrever cartas melhores que aquelas do filme, embora com P.Ss idênticos.

Por que o filme dos outros é sempre mais bonito?

Porque a vida dos outros é sempre a Hollywood que a nossa não consegue ser, por mais que nos esforcemos. E é por isso, só por isso, que vamos ao cinema.

27 agosto 2007

Da cegueira de cada um


"Só num mundo de cegos, as coisas serão o que realmente são"
Ensaio sobre a cegueira, José Saramago


Uma das minhas cenas favoritas do cinema está em um de meus filmes preferidos: O fabuloso destino de Amelie Poulain.

A personagem principal, vivida pela adorável Audrey Tautou, é diferente de tudo. Enxerga as pessoas mais ou menos como a Blimunda, de O memorial do convento: extrai-lhes a alma, inserindo-a num mundo de possibilidades. Assim, acaba brincando com a vida das personagens do filme, mostrando-lhes outros pontos de vista.

Nesse intuito, de fazer as pessoas verem o que não podem ou não conseguem, Amelie pega um senhor cego pelo braço e percorre uma rua inteira, descrevendo a ele tudo o que a deficiência o impede de ver, desde os melões dispostos em uma banca, até o estado de espírito das pessoas que passam. Mesmo atordoado com tanta informação, a alma dele sorri de um jeito agradecido, porque tudo o que ele podia ver na rua em que sempre passava eram apenas cheiros, vozes e sensações.

Então, quando me dá saudade de ser humano, desses capazes de enxergar além da aparência, eu revejo essa cena e sempre me pergunto o quanto aquele senhor cego é mais feliz do que todos aqueles que Amelie descreve a ele.

"Como um cego pode ser feliz?", você deve estar se perguntando... A cegueira é, por um lado, uma limitação física, decerto. Mas, por outro, é um portal que permite ir além do que todo mundo vê. Só os cegos alcançam o que os olhos não vêem, só eles entendem a essência das coisas sem se deslumbrar pela imagem, pela cor, só eles valorizam os cheiros, as vozes e as sensações de uma maneira delicada e profunda, numa dimensão que, apesar de escura, traz muito esclarecimento.

Ver o que as pessoas carregam dentro de si, enxergar o sentimento delas sem precisar interpretar-lhes as feições, aguça os sentidos de uma forma invejável. É ver sem precisar de olhos. É debruçar-se no outro pelo que ele é, não pelo que veste, pelo penteado que tem, a cor do olho, o sorriso perfeito, a cor das bochechas, o furinho no queixo ou os lábios rosados.

E, ironicamente, tanta gente com olhos sãos sofre de cegueira, tantos míopes que, mesmo de óculos, não enxergam um palmo à frente do nariz, tantos olhos de todas as cores perdem tempo olhando para o nada em vez de fecharem-se e olharem para dentro de si, onde estão as respostas que procuram, tanto óbvio salta aos olhos e ninguém vê... Uma ilusão de óptica, sem dúvida.

Então, por tudo isso, sempre que vejo a minha cena preferida do filme, não penso na bondade da Amelie em fazer o que, para ela, era provocar uma mudança de perspectiva, porque, se analisarmos bem, o senhor cego do filme não precisava que Amelie lhe descrevesse o que ele não enxergava. Ela quis ser gentil, numa atitude proveniente da visão ingênua de que ele estava perdendo o melhor de toda a rua movimentada num dia de sol. Mas ele foi mais gentil ainda em não lhe recusar a gentileza, porque decerto enxergava muito mais do que ela. E, ao contrário de quem vê, ele não quis ser rude.



Aqui em São Paulo, a Fundação Dorina Nowill aceita voluntários que tenham quatro horas contínuas semanais disponíveis. Uma das funções mais legais é ser um ledor: levar literatura para quem só consegue ler em braile. Você pode ajudar gravando livros falados ou executando outras tarefas, colocando à disposição dos deficientes visuais um talento ou habilidade que você tenha. Fazer qualquer tipo de serviço voluntário é deixar de ser cego.

11 agosto 2006

Coisa de cinema

“Espera

Um mandarim estava apaixonado por uma cortesã.
‘Serei sua’, disse ela, ‘quando tiver passado cem noites a
me esperar sentado num banquinho, no meu jardim,
embaixo da minha janela.’ Mas, na nonagésima nona noite, o mandarim se levantou, pôs o banquinho embaixo do braço e se foi.”

(Roland Barthes, in Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981.)


Cinema Paradiso é o nome da espera. É, estou atrasada, eu sei: o filme é da década de 1980. Espera aí, você já assistiu? Pois assista novamente. E de novo e de novo e quantas vezes forem necessárias até apreender os detalhes mais significativos. Não precisa chorar feito um doido como eu, que chorei de tristeza, de saudade, de felicidade, de pena, de emoção, de poesia. Resquícios literários, meu caro: chorar de poesia (tem gente que chora de rir, chora de dor, chora de medo, chora de nervoso... Eu choro de poesia. Simples como o filme que me faz assim).

Este tocou de um jeito que poucas obras cinematográficas conseguiram. E, apesar de ser de 1980 e poucos, é atual, porque fala de ser humano e do ser humano. Basicamente, conta a história de um menino italiano apaixonado por cinema, a única atração de um pequeno (e lindo) vilarejo europeu.

“Ai, mas que enredo mais sem graça!” Aí é que está! A maestria reside justamente em como tratar o simples e conseguir passar tudo o que de profundo existe nele. O filme não fala apenas do impacto do cinema na vida daquelas pessoas, não retrata o que fazer com os sonhos, não fala só de amizade, de família, de valores. Fala da espera, do cotidiano misturado à arte e das inúmeras formas que as pessoas têm de entendê-la. Mostra as várias traduções que cada pessoa, com sua exclusividade ótica, dá àquilo a que assiste; às formas de ter paciência e de como ela se esvai assim, como o vento que balança a cortina do começo do filme ou a pressa que desmancha as carreiras de tricô feitas com tanta dedicação para matar o tempo.

Muita gente nem vai ver nada de mais nessa película. Há quem vá dormir, achar chato ou monótono. Questão de gosto, sem dúvida, mas, no caso específico desse pequeno cinema no meio do nada, só vai conseguir entrar quem se enxergar ali, em quaisquer dos sonhos, em uma ou em muitas das personagens, na tela pequena, nos filmes em preto-e-branco, no sorriso espontâneo do garoto ou na censura falsa do padre. Só entra quem entender o dono da praça e simpatizar com ele, quem torcer pelos beijos cortados, colocar-se no lugar de quem foi para a guerra ou de quem ficou esperando.

Só vai gostar do filme aquele que já esperou. Por alguém ou alguma coisa. Com ou sem paciência. Sentindo ou não ansiedade. No sol ou na chuva, pensando ou sofrendo. Só vai se envolver quem sente esperança. Porque sucumbir é sempre mais fácil.



P.S.1: a palavra “esperança” vem do neutro plural (sperans, sperantis) do latim sperāre, que significa “esperar”.
P.S.2: sugiro reler este texto depois de assistir ao filme. A leitura será completamente diferente. Espere só para ver.