08 dezembro 2006

Papai Noel e eu: cartas

(Clique na carta para lê-la)


Todo escritor, artista, filósofo, músico ou ser humano que se preze já escreveu cartas a alguém. Woody Allen escreveu para Platão; Rilke, a um jovem poeta; Kafka, ao pai dele; Pero Vaz de Caminha, ao Rei D. Manuel; Van Gogh, a Théo; Mario de Andrade, a Câmara Cascudo; Mariana Alcoforado, ao léu; Scott e Zelda Fitzgerald, um ao outro; eu, ao Papai Noel...

Eu acreditava em Papai Noel, aquele mesmo, de roupa vermelha, barba branquinha e sininho na mão. Meus pais contratavam um senhor, o mesmo todos os anos, que vinha com um saco cheio de presentes devidamente etiquetados, pois éramos cinco: eu, meus irmãos e minha prima — esta última entrava na dança por diversão e para dar verossimilhança à cena, porque já não acreditava mais fazia tempo...

Mas não quero falar desse dia da visita do velhinho de barba de verdade (eu puxei uma vez para me certificar), o ápice natalino. Antes desse acontecimento anual, havia toda uma preparação fantasiosa que me ensinou muitos dos valores que tenho hoje.

Eu escrevia cartas ao Papai Noel. Minha mãe dava a mim e aos meus irmãos moedas para comprarmos selos na banca de jornal, de modo a poder postá-las. Bom, se eu mesma, com as minhas perninhas, ia comprar o selo, colocava na carta, endereçava ao céu — porque era lá que eu acreditava ser a moradia do velhinho — e enfiava a carta na caixa do correio, era para acreditar nele quando eu recebia as respostas. Tudo porque, como minha mãe tinha nos ensinado a colocar remetente nas cartas, pedia ao carteiro para devolvê-las pessoalmente a ela, de modo que ela pudesse lê-las e respondê-las devidamente. E era tudo tão bem-feito, e não tinha a internet para atrapalhar, que não dava para desconfiar...

Minha mãe tem letra de mão, mas escrevia com letra de forma os cartões-postais, cartas e cartões de Natal que recebíamos do Papai Noel. E como ele sempre respondia o que eu escrevia, era sinal de que me lia. A mesma letra das cartas eu encontrava nas etiquetas dos presentes que ele trazia na noite de Natal. Mais verossímil, impossível.

Por essas e outras, eu me sentia especial. Na escola, ninguém acreditava, diziam que era meu tio, meu avô, meu pai... Mas eu sabia que não era, porque eles estavam todos lá, vendo o Papai Noel junto comigo. E o cara ainda tinha barba de verdade, têm noção?! Isso porque eles nem sabiam das cartas... Ah, se eu contasse! Convenci-me de que as outras crianças não recebiam a visita natalina justamente porque não acreditavam nela. E essa aura de magia é que começa a formar dentro da gente um sentimento importantíssimo que muita gente perde quando cresce: a esperança.

Minha mãe nos ensinava que o Papai Noel tinha de dar muitos presentes para muitas crianças e que, por isso, nem sempre tinha dinheiro para dar o que pedíamos (psicologia pura de mãe que tem quatro filhos pedindo bicicletas individuais!). Se o problema era esse, estava resolvido: eu juntei o meu dinheiro, umas parcas moedas que ganhava da minha avó quando ela me visitava, e separei, como diz a minha carta, em duas partes: uma para comprar o aparelho dentário de que a Kelly precisava; outra para enviar ao Papai Noel como ajuda de custo. Uma menina de 9 anos já consciente quanto às finanças pessoais! Mandei um anexo na carta: “Já que eu não posso mandar o dinheiro pela carta, o senhor pode vir buscar. Mas não agora, só em novembro!”.

Eu trocava correspondências com o Papai Noel durante uns dois meses. Eu escrevia, ele respondia, e assim era até o Natal. Eu tentando convencê-lo de que havia me comportado bem, e, portanto, era merecedora do presente; ele às vezes bem-humorado dizendo bondades, outras mais sério, coisa de mãe brava ou sonolenta escrevendo respostas para quatro filhos tagarelas altas horas da manhã talvez. Tenho cartões em que Papai Noel me dá broncas homéricas — “fale menos e ajude mais” ou “se continuar chorona assim vai ficar enrugadinha como eu”, ou ainda “tente chorar menos e ser mais amiga dos seus irmãos” — PSs que me ajudavam a aprender a lidar com decepções e a constatar que eu era uma chata.

O mais impressionante da história é que Papai Noel gostava mais de cartas do que eu. Ele as mandava para mim antes mesmo de eu ser alfabetizada. Tenho várias como essas guardadas, com elogios breves, é verdade, por eu ter passado para o pré, por eu ter dançado bem no balé, me comportado bem... tudo permeado por alguma lição básica de cidadania, como repartir as coisas com o próximo, ajudar os pobres, fazer caridade, entender que há pessoas mais tristes e mais necessitadas do que eu e que, perto disso, meu presente não era assim tão importante.

Por essas e outras é que eu respeitava pra caramba o Papai Noel. Era Deus no céu e ele também. Além de símbolo mor da bondade sobre todas as coisas, ele ainda achava tempo para me escrever, dividia os sentimentos dele comigo, me ajudava a ser uma pessoa melhor e era amigo de verdade, porque só os amigos de verdade dão bronca na gente quando o que a gente mais quer receber é mão na cabeça em sinal de aprovação. Para mim, o que ele dizia era lei.

Mas, como toda correspondência que se preze, um dia o contato acaba por razões que só o Universo conhece. Embora a carta que abre este texto tenha sido escrita em 1984, quando eu tinha 9 anos, nossa correspondência só cessou em 1986, quando descobri que Papai Noel não existia, pelo menos não assim, de carne e osso, com barba que não sai, roupa vermelha e saco cheio de presentes padronizados. A última palavra, lógico, tinha de ser dele, porque foi ele que começou tudo aquilo:

Menina Kandy,
Desejo que todas as canções de Natal tragam paz, amor e felicidade! Lembre-se de que o verdadeiro espírito de Natal é o amor, a fé e a caridade repartidos com o próximo. Se em seu coração sempre houver a meiguice, a sinceridade e a ingenuidade de criança, então eu estarei com você em todos os Natais que virão! Beijos do “Papai Noel”

Nesse ano, eu passei o Natal com menos magia, mas nem por isso menos contente. Tinha feito uma descoberta interessantíssima com aquelas aspas: Papai Noel morava mesmo no céu, de onde vem tudo o que é bom que a gente vai guardando dentro da gente, como parcas moedas sendo depositadas em cofrinhos da alma. Ele não tinha forma, barba, roupa, letra de forma, sino ou saco de presentes. Ele tinha espírito natalino. E é nisso que eu acredito até hoje.



P.S.1: Nem sei o que foi feito desse dinheiro, porque a Kelly só foi usar aparelho dentário na idade adulta, bancado pelo próprio bolso.

P.S.2: Minha estilística já denunciava minha vocação... que criança de 9 anos escreve "mande-me a resposta"?!!! Para compensar, avacalhei na colocação pronominal da oração que veio depois. Paciência... e olha que isso eu tinha, estava disposta a esperar a bicicleta no ano seguinte ou no outro ou no outro... ;-)


20 comentários:

Bruno Peres disse...

Kandy...
você deveria ser uma criança muito interressante...
só você mesmo para escrever cartas assim ao Papai Noel... adorei, muito bom !!!!!

Meu natal e minha cartas ao Papai Noel não eram tão "realistas" como o seu, mas eu também adorava escrever cartinhas ao papai noel e , principalmente, receber os presentes, né ? hahahaaha

Nós estamos sempre vivendo mentiras, mas mentiras com a do Papai Noel, só nos trazem sentimentos bons e todos devem ser "enganados"...

bjs

Jana disse...

Ai, Kandy!
Que post bonitinho!
Eu não escrevia cartas pro Papai Noel, mas meus pais dizem que eu fazia ninho para o Coelho da Páscoa. (Na verdade, como eu sempre passava as vésperas de Natal na casa da minha avó, o Coelho era mais esperado... Aliás, eu achava que o coelho ficava em cima da minha casa, com uma TV ligada esperando dar a hora pra entregar os ovos, rs).
Ler a sua cartinha me fez lembrar uma aqui que eu tenho até hj, que eu e a Heloísa escrevemos para o programa "Bambalalão" e nunca mandamos. Aliás, tem uma outra muito engraçada da Helô para o Zé Bettio, rs.
Amei o post!
BJs

Tereza disse...

Kandy,
Tanta imaginação tem de ser alimentada e delicadamente cultivada!
Parabéns para a mamãe que te ajudou a manter viva a esperança e a alegria do espírito da criança até hoje!

Obrigada!
Beijocas

fê disse...

amei Kan...saiba que sua família me inspira muito, ainda mais com a chegada da nossa princesinha Amanda...Vc saberá nos ajudar brilhantemente nesse assuntos noéis...rsrsrs...A madrinha Kan terá muitas atribuições, que tal começando por ser o papai noel intelectual da Amanda...escrevendo as cartinhas pra ela...legal né...rsrsrs
beijos querida.Seu blog está ótimo...

Andreia disse...

Kandy,

adorei este texto (novidade!).
Meus pais sempre foram mais durões e não me fizeram acreditar em Papai Noel. Sabe aquela frase: "Papai Noel é o papai aqui que trabalha para comprar o seu presente". Que sensibilidade, né? Enfim, apesar de tudo, de certa forma eu também acredito nele... É só ter fé!
Um beijo.

Ricardo disse...

Kandoca, tirante o fato de ter esquecido do Lobato epistolar - e que sempre respondeu às crianças que o escreviam - seu texto está perfeito.
Sabe, Lobato já dizia que só prestamos mesmo qdo crianças, depois nao valemos um caracol. Ele mesmo foi um pouco "Noel"...
Mas a criança que fomos permanece no adulto, e por ter sido uma criança tão especial é que hoje vc é essa pessoa que todo mundo adora. Menos gente burra, né? Mas aí é problema deles...
Bjs do leitor e fã!

Ricardo disse...

Deois espias: http://oqueosmeusolhosveem.blogspot.com/

Bjs

Lárimer Daniel disse...

Kandy, uma graça! Parabéns! O que vc descreve me lembra um pouco o "jogo" que fazemos com nosso filho Pietro, que tem 9 anos... O detalhe é que ele está no meio-termo entre acreditar ou não no Noel, então ele diz coisas como "é vc que compra mas o P Noel que dá..." Parabéns também à sua mãe, respeitando e "usando" a fantasia para transmitir valores. Gde abraço, feliz natal e muita filicidade por todos os anos vindouros!

Anônimo disse...

1º- nunca escrevi cartas, cartões e coisas do tipo, sempre fui péssimo em redações, mas ainda "me prezo" como "escritor, artista, filósofo, músico ou ser humano" hehe
2º- Sua escrita encanta. Talvez por você usar a magia das palavras
3º- Posso usar a "jogada" da sua mãe quando tiver meus filhos? tenho que pagar patente?

abraços Kandy...

ps. estava com saudades de passar aqui com tempo...

Glaucia disse...

Quem disse que eu não acreditava em Papai Noel?
Eu acho mesmo que fui a última a deixar de acreditar...rsrsrsrs
Aliás acreditar em tudo: em fadas, em Papai Noel, em duendes, bruxas e Coelho da Páscoa.
Como não acreditar naquilo que sempre nos foi paupável?
Sinto que depois de um tempo o Papai Noel não nos visitou mais...
Talvez porque faltem crianças em nossa familia. O fato é que já a algum tempo temos sido nossos Papais Noéis. Mas acredito realmente que as nossas lembranças de Natal, ficam para sempre e nos fazem crer de forma mais esprançosa no ser humano.
BJKS

Fernanda Suaiden disse...

SENSACIONAL!
"...eu espero até 85 e assim vai." nunca ri tanto Kan, esse "e assim vai" é a sua cara!!! amei. Chorei e ri ao mesmo tempo.
Já estou com muita saudade de vc.
beijos
Fernanda

Angela disse...

Kandy,
Que texto lindo!!
Até chorei..(Não conta pra Glá , pq ela vai rir...)
Por isso que eu digo , FAMILIA é tudo !!
Vc está cada dia melhor!!
Saudades...
Bjs

Glaucia disse...

Angela
Sua manteiga derretida, já fiquei sabendo que vc chorou!
"Tô Béje!!!"

Tuca Hernandes disse...

Apesar de minha magreza clássica, esse será o quarto natal consecutivo em que serei requisitado pra vestir a fantasia de papai noel pros meus quatro sobrinhos. Dessa vez, acho que só o mais novinho cairá no conto. Há quem chame isso de mico: "Se fantasiar de papai noel, que ridículo!". Quem assim pensa é porque não sabe da sensação de ver uma criança, ali na sua frente, o encarando como se fosse a coisa mais mágica que já aconteceu na vida dela: "Caramba! O papai noel veio aqui!!!". Sua mãe, ao se comunicar com você e seus irmãos via cartinhas de papai noel, entendeu muito bem o espírito da coisa. Que a tradição continue com os netos dela!

Anônimo disse...

Querida Kandy,

eu acreditava em Papai Noel e também no coelhinho da Páscoa: meus pais se davam ao trabalho de fazer pegadas no chão, com creme dental, que começavam na porta e terminavam numa cesta cheia de balas e bombons...
Mas, voltando ao Natal, outro dia li um texto muito interessante, referente a uma campanha de doação patrocinada pelos correios (você passa numa agência, pega uma carta escrita por uma criança e atende ao pedido contido nesta carta). O texto dizia mais ou menos o seguinte: quando a gente é criança, acredita em Papai Noel; mais tarde, deixa de acreditar; e, finalmente, vira Papai Noel. Não é bonito?
Adorei conhecer um pouco mais a menina Kandy.
Saudades e beijos,

Sérgio Klein

Clei disse...

Filha....foi muito gratificante saber que todos os meios que empreguei para prolongar a sua infância e a dos seus irmãos,tentando - ao mesmo tempo - repassar os valores e as tradições familiares, transformando os medos infantis em contos de fadas ter surtido o efeito desejado.
Felizes os pais que conseguem "construir" e "moldar" seus filhos, transformando-os em verdadeiros "seres humanos", aqueles que possuem caráter, fraternidade, que são livres de preconceitos e sabem discernir o Mal do Bem.
Agora espero poder ajudar vocês a fazerem o mesmo pelos seus filhos!!!
Valeu, filha!!!
Mamy

Neto disse...

Olá Kandy !

Saudades dos seus textos ...

Me deliciei com este ... nos remete ao verdadeiro espírito natalino.

Pena que não tenho lembranças desta época, não faço idéia de quando deixei de acreditar no Papai Noel (amanhã já sei o que perguntar para minha mãe !)
Ah, e parabéns à sua mãe. Mesmo sem conhecê-la, já sou seu admirador, por ter cultivado sentimentos tão nobres em seus filhos...

BEIJÃO !!

Neto disse...

Ah, mais uma coisa ....

Adorei a carta para o Papai Noel !!

Anônimo disse...

Kandy

Muito legal a sua carta pro Papai Noel. Com certeza sua vocação já estava por aí, que outra criança iria estranhar o Papai Noel assinar entre aspas? É muita antena na língua portuguesa!
Sua mãe com certeza é uma fofa, soube lidar com a fantasia e arrumar um degrau pra você colocar os pés no chão com segurança.
beijos

Val

hariadna disse...

querido papai noel neste natal quero ganharn uma piscina rosa,na resvista tem azul mais deve existir uma rosa é claro né?
por isso venho lhe pedir essa piscina.bjim pra vc,para a mamãe noel e para os doendes te dollu fofo...

meu nome é Livia moura e eu tenho 9anos.