04 dezembro 2006

Janeleiro de plantão

Para quem você olha quando anda na rua? Quantos mesmos você , achando que sabe tudo da vida deles, por vê-los todos os dias fazendo as mesmas coisas nos mesmos horários? O quanto você afia o seu poder de observação perscrutando os outros com doses generosas de curiosidade?

Observar é de fato uma arte. É através dos olhos, a janela da alma, que entramos nas janelas dos outros, raramente de modo consentido. Somos, na maior parte do tempo, invasores de janelas alheias. E, se preciso for, arrombamos tudo com conclusões precipitadas.

O rapaz que passeia com o cachorro todos os dias e que atravessa na faixa, na minha frente, enquanto o semáforo está vermelho, é exemplo disso. Detesta passear com aquele cachorro, porque usa a coleira da impaciência. O pobre coitado — o cachorro, não o rapaz — continua subserviente, embora procure solidariedade em olhares desconhecidos. É da janela do meu carro que observo os dois. Vou entrando sem cerimônia em vidas que não me conhecem, que, por sua vez, atravessam aquela rua avassalando outras, as quais, igualmente, não têm consciência de estarem sendo escaneadas.

muita gente em inúmeras janelas espalhadas por , olhando tudo, quietas, praticando observação. Quantos, por exemplo, lêem as idéias da minha janela sem sequer me conhecer? Quantos permanecem fiéis e anônimos leitores-observadores acessando esta janela com regularidade para dar uma olhadela no que meus verdes olhos vêem?

Freqüentemente observo a mim mesma e me pergunto se meu olhar é que é interessante ou se o fato de manter esta janela aberta é que é convite mais que suficiente para me espiarem enquanto me troco em palavras. Posso ser aquele rapaz com o cachorro andando na rua de alguém.

Não tem problema. Observar é dolorido por devassar ambientes e interiores, nossos ou dos outros, numa constante espionagem que revira valores, desesconde receios e traz à tona o que foi esquecido, mas, ao mesmo tempo, revela muito do que somos, nós e os outros, escancarando pensamentos expostos na vitrine do olhar.

Pois continuem entrando aqui, pela porta ou pela janela, tanto faz, e vasculhem tudo. Usem lente de aumento, óculos, se preciso for, mas nunca deixem de observar. Porque é assim que a gente se conhece.


8 comentários:

Ricardo disse...

Viva! Gostei do texto. É isso aí, viver sem medo de olhar e ser olhado. Deixe as janelas abertas, sem se importar se os olhos que as espiam são conhecidos ou não.

Leo disse...

Kandy,

Olá!

Há tempos que você vem se preocupando com essa questão... e acredito que há tempos que você vem pensando em escrever um texto assim.

É isso aí! Saiu! Parabéns!

Eu aprendi que só quem sabe olhar se permite ser olhado. Que bom que encontramos pessoas assim!

Beijo,

Leo

Bruno Peres disse...

Muito bom o texto....
nossa conversa que te inspirou ?
quem sabe agora os anonimos comentem tb, né ?
hahahaha

bjs

Glaucia disse...

Essa história de ser espiado é complicado. O tornar-se conhecido as vezes amedronta as pessoas, ao mesmo tempo que aproxima alguns.
Já vivi essa sensação estranha de não conhecer, quem te conhece tão bem, primeiramente por causa da minha situação de autora e depois com o blog. Ainda me soa estranho, qdo vejo pessoas que mal conheço, fazendo citações minhas. É ao mesmo tempo assustador e maravihoso. Apesar de tudo, ainda acho que colocar idéias na janela, nos ajuda mais a nos conhecermos do que aos outros.

Kandy disse...

Ri, Leo, Bruno e Glau, olhar o outro é também uma arte. Tanto é assim que existem verbos diferentes para esta ação: admirar, enxergar, ver, observar, analisar e bisbilhotar. Vai de cada pessoa escolher qual verbo usar. Esse é o intercâmbio que proponho aqui no Idéias na Janela: a troca de horizontes, de olhares, de visões de mundo. Por isso terminei este texto de modo ambíguo: é assim que a gente se conhece, ou seja, é assim que conhecemos a nós próprios e também ficamos conhecendo outras pessoas... Conhecer no sentido de saber que existem, de fazer novas amizades e de, por que não, termos a permissão delas de ir entrando, ainda que devagar e bem de mansinho, nas janelas que elas têm dentro de si. E, como bem disse o Leo aí em cima, "só quem sabe olhar se permite ser olhado". Somos, portanto, privilegiados... ;-)

Jana disse...

Não se proucupe, Kandy: aqui tem uma bisbilhoteira fiel, desde q o tempo em q a janela era uma agenda...
bjs

Pablo Albino disse...

Oi Kandy,
quando vi esta foto me lembrei logo da vizita de vcs e Salvador.
Que saudade!
Prestas atenção no as pessoas fazem e pensam em quem são estas pessoas é uma atividade própria de pessoas detentoras de grande senssibilidade.
Abraços,

Luiz Ricardo disse...

Corredores

Em quase todas as janelas tem alguém
(Representando ou não)
Em quase todos os corredores tem alguém
(Dissimulando ou não)
Em quase todos os blocos tem alguém
(Sofrendo ou não)
Em silêncio assisto ao teatro pelos vidros
Assíduo – atento – num sorriso, a libertação
Muitas cenas ao mesmo tempo
Se sobrepõem e se completam
Num confuso mosaico
De extática seqüência
Seguem histórias em construção
(Representando ou não)
Cinema mudo sem legendas
Somem vozes, passos, ruídos (sorrisos)
Transparente distância