11 agosto 2006

Coisa de cinema

“Espera

Um mandarim estava apaixonado por uma cortesã.
‘Serei sua’, disse ela, ‘quando tiver passado cem noites a
me esperar sentado num banquinho, no meu jardim,
embaixo da minha janela.’ Mas, na nonagésima nona noite, o mandarim se levantou, pôs o banquinho embaixo do braço e se foi.”

(Roland Barthes, in Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981.)


Cinema Paradiso é o nome da espera. É, estou atrasada, eu sei: o filme é da década de 1980. Espera aí, você já assistiu? Pois assista novamente. E de novo e de novo e quantas vezes forem necessárias até apreender os detalhes mais significativos. Não precisa chorar feito um doido como eu, que chorei de tristeza, de saudade, de felicidade, de pena, de emoção, de poesia. Resquícios literários, meu caro: chorar de poesia (tem gente que chora de rir, chora de dor, chora de medo, chora de nervoso... Eu choro de poesia. Simples como o filme que me faz assim).

Este tocou de um jeito que poucas obras cinematográficas conseguiram. E, apesar de ser de 1980 e poucos, é atual, porque fala de ser humano e do ser humano. Basicamente, conta a história de um menino italiano apaixonado por cinema, a única atração de um pequeno (e lindo) vilarejo europeu.

“Ai, mas que enredo mais sem graça!” Aí é que está! A maestria reside justamente em como tratar o simples e conseguir passar tudo o que de profundo existe nele. O filme não fala apenas do impacto do cinema na vida daquelas pessoas, não retrata o que fazer com os sonhos, não fala só de amizade, de família, de valores. Fala da espera, do cotidiano misturado à arte e das inúmeras formas que as pessoas têm de entendê-la. Mostra as várias traduções que cada pessoa, com sua exclusividade ótica, dá àquilo a que assiste; às formas de ter paciência e de como ela se esvai assim, como o vento que balança a cortina do começo do filme ou a pressa que desmancha as carreiras de tricô feitas com tanta dedicação para matar o tempo.

Muita gente nem vai ver nada de mais nessa película. Há quem vá dormir, achar chato ou monótono. Questão de gosto, sem dúvida, mas, no caso específico desse pequeno cinema no meio do nada, só vai conseguir entrar quem se enxergar ali, em quaisquer dos sonhos, em uma ou em muitas das personagens, na tela pequena, nos filmes em preto-e-branco, no sorriso espontâneo do garoto ou na censura falsa do padre. Só entra quem entender o dono da praça e simpatizar com ele, quem torcer pelos beijos cortados, colocar-se no lugar de quem foi para a guerra ou de quem ficou esperando.

Só vai gostar do filme aquele que já esperou. Por alguém ou alguma coisa. Com ou sem paciência. Sentindo ou não ansiedade. No sol ou na chuva, pensando ou sofrendo. Só vai se envolver quem sente esperança. Porque sucumbir é sempre mais fácil.



P.S.1: a palavra “esperança” vem do neutro plural (sperans, sperantis) do latim sperāre, que significa “esperar”.
P.S.2: sugiro reler este texto depois de assistir ao filme. A leitura será completamente diferente. Espere só para ver.

5 comentários:

Fernanda disse...

Pode ter certeza que vou alugar e assistir novamente! Lembro vagamente do filme. Sei que chorei muito também.... depois te conto!
bjs

Ricardo disse...

Kandoca, quando eu disse que esse era o MELHOR filme da história, por tudo o que mostra e pela homenagem que presta ao cinema, não exagerei. O que me deixou chateado foi o fato de sempre ter feito propaganda, mas não ter conseguido a perfeição de suas palavras e explicações sobre o que sentimos. Parabéns, de verdade.

Jana disse...

Amiga
estamos num mundo em que nem todos têm a sensibilidade tão apurada qto à nossa!
Bjs
Jana

Glaucia disse...

Oie
Seus textos a cada dia estão mais poéticos. Você está numa fase ótima! Com uma sensibilidade aguçada e essa melancolia saudável na alma, que faz as coisas banais do dia a dia se tornarem interessantes. Parabéns!
Vou te confessar: Acho que você está apaixonada, prima. Apaixonada pela vida, por você mesma, ou sabe-se lá pelo oquê. Mas vejo paixão em tudo que escreve! Espero que essa paixão contagie a todos e te traga o anel de rubi que você merece!
BJS

Bruno Peres disse...

Kandy...
você esta totalmente certa... o texto é realmente outro depois de assistir ao filme.
O filme... sem comentarios, né ?
muito bom !!!!!
A única coisa ruim foi que eu assisti em uma tv de 14 polegadas.. se fosse em uma maior, teria me emocionado muito mais.. com certeza !!!!!!
Esse filme é maravilhoso.. preciso compra-lo assistir varias vezes... e a cada "seção" descobrir novas emoções escondidas nesse pelicula...