04 agosto 2006

Atraso de vida


Lá na rua onde fica a empresa pra qual trabalho há uma árvore muito bonita. Todas as vezes que, na hora do almoço, passo a pé por ela, olho para cima. Nas últimas vezes ela estava carregadinha de flores cor-de-rosa. Acho que aquilo é um ipê, mas, como só vejo a beleza, não atento para as especificações técnicas, como nome científico, família etc. Sei que, nessas últimas vezes, eu olhava para a árvore e recorrentemente pensava "preciso fotografar isso exatamente nesse ângulo". Mas eu nunca trago minha câmera para o trabalho, então, minha relação com a árvore ficou assim, platônica, sem se concretizar em imagem alguma.

Hoje, ao passar novamente por ela, vi que só havia umas duas ou três flores. Puxa, que frustrante! Eu perdi mesmo a oportunidade de fotografá-la quando estava carregada! Tudo bem, eu espero isso acontecer de novo. Pelo menos agora ela já está brotando; alguns galhos têm folhas verdinhas e novas, ainda assustadas com esse frio todo que tem feito por aqui, é verdade, mas firmes e fortes recompondo o cenário abalado pelo tempo.

Aí, pensei: "tem outra árvore no meu caminho diário na mesma situação. Só que é amarela". Tudo bem que essa ia me dar uma certa mão-de-obra, porque sempre passo por ela de manhã, indo para o trabalho de carro, e teria de parar o trânsito para poder tirar um retrato. Nessa cidade insensível, nem preciso dizer que seria xingada, vaiada, multada ou até agredida por tentar registrar o belo. Isso, nesta selva, ninguém entenderia. E, se eu insistisse em tentar explicar, acabaria sendo levada para um hospício, que é o lugar onde, segundo a definição mais comum, são colocados os loucos. Literária e curiosamente, entretanto, os loucos ou são poetas ou são santos, os únicos com capacidade de fazer o que ninguém faz quer por ignorância ou por covardia.

Mas hoje, quando passei por essa árvore (e, para variar, atrasada), nem observei se ela estava ainda em condições de ser fotografada ou não. Ironicamente, aquela rua é contramão; só vou poder saber isso amanhã.

Isso me fez pensar em como a gente deixa tudo para depois pretensiosamente crentes de que teremos o depois, em como estamos sempre atrasados em relação aos nossos desejos. Esquecemo-nos de que às vezes as ruas podem ser contramão ou de que o tempo é invariavelmente implacável.


12 comentários:

rafael fermiano disse...

kandy,
porque não fotografa as duas ou três flores que sobraram? Naquele ipê roxo...
Sempre achei ipês, mesmo que secos, belos. Em Maringá, há uma "rua dos ipês", acho que você ia gostar...

abraços

Jana disse...

Nossa, Kandy!!!
O texto eh belo e eu tb tenho essas manias de fotografar plantas. Mas o último parágrafo foi tocante!
Parabéns!
bjs
Jana

Fernanda disse...

"Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derribar, e tempo de edificar;tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar; tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora; tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar; tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.
Que proveito tem o trabalhador naquilo em que trabalha?(...)"

Isso é um trecho de Eclesiastes, capítulo 3, um livro muito especial da Bíblia. Quando li seu texto lembrei deste trecho. Depois dá uma lida no capítulo todo.

Querida amiga,
Você é uma menina cheia de talentos!
eu amo você!
beijos com saudades.

Anônimo disse...

Ah, só mesmo uma romântica incurável para fazer essas observações!... :-)
Eu também conheço essa árvore cor-de-rosa, maravilhosa; e me deliciei por algumas semanas com o contraste do rosa das flores e do céu azul ao fundo... até tropecei por andar olhando pra cima, na frente do motel! Êta, lugarzinho estranho esse!
Eu também esqueci a máquina... mas registrei aquela beleza toda como um refresco para a minha alma, e ainda consigo me deliciar com essa magia especial num lugar tão inóspito.
Ah, se você observar bem, cara amiga, existe uma outra árvore, pequena, antes daquela, que está cheia de botões, também cor-de-rosa, que se abrirão em breve!
Beijocas,
Tereza :-)

Edilene disse...

Caríssima amiga Kandy,

Caminhava lentamente pelo teu texto, pensando nas árvores da calçada que vemos na hora do almoço, quando tropecei no último parágrafo.
No meio do caminho tinha um desejo. Contornado. Ignorado. Mas que não sai do caminho. Ele está ali. É impossível ignorá-lo. E agora Kandy José? Como tornar as coisas mais práticas e menos sofridas? Mais cara-de-pau e menos "sérias"?
Acho que esse é um universo que pertence às crianças e aos poetas. É preciso ser um deles para compreendê-lo. As pessoas grandes não entendem...

Beijos

Angela disse...

Oi Kandy!!
Faz tempo que não nos falamos , mas estou sempre aqui vendo seu blog..Lindo esse texto , e me fez pensar , pq sempre falamos em viver o momento, mas sempre pensamos somente no futuro, pq nós pessoas "normais" não podemos ser poetas , pelo menos nos momentos bons da vida!!
Saudades..
Bjs

Bruno disse...

Isso é uma mania horrivel que nós temos, deixar tudo pra depois.. esquecemos que as coisas são passageiras... e logo, perdemos vários momentos que poderiam se tornar inesqueciveis...

Eu deveria andar com uma máquina sempre na mochila, ou melhor, na mão, pois alguns momentos são perdidos ,as vezes, em segundos....
ai a unica fotografia resto é a presente na memoria.. e como a minha mão é muito boa, as vezes nem essa... ahahahhahaha

Bjs e parabéns pelo texto ( muito bom com sempre !!! )

bruno ( de novo) disse...

se não me engano esse é o seu primeiro post sem foto...
é alguma forma de protest pela rua ser contramão e vc não poder tirar a foto ?
hahahahahaha

bjs

Kandy disse...

Eu ainda vou tirar essa foto e colocá-la aqui... por isso o post ainda está sem imagem...

Alexandre disse...

ah, achei 3 coisas desse texto

triste, melancólico e lindo

mas espera...como pode um texto ser tudo isso ao mesmo tempo?

Alexandre

Sérgio Klein disse...

Engraçado, Kandy, como a gente está sintonizado. Há duas ou três semanas, viajando de carro para Belo Horizonte, vi a estrada irresistivelmente amarela de ipês e pedi ao meu filho para fotografar aquele escândalo - como se fosse possível guardar a cor dentro da máquina. De qualquer modo, coloquei a foto como fundo de tela no micro. Quem diz que agosto é o mês do desgosto nunca teve o privilégio de ver um ipê!
Beijos,

Sérgio

Cristina Akisino disse...

Kandy,
Ler seu texto me dá vontade de poetisar (c/"s" Ou "Z"?,depois me diz). Ler, ouvir e fotografar poesias. Não importa se antes, durante ou depois das flores, o que vale mesmo é ver a poesia dos momentos.Mudar um pouco o "enquadramento" da vida ...

Suas fotos são ótimas!
Seu blog, noz faz parar um pouco c/ a correria louca dos nossos dias e compartilhar dos seus instantes de magia.
Obrigada um abraço

Cristina