21 novembro 2006

Lunática sonhadora

Desde pequena eu sonho muito. Dos sonhos dormindo sempre me lembro acordada. Já os que tenho acordada acabam adormecidos na memória mesmo. Uns, mais insistentes, vingam e viram objetivos; outros são arquivados na seção do sono eterno e ponto final.

Dia desses sonhei com a Lua. Talvez Freud explique, não sei. Mas, antes de adentrarmos no sonho propriamente dito, querido leitor, preciso explicar que, também desde pequena, eu tenho uma certa rixa com a Lua (minha infância foi mesmo fascinante!): quando eu andava de carro e olhava para o céu, achava uma tremenda petulância desse satélite me seguir até em casa, naquela observação irritante. Com a caravan dourada que tinha, meu pai podia entrar em qualquer viela escondida dessa cidade enorme que não adiantava: a Lua lá, gloriosa, sempre me olhando. Não tinha sequer espírito esportivo para brincar de esconde-esconde. Bancava mesmo a mãe da rua, dona da bola, cheia ou minguante, tanto faz.

Cresci com essa mania de perseguição, que hoje amenizou-se, é verdade, porque para alguma coisa aquelas aulas chatas de Geografia tinham de servir. Mas, sobretudo em noites quando a Lua está grande no céu, volta em mim aquela sensação de infância: a Lua me olhando, soberana, como se fosse a única capaz de me enxergar por dentro, ainda que eu não tenha o que esconder.

Pois meu sonho foi, modéstia à parte, criativo pra chuchu. Primeiro, a Lua desmoronava sobre a Terra, e o céu, visto daqui, desaparecia. Ao olharmos para cima, tudo era solo lunar. Foi ficando frio e escuro. Tudo bem, eu sei que a Lua é muitas vezes menor que a Terra e tal, piriri, pororó, mas uso a licença poética até em sonhos. No meu, ela era maior e caía, assim, no planeta inteiro, sem aviso prévio mesmo.

Com humor de fim-de-mundo, as pessoas saíam de suas casas olhando para o céu-Lua, meio apavoradas, meio intrigadas. Saí também, mas, curiosamente, em vez de pânico por finalmente pensar que a Lua me descobriu e veio me buscar de vez — como o homem do saco que as mães sempre utilizam como ameaça em horas de impaciente desespero —, eu fiquei extasiada porque, diferentemente de todo mundo, eu via beleza.

Nesse momento, a Lua choveu. Ela chovia pedaços, que pareciam espuma de colchão. E aí veio uma tempestade de Lua. Todo mundo saiu correndo, feito fogos de artifício, só eu fiquei debaixo daquela Lua se desintegrando. Quando a chuva parou, as pessoas, ainda curiosas, tentavam pegar os pedaços lunares do chão, mas queimavam as mãos e logo os soltavam, de tão gelados.

Por motivos que a razão desconhece, até por estar ausente num momento como esse, eu continuei exceção e saí catando todos aqueles pedaços de Lua de espuma de colchão. Quando já estava com os braços lotados, como quem carrega lenha, caminhei até uma jardineira e os plantei, meio que esperando uma resposta. Se a Lua tinha despencado na Terra era porque queria entrar nela, pensei.

Acordada, eu não planto nem bananeira, quem dirá flor. Mas no sonho eu plantava Lua, que deu botão e fez crescer bem rápido um sonho de planta, linda e cintilantemente branca, com perfume de gardênia que se espalhava por aí. Mas a flor, que não existe na Terra, só durava um dia, para o meu desconsolo.

Acordei com essa sensação de e agora e fiquei um tempão pensando naquilo tudo. Será que é porque eu leio muito livro infantil, onde até avião bota ovo? Ou porque tenho tanto os pés no chão que fazer um intercâmbio com a Lua seria uma espécie de mestrado para aprender o diferente? Talvez seja influência do Pequeno Príncipe. Bom, pode ser também a minha criatividade ultimamente pouco utilizada transbordando no sono.

Que seja. O negócio, meus caros, é sonhar, em todos os sentidos, sem procurar lógica, motivo ou explicação. Porque, no mundo da lua, onde os sonhos acontecem, essas coisas definitivamente não importam.



Observação interessante: a foto da Lua sobre a qual fiz arte foi tirada pelo meu amigo Leo, aquele que foi para a Bahia comigo e que cisma em me levar para conhecer as nuvens, desta vez em uma viagem de balão. Para minha sorte, ele é psicólogo.


11 comentários:

Angela disse...

Kandy , que texto lindo ...Em plena terça-feira retornando ao trabalho leio um texto MARAVILHOSO!!E registre mesmo , precisamos SONHAR SEMPRE!!!
Bjs e Boa Semana !!!
Angela

Tereza disse...

Kandy, agora entendi:
Alguém que faz até nascer flores de um pedaço de Lua de espuma de colchão... ah, essa pessoa não é deste mundo, não! :-)
Te vejo na Lua!
Beijocas,

Anônimo disse...

meu, esse pseudo-ódio à Lua eh coisa de leonino, não?
rs
bjs
Janinha

Jonas Comin disse...

Kandy,

Cada dia mais fico fã deste seu blog, e seu também é claro...rsrsrs

beijão carinhoso para vc.

Jonas

Glaucia disse...

Prima!
Esse texto é Surreal! Está mais para Salvador Dalí, não?
rsrsrsrsr

marmota disse...

Oi moça sonhadora! Vim agradecer a visita, e puxa vida, descobri um cantinho apaixonante. Eu sou um pouco prático e racional (coisas de taurinos teimosos), por isso morro de inveja quando descubro alguém que consegue se desprender assim. Eu já tive a chance de sonhar mais, mas não consigo tirar os pés do chão. E a foto portuguesa me lembra uma que tirei em Colonia del Sacramento, no Uruguai, nas minhas últimas férias. Prometo mandar pra você logo logo. Adorei te conhecer, viu? Beijo grande!

Ricardo disse...

Apesar de achar esse sonho muito "arrumadinho", como eram os da Emília, gostei. Na verdade expressa esse seu jeito emiliano, curioso, inquiridor, com suas idéias próprias sobre gentes e coisas. E vc sabe que para eu comparar alguém à Emília não é pouca coisa, né? Só falta vc passear na Via Lactea; qdo isso acontecer, nos brinde com outra crônica deliciosa.
Bjs

Kandy disse...

Queridos, eu gostei de saber que vocês também sonham...
Angela, fiquei feliz em alegrar o seu dia;
Tereza, é, eu sou mesmo do mundo da Lua! E gosto disso!
Jana, como leonina nata, eu confesso que prefiro o Sol!
Jonas eu também estou virando fã do seu blog (e já sou sua fã faz tempo!).
Glau, este ano minha fase artística aflorou... Dalí que se cuide!
Marmota, seja bem-vindo neste meu humilde recanto. Estou esperando a foto, tá? Também gostei de conhecer você, agora vou visitá-lo sempre.
Ricardo, vindo de você um elogio assim, me comparando à Emília, é emoção demais pra uma pessoa só! ;-)

Patrícia Köhler disse...

Ai, Kandy, seus textos são TÃO bons, moça! Fico aqui lendo e sonhando e divagando, e indo à Lua e voltando. :-)
Sabe que não raro tenho uns sonhos dignos de um Charlie Kaufmann ou Kurosawa também? :-)
Penso que nosso inconsciente é constantemente alimentado por imagens, leituras, gostos, tatos... enfim, sensações e apreensões diversas, o que certamente contribui para deixá-lo bastante "turbinado". :P
Beijos e ótimo fim-de-semana pra você.

ps: entre em contato com o Tuca pra marcarmos um encontro logo mais. Que acha? ;-)

Anônimo disse...

Oi Kandy,

Outro dia desses escrevi algo sobre como coisas passageiras e quase instantâneas são importantes em nossas vidas. Como uma rosa que se ganha e morre alguns dias depois, mas que permanece conosco por muito e muito tempo. É o que me pareceu a sua Flor de Lua. Rápida, fagueira, mas eterna...

Obrigado pelo texto e pela viagem que ele nos proporciona.

Bruno Peres disse...

Que sonho legal..
eu quase nunca lembro dos meus sonhos....

e vc ta ficando especialista em photoshop, né ?

bjs