03 fevereiro 2009

Inocência

Carregue o vídeo (Return to innocence, de Enigma) antes de ler o texto. Depois volte, e preste atenção às imagens. É importante voltar.



A gente sempre convive com a certeza inabalável de ter pela frente a vida inteira, longa e interminável. Porém, à medida que vivemos, perdemos um pouco da nossa inocência.

Aprendemos a ter medo, a mentir e omitir, a enganar, difamar, iludir – a nós mesmos e aos outros –, a julgar e condenar, a dissimular o que sentimos e, o pior, a não sentir, porque, quanto mais vivemos, mais perdemos o sentido de ser.

Perdidos ficamos e mais nos perdemos. E, como tudo fica curiosamente mais difícil, gastamos nosso precioso tempo maquinando facilidades. Na ânsia de desatar o que tomou proporções emaranhadas, simplificamos também o coração e a memória, incapaz, agora, de lembrar o quão inocentes já fomos.

Houve um tempo em que parávamos para ouvir, arregalando os olhos, como se eles ajudassem a melhorar a audição. Olhávamos mais para as pessoas. Reparávamos nelas, falávamos mais com elas, usávamos mais a gargalhada, éramos sinceros. Comprávamos fiado na quitanda da esquina (o que é quitanda mesmo?), confiávamos, acreditávamos, trocávamos figurinhas com vizinhos, na casa de quem sempre havia uma xícara fumegante de algo bom e acolhedor. Sentíamos mais perfumes, aroma de bolo quente, sabonete grande, fruta suculenta. Amávamos essências.

Mas que desconsolo! À medida que crescemos, constatamos que a experiência é chata; as escolhas, quase sempre monótonas; e, ao chegarmos à velhice, damo-nos conta de que o destino é uma reta emparedada, ao término da qual há algo que já não importa mais, porque perdemos a importância.

Parece que vamos perdendo a cor. A graça da descoberta se vai e, com ela – e com um vento misterioso chamado responsabilidade –, escoa toda a nossa curiosidade. É nesse quando que tudo serve, tudo é igual, todos são coisas, a mesma coisa.

Ficamos na mesma, um mesmo imenso. Tornamo-nos nós mesmos, sem saber disso.


Para Dona Dulce, sempre tão expressiva, que hoje voltou de vez à inocência.

21 comentários:

Leo disse...

Oi, Kandy,
Demorou para colocar um texto novo no blog, mas valeu a pena esperar!
Que texto lindo. Fala de forma belíssima de um lado da vida.
Acho que foi um dos mais bonitos que você já escreveu até hoje.
Parabéns, beijos,
Leo

Urupês disse...

Quanto mais eu vivo mais tenho certeza da verdade daquele trecho de música: ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

Cada dia é um repetir os passos, é fazer as mesmas coisas que outros fizeram anteriormente mas, que em nossa arrogância, achamos idéditas.

(Gostei mesmo dos velhinhos portugueses do vídeo).

Bjs do olvidado, Ricardo

Talita disse...

Lindo texto Kandy, muito sensível...

Pablo Albino disse...

Kandy,
Definitivamente você é uma artista!
Mais uma obra de arte, palavras que tocam os sentimentos, que nos fazem refletir e tentar viver a vida da melhor forma possível.
Parabéns!
Um grande abraço,

michely disse...

Oi Kandy.
Adoro seus textos, mas esse, particularmente, é o meu preferido...
Parabéns pelo seu dom, a sensibilidade de tocar; de forma encatadora; as pessaos com palavras tão belas...

Bruno Peres disse...

lindo texto kandy...

mto dificil retornar a inocencia nos dias atuais... principalmente nessa cidade!
Mas precisamos sempre nos esforçar...

Dom Ramon da Bolandeira disse...

Como já disse um personagem do Crash: damos esbarrões para sentir a outra pessoa, hoje falta toque.

Tudo para nós tem sabor, cheiro, cor e som de zeros e ums, nossas sensações são em forma de sistema binário e massificado.

Nossa felcidade é inversamente proporcional a nossa idade (escrevi isso em algum post em meu blog) e é por isso que sempre estamos na nossa praia preferida: a praia da melancolia, em que o movimento das marés mostra a repetição da vida adulta.

Na primavera escrevi, ao me referir ao ano novo, que nunca quis receber tanta "paz, saúde e felicidades" como sempre me davam todos os parentes, amigos e até estranhos, na infância.

EMEL chegando..
Até mais...

Vinícius "Elfo" Rennó disse...

"Vamos voltar, vamos voltar,
Vamos voltar além dos montes..."

Esta é uma parte da minha música preferida, na qual se fala de tempos imemoriais em que as pessoas e o mundo eram mais inocentes. Mas o mundo parece que está ficando velho por nossa causa. Ou seremos nós que o vemos desta forma?

A abelhas que vejo no jardim
Parecem bem inocentes para mim.
Voltarei a ser inocente assim?

Márcio Almeida Júnior disse...

Parabéns pelo blog, Kandy.
É inteligente, bem escrito e diversificado. Virei sempre.

Odeio quando falam comigo. disse...

Nossa, que lindo!

arthur lacerda disse...

holla!
sou um estudante da espm
e segunda passada dia 9/02 eu recebi um exemplar na porta da espm da WAVE, eu li a revista e achei muito boa, com material excelente!!

e vim aqui pra parabenizar vc e seus amigos que ajudaram na criacao da revista. parabenizo tb todos aqueles que ajudaram na organização.

gostaria muito de, algum dia, ter o segundo exemplar em mãos. E queria saber se existe um meio direto de conversar com a direção da revista.

meu e-mail eh
sh4d0wsl4v3@hotmail.com
(maldita quarta-série hehe!)

Serjones disse...

enigma...
faz tempo que não ouço.

Ana Paula Sampaio disse...

Amo essa música... que me levou de volta a tempos onde eu era mais inocente... Saudades, saudades... Lindo post, prazer em conhecer!

rafael fermiano disse...

Aos meus 6 anos, eu corria e pulava, sem medo, de uma altura de 2 metros. Os pés firmes no solo batiam e já estava eu correndo de novo, subindo a escada para mais um salto;

Com minha idade atual me lembrei, encontrei o local e sem pensar sai correndo e pulei. Os pés bateram firmes, os joelhos tremeram. Não era dor, mas como se tivesse superado um medo. Um grande momento de stress. Um peso insuportavel.

Sou muito mais resistente que quando tinha meus 5 ou 6, mas meu corpo sente um medo que não tinha...

Quando comecei a escrever não tinha medo. Mas uma hora parei de escrever. Talvez o mesmo motivo de ter parado de pular.

De qualquer forma...tava com saudades dos amigos. Estou de volta!

Vou saltar como se tivesse meus seis anos..

bjos

Notícias em Foco disse...

Nossa! Palvras sentidas, vividas e transcritas aqui!. Intensa, e como sempre certa do que quer nos passar. É, também sinto falta de conversar mais, de ter alguém que me olhe e me encare como nos velhos tempos, olho no olho. Pessoas ou seres que sejam, e não apenas estão de algum jeito, só por estar. O desafio do século é encontrar alguém que é o que é.

Obrigada, por ser a Kandy!
Abraços de alegria para um coração feliz!

Gabrielle Andrade

Luciane disse...

Realmente, a vida "passa" e tudo vai ficando muito distante... nossas atitudes também se modificam... nos moldamos a um modelo de "mundo" que nem nós mesmos conhecemos... porque a vida é um mistério e só nos restam as lembranças do que fomos e fizemos.
Belíssimo texto!
abraço!
Luciane

Eurico disse...

Passei aqui para convidar a fazer uma visita ao meu novo site.

http://www.eucritico.com.br/


Espero que goste!


Abraços,

Eurico

Aenir disse...

Demorou mas voltou triunfante.

Parabens pelo belo texto.

Cléu Sampaio disse...

Meus sentimentos pela perda.

Aerson Albuquerque disse...

Mesmo na tristeza, é lindo dentro de você. Quisera outros pudessem ver, inclusive eu.

Simone Varoni disse...

lindo, amei! amei!!!!!!!!!