27 agosto 2007

Da cegueira de cada um


"Só num mundo de cegos, as coisas serão o que realmente são"
Ensaio sobre a cegueira, José Saramago


Uma das minhas cenas favoritas do cinema está em um de meus filmes preferidos: O fabuloso destino de Amelie Poulain.

A personagem principal, vivida pela adorável Audrey Tautou, é diferente de tudo. Enxerga as pessoas mais ou menos como a Blimunda, de O memorial do convento: extrai-lhes a alma, inserindo-a num mundo de possibilidades. Assim, acaba brincando com a vida das personagens do filme, mostrando-lhes outros pontos de vista.

Nesse intuito, de fazer as pessoas verem o que não podem ou não conseguem, Amelie pega um senhor cego pelo braço e percorre uma rua inteira, descrevendo a ele tudo o que a deficiência o impede de ver, desde os melões dispostos em uma banca, até o estado de espírito das pessoas que passam. Mesmo atordoado com tanta informação, a alma dele sorri de um jeito agradecido, porque tudo o que ele podia ver na rua em que sempre passava eram apenas cheiros, vozes e sensações.

Então, quando me dá saudade de ser humano, desses capazes de enxergar além da aparência, eu revejo essa cena e sempre me pergunto o quanto aquele senhor cego é mais feliz do que todos aqueles que Amelie descreve a ele.

"Como um cego pode ser feliz?", você deve estar se perguntando... A cegueira é, por um lado, uma limitação física, decerto. Mas, por outro, é um portal que permite ir além do que todo mundo vê. Só os cegos alcançam o que os olhos não vêem, só eles entendem a essência das coisas sem se deslumbrar pela imagem, pela cor, só eles valorizam os cheiros, as vozes e as sensações de uma maneira delicada e profunda, numa dimensão que, apesar de escura, traz muito esclarecimento.

Ver o que as pessoas carregam dentro de si, enxergar o sentimento delas sem precisar interpretar-lhes as feições, aguça os sentidos de uma forma invejável. É ver sem precisar de olhos. É debruçar-se no outro pelo que ele é, não pelo que veste, pelo penteado que tem, a cor do olho, o sorriso perfeito, a cor das bochechas, o furinho no queixo ou os lábios rosados.

E, ironicamente, tanta gente com olhos sãos sofre de cegueira, tantos míopes que, mesmo de óculos, não enxergam um palmo à frente do nariz, tantos olhos de todas as cores perdem tempo olhando para o nada em vez de fecharem-se e olharem para dentro de si, onde estão as respostas que procuram, tanto óbvio salta aos olhos e ninguém vê... Uma ilusão de óptica, sem dúvida.

Então, por tudo isso, sempre que vejo a minha cena preferida do filme, não penso na bondade da Amelie em fazer o que, para ela, era provocar uma mudança de perspectiva, porque, se analisarmos bem, o senhor cego do filme não precisava que Amelie lhe descrevesse o que ele não enxergava. Ela quis ser gentil, numa atitude proveniente da visão ingênua de que ele estava perdendo o melhor de toda a rua movimentada num dia de sol. Mas ele foi mais gentil ainda em não lhe recusar a gentileza, porque decerto enxergava muito mais do que ela. E, ao contrário de quem vê, ele não quis ser rude.



Aqui em São Paulo, a Fundação Dorina Nowill aceita voluntários que tenham quatro horas contínuas semanais disponíveis. Uma das funções mais legais é ser um ledor: levar literatura para quem só consegue ler em braile. Você pode ajudar gravando livros falados ou executando outras tarefas, colocando à disposição dos deficientes visuais um talento ou habilidade que você tenha. Fazer qualquer tipo de serviço voluntário é deixar de ser cego.

11 agosto 2007

Pelos seus belos olhos



O casal está jantando numa noite normal. Pouco tempo de namoro, mas um silêncio que compete com a eternidade. Olhavam-se de vez em quando, mas os olhares não combinavam. As intenções eram diferentes, eles não percebiam.

De repente, palavras dela:

Você não vai falar nada? — artifício feminino para demonstrar iniciativa.
Falar o quê? — instinto masculino defensivo.
Ah, qualquer coisa. Você tá muito calado, eu tô achando esquisito demais...
É que eu tô pensando...
Em quê? — curiosidade feminina inoportuna.
Então, justamente, eu não sei... — ingenuidade masculina que o universo feminino é incapaz de ler.
Como assim? — curiosidade feminina insistentemente inoportuna.
É, eu não sei... Eu não sei em que pensar, o que querer, o que fazer... — ingenuidade masculina não-cognitiva para o cérebro feminino.
Em relação a que exatamente? — inconveniência verbalizada.
Bem... er... a tudo.

Ela pára de mastigar e olha para ele de um jeito incrédulo. Engole o pedaço de pizza para balbuciar:

Tudo? Inclusive nós? — necessidade feminina de confirmação de uma mensagem previamente compreendida.
É por isso que eu estava quieto. Você é que puxou o assunto... — justificativa masculina objetivamente insuficiente.
Lógico! Silêncio não combina com pizza nem com namoro! — indignação invadindo a razão.
Eu não sei o que eu quero... Se quero continuar no emprego que eu tenho ou tentar algo diferente, se quero viajar pelo mundo ou fincar raiz em algum lugar, se quero pintar meu quarto de azul ou deixar como está, se quero continuar namorando ou ficar sozinho, eu não sei, eu não sei! Isso está me consumindo! — sinceridade masculina com grandes chances de ser mal interpretada pela percepção feminina.

Ela desiste de comer. Aquilo era de tirar o apetite.

Sinceramente, eu nunca vi alguém não saber o que quer! Todo mundo sempre quer algo. Pode ser o mais aparentemente impossível, sei lá, escalar o Everest, visitar a Lua, transar com a Madonna, acordar com uma moto nova na garagem, enfim, qualquer coisa, porque o mundo está consumista demais... É natural querer tudo! Nunca vi ninguém querer nada! — razão totalmente tomada pela indignação.
Tá vendo agora: eu. Não é por mal, sabe, eu tô sendo bem franco com você... Eu acho que essa coisa de não saber o que eu quero é da minha natureza... — justificativa masculina objetiva e irritantemente insuficiente.
Por quê? Você nasceu assim, por acaso? — ironia feminina cruel que quer dizer "tente outra explicação, por favor".
Não, não... Eu quis dizer que eu fui ficando assim ao longo do tempo... Eu acho... — justificativa masculina indecifrável para o universo feminino.
Ai, graças aos céus ainda tem salvação! Olha aí! Você disse "eu quis dizer". Tá vendo? No fundo, no fundo você quer alguma coisa... — sutileza feminina indecifrável para o universo masculino.
Hã? Eu não sei o que você tá tentando dizer com isso, mas eu tô aqui com um problema aparentemente sem solução... — tentativa masculina de trazer o universo feminino para a realidade.
Vamos tentar racionalizar essa situação. Você disse que não sabe se quer continuar namorando ou se quer ficar sozinho. Isso a gente precisa decidir, porque, não querendo pressionar, sabe, mas me diz respeito... — mania feminina de pôr os pingos nos is quando tudo é hiato.
Claro, é verdade — mania masculina de ser sucinto ao demonstrar sentimento.

Ele descansa o garfo no prato e olha para ela. Ela respira fundo e diz:

Você gosta de mim? — resquício da Inquisição.
Gosto. Você é legal, a gente se dá bem, eu admiro seu jeito, te acho bonita, rola química e...
Pode ir parando por aí... — resquício da ditadura.
Ué, por quê? — lentidão masculina em acompanhar a complexidade do universo feminino.
Porque, quando a gente quer alguma coisa, o olhar brilha. Eu vi agorinha nos seus olhos. Você falando assim de mim e seu olhar opaco de dar dó! — ingenuidade feminina em tentar explicar o que não é cognitivo para o cérebro masculino.
É impressão sua, não é nada pessoal, é um momento de indecisão meu, entende, não tem nada a ver com olhar... — justificativa masculina óbvia para o universo masculino mas ainda insuficiente para o feminino.
Ah, tem sim, senhor! Vai por mim: olhar opaco acaba com tudo, você nem precisa abrir a boca. Eu notei, o pior é que eu notei! Você não está mais a fim de mim, está? — leve indício de democracia pelo benefício da dúvida.
Eu tô! Quer dizer, não sei se eu tô. Não, não, eu tô sim! — sinceridade masculina entendida como cinismo pelo universo feminino.
Olha aí! Aconteceu de novo! Quando você disse "eu tô", seu olhar não brilhou! Nem uma faisquinha, nada! — típica atitude feminina de interpretar as profundezas que o universo masculino não alcança.
Pára de drama! Todo esse auê porque eu não sei o que eu quero?! Daqui a pouco isso passa... — tentativa masculina de trazer o universo feminino novamente para a superfície.
Não! Os olhares conversam, sabia? E mulher saca tudo pelo olhar. Ela só não entende se não quiser. — tentativa feminina de explicar as profundezas ao universo masculino.

Ela se levanta, pega a bolsa, dá um beijo no rosto dele com uma compreensão de fim-de-mundo, um gosto assim, de pizza com nunca mais, e diz, de um jeito característico feminino de deixar tudo enervantemente subentendido:

Não saber o que quer é o de menos, qualquer mulher compreende. O problema é não olhar brilhante... — jeito feminino teimoso de dizer "venha atrás de mim assim que eu sair e me olhe com vontade".

Ela vai embora. Ele fica olhando para o prato — jeito masculino de tentar entender o que não faz sentido e deixar as oportunidades passarem.

O casal estava jantando numa noite normal. Pouco tempo de namoro, mas um silêncio que competia com a eternidade. Os olhares não combinaram. As intenções foram diferentes. E ninguém percebeu.



A imagem que ilustra este post é um papel de parede que você encontra aqui.


30 julho 2007

Amigo pra cachorro


Quando cheguei em casa hoje, vi a Lua linda e redondinha no céu. Estava tão brilhante, talvez por causa do frio, que me deixei encantar. Mas faltava alguma coisa... Uma Lua assim tão imponente no meio do azul-marinho (que deveria ser celeste) estava silenciosa demais para o meu gosto.

Em noites assim, de Lua calada, sempre me lembro do Apolo. Por razões que talvez apenas Zeus conheça, o Apolo detestava tudo o que habitasse o céu. Latia para a Lua, para pipas, aviões, fogos de artifício, pássaros e balões. Só perdoava as estrelas. Era poético esse meu amigo, um dog alemão muito boa gente, que de cachorro só tinha a fidelidade, o físico e a onomatopéia — tem muita gente-cachorro que não chega aos pés dele.

Ninguém nunca me olhou como ele me olhava, jeito desvelado de dizer eu te entendo sem sequer levantar as sobrancelhas. Aceitava-me triste, entusiasmada, concentrada ou feliz, com os cabelos bonitos caindo sobre os ombros ou todo emaranhado num birote improvisado; de pijamas descombinados ou na elegância de um salto alto. Nunca desfiou uma meia de náilon minha, apesar de ter destruído meu escalímetro. Às vezes cismava em subir na minha cama. E ficávamos cada um com metade, em média uns cinco minutos, até que ele se enchesse de tanto aperto e resolvesse ir para o chão.

Até hoje, foi o único que me enxergou transparente, fazendo-me companhia, sem reclamar, em muitos longos finais de semana em que eu ficava em casa e a família debandava, revoada inquieta. Fazia o supermercado inteiro achar que eu era dona de um canil: "80 quilos de ração? Nossa, quantos cachorros você tem?". "Um", eu respondia. Era único mesmo.

Mal-agradecida que eu só pela gentileza da fiel companhia, premiava meu amigo dourado — melhor seria dizer de ouro — com um banho que encharcava o mundo. O Apolo era enorme. Só assim para abrigar coração tão grande. Íamos ora eu e ele, ora ele e eu, não se sabe quem levando quem para onde, rumo à saga de tentar fugir ou desencardir toda aquela área peluda. Eu sempre saía mais molhada, e ele, mais limpo. É o que dá misturar leão com cachorro.

Em compensação, eu o deixava andar no meu carro popular. Abaixava o banco e abria o porta-malas, convite perfeito para um passeio, porque, na coleira, era impossível andar civilizadamente com aquele ser mitológico fora dos portões de casa. Os quase noventa quilos dele sempre arrastavam os meus cinqüenta.

Invariavelmente, porém, acabávamos sempre no mesmo lugar: a casa da Sonia, uma dachshund muito da posuda, apesar do tamanho, que se dependurava nas orelhas do Apolo com uma coragem espantosa. A Sonia guardava o consultório da Florinda, criadora de são-bernardos e veterinária do bairro, a paciência em pessoa para limpar o tártaro daquela bocarra de cavalo que só o Apolo tinha. Era tratado no chão mesmo, sobre o cobertor dele — um de solteiro, que ele sempre carregava com a boca, dobrado, sem arrastar no chão —, visto que colocá-lo na mesa era missão para alguém bem mais forte do que eu e a Florinda juntas.

Não sei quantas tardes de sábado eu passei naquele consultório esperando os quase noventa quilos acordarem da anestesia e caminharem com as próprias pernas para o porta-malas do meu carro. Não sei quantas vezes levei o carro para lavar depois de ter sido marcado tão carinhosamente por montes de babas alegres por voltar para casa, nem quantos chumaços de algodão gastei para limpar aquela vastidão de orelhas sem fundo ou quantas foram as tentativas de fazê-lo parar quieto para trocar os curativos da orelha operada para retirada de coágulo.

Quanto trabalho!, todo mundo dizia. Não entendiam que, quando a gente ama verdadeiramente, se doa de um jeito desinteressado e espontâneo, que compensa supostos esforços que nunca existiram, nada mais que uma troca: eu cuido de você, você me ensina a ser melhor.

Estabanado, guloso, divertido, desengonçado, carinhoso, folgado e sem noção de direção, proporção ou espaço, esse meu cachorro me ensinou a semântica de sua denominação: era mesmo um animal para estimar, meu bicho de estimação por oito anos e meio.

Não me lembro o ano em que o perdi, só sei que faz tempo, muito pra mim. A saudade é mesmo assim: se estica até não poder mais quando o amor é maior que a gente. O Apolo morreu dormindo, depois de, sem saber, termos nos despedido rolando longamente pelo chão em brincadeiras afoitas.

Hoje eu entendo por que ele não latia para as estrelas.


15 julho 2007

Absurdo

Eu deveria ser fútil e um tantinho burra, daquelas que falam besteiras sem perceber, para quem referência é tão-somente uma carta elogiosa assinada por um ex-patrão qualquer, em cima do qual já deram — ou para quem já deram, tanto faz.

E deveria ser menos dedicada às pessoas. Falta-me um tiquinho de egoísmo. E roupas mais ousadas, decotes mais profundos para evidenciar seios siliconados que eu não pretendo ter. Eu deveria me enquadrar, sabe? Aquela coisa de padrão: uma etiqueta imaginária de ÓBVIO bem legível pregada na testa. Trabalho nenhum para entender.

Não poderia mais sacar piadas de primeira ou ser espirituosa, porque contexto teria de ser apenas sinônimo de legenda curta, do contrário eu não conseguiria ler, pera lá! Deveria me contentar com qualquer tá e monossílabos do gênero em vez de buscar explicações, deixando todas as incógnitas restritas aos livros de Matemática. Nada de pensamentos complexos.

Ser mais consumista e pensar só em moda, sapatos e batons. Ser menos bem-sucedida, talvez com um pé no limite do cheque especial, carregando dívidas homéricas provenientes de juros acumulados em trezentos cartões de crédito abarrotados de gastos dispensáveis que, elementar, algum idiota se achando indispensável pagaria para mim com sorriso nos lábios e sussurros de "gostosa".

Eu não deveria ter cursado (e aproveitado) uma boa faculdade nem aprendido outra língua. Errei feio. E deveria parar de usar um vocabulário erudito conjugando verbos certo. Anômalos deveriam ser meus neurônios a ponto de assassinar o português com doses generosas de ignorância pura no agora sim e no daqui a pouco também.

O ideal seria me despir sem pudores e com mais freqüência para qualquer homem que balbuciasse clichês camuflados em sorrisos interesseiros. Junto com a roupa, eu também teria de deixar meu senso crítico. Essa coisa de questionar, analisar, ter opinião própria... chatices assim não estão com nada. Isso, falar mais gírias permeadas de uns palavrões também me faria bem.

É, eu deveria mesmo passar mais tempo em salóes de beleza, em cima de um salto quinze de ponta bem fina, que me faria andar feito uma galinha limitada que não pode afastar as patas mais que dez centímetros para não perder o equilíbrio. Mascar chiclete de boca aberta e usar bolsa minúscula de marca carérrima permeada de cristais Swarovski dentro da qual só coubesse um rímel, tudo de que preciso.

Deveria abolir de meus comportamentos conhecimentos políticos e noções de cidadania, para quem ecologia seria apenas a ciência que estuda o eco, o que, sem dúvida, provocaria umas risadinhas masculinas certamente acompanhadas de desejo.

Seria proibido saber que país fica onde, quantos continentes tem o mundo, o que é Meridiano de Greenwich e qualquer verso do Hino Nacional. Cantá-lo inteiro, então, nem pensar! Muito menos saber o significado de "plácidas", "retumbante", "penhor" e afins... caso para internação. De preferência em um spa.

E essa coisa de se virar nas emergências também deveria acabar. A solução seria ter na agenda do celular cor-de-rosa com adesivo de menina superpoderosa uma lista de telefones masculinos com quem já tivesse transado, para quem ligar com voz de desamparada e entonação infantil pedindo uma ajuda inocente no meio da rua do outro lado da cidade.

Eu teria de aprender a fazer cara de interrogação quando fosse a algum lugar cultural, perguntando mais durante as sessões de cinema o que está acontecendo no filme. Interpretá-los está definitivamente fora de cogitação.

Seria necessário doar meus livros para, no lugar, colocar vários CDs de axé e pagode, revistas femininas com conselhos picantes sobre posições sexuais ou testes de múltipla escolha cientificamente comprovados para avaliar minha auto-estima, se sei cuidar dos meus namorados, se uso o perfume certo ou se sou capaz de segurar um cara na cama.

Eu deveria ter nascido de-vez-em-quando no lugar de ter nascido constância, mulher para ficar em vez de mulher para amar. Tinha de saber tratar os homens como objetos em vez de cogitar considerar o que sentem. Nunca pedir por favor por educação, mas só quando fosse preciso fazer manha. Ser uma daquelas namoradas bem grudentinhas, que ligam quinhentas e cinqüenta vezes por dia sem assunto, só para trocar respiração, e que andam rebolando e sabem empinar a bunda como ninguém.

Teria de parar de ler manual de apetrechos eletrônicos para, com a mesma voz desamparada e infantil das situações de emergência, pedir para o namorado da vez — que, diga-se de passagem, eu teria de aprender a chifrar — se sentisse poderoso e inteligente ao decifrar os três botões de power, menu e reset.

Deveria falar hormônios e comer com os olhos, jogando meus longos cabelos para lá e para cá feito comercial de xampu em vez de tentar evidenciar sentimentos sinceros e questionar minha solidão todo santo dia. Jogar mais e transparecer menos, exceto nas blusas, porque o vulgar nunca foi tão valorizado, nós sabemos.

Quem sabe assim eu não constatasse que beiro mesmo o absurdo.





07 julho 2007

E alguém se apaixona hoje em dia? (diálogo entre textos)

I


"— Você já se apaixonou de verdade?
— Sim, já.
E você contou pra ele?
Ele nunca soube.
E por que você nunca contou?
Há coisas que não precisam ser ditas."

Em busca da felicidade. República Theca/Alemanha (2005).
Direção:
Bohdan Slama.


Ele não a via, e ela sabia. Ele nunca soube. Talvez nem o nome dela soubesse. Mas dele ela sabia cada contorno; sempre tivera boa memória. A dele é que era dispersa. Tudo nele era muito nebuloso. E ela nunca gostara de sol. Sempre silenciosa, preferia a intensidade da paixão à claridade de qualquer verão. Disso ele também não sabia. Ela nunca lhe disse.



II

"Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será."


"Não se mate",
de Carlos Drummond de Andrade.
In: Brejo das almas. São Paulo: Círculo do Livro, 1996, p. 111
.


Hoje ela olhou para ele com aquele jeito de interesse sorrindo de canto. Ele, feliz, andou suave em reciprocidade a manhã toda. Até vê-la olhando do mesmo jeito interessado e sorridente para o melhor amigo dele. Amanhã não olharia mais para ela nem imaginaria mais os beijos que dariam. Depois, ninguém mais soube dele.



III


"Amores que puderam ter sido e não foram"


Gabriel García Márquez.
In: Memórias de minhas putas tristes.
Rio de Janeiro: Record, 2005.


Enquanto ela dançava alegremente remexendo as saias com as pontas dos dedos, era observada por eles. Para cima e para baixo iam as saias e os olhos dela. Ela era mesmo cheia de amores que podiam ter sido e não foram. Só para ser admirada, nunca amada. Talvez por isso sua coreografia fosse tão boa. Dançava conforme a música.



IV

"Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem, depus minha vida em ti.
Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar, quando caí."


"Epigrama n.º 8", de Cecília Meireles. In: Viagem vaga música.

3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, p. 86.

Aparecia de vez em quando, vasculhando as gavetas com o olhar inquieto. Tinha esquecido algo, sempre esquecia. E por isso voltava. Não por ele. Liberdade demais presa num corpo bem-feito, isso ele entendia. Até o dia em que ela voou. O que esquecer ali, não havia. E, mesmo no chão, isso ele entendia.


30 junho 2007

Volúpia


À vista ou a prazo, comercial ou doméstico, balas coloridas ou somente as vermelhas, impresso ou digital, mp3 ou wma, com ou sem juros, pré ou pós-pago, novo ou reciclado, colorido ou preto-e-branco, no sol ou à sombra, cara ou coroa, original ou pirata, arrumado ou fora do lugar, nacional ou importado, ele ou ela, aquele ou aquela, vai logo ou espera aí, convite ou decepção, com ou sem gelo, garfo ou colher, prato raso ou prato fundo, massa fina ou massa grossa, com ou sem colarinho, limão ou laranjada, integral ou desnatado, casca branca ou queimadinha, chá gelado ou bem quentinho, açúcar ou adoçante, eu ou nós, dança ou reflexão, tempestade ou céu aberto, escarcéu ou mudez, drama ou comédia, maquiagem ou transparência, curto ou comprido, convívio ou saudade, cremoso ou cintilante, neutro ou com perfume, amanhã ou depois, cotidiano ou absurdo, uniforme ou desigual, par ou ímpar, alma ou matéria, verdade ou ficção, particular ou coleção, cano curto ou cano longo, movimento ou introspecção, ar ou chão, realidade ou imaginação, ponte ou abismo, já ou mais tarde, razão ou coração, hesitação ou entrega, no meu apartamento ou no seu, branco ou tinto, com ou sem couvert, tradição ou novidade, lábios ou silêncio, renda ou algodão, no escuro ou no claro, com gosto de morango ou sem sabor, convencional ou inusitado, aqui ou mais pra lá, língua ou quadril, dentro ou fora, rápido ou impulsivo, espasmo ou gemido, falta de ar ou palpitação, reto ou atalho, tudo ou nada, agora ou nunca, dois.


24 junho 2007

Ignorância

Praia da areia preta - Guarapari - ES


Eu achava que existia. Até ontem. Não, não, eu não morri; apenas nunca existi. Dei-me conta da minha transparência e senti toda a importância que eu achava que tinha escorrer violentamente pelo ralo do descaso.

QUEM VOCÊ PENSA QUE É?

Não sou ninguém. Ignorada quer pela falta de reciprocidade, quer pelo desinteresse de notícias e telefonemas não recebidos, quer pela ausência total de criatividade forjada em plágios descarados. Aniquilaram minha originalidade retirando-me a vontade de escrever e de criar, apagaram as lembranças que tinham de mim dissolvendo-me a naturalidade de confiar.

Ser neutralizada pela descrença é como acordar cinza e vazia por terem-me arrancado a presença. Virei fantasma de valores insossos, inexistência de sentimentos.

QUEM SE IMPORTA COM O QUE VOCÊ SENTE?

Se eu não existo, não há por que se importarem. Se não me enxergam, não há por que me fazer notar. Se querem que eu apenas passe, por que insisto em ficar?

Infelizmente, a individualidade e o egoísmo alheios têm sobrepujado meus esforços de não ser generalização.

No entanto, apesar de saber que eu não existo, não me roubaram a identidade. Imitaram-na, ignoraram-na, calaram-na. Mas ela ainda é minha. E é ela que me faz perguntar:

QUANTAS VEZES É PRECISO RENASCER?