09 setembro 2006

Gritaria


Os cabelos encaracolados dela caindo suavemente sobre os ombros não foram suficientes para fazê-lo se apaixonar. Nem o olhar que ela lançava carregado de significados, o perfume que vinha naturalmente dos pensamentos que se dispersavam ou as palavras acolhidas com boa vontade.

Ela suspirava violoncelos, mas pisava manso para não assustá-lo. Se ela soubesse que, por dentro, mais tarde, ouviria um estardalhaço confuso de sensações inexplicáveis, teria feito mais barulho.

Mas também não adiantou falar baixo, olhar quieto ou sussurrar sinceridades. Ele não queria ouvir esse tipo de coisa; decerto preferia algo mais clichê, para que não fosse constantemente surpreendido com dizeres originais que o deixassem sem fala ou exausto de raciocínio. É tão mais fácil lidar com o convencional; ela se esquecera desse detalhe.

Isso deve tê-lo intimidado mais do que qualquer ruído repentino e sem querer. Talvez fosse melhor uma farsa, um padrão, o óbvio; um sorriso dissimulado, gestos premeditados, o comum. Desvendar leva tempo, algo que, aparentemente, ele não estava habituado a ter.

A ela restava acostumar-se ao surpreendente, mas isso ela não sabia, embora fosse diariamente tomada por constantes surpresas: pensamentos que até então não tinha, sensações com as quais ainda não sabia lidar.

Mesmo assim, convicta, continuou pisando manso e saiu. Lá no fundo, porém, queria, sim, acordá-lo. Pena ele não ouvir o barulho intenso e ensurdecedor que tudo dentro dela fazia.

Foi embora resignada, esperançosa de que um dia ele ouvisse, ainda que por um momento, toda aquela gritaria.

Legenda da imagem: Excerto de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Exposto no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.



6 comentários:

Glaucia disse...

Esse ficou bonito heim!
Foi a inspiração do museu ou coisa parecida?
BJS

Jana disse...

lindo :)
bjs

Glauco disse...

Parabéns, Kandy! De novo! Faz tempo que estou no blog... Domingão correndo... Ops, segunda-feira! Já é madrugada!

Nata. disse...

Se o final fosse feliz, diria que você copiou o texto de algum roteiro de filme norte americano....
Gostei!
Quem nunca passou por isso, sai gritando pelado no meio da rua!
Bjo!

bruno peres disse...

se vc fosse a uma vidente, ou coisa do tipo, ela lhe diria que uma coisa é certa em seu futuro : vc ainda ter um texto, declamado pela marisa monte na praça das palavras no museu da lingua portuguesa.....

Ricardo disse...

Busco uma palavra no museu, dentre as tantas que lá existem, mas fico perdido na escolha de uma só. Fascinante? Poético? Magistral? Não sei. Talvez só Guimarães, com suas criações iniguálaveis, pudesse definir seu texto.