23 setembro 2006

Sol das almas

Eu adoro o Sol, não só por eu ter um signo solar e ser regida por essa estrela, mas também pelo fato de ele exercer um certo fascínio em mim.

Os dias nublados, para mim, além de me cegarem por causa dos meus olhos claros, banham-me de uma melancolia arrastante. Aquele branco todo dominando o céu, como se todo o azul tivesse entrado atrás de alguma nuvem numa brincadeira insensata de esconde-esconde, denota ausência. De energia, de alegria, de vida, numa monocromia nada original.

Com Sol, não. Ele muda o humor, a disposição, e monta cenários dignos de serem imortalizados pela fotografia: está sempre lá, marcando ponto nos cartões-postais. Ele é tão fantástico que, apesar de evidente no céu ofuscando o mundo, discretamente vai colorindo tudo em tons difíceis de serem copiados.

Mas, durante a semana, só posso contemplá-lo ou na minha hora do almoço, quando caminho, ou da minha sala, onde trabalho, que tem duas janelas. Uma eu tive de tampar com papel branco para filtrar um pouco a incidência da claridade, que me atrapalha muito, mesmo com a persiana fechada, pois meu computador fica bem na frente dela e eu preciso ler muito nele diariamente. A outra, não. Todos os dias, quando chego pela manhã, a primeira coisa que faço é abrir a cortina dessa. Há dias em que paro para admirar o céu cor-de-rosa, meio lilás e alaranjado, numa aquarela divina típica de final de tarde. É esse o que chamam de “sol das almas”: um sol que não aquece, geralmente tímido, depois de um pouco de chuva.

Isso sempre me lembra que, como dependemos da luz solar para viver, é natural que alguns de nós tenhamos dias de sol das almas, quando ressurgimos timidamente brilhantes depois de termos chovido intensos, quer por não sermos contemplados ou sermos apenas admirados tão-somente como cartões-postais, quer por não conseguirmos ser de fato o sol de alguém apesar de esforços interplanetários, num desconforto incômodo e enclausurado que não aquece o coração, mas que, mesmo assim, espalha tons únicos de um não-sei-quê de beleza.

Chego à conclusão de que somos iluminados, de fato, porque poucos são os que têm coragem de olhar para o Sol e deixar-se chover. A maioria fecha os olhos.



Trilha sonora para este texto: Palavras de um futuro bom, de JotaQuest.
Legenda da imagem: pôr-do-sol visto do Forte de São Marcelo, em Salvador.


5 comentários:

Edson disse...

Dizem que algumas pessoas tem uma certa sindrôme. A sindrôme do cinza, sou uma destas pessoas que como você odeia,os dias cinzas. Odiar?? odiar é forte não ?? Mas mesmo assim eu odeio dia cinza, esta mesma monocromia que voce cita, me causa efeitos colaterais diversos, deixa o meu humor também monocromatico, monossilabico... a ausencia da cor e das sombras, do calor e do brilho que somente o sol seja ele escaldante ou não a mim pouco importa, são insubistituíveis !!
Não resisti ao comentário, e a proposito, como voce escreve bem. Tenho uma amiga no Tocantins que tem surtos de escritora, no caso dela são surtos mesmo, pois ela é advogada, mas também é tão intensa quanto.

Ricardo disse...

Kandoca, gostei do seu texto, apesar de gostar de dias nublados, como hoje. Sei como vc AMA o sol, em hoje deve estar macambúzia... Bjs.

Andreia disse...

Kandy,
sabe que eu, como você, sofro desse mal. Sinto muita falta mesmo do Sol e chego até a desistir de certos compromissos se ele não aparece... Hoje mesmo estou tristonha... Não fui ao parque como poderia ter ido se estivesse um dia ensolarado.
Apesar de não gostar de calor intens, um friozinho acompanhado de um céu azul e o Sol colorindo a nossa vida, fazem muito bem.

Beijos

Jana disse...

Amiga
eu tb amo o Sol- e os regidos pelo Sol, rs, não é à toa que os leoninos são freqüentes em meu quadro de amigos, rs- e entendo perfeitamente seu texto. Tb fico tristinha em dias frios, principalmente naqueles regados a garoa- não gosto de garoa, pq ela é indecisa: não é nem vento nem chuva...
Aliás, Kandy, eu sou amante da luz e de td que brilhe... Mas as dualidades são necessárias, e sem elas, a vida não teria a menor graça, né?
Bjs,
Jana

Fernanda disse...

Kandy,

Hoje fez um dia muito ensolarado aqui na minha cidade, após uns três dias seguidos de cinza. Por volta das 18h35, talvez um pouco mais, meu marido grita do quintal: Amoooooor, desce correndo com a câmera!
Saí em disparada. O céu estava inexplicavelmente azul claro, azul escuro, acizentado, esverdeado, uma coisa muito louca...cheio de estrelas e a luz do sol (que tinha acabado de se pôr) estava refletindo tão intensamente sobre a lua...não sei como explicar!!! Só sei que estava a coisa mais LINDA!!!!Tenho certeza que se você tivesse visto teria descrito magistralmente.
Realmente, somos iluminados!!!
beijoooooooooooooos
obs: não conseguimos tirar foto.snif.