04 fevereiro 2007

Por quem os sinos dobram


Para Luciana, por quem os sinos dobram


Quando estudei Luís de Camões na faculdade, tive umas das aulas mais inesquecíveis da minha vida. Em parte, porque a professora de Literatura Portuguesa era muito boa; em parte porque ter lições de amor é privilégio de poucos hoje em dia.

Para analisarmos o famoso Soneto de Camões, tivemos uma breve introdução sobre a história do amor. E foi nesse dia que aprendi, ainda que na teoria, o que é o amor verdadeiro, segundo os neoplatônicos, teóricos do amor.

Primeiro, ele tem de ser voluntário, pois quem o sente tem de consentir (isto é, sentir com consciência) em amar, precisa aceitá-lo. Também deve ser desinteressado, sobretudo da reciprocidade, o mais difícil a meu ver, uma vez que passa a ser um sentimento único, pertencente apenas àquele que ama, pois a parte amada está nele contida. Nesse sentido, torna-se uma afirmação de liberdade: é tão puro, intenso, real que dispensa a reciprocidade, por se bastar a si próprio (mas, se for correspondido, melhor ainda!). Por último, deve ser espontâneo, nascer espontaneamente, sem ter sido programado... Aquela velha história de não escolhermos quem amamos.

Essas três características precisam ocorrer simultaneamente. E quando isso acontece é que se ouvem sinos badalando estrondosamente em algum lugar imaginário.

No entanto, muita gente por aí diz ouvir esses tais sinos com uma certa freqüência. Nesses casos, geralmente o badalo vem acompanhado de fogos de artifício, estrelinhas cintilantes e uma explosão nuclear digna de acordar qualquer célula morta. Mas o badalo da paixão é infinitamente diferente do badalo do amor verdadeiro.

Essa euforia, o coração disparado quase saindo pela boca, a perna bamba, as mãos trêmulas, isso é paixão ou tesão, daqueles barulhentos mesmo, e precisa ser recíproco, sob pena de murcharem todas as estrelas, calarem-se os sinos e sumirem os fogos de artifício assim, de repente. O amor verdadeiro, por sua vez, é quieto, resignado, pleno. E só toca no imaginário, fazendo um estrondo muito particular, num fogo que arde sem se ver, causando ferida que dói e não se sente, um contentamento descontente, uma dor que desatina sem doer.

Quem ama de verdade anda solitário entre a gente, numa solidão acompanhada, porque se sente só mesmo estando rodeado de gente — a companhia desejada é só a da pessoa amada; quem ama de verdade cuida de ganhar em se perder, porque, ao identificar-se com o ser amado, se perde e pode abdicar de suas próprias características e razões em favor do outro, pode ceder sem ressentimentos; quem ama de verdade quer estar preso por vontade: sabe não haver saída e mesmo assim quer entrar.


Por isso amar de verdade é complexo. Por isso dá medo. Por isso gera insegurança. Mas quem ama de verdade é leal ao amor que mata, não um matar físico, parada cardíaca, falência múltipla dos órgãos. É leal à exacerbação do amor, à grandeza do sentimento.

É por pessoas assim, que amam de verdade desinteressadamente, que os sinos dobram. E só elas são capazes de experimentar a plenitude e toda a contradição que Luís de Camões tão sabiamente traduziu em versos (como o favor do amor pode causar amizade nos corações humanos, unindo-os, se é tão contrário a si mesmo?). Só elas escutam os sinos verdadeiros, aqueles que a humanidade inteira sempre quis ter certeza de existirem e que muitos já desistiram de ouvir, impregnando-se na mudez.

O amor é sempre uma guerra, conflito de sentimentos. Mas, se tivermos a sorte de sermos alguém por quem os sinos dobram, é porque vencemos, sentimos o amor verdadeiro, embora consentindo em servi-lo enquanto dure infinitamente, posto que é chama mortal. Mas isso já é outro poema...













Túmulo de Luís de Camões,
no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.
Foto tirada em agosto de 2005.

15 comentários:

Edson disse...

Risos.. acabei de responder ao e-mail que enviou do Jarbor, e nele digo coisas que casam com o que voce escreveu, estamos sincronizados.Se tivesse feito uma " visitinha " antes seria influenciado pela suas palavras. Será que os sinos tocam mesmo quando a gente quer reciprocidade ??

Anônimo disse...

!!!!!........
Quanta sensibilidade!...
Lindo texto, Kandy.

Janaína Perez disse...

Kandy,
Pela primeira vez seu blog me fez chorar... Eu imagino, é claro, que você deve até saber por que, rs. Uma vez no msn vc dizia que eu era romântica por excelência- eu ri, porque não sou adepta do que as pessoas classificam como atitudes românticas-mas depois você me explicou 2 das 3 características que você citou e eu tive que concordar...
Esse trecho: " (...)quem ama de verdade quer estar preso por vontade: sabe não haver saída e mesmo assim quer entrar.(...)" foi o que mais mexeu comigo... Não me lembro se te contei TODA a história, mas, se sim, você entende o motivo do meu choro. Senão, te conto esses dias.
Enfim, (suspiro), seria tão bom que as pessoas tivessem bem claro em suas mentes o que você tão bem expressou em palavras. Faz-me triste viver numa cultura onde olhar no fundo dos olhos de seu amado e dizer "Eu te amo!" soa como uma cobrança (de reciprocidade).
Vou parar por aqui antes que isso vire uma dissertação.
Parabéns pelo texto!
Bjs,
da amiga romântica,
Jana

AC disse...

Há um outro verso de Camões que me intriga pq parece se referir à Angústia que está para além de todo amor possível, aquele cerne irresoluto que "não pesa mais que a mão de uma criança" (ou menos ainda: pesa feito mão nenhuma, mq estamos sós):

"(...)lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê."

E que, quase por acaso, guarda alguma relação com o verso citado de Donne (nem que seja por contraste!):

"For Whom the Bell Tolls

"No man is an island, entire of itself; every
man is a piece of the continent, a part of the
main. If a clod be washed away by the sea,
Europe is the less, as well as if a promontory
were, as well as if a manor of thy friend's or
of thine own were: any man's death diminishes
me, because I am involved in mankind, and
therefore never send to know for whom the bells
tolls; it tolls for thee."

Marmota disse...

Hmmmmmm... Eu diria que estou no momento errado para tentar entender isso. Mas na teoria, é bem legal, sim... :)

Glau disse...

Adorei seu texto. E te digo que só acredito no amor qdo ouço os sinos badalarem. Caso contrário, não é amor...É algo sonso, incolor, insípido e inodoro, feito água. ( e nem é H2O...).
Amor faz barulho!

Anônimo disse...

Olha eu aqui outra vez!! Eu e a Glá estavamos falando sobre esse tema AMOR e mais uma vez , só para variar , não tinhamos a mesma opinião ...Aí ela diz, vai lá no blog da Kandy ver o que ela escreveu!!
SIMPLESMENTE LINDO o seu texto...
Mas, será que isso existe mesmo ...
Nunca ouvi sinos nenhum , já bebi muita água , isso sim!!!
PARABÉNS!!!

Angela disse...

esqueci de colocar o meu nome, rssssssssss.....

Bruno disse...

novamente SENSASIONAL
uma artista nata !!!!

Nata. disse...

A única coisa que consigo pensar agora é que o Amor é complicado...

É incrivel como você consegue escrever tão bem, sempre!

Balu disse...

Simplesmente bonito... uma forma lindissima e tão verdadeira de falar do amor.

Escreves muitissimo bem... Parabens!

Sara

Ricardo disse...

Aplausos!!!

Tuca Hernandes disse...

Amor, pra mim, é respeito também. Por si próprio. Sendo assim, amar incondicionalmente, sem reciprocidade, ainda é algo que tenho dificuldades para aceitar. Falo isso por já ter freqüentado os dois extremos de um relacionamento, do rejeitado e do que rejeita. Não vi nada de nobre nessas situações. Apenas um constrangimento, desses que te fazem sentir numa prisão. Quem experimenta o amor recíproco, entremeado sim por boas doses de tesão e cia, dificilmente volta a "aceitar quem não te aceita". Hoje, experimento esse bom sabor. Ainda bem.

Bjs

Fernanda Suaiden disse...

Concordo com as duas primeiras características! Hoje vejo o amor com outros olhos! Hoje sei que podemos mandar no coração!Fazer escolhas sim!! "Ele (o coração) é enganoso e desesperadamente corrupto, quem o conhecerá?" já dizia o profeta Jeremias...
Se deixarmos os sentimentos por conta do coração estamos perdidos!! Devemos controlá-lo!! E garanto que isso É POSSÍVEL!!
Amar é uma obrigação!! Devemos amar, amar, amar... Não é tarefa fácil a ser cumprida, mas devemos obedecer e TENTAR! O AMOR é privilégio de poucos hoje em dia, temos visto o amor de muitos se esfriado... sinal do fim dos tempos...
"O amor verdadeiro, por sua vez, é quieto, resignado, pleno." Perfeito!
Amo seus textos.
beijos com saudades.

rafael fermiano disse...

[link=http://umcaraquenaopresta.blogspot.com/2005/12/amigos.html]uma vez[/link]escrevi sobre o desinteresse da amizade. Acho realmente que o amor deve te-lo.