14 junho 2007

A vela, o pão e a procissão

Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa


Todos os anos eu vou à missa de Santo Antonio numa tímida igrejinha aqui perto de casa. Depois da missa sempre tem uma procissão. É, na metrópole mais desenvolvida do país, ainda existem bairros de vizinhança amigável, de crianças brincando na rua com traves improvisadas com pares de chinelos, de igrejinhas pequenas com procissão seguindo o santo.

Eu vou à missa porque simpatizo com Santo Antonio, que prefiro chamar de Santo Antonio de Lisboa — minha parte portuguesa falando mais alto. Mas não é só por isso que sigo a procissão com uma vela simples acesa iluminando o caminho. Não sou movida pela esperança de que o santo me ajude a casar, embora esse seja o motivo principal de a maioria das mulheres lá irem. Eu simplesmente gosto desse santo, porque ele me ajuda a achar as coisas perdidas, me ouve com uma paciência de Jó apesar de ser Antonio, tem aquele olhar complacente difícil de encontrar hoje em dia. Além disso, eu sou afeita a tradições e confesso adorar o caráter cultural que as procissões têm. Elas mostram mesmo a alma das pessoas.

Quando estive em Portugal, por exemplo, terra desse santo Antonio, pude visitar Fátima, onde há a Procissão das Velas. À noite, com tudo escuro, aquele mar de gente reza junto o terço, cada dez ave-marias em uma língua diferente, que é para agregar todos os povos que por lá passam. E todo mundo anda com uma vela na mão. A mistura cultural e a união de pessoas provenientes de cantos tão longínquos uns dos outros é tão emocionante quanto o visual de tudo aquilo: luzinhas cintilantes mostrando corações tão acesos.

Pois eu lá, comovida com tudo, obviamente quis participar da procissão. Mas eu não tinha vela. Estava com cinco euros no bolso, o que dá para comprar um monte delas. Minha ingenuidade brasileira fez-me crer ser possível adquirir a vela, receber o troco e ainda dar um sorriso amigável a alguma portuguesa simpática que as estivesse vendendo. Mas lá em Fátima as velas ficam em caixas de acrílico abertas, ao lado das quais há um vão, como a abertura de um cofrinho, onde são colocadas as moedas para pagá-las. O valor de uma era algo como trinta centavos de euro, o que significava que a nota que eu tinha no bolso era muito. No lugar onde as velas ficavam à venda não havia qualquer tipo de fiscalização, câmera, pessoas vigiando ou conferindo se o valor depositado correspondia mesmo à quantidade de velas tiradas das caixas. Santa honestidade!

Fiquei maravilhada com aquilo: só faltou cair de joelhos para agradecer o contato com a civilização. Entretanto, fiquei mesmo sem vela diante da impossibilidade de obter troco. Não que a lindíssima procissão não valesse uma vela superfaturada, mas é que a conversão para reais travou minha fé.

Pude me redimir de ter ido a uma procissão de velas sem uma vela em outra procissão, desta vez na cidade natal do meu pai, onde fiquei uma semana. O patrono da cidade, São Sebastião, estava sendo festejado justamente quando de minha passagem pela aldeia. A festa é linda. A procissão é de verdade. Nunca andei tanto na minha "imaculada" vida. Lá, as pessoas se comprometem com o propósito da procissão, levam a sério de um jeito que emociona estrangeiros, dedicam-se a tornar tudo bonito, organizado e inesquecível.

No entanto, todo santo ano eu me decepciono quando, aqui em São Paulo, vou à missa de Santo Antonio. Não com o santo nem com a procissão em si, mas com as pessoas. A maioria é de um egoísmo de irritar qualquer cristão, até os não praticantes. Talvez por isso precisem freqüentar a missa, ir à igreja, pedir perdão ou o que for. Mas já era para terem aprendido, não?

A impressão que me dá é que as pessoas só seguem a procissão porque é apenas depois dela que são distribuídos os famosos pães bentos de Santo Antonio, comumente tidos como fonte inesgotável de abundância até o próximo 13 de junho. A tradição diz que se deve deixar um pedaço daquele pão onde se guardam os mantimentos, para que nunca falte comida. Reza a história — e o padre — que o pão de Santo Antonio simboliza o pão que Jesus dividiu com os apóstolos na Última Ceia, isto é, representa a partilha.

Dividir é tudo o que aquelas pessoas não fazem. Terminada uma procissão onde só meia dúzia acompanha a reza enquanto o restante da centena fala da novela, reclama do trajeto, presta atenção no carro da CET interditando as ruas, reclama da fome, olha para as placas de vende-se dependuradas em qualquer portão, brinca de colocar fogo no copo de plástico que protege a vela, faz-se um tumulto ao redor do que era para ser um andor — os tempos modernos demandam que o santo ande de carro, coitado.

Pois aquela bendita gente depena o pobre do santo. Não sobra uma flor para contar a história. Arrancam tudo como se aquilo fosse prover milagres, suprir necessidades, arranjar casamentos hollywoodianos com homens estonteantemente belos, bons, honestos e românticos. É, faz mesmo bem acreditar em milagres.

E a partilha, a comunhão, o olhar o próximo e dividir com ele, tudo isso fica na promessa. As pessoas se engalfinham com saquinhos plásticos nas mãos pegando quantos pães o desespero e a falta de educação permitirem. Não olham para trás, não levam em consideração a existência de outras pessoas, não têm sequer vergonha daquela insanidade toda. Os mais pacientes, que ficaram esperando sua vez com uma civilidade d'além-mar e atitude cristã, acabam sem pão. Justo eles, que saberiam, como ninguém, multiplicá-lo em tantos pedaços quantos fossem necessários para satisfazer a todos.

Não sei se é ignorância ou egoísmo demais abraçando a alma desses pobres de espírito. Sei que é preciso ser santo para continuar perseverante na crença de que elas um dia serão de fato catequizadas, introjetando, independentemente da religião que escolherem, a máxima que salvaria o mundo de todo tipo de infortúnio: "ama o próximo como a ti mesmo".


7 comentários:

Patsy disse...

Oi Kandy, tudo bem?
Que lugar é esse dessa procissão que nunca vi passar!

Adorei a foto, estivem também no Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa, e gostei muito!!!

Deixo um beijo
Pat

bruno peres disse...

Muito bom o texto...
e a citação de hollywood é perfeita... ela e sua falsa realidade nos faz não perceber a nossa...
ando lendo muito sobre cinema e, consequentemente, sobre hollywood. Como uma industria pode mexer tanto tanto com o sonho das pessoas e faz o que ja é utópico perder todo o encanto e se tonar uma angustia...

Muito boa a foto...
ainda vou fazer uma viagem dessas e tirar fotos memoraveis...

Clei disse...

Filha, hoje tirei um tempo pra ler todos os textos que não havia lido.Como sempre, são ótimos e como sempre ....escreva um livro de crônicas...vc. leva jeito, menina...ia fazer sucesso. Escreve melhor que muito autor brasileiro..e olha que disso eu entendo - já li um bocado nestes meus quase 60 anos...
Mas vamos à procissão do Sto Antônio (pra mim de Pádua - meu lado italiano fala mais alto...).
Vc. descreveu direitinho meus sentimentos - tem coisa mais chata que estar rezando com um fundo "mal falante ou fofoqueiro"?
Acho que não.Acho até que muitos seguem a procissão por não ter nada melhor a fazer...
À propósito...eu tb. segui a procissão de S.Sebastião qdo fui à Trofa da primeira vez...Andei três horas atrás do santo..um calor danado...o Toninho segurando o pálio e suando...Vez ou outra olhava pra mim com aquele olhar de "por quê fui me meter nessa!".
Mas depois de terminada a procissão descobri que NINGUÉM fazia o trajeto inteiro...andavam um tanto, encontravam a casa da comadre e lá ficavam, encontravam um compadre e lá iam pra adega beber um vinhinho...Como disse a tia Laura: "Estavas louca?!Andaste todo o trajeto? Bem se vê que não és daqui!"
A fé, infelizmente, está em falta em muitos lugares!!!
Mamãe

Jana disse...

Hum...
Eu não sabia dessa procissão, pena que mal educados a estraguem.
Aqui em Diadema temos a da Imaculada Conceição, que eu vi uma vez, por acaso, mas amei.
Bem, querida Kandy. Faça sua parte. Não ligue pra essa gente mal educada e despreparada. Faça do seu coração um templo: lá ninguém pode acabar com essa coisa mágica que vc sente pelas procissões.

Bj e fica com Deus!

Ricardo disse...

Vida imaculada??? Sei... Um dia escreverei sobre as nódoas na sua existência. rsrs

Falando sério: reli o texto e reafirmo o que já disse: ótimo!

Glau disse...

Eu como companheira sua na tal procissão, concordo com tudo.
Mas vc não está esperando demais do ser humano?
Acho que já desisti dele, há tempo...

Guga Schultze disse...

Vim ver o blog, seu nome anda circulando lá no Digestivo Cultural. Aí fiquei curioso e vim ver. Tô achando ótimo, o blog. Esse conto da passagem, cheio de flashes metafóricos, muito legal. Os textos são todos legais, pra falar a verdade. Não gosto de religião, de jeito nenhum e de nenhuma forma, mas li o santo antonio, afmaria...
Bem, só para mandar um abraço e parabéns (sic) pelo blog. Tamos aí!