10 junho 2006

"Ouve o barulho do rio, meu filho"


Para o Bruno, que, além de ter uma alma acessível,
foi uma companhia entusiasmada neste episódio.


A música une as pessoas. “Todo corpo que tem um deserto tem um olho de água por perto.” É capaz de fazê-las, muitas e muitas delas, ficarem em silêncio ao mesmo tempo, apreciando as palavras, sentindo aquela harmonia de notas percorrendo a alma — porque a música, definitivamente, foi feita para deliciar a alma, que se inquieta com um ritmo agitado, fazendo o corpo dançar, ou fica introspectiva, provocando pensamentos filosóficos ou incitando a imaginação. “Vem andar e voa.”

O show da Marisa Monte foi assim. Muitas pessoas, de todos os cantos da cidade, ali, reunidas (“O mundo é portátil para quem não tem nada a esconder”), em silêncio, embasbacadas não só com a afinação estupidamente perfeita da intérprete, como pela intensidade da interpretação. Marisa Monte canta poesia sentindo e declamando por meio do ritmo os muitos significados de cada palavra. Transmite isso pela forma como canta e, entre uma música e outra, pelos comentários que faz. “Na varanda quem descansa vê o horizonte deitar no chão.” Mais poesia. “No caminho que ninguém caminha, alta noite já se ia, ninguém com os pés na água.” Filosofia. “Ó chuva preste atenção se o povo lá de cima vive na solidão.” Intensidade. “Seus olhos, meu clarão, me guiam dentro da escuridão.” Conquista.

E, como toca o que aparece — violão, cavaquinho, guitarra, gaita, contrabaixo, caixinha de música —, é natural que também toque o coração.

Mas o curioso mesmo é como, mediante uma obra de arte, nossa noção de tempo se deturpa. No meio daquele monte de poesias musicadas, com letras inteligentes, bem compostas, trabalhadas, o tempo voa. “Não se perca ao entrar no meu infinito particular.” O que é bom dura muito, nós é que usufruímos rápido, tamanha nossa sede, nossa vontade, nossa fome, nossa ansiedade, nosso envolvimento.

De nada adianta, no entanto, prestigiar um show desses, de voz e orquestra (violinos e violoncelo inclusos!), ou qualquer outra manifestação cultural mais complexa, se a gente não tiver uma alma talhada para isso. Há almas duras que não se abrem para a poesia, a arte ou a literatura porque ou não as entendem ou não as querem entender. São pessoas apáticas e resistentes a tudo o que possa deixá-las vulneráveis ao mundo (“do céu amor vai chover”), uma forma cômoda de resistir ao belo, numa tentativa insana de não sentir, não interagir, não ver o outro e, assim, ilusoriamente, não sofrer.

Então, essas pessoas não vivem. Ficam desse jeito, trancadinhas, cinzas, sem graça, indiferentes. Não há anestesia pior. E é aí que começam a nascer a alienação e a preferência por aquilo que é superficial e óbvio. (Interpretar dá trabalho.) É nesse solo que se fincam o mau humor, a falta de educação e o egoísmo. (Respeitar dá mais trabalho ainda.) E parece que comportamentos assim viram epidemia, contagiando tudo. (Importar-se, então, é um sacrifício.)

Exemplo disso já se vê quando a apresentação acaba. Depois de tanta boa música, de um contato mais direto com o sublime — talento, criatividade, afinação —, a maioria da platéia só pensa em sair, de preferência primeiro que o restante, feito boiada quando a porteira se abre (“a boiada seca, na trovoada seca”). Ninguém dá passagem a ninguém, ninguém pede licença, sorri, deixa transparecer a leveza da alma necessária à fruição de tudo o que havia sido apresentado. A alma dessas pessoas pesa. “Nós que passamos apressados pelas ruas da cidade merecemos ler as letras e as palavras de Gentileza.”

Por isso há quem não entenda arte, durma toda vez que ouve música clássica, quem ache poesia idiota porque só enxerga a rima (e, quando não tem rima, se sente enganado!), que olha para um quadro e só vê tinta, que ouve as palavras tal e qual constam no dicionário, que não entendem as sutilezas do humor bem feito. Pessoas assim limitam o acesso à própria alma como forma de autopreservação.

Mas se não nos abrimos para o mundo, arriscando sermos intensos, não nos encantamos, não aproveitamos tudo o que ele tem a nos oferecer, não treinamos nossos olhos e sentidos para usufruir as várias manifestações de arte.

Além da lembrança do belíssimo espetáculo de Marisa Monte, também ficou um aprendizado: o que mais distingue as pessoas atualmente é, sem dúvida, o quanto se permitem serem atingidas bem ali, direto na alma.


4 comentários:

Bruno disse...

Tenho apenas uma coisa pra falar :
outra metamorfose aconteceu

Bruno Peres (novamente) disse...

Eu estava lendo seu texto novamente, agora com mais calma e atenção.
Ficou realmente muito bom Kandy, este vc tb escreveu no trânsito ?

Essas partes :
"E, como toca o que aparece, é natural que também toque o coração."
"Por isso há quem não entenda arte, durma toda vez que ouve música clássica, quem ache poesia idiota porque só enxerga a rima ..."
são maravilhosas, perfeitas.
Como vc consegue.

Parabéns.. e muito obrigado por me dedicar o texto.

Kandy disse...

Bruno, este eu não escrevi no trânsito. Ao contrário dos outros que até então havia postado, este eu demorei mais. Escrevi e deixei lá, de molho, até ficar como eu queria. Enquanto sentia que faltava algo, não postei. É aquilo de "deixar o texto amadurecer". Tanto que escrevi outro antes desse e só fui postar o da Marisa mais de uma semana depois do show. Talvez porque filtrar todas aquelas sensações tenha dado um certo trabalho... Fico bem feliz por você ser meu leitor!

Anônimo disse...

Hummm gostei mais deste!!!!!!
Talvez porque vc falou de arte rs
Me causa indignaçao quando algumas pessoas falam:"O meu filho de 5 anos faz isso!"
De fato eh necessario ter um alma talhada!!!
Parabens novamente
bjus Camilla