24 julho 2006

Romântica incurável

Choro em filmes água-com-açúcar (chorar é modo de dizer. Eu me debulho em lágrimas mesmo, daquelas de lavar a alma). Derramo-me em despedidas, em casamentos, em dramas familiares. Um choro discreto, mais emocionante e saudoso do que propriamente triste.

Ouço trilha sonora mesmo no silêncio, como a personagem da Barbra Streisand em “O espelho tem duas faces”, que sempre imaginava uma ópera cantada pelo Pavarotti fosse qual fosse a situação amorosa. Quando essa trilha sonora existe de verdade então, ela me comove de várias formas: pelo ritmo, pela letra ou até pelas associações que faço com a música.

Escuto a mesma mil vezes sem enjoar. Assisto aos mesmos filmes quinhentas vezes, rindo e chorando sempre nas mesmas cenas, porque elas me tocam sempre nos mesmos pontos.

Sonho acordada, sinto cheiro de rosas sem flores por perto, venero gentilezas, impressiono-me com o cavalheirismo, aprecio demonstrações de carinho, vejo possibilidade em tudo e sempre tudo colorido e perfumado, como se flutuasse constantemente em uma brisa de ternura.

Mando cartões de Natal todos os anos, personalizadíssimos, escritos e feitos a mão em madrugadas sonolentas, mas com desejos sinceros de boas vibrações por pura convicção de que elas existem e operam milagres. Escrevo o que quer que seja sempre com a alma, com uma intensidade que assusta até a mim mesma.

Para mim, não há lugar para a má vontade, porque tudo precisa ser feito com amor. Do contrário, melhor nem fazer. Penso, penso e penso em muitas coisas ao mesmo tempo, sempre com um pingo de esperança misturado a um tonel de incertezas. O interessante é que, em mim, esse pingo de esperança nunca se dilui ou se evapora. Ao contrário, ele contamina todo o resto e faz voarem todos esses pensamentos, assoprando-os como bolhas de sabão em sonhos que se perdem em mim mesma.

Ajudo o próximo como gostaria de ser ajudada. Dôo-me inteira, porque de metades já chega o mundo, dividido bestamente em hemisférios. Nunca espero nada em troca, porque ser bom para os outros é ser bom a si mesmo, o que dá um brilho todo especial ao coração.

Vejo tudo belo e fico profundamente triste quando a realidade é mais cruel que o poder do meu olhar. Não sei lidar com injustiças porque minha crença no bem vai além de mim mesma. Hoje meu otimismo me surpreende, assim como sorrisos sinceros, dizeres espirituosos, demonstrações constantes de bom humor e olhares que dizem tudo.

“Tudo o que você faz é de uma vibração intensa”, disseram-me uma vez. Fiquei pensando nisso com uma certa curiosidade. Ué, mas não deveria ser assim com todo mundo? Pra que ser comum se podemos ser autênticos?

Acho que não. Só os românticos incuráveis têm esse dom. Ser intenso em tudo, colocar profundidade em tudo, ver todas as dimensões, colocar-se no lugar, sofrer de verdade, chorar de verdade, sorrir de verdade, entristecer-se sem vergonha de parecer piegas e melancólico demais. Sentir demais tudo com uma sinceridade cristalina. É bom e ruim, porque é bastante dolorido desenvolver a sensibilidade além da média.

Mas, para quem já é esquisita por natureza aos olhos alheios, isso é só mais um detalhe. Imenso, gigantesco, mas que me torna ainda mais romanticamente incurável — e especialmente diferente. Essa é a graça.


4 comentários:

Jana disse...

:) Bom me lembrar dos seus cartões agora! A internet fez com que o charme de enviar cartões tão personalizados qtos os seus se tornassem coisas raras. Uma pena!
Bem, Kandy, eu me identifiquei muito com o texto e me tocou muito o trecho onde vc fala sobre ter desenvolvido sensibilidade além da média: a gente sofre por isso. Mas tb somos especiais por isso, né?
Bjs e boa semana
Janinha

Glaucia disse...

Oie
Vc é tudo isso e muito mais!
Vc é tudo de bom! Te admiro muito por ser assim. É um privilégio ter vc como prima! Continue sendo uma romântica incurável e colorindo o mundo a sua volta!
BJS

Sérgio Klein disse...

Kandy,

a história de Macabéa não caberia num único título, por isso Clarice Lispector dá ao leitor de "A hora da estrela" uma porção de alternativas, como "A culpa é minha", "O direito ao grito", "Assovio no vento escuro", e por aí vai. Por que me lembrei disso agora? Acho que tem alguma coisa a ver com a visceral sinceridade do seu texto. "Romântica incurável" poderia ser traduzido para "Kandy de corpo e alma", "Como consegui me tornar eu mesma", "Auto-retrato no cartão postal" e (por que não?) "A hora da estrela".
Beijo,

Sérgio

Fernanda disse...

Você é um anjo!
Uma pessoa muito especial!
Só não permita que o sentimentalismo prevaleça à razão!! Nunca! Pois o coração é demasiadamente corrupto!
Eu amo vc.
bjs.............