29 maio 2006

Tudo tem limite?


O cara estava tranqüilo: bem profissionalmente depois de muito batalhar, tinha conseguido casa própria, algumas viagens de férias, um carro razoavelmente confortável, um celular com câmera digital, um computador com monitor flat e um iPod. Básico.

Um belo dia, porém, tendo deixado seu carro estacionado em uma rua mais tranqüila que ele, viu-se surpreendido por um até então cidadão, ainda mais tranqüilo que a rua, que disse a ele, enquanto apagava um toco de cigarro com a sola do sapato:


— Putz, tio, cê demorô pra caramba! Tô aqui esperando pra roubá você e seu carro faiz um tempão!

O cara da paz levantou a sobrancelha em sinal de protesto (é, é assim que os tranqüilos protestam: silenciosos, mas expressivos). Tentou reunir alguns argumentos enquanto observava o cigarro na calçada, todo amassadinho, para então responder:

— Desculpa, irmão. Isso não vai mais acontecer. Toma a chave, minha carteira, meu celular...

Diante da falta de reação da vítima, aquela subserviência gratuita, o ex-cidadão resgatou de suas profundezas obscuras um resquício de humanidade:

— Toma dois real, malandrage, pra você pegá pelo menos um busão. Aproveita que hoje eu tô bonzinho...

O cara da paz estava inteiro, embora moralmente destruído. Foi embora resignado, agradecido por aquela esmola que o permitiria chegar em casa. Eram duas conduções, na verdade, mas o ex-cidadão não tinha culpa, como ele podia adivinhar??!!!



8 comentários:

rafael fermiano disse...

Liberdade é morar em um apartamento com seguranças e porteiro. Na garagem carro blindado, e nas escolas, entre grades, um monte de futuros marginais com coletes à prova de balas...

EU ainda ando a pé, e sinto o vento em meu rosto, e acredito que os errados são "eles"...

Fica assim, você se delicia por lá(se conseguir haha) e eu sempre que puder dou um pulo na janela pra sentir esses ventos...

Fê disse...

Muito bom Kan, mais com quem vc aprendeu a falar assim!!!!rsrsrsrsrrsrs.Beijos

Ronaldo Pezzo disse...

Kandy, tem uma banda na estrada atualmente chamada F.UR.T.O. (tente achar na net, é fácil) que faz música e poesia com o olhar de quem está do lade de lá... tem uma música em especial, chamada "Amém calibre 12" que é violentamente realista. Dê uma olhada.

Neto disse...

É, a cada dia vemos mais e mais ex-cidadãos à nossa volta, infelizmente. Parabéns pelo texto !
Ah, e pela foto também ... de Portugal ?

Kandy disse...

Neto, a foto é de Portugal, sim, de uma cidadezinha chamada Mértola vista pela fresta do muro de um castelo (um ângulo bonito, mas de visão limitada). No caso da foto, é limitação do olhar; na história, é limitação de ação. Tudo invertido...
Obrigada por ler!

Bruno Peres disse...

Olha a kandy nos surpreendendo novamente....

desculpe a curiosidade, mas eu li uns comentarios e descobri que essa foto é de Portugal..... quando eu vou ver sua fotos, hein ?
E mais... aquela fê é a nossa fê ?
Deixei scrap pra ela, mandei msg no cel e ela não me responde, se falar com ela, diz que eu tentei me comunicar, mas não foi possivel estabelecer contato..hahaha.

Parabéns kandy...
Bjão

Sérgio Klein disse...

Olá, Kandy,

minha querida revisora, professora e, last but not least, autora!

Gostei de todas as idéias, mas a "primeira idéia na janela" tem um trecho simplesmente adorável. Com a sua licença: "passo a me perguntar constantemente quais intervenções a Kandy revisora faria nos textos dessa Kandy que aqui escreve".

Não pude deixar de me lembrar de Borges. No prefácio do livro Sete Noites, ele diz que "É ao outro, ao Borges, que as coisas acontecem", e que vive, deixa-se viver, "para que Borges possa tramar a sua literatura". Veja só como ele termina: "Não sei qual dos dois escreve esta página".

Também não sei qual das duas Kandy (ou três? quatro? quantas?) teve a deliciosa idéia de criar este blog. Mas isso não faz diferença. O importante é que você, que vocês abriram a janela.

Beijos,

Sérgio Klein

Kandy disse...

Sérgio, você, como sempre, é bem generoso. Primeiro, por me comparar ao Borges (quem me dera!), segundo, por me permitir aprimorar sempre a minha imaginação, mergulhando fundo na literatura, quando reviso seus livros. A idéia do blog não foi minha (eu até que era bem resistente a ela!). Mas confesso que está sendo bem divertido. Quando a gente decide colocar as idéias na janela, começa a arejar a mente... e isso é bem saudável. Eu não achava que as coisas poderiam se inverter um dia... que ironia, você, meu leitor! ;-)