12 junho 2006

Equação diferencial







Para Jana,

professora de Matemática
e amiga ímpar





“Crescei e multiplicai-vos.” O ser humano não nasceu para ser sozinho, ainda que freqüentemente esteja. Sim, porque ser e estar têm sentidos diferentes, embora sejam verbos “de ligação”. Quero dizer que ligam o ser humano à solidão de formas distintas...


1) A solidão nos faz ímpares se estamos sozinhos.

Desde pequenos vemos o ímpar com olhos não tão bons quanto aqueles com os quais vemos o par. Nas aulas de Matemática, os números ímpares são sempre os mais chatos, porque qualquer par é divisível por dois. O ímpar não divide tão fácil, dá conta quebrada, quebra a cabeça, é mais complexo. Talvez aí esteja a graça.

Na sociedade também é assim, por isso ela só sabe viver em par: é mais simples. Ser ímpar é um desafio e tanto. Sopa de pacotinho serve 2 ou 4 pratos; as salas de jantar têm 4, 6 ou 8 cadeiras; os assentos díspares que não foram vendidos permanecem sempre vazios nos shows; quando entramos sozinhos em um restaurante os garçons sempre perguntam “está esperando alguém?”; os aparelhos de jantar têm 12 ou 24 peças; qualquer promoção em rádio presenteia com “um par de ingressos” e por aí vai.

Aí reside o x da questão: as pessoas não estão preparadas, ainda, para lidar com o ímpar. E impor-se como tal, além de dar trabalho (a tal da conta quebrada), causa estranhamento. E quase todos os que vivem em par não se conformam com a condição dos que ainda vivem ímpares. Às vezes, ainda que inconscientemente, incomodam-se com a solidão alheia como se a felicidade dependesse do par, como se só fôssemos completos se estivéssemos ao lado da cara-metade. Esquecem-se de que já nascemos números inteiros. Todo mundo quer encontrar um par, é verdade, mas, independentemente disso, precisa aprender primeiro a ser ímpar.

Há dezenas, centenas, milhares de pessoas, por exemplo, que ficam com qualquer par porque nunca se aceitaram ímpar e, não raro, acabam numa regra de três. Há par que, apesar de admirar quem sabe estar ímpar, não tem coragem de ser feliz sozinho e prefere a infelicidade ao quadrado. Mas é preferível ser um ímpar em evidência a tornar-se um par nulo.

É sendo ímpar que tornamo-nos números positivos, temos a chance de nos conhecer melhor, de sermos independentes no bom sentido, de aprendermos a respeitar nossas vontades e observar que existem outras diferentes das nossas, de desenvolvermos nossa tolerância e de entender melhor o que é privacidade... nossa e dos outros.

Ir sozinho aos lugares, por exemplo, é espantoso para quem é par. Claro que ir em par é mais legal, mas, na falta de um, não se pode deixar de fazer as coisas. “Ué? Você veio sozinha?! Cadê seu namorado?”, como se minha presença como número inteiro estivesse pela metade. “Caramba! Você foi viajar sozinha? Você é corajosa!”, como se isso fosse uma incógnita na cabeça de quem só pensa em par. Há quem viva em par mas que só sai se for em par. Uma coisa é querer ir aos lugares com a cara-metade por apreciar a companhia dela; outra é querer ir com ela apenas por não saber ou não conseguir ir como unidade.

O ímpar atrapalha, como se fosse um elemento não contido no conjunto. Para ele sempre falta cadeira (porque sempre se está esperando um número par) e sobre ele impõe-se uma aura de melancolia gratuita: “Coitado, é sozinho”. Sempre fazem a conta errada... o produto do cálculo deveria ser
está sozinho.

Ainda que esse ímpar viva assim para o resto da vida por motivos que só o Universo conhece, sabendo ser ímpar — no sentido de “único”, “sem igual”, “autêntico” — e estar ímpar, enquanto não acha seu par, ele vai ser feliz, porque se basta a si mesmo e não vai esperar que alguém o complete. Quando encontrar seu par, ele vai poder se doar, inteiro, porque, em vez de se subtraírem, se completarem, eles vão se somar e saber dividir.


2) A solidão transforma os ímpares em números primos se são sozinhos. E separa os pares.

O outro verbo de ligação, o ser, é mais radical. Se alguém
é sozinho, sua condição de ímpar (no segundo sentido, de não-par) deixa de ser transitória para configurar-se infinita. Ele será ímpar sempre, ainda que viva em par. Não raro, apresenta sérias dificuldades em se relacionar com os outros porque quer tirar raiz quadrada de tudo e está sempre saindo pela tangente. Torna-se número primo, mais chato ainda, só divisível por si mesmo ou por um. Mais egoísta, impossível.

É sozinho quem, mesmo cismando em viver em par, não sabe estar ímpar. Torna-se um número irracional(1), um número negativo, um mero segmento de reta. Espelha-se no outro, espera do outro, depende do outro, projeta cem por cento de suas expectativas no outro, não respeita o outro como diferente porque, em vez de dois inteiros que decidiram viver juntos, pensa serem metades se completando, tendo de pensar e se comportar como uma única unidade. Esquecem-se de que nasceram dois e de que, como tal, já eram inteiros assim.

-x-y-z-

Eu estou ímpar e bem longe de tornar-me um número primo. Quero ser um número composto(2) e formar um par, mas não me sinto incompleta por isso, porque, apesar de não ser tão boa em Matemática, tenho sabido estar ímpar. Quero adicionar alguém à minha vida e ser uma equação diferencial na vida de alguém (é, eu sou complexa!), para multiplicar tudo de positivo que ambos contiverem em seu conjunto.

Feliz Dia dos Namorados.




P.S.: Há uma música do Tom Jobim que diz que “é impossível ser feliz sozinho”. Mas há outra, que dialoga com esta, chamada “Satisfeito”, de autoria da tríade Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, que contesta tal afirmação. Segundo a própria intérprete, embora os compositores dessa última canção sejam todos casados, acreditam que é preciso ser feliz primeiro sozinho para, aí sim, ser feliz com alguém.

(1) número irracional: que não pode ser representado pelo quociente de dois números inteiros.
(2) número composto: um inteiro que não é primo.


8 comentários:

glaucia disse...

Prima querida.
Eu, como vc sou impar.Em todos os sentidos , principalmente naquele que algumas pessoas usam para definir pessoas terriveis ou simplesmente "diferentes".
E eu acho que o importante é ser feliz nao importa como.
Nosso compromisso é sempre com a nossa felicidade e nao com nosso par.
FELIZ DIA DOS NAMORADOS PRA VC.

Nata. disse...

Concordo com você.
É importante o auto-conhecimento. Fica mais facil conviver com outra pessoa assim.
Já fui feliz sozinha. Mas sou bem mais agora, com o Rafa.
Gosto do "par" que formamos.
Mas acho que, por mais que já tenhamos sido um número sozinho, de certa forma, acabamos nos completando.

Jana disse...

Primeiro, obrigada pela dedicatória!
Segundo: não vi nenhuma incoerência matemática no texto.
Finalmente: ah, Kandy, essa história de equação diferencial...rs. Tem certeza q quer ser isso mesmo?

bjs
Jana

PS Se bem que, segundo minha orientadora as eds regem o mundo...:)

Sérgio Klein disse...

Só você, Kandy, pra tratar os números como letras... Fiquei pensando no filme sobre o Vinícius, que vi ontem à tarde e gostei, sim, embora tenha sentido falta das vozes femininas. Com exceção das filhas do Vinícius, da Bethânia e da Tônia, as mulheres só aparecem cantando, nunca falando. E elas teriam tanto a dizer, né? Mas não foi por isso que, ao ler "Equação diferencial", pensei no filme. O que me chamou a atenção foi um verso que diz assim: "Mesmo amor que não compensa é melhor que a solidão". Será? Todo mundo morre de medo da solidão, mas a companhia da gente também pode ser divertida, né? Que o diga a Danusa, no livro "Quase tudo". Falar nisso, por que a Danusa não aparece no filme? Ela era tão amiga do Vinícius...
Beijos,

Sérgio

Anônimo disse...

Ai, Kandoca,
gostei muito do texto. Acredito mesmo que quando somos conscientes de quem somos e do que queremos temos muito mais capacidade de compartilhar a nova vida com outra pessoa. Antes de tudo, somos um. Se não soubermos sê-lo, o que poderemos oferecer ao outro?
Bjos,
Andreia

GLAUCO disse...

Nossa, belo texto! Qualidade ímpar!

(Mesmo para um perdido em matemática, como sempre fui...)

Fabiano disse...

Oi Kandy...

Muito legal esta sua paisagem dos números e da vida. Sempre acreditei que a ciência e a arte são duas irmãs, filhas de um mesmo casal: a criatividade e o pensamento humano. E a avó é a necessidade que temos de nos entender e entender ao mundo que nos cerca.

Que bom encontrar um pouco dessa visão na sua janela! E palmas para a coragem de lembrar que os ímpares e os primos são a parte mais intrigante da aritmética da vida mas que não são a mesma coisa, nem na matemática, nem na vida.

E não se preocupe: a beleza da equação não está na solução mas em entender a poesia que está por detrás dela.

Abraços,

Fabiano

Anônimo disse...

NOSSA, O TEXTO É PERFEITO!