07 junho 2006

Filhos da pátria

(Sugestão: enquanto lê este texto, ouça esta trilha sonora.)

"SEM-TERRA INVADEM CÂMARA, DEPREDAM E DEIXAM 24 FERIDOS"


Quando escrevi o “Tudo negro no país do colorido”, não era para deixarem a coisa ainda mais preta. Não era para sair por aí quebrando tudo, apesar da revolta que todos os brasileiros andam sentindo quando o assunto é política.


Antes de entrar no mérito da questão, alguém consegue explicar o que a palavra “libertação” faz na sigla MLST – Movimento de Libertação dos Sem-Terra? Partindo-se do princípio de que os sem-terra não têm terra e, portanto, são mais livres do que eu, que não moro em um acampamento ao ar livre (ops, liberdade de novo!), por que se unem em um movimento para libertarem quem não está preso? Pela libertação do que já está livre?!


Esses filhos da pátria do MLST, uma dissidência do MST — os que aparentemente já sabiam que eram livres —, além de sem-terra são sem-noção. Sem-educação. Sem-sentido. Sem-escrúpulos. Sem-modos. Mas, principal e definitivamente, são sem-impostos. Livres (de novo?!) de pagarem impostos. É a única explicação para depredarem o que é público, para não terem se lembrado, ainda que por meio da dor no bolso, de que estavam destruindo o que muitos trabalhadores-contribuintes, como eu e você, compraram a duras penas, trabalhando para o governo em regime de semi-escravidão por mais de quatro meses dos doze que o ano tem.


Esse comportamento ilusório é comum neste país sem-lei. Grande parte da população – geralmente para quem o Leão é tão-somente aquele técnico de futebol e para quem Receita é aquilo que o médico dá ou que ensina a fazer um bolo – atribui o público ao Governo (será que merece a letra maiúscula?!), numa associação muito equivocada. Acham que, agredindo o que é público, atacam o Governo. Então, começam com atitudes aparentemente veladas: um papelzinho de bala na calçada aqui, uma latinha de alumínio vazia pela janela do ônibus ali, uma pichaçãozinha no monumento recém-inaugurado acolá. Filhos da pátria! Aos poucos (ou seria aos muitos?), vão descontando sua insatisfação com a política naquilo que é público, porque, para essas pessoas, o público não é delas. Em parte, porque não sentem que de fato é; em parte, porque não foram educadas para reconhecer que é. Quando digo “educadas”, não me refiro à educação recebida em casa, mas ao dever do Governo de conscientizar o povo de que a ele pertence o país em que mora.


Mas é tanta corrupção, tanto “é meu” pra todo lado, tanto desvio de dinheiro e de conduta, que a maior parte dos brasileiros de fato se convenceu de que o público é cada vez mais dos políticos que dos próprios brasileiros (excluí os políticos do grupo “brasileiros” de propósito, porque, apesar de serem mais filhos da pátria do que todos, como brasileira que sou tenho certeza de que essa corja – coletivo de vagabundos – perdeu o patriotismo faz tempo).


Então, dá nisso: depredação, vandalismo, violência gratuita, baderna. Num país sem-lei, nada como ser sem-limite. Num país com governantes sem-estudo, nada como ser ignorante. Num país sem-diretrizes, nada como promover confusão. Num país sem-planos, que, em vez de ensinar a pescar, incentiva o ócio com bolsa-disso e bolsa-daquilo, nada como querer ganhar tudo sem esforço. Vão trabalhar, filhos da pátria!


Mas um povo que dia após dia vê nessa política o exemplo (se é que podemos chamar assim) que o Brasil tem demonstrado, só podia ter reações assim. Uma fúria descontrolada, na tentativa de se fazer ouvir (os sem-terra queriam apenas “entregar uma carta” ao presidente do Senado), no grito e na porrada. E isso pega. 545 pessoas detidas. Será que todas elas sabiam o que estavam fazendo ali? Será que aquela garota que parou de estudar na oitava série e destruiu aqueles computadores do saguão da Câmara numa cólera impiedosa tinha consciência do porquê daquilo? Aposto que quem jogou o busto do Mário Covas escada abaixo nem sabia quem era o tal. “Alguém importante.” E você, cidadão, não é importante por acaso a ponto de não se rebaixar a tão vil atitude?


Só sei que é triste assistir a tudo isso, ao Brasil se afundando cada vez mais numa balbúrdia de inversão de valores. Sorte tem meu pai, que é europeu... Ainda que apenas alguns anos, ele, ao contrário de nós, pelo menos pode dizer que já viveu em um lugar civilizado.



9 comentários:

rafael fermiano disse...

puxando um gancho, acho interessante também os que dizem "agora cadê os que votaram no lula, olha ai..." Como se eles, "os que não votaram no lula" não tivessem que cobrar, ou se preocupar, com o país no qual vivem. Se esquecem que vivemos numa democracia, o voto da maioria vence, e todos passam a obedecer(ou deveriam) a decisão da maioria.
Outro ponto seria as obras superfaturadas do governo. O comerciante entra numa fraude pra ganhar uma concorrencia publica, sem pensar que ele também está pagando mais por aquilo.
Seriam tantos exemplos de "descaso", casos de "pimenta no cú dos outros é refresco", que fico revoltado.
"O salário do servidor municipal está sem reajuste, vamos quebrar a prefeitura" ahhhhhh!!!!

Janinha disse...

Parabéns, Kandy!
Esse texto reflete o que eu penso...
Pior que isso é me lembrar que ontem fui a um congresso e o Prof. Luizinho- esse mesmo que vc está pensando- estava lá com ar de cerejinha mais gostosa do pavê, falando sobre prestação de contas, pasme...
Bjs,
Jana

Bruno disse...

A situação no país taca cada vez pior, mas eu ainda tenho esperanças que essa situação melhore.

Nata. disse...

É interessante pro Governo deixar a população burra. Governar para tipinhos com "memória de peixe".
Esse povo burro sai por aí revoltado e quebra tudo. Bem certo que depois de uma semana tá tudo inteiro denovo e o dinheiro que foi usado pro conserto é nosso. Nossos politicos tranquilos porque o salario deles está garantido.
Isso está bem claro.
Só que NÓS, povo brasileiro, reclama e continua sem fazer nada. Nos comportando como se o governo tivesse que mudar alguma coisa. Se, pra você tá bom daquele jeito, você vai se interessar por mudar? Claro que não.
O governo vai mudar? NÃO!
O que a gente faz? Vai pra Europa?
Tudo bem, a gente escolhe o cara que vai cuidar do país por 4 anos. Mas, o que ninguém lembra é que ele não precisa ficar lá todo esse tempo se ele só faz merda.
É a educação que o governo nos deu.
Perfeitos cachorrinhos adestrados.

Kandy disse...

Concordo com vocês, Nata e Rafael. O povo realmente precisa tomar uma atitude em vez de apenas reclamar, e fazer isso em comum acordo, independentemente de quem votou em quem. O problema é que, para que o povo tome atitude, ele precisa estar ciente dos problemas políticos que assolam o país e, infelizmente, a maioria do povo brasileiro é despreparada, alienada e submissa, manipulada justamente pelo interesse do Governo em mantê-la assim. Seria preciso que TODOS tomassem uma atitude, não apenas uma minoria... Obrigada por opinarem, vocês são sempre muito bem-vindos! Gosto de ler o comentário de vocês.

clei sgarbi disse...

Filha...vc. desafogou meu coração...falou e disse! Já indiquei seu blog para alguns(as)amigos(as).Uma delas já respondeu perguntando se vc. era escritora.Achou o texto de fácil compreensão e "direto ao ponto".
Eu só tenho pena que não se possa colocá-lo na Mídia, bem que o povo está precisando de umas aulinhas de cidadania, de consciência política e de protesto conscîente.

Anônimo disse...

Tenho vontade de sair gritando por aí: Socorro!!!!....
Mas quem será que vai me ouvir?
Só por Deus! como diria uma amiga.

Fernanda disse...

Não é anônimo não. Sou eu !

Ricardo disse...

Meu comentário mais sensato foi enviar esse texto para as oitenta e tantas pessoas que lêem semanalmente o Boa Semana.
E o elogio mais óbvio foi pedir que todas elas visitem seu blog e tenham a ventura de ler esses textos formidáveis.